Poemas e Poesias
Plantio
tenho duas frutas nas mãos
a mais madura arremesso contra o muro
o estrondo a mancha o despojo
no chão aonde bichos virão lamber
tenho duas frutas nas mãos
trago-as das ruínas de ontem
como uma ave que vem de longe
arrasta no bucho ou no bico
sementes e ervas daninhas
arremesso uma contra o muro
a outra ainda está verdolenga
nenhuma ideia de comê-la com sal
tenho duas frutas nas mãos
as duas estão marcadas de morcegos
minha mãe me ensina a distinguir
a rasura a maldição o batismo
preces ao mau tempo
de tudo que dá na terra
honrar respeitar bem-dizer
de tudo que dá na terra
nosso futuro ao breu consagrado
ave o seu ventre mãe de deus e nossa
decepamos a destra o cetro
não menos o nascimento e a luz
ofusclarão de placenta oca
de tudo que dá na terra
nos ensina a confundir obediência e amor
de tudo que dá na terra
repete que é dor o que educa
e faz lentamente a pele crescer
sobre os espartilhos da doutrina
de tudo que dá na terra
nos acinzentaram a imaginação
para as cores do desobedecer
desobediência de rato desobediência de leão
desobediência de água-viva desobediência de mosca
ainda são bípedes
os que vivem de joelhos?
Fragmentos para um amor morto
Teu nome
ainda arranha
meu sono.
No prato vazio,
mastigo tua ausência
como pão duro.
Minha boca chama —
mas só responde
o silêncio.
Um lençol,
um cheiro,
uma falta.
Teu corpo foi,
mas tua sombra
não desaprende.
Grito teu nome
e ele volta
sem carne.
A noite me veste
com tua ausência:
lã fria,
sangue lento.
Alma solitária
Em mais um raiar de sol
de minha mocidade,
levantei-me tarde
com um explícito espírito de felicidade!
Porém, lembrei-me do passado,
ainda não superado.
Senti um peso que me voltou a trazer
aquele velho sentimento amargurado:
coração vazio,
lobo solitário.
— Por quanto mais tempo, ó minh'alma,
tu te castigarás?
Ela diz:
Aguenta!
Eu ainda anseio...
Talvez aquele alguém
ainda há de me salvar.
Se sua alma pudesse falar, o que ela diria sobre a solidão?comenta ai.
Enquanto Houver Migalhas
Enquanto estava repousada em um banco no coração da cidade, observava atentamente um pombo que, em seus movimentos ansiosos, ciscava pelo chão à minha volta, buscando algo para se alimentar.
Sem pensar nas consequências, lancei-lhe um pedaço generoso de pão — sem hesitar, ele se aproximou, aceitando o que eu oferecia com uma gratidão imensa. Mas aquilo não foi o suficiente, pois sua fome era insaciável, ele desejava mais.
Continuei alimentando-o, até que a exaustão me tomou, e os pedaços que antes eram grandes, começaram a se reduzir, tornando-se migalhas insignificantes.
Apesar de já não ter mais o que oferecer, o pombo retornava todos os dias, em busca do que não poderia mais dar, esperando algo maior, porém apenas me calei.
Eu cansei, não quero mais sustentar uma esperança vazia, não posso continuar alimentando essa busca incessante por migalhas — por algo que deveria ser completo, mas que se contenta com tão pouco.
( A Garota de Cabelos Vermelhos)
Era um dia qualquer pra conhecer gente nova,
mas não esperava cruzar com alguém tão especial.
Entrei no salão, vi a multidão,
mas só você prendeu meu olhar.
Cabelos vermelhos em destaque,
brilho intenso no meio da festa.
No começo, hesitei...
Não achava que teria chance de chegar.
E então, ali estava você —
brincando de basquete, rindo leve,
justo com algo que eu gosto.
Foi o sinal que faltava.
Me aproximei com o coração acelerado,
e vi de perto o que já parecia encanto:
seus olhos…
estrelas vivas no céu calmo do interior.
A conversa fluiu como se o mundo calasse ao redor,
como se a música tocasse só pra nós dois.
Havia timidez, sim…
mas até o silêncio parecia dizer o que faltava.
Ríamos, brindávamos,
e entre uma troca de olhares e palavras tímidas,
algo mágico se firmava ali —
sem pressa, sem cobrança, só sentimento.
Mas a festa chegou ao fim…
as luzes se acenderam como quem acorda de um sonho.
Era hora de partir,
e o encanto pedia um adeus que não tivemos coragem de dar.
Ficamos só com um abraço tímido,
quando poderíamos ter selado tudo com um gesto eterno.
Guardo nossa foto, e mais ainda:
a lembrança viva da garota de cabelos vermelhos.
Foi ali que senti, talvez pela primeira vez,
uma paixão verdadeira, recíproca, sem pressa.
Guardo essa memória com o maior dos carinhos,
como quem protege um tesouro feito de luz e silêncio.
Sinto falta daquela noite…
da leveza, do calor, do “quase” que ficou.
Mas mesmo sem ter durado,
ela vive em mim — intacta, bonita e viva como teu sorriso.
Se me perguntassem sobre a morte,
eu sussurraria teu nome.
Diria que ela tem o tom dos teus olhos,
a maciez dos teus cabelos ao vento,
e o doce encanto do teu sorriso —
aquele que cala o mundo e acende o meu.
Sabe por quê?
Porque eu morro um pouco a cada dia:
quando penso em ti com a alma inteira,
quando a saudade me beija o peito,
quando teu silêncio pesa mais que mil palavras,
e até quando teus olhos me encontram
em um breve acaso do destino.
Morro por sonhar contigo
e por acordar sem teu abraço.
Por querer teu cheiro nas manhãs,
tua voz nas madrugadas,
tua presença onde só há ausência.
Meu coração tropeça nas batidas
só por te amar assim —
tão fundo, tão forte, tão meu.
E ainda que me doa,
a única morte que conheço
é não ter-te aqui no meu mundo.
Silêncio que Cura
Por Hugo Kartzziano
Você não é obrigado a permanecer,
cercado de vozes que só sabem dizer
que tudo é difícil, que nada vai bem,
que a vida é fardo, tristeza e desdém.
Se não tem abraços que tragam calor,
busque no livro um refúgio de amor.
Se as amizades não sabem somar,
deixe uma canção sua alma embalar.
Porque, às vezes, o que faz bem ao coração,
é o silêncio de um livro e a leveza de uma canção.
O aroma que emana do jasmim
tranquiliza o mais feroz dos leões,
o mais forte dos ursos,
até a mais ágil das harpias…
E, por mais impossível que pareça —
uma dádiva quase irreal —
tranquiliza também
o coração dos homens.
Lar
Me perdoe, Pai.
Mas eu já não me sinto em casa.
Meu tempo acabou.
Mandaste-me cantar e não me desviar,
mas quando canto — ou melhor,
quando tento cantar —
sinto uma pressão, um peso,
algo que sussurra:
'Você não merece sentir a glória d’Ele.'
Quando ouço teus filhos cantarem,
me emociono profundamente,
pois eu gostaria de estar ali também.
Mas o peso do que faço, penso e falo
não me permite cumprir o que me ordenaste.
É como uma foice rasgando minha garganta,
enquanto algo tenta me sufocar.
E eu sei...
eu sei que não sou eu —
mas sim,
a culpa daquilo que fiz.
Estou dividido em partes tão controversas
que já nem sei dizer quem sou.
Sei que Tu podes me ajudar.
Mas eu não consigo negar a mim mesmo,
muito menos carregar a minha cruz.
Perdoa-me, Pai...
mas eu não consigo ser o filho que Tu mereces.
Imaturo, porém gentil
Quando o vi naquele estado,
sofrendo, acompanhado apenas da solidão,
me compadeci e minhas dores de lado deixei.
Não as esqueci, pelo contrário, apenas as ignorei.
De uma dor cicatrizada surge a sabedoria,
um fato que negligenciei.
Fui, sabendo que não teria palavras de conforto,
sabendo que não teria a compreensão da sua dor.
Da minha dor não tirei o saber,
não aproveitei as receitas de cura
que poderiam ajudar não só a mim, mas aos outros também.
Muitas almas necessitam dessa ajuda,
mas, nesse momento, somos só nós dois:
duas almas, com dores não cicatrizadas,
sedentas por alguém que as cure de algo que só elas podem curar.
Sentei ao seu lado e disse:
— Sei que não sou médico,
muito menos um bom conselheiro...
mas sou um bom ouvinte,
então, me conte sua história, meu gêmeo sofredor.
— ...
"Silêncio..." foi a resposta que recebi.
Sendo assim, não vou insistir.
— Certo, não vou te atrapalhar...
mas desejo que fique bem.
Até alguma primavera.
— Espere...
Ele disse, receoso.
— Falar não é a única etapa para aliviar os pesos da vida.
Apenas fique... fique ao meu lado,
e cada lágrima contará minha jornada.
Me impressionei, mas fiquei ao seu lado.
E ali também lhe contei a minha e,
em terno silêncio, dois livros foram escritos e lidos.
"Quantas histórias você guardou durante sua trajetória?
Nem sempre haverá alguém para ouvir,
mas as conte mesmo assim.
Às vezes, é você quem precisa ouvir sua história."
Me disseram que tenho um buraco,**
um buraco no meu coração.
Está mais pra um vazio
em meio à imensidão.
**Ausência e dor de algo que nunca vou ter,**
um escuro com lágrimas dentro
do quarto onde sempre me pego pensando.
**Talvez seja tarde — perdi minha vida.**
Esse é o eco da minha voz
que fende a ruína.
**Estou sufocado. Estou com medo.**
O tempo é o inimigo do homem.
Isso me soa como um grande desespero.
**Peso da alma, cheia de dor, vendo**
o mundo vencendo
e o resto… perdendo.
Escola de Todos
Na lousa do tempo, um traço insiste,
Escreve o sonho que a todos assiste.
Gestores, faróis em mares diversos,
Tecem inclusão em gestos imersos.
Com mãos que acolhem, olhos que veem,
A escuta é ponte de onde todos vêm.
Na gestão que ouve, decide e compartilha,
A escola floresce, a dor se perfilha.
Democracia não é só assembleia,
É chão pisado onde a voz incendeia.
É conselho vivo, debate aceso,
É cada sujeito ocupando seu peso.
Mas há muros altos, velhos receios,
Políticas lentas, vazios, anseios.
Porém, com coragem, um plano se ergue:
A escola que inclui, jamais se perde.
Educação especial, direito, semente,
Precisa de solo, precisa de gente.
De leis que amparem, de ações com ternura,
De quem compreenda a alma e a estrutura.
Gestão é arte, é ciência, é paixão,
É dar voz ao silêncio, é abrir coração.
É ver no diverso um jeito de ser,
É fazer do aprender um modo de viver.
Eis o desafio que o tempo convoca:
Fazer da escola uma casa que toca.
Onde cada corpo, mente e emoção
Encontre na sala a sua canção.
Ecos de minha alma
Me lembram tempos antigos,
Das manhãs cobertas pela névoa prateada,
Quando os carvalhos sussurravam segredos ocultos.
Onde a vida era simples, mas celebrada alegremente,
E os mistérios da vida jamais eram esquecidos.
Éramos gratos aos deuses da Terra,
Pela Mãe que floresce, pelo Pai que aquece,
Pela brisa que carrega os nomes dos ancestrais.
As colheitas que vinham da terra eram fartas, pois nossas almas eram gratas.
Elas eram motivo de festa e celebração.
Cada grão de trigo era bênção,
Cada gota de orvalho, mistério divino.
E ao final do ciclo — dançávamos sob as estrelas —
Homens, mulheres e espíritos:
Todos um só povo, uma só tribo — filhos da Natureza.
Não trago ouro, nem prata,
Nem ofereço o que passa.
Venho com os versos da alma,
Com a arte que acalma.
Não vendo o que brilha em vitrine,
Mas te dou, sem custo algum, a cultura que ensine.
Minha alma tem sede,
Sede de amplidão.
Na vastidão do infinito,
Brilhar na escuridão.
Nos incontáveis desertos desta vida,
Encontrar a flor sagrada dos nobres peregrinos.
E, como um caminhante em busca do eterno,
Me encontrar com o meu Criador.
VOCÊ VEIO
Você veio e me adotou
Você veio e simplesmente me amou,
Você veio e fez do velho ao novo,
Você veio e me trouxe o renovo.
É por isso que eu te amo,
É por isso que eu te louvo,
É por isso que eu me derramo aos teus pés,
É por isso que hoje eu te encontro e te adoro acima de tudo.
Como é bom ouvir tua voz Pai,
Dizendo que me ama.
Me abraçou, me encheu de amor
E pelo meu nome me chamou.
Havia somente nós naquele canto da praia.
Enquanto sua língua percorria o meu corpo,
O mesmo ardia, queimava...
Eu te acariciava, sua pele arrepiava.
Sedento de desejo a sua boca salivava.
Parecia querer me devorar.
E eu ali pronta pra ser o jantar.
Totalmente entregue aquele momento.
Que eu desejava eternizar.
Às margens da Laguna Porã.
Duas cidades, dois corações,
Unidas por histórias e tradições.
Ponta Porã e Pedro Juan,
Fronteira viva, terra irmã.
Laguna Porã, espelho d’água,
Guarda segredos, murmura a mágoa.
Lendas antigas, contos de fé,
Que os nativos contam, crê quem quiser.
Vieram de longe, de todo lugar,
Os que sonharam em aqui ficar.
Ergueram casas, abriram caminhos,
Tecendo o tempo com seus destinos.
No mercado, cheiros e vozes dançam,
Mistura de línguas, ritmos que avançam.
Tereré partilhado, sotaques cruzados,
Laços que nunca serão quebrados.
Aqui se vive, aqui se sonha,
Sob o sol ardente que nos acompanha.
Duas cidades, mas um só chão,
Que pulsa forte no coração.
Carta para àquela que talvez nunca venha:
Não sei quem você é, e, sinceramente, não sei se um dia existirá.
Já deixei de procurar, porque cansei de encontrar reflexos rasos onde esperava profundezas. Não quero perfumes que duram só uma estação. Nem promessas feitas sob o calor da pele, mas que evaporam no frio da ausência.
Se um dia você vier, saiba: não estou inteiro.
Carrego rachaduras que o tempo não fechou, e aprendi a conviver com o eco do que não foi.
Não preciso que me salve, já sobrevivo sozinho.
Mas se for ficar, fique com verdade. Com paciência. Com coragem pra atravessar o inverno comigo, mesmo quando não houver flor nem canto.
Não espero encantamento.
Espero presença.
Não peço juras.
Peço silêncio ao meu lado quando as palavras faltarem.
Se amor for só leveza, não quero. Porque sei que o amor verdadeiro também pesa. E permanece.
E se nunca vier… está tudo bem.
Não preciso mais acreditar no amor para respeitá-lo.
E não preciso de companhia para saber meu valor.
Mas se vier… que seja pra ficar.
Mesmo que o mundo desabe.
Mesmo que tudo falte.
Mesmo que só reste o olhar, firme, dizendo: "eu ainda estou aqui".
