Poemas e Poesias
Lar
Me perdoe, Pai.
Mas eu já não me sinto em casa.
Meu tempo acabou.
Mandaste-me cantar e não me desviar,
mas quando canto — ou melhor,
quando tento cantar —
sinto uma pressão, um peso,
algo que sussurra:
'Você não merece sentir a glória d’Ele.'
Quando ouço teus filhos cantarem,
me emociono profundamente,
pois eu gostaria de estar ali também.
Mas o peso do que faço, penso e falo
não me permite cumprir o que me ordenaste.
É como uma foice rasgando minha garganta,
enquanto algo tenta me sufocar.
E eu sei...
eu sei que não sou eu —
mas sim,
a culpa daquilo que fiz.
Estou dividido em partes tão controversas
que já nem sei dizer quem sou.
Sei que Tu podes me ajudar.
Mas eu não consigo negar a mim mesmo,
muito menos carregar a minha cruz.
Perdoa-me, Pai...
mas eu não consigo ser o filho que Tu mereces.
Imaturo, porém gentil
Quando o vi naquele estado,
sofrendo, acompanhado apenas da solidão,
me compadeci e minhas dores de lado deixei.
Não as esqueci, pelo contrário, apenas as ignorei.
De uma dor cicatrizada surge a sabedoria,
um fato que negligenciei.
Fui, sabendo que não teria palavras de conforto,
sabendo que não teria a compreensão da sua dor.
Da minha dor não tirei o saber,
não aproveitei as receitas de cura
que poderiam ajudar não só a mim, mas aos outros também.
Muitas almas necessitam dessa ajuda,
mas, nesse momento, somos só nós dois:
duas almas, com dores não cicatrizadas,
sedentas por alguém que as cure de algo que só elas podem curar.
Sentei ao seu lado e disse:
— Sei que não sou médico,
muito menos um bom conselheiro...
mas sou um bom ouvinte,
então, me conte sua história, meu gêmeo sofredor.
— ...
"Silêncio..." foi a resposta que recebi.
Sendo assim, não vou insistir.
— Certo, não vou te atrapalhar...
mas desejo que fique bem.
Até alguma primavera.
— Espere...
Ele disse, receoso.
— Falar não é a única etapa para aliviar os pesos da vida.
Apenas fique... fique ao meu lado,
e cada lágrima contará minha jornada.
Me impressionei, mas fiquei ao seu lado.
E ali também lhe contei a minha e,
em terno silêncio, dois livros foram escritos e lidos.
"Quantas histórias você guardou durante sua trajetória?
Nem sempre haverá alguém para ouvir,
mas as conte mesmo assim.
Às vezes, é você quem precisa ouvir sua história."
Me disseram que tenho um buraco,**
um buraco no meu coração.
Está mais pra um vazio
em meio à imensidão.
**Ausência e dor de algo que nunca vou ter,**
um escuro com lágrimas dentro
do quarto onde sempre me pego pensando.
**Talvez seja tarde — perdi minha vida.**
Esse é o eco da minha voz
que fende a ruína.
**Estou sufocado. Estou com medo.**
O tempo é o inimigo do homem.
Isso me soa como um grande desespero.
**Peso da alma, cheia de dor, vendo**
o mundo vencendo
e o resto… perdendo.
Escola de Todos
Na lousa do tempo, um traço insiste,
Escreve o sonho que a todos assiste.
Gestores, faróis em mares diversos,
Tecem inclusão em gestos imersos.
Com mãos que acolhem, olhos que veem,
A escuta é ponte de onde todos vêm.
Na gestão que ouve, decide e compartilha,
A escola floresce, a dor se perfilha.
Democracia não é só assembleia,
É chão pisado onde a voz incendeia.
É conselho vivo, debate aceso,
É cada sujeito ocupando seu peso.
Mas há muros altos, velhos receios,
Políticas lentas, vazios, anseios.
Porém, com coragem, um plano se ergue:
A escola que inclui, jamais se perde.
Educação especial, direito, semente,
Precisa de solo, precisa de gente.
De leis que amparem, de ações com ternura,
De quem compreenda a alma e a estrutura.
Gestão é arte, é ciência, é paixão,
É dar voz ao silêncio, é abrir coração.
É ver no diverso um jeito de ser,
É fazer do aprender um modo de viver.
Eis o desafio que o tempo convoca:
Fazer da escola uma casa que toca.
Onde cada corpo, mente e emoção
Encontre na sala a sua canção.
Ecos de minha alma
Me lembram tempos antigos,
Das manhãs cobertas pela névoa prateada,
Quando os carvalhos sussurravam segredos ocultos.
Onde a vida era simples, mas celebrada alegremente,
E os mistérios da vida jamais eram esquecidos.
Éramos gratos aos deuses da Terra,
Pela Mãe que floresce, pelo Pai que aquece,
Pela brisa que carrega os nomes dos ancestrais.
As colheitas que vinham da terra eram fartas, pois nossas almas eram gratas.
Elas eram motivo de festa e celebração.
Cada grão de trigo era bênção,
Cada gota de orvalho, mistério divino.
E ao final do ciclo — dançávamos sob as estrelas —
Homens, mulheres e espíritos:
Todos um só povo, uma só tribo — filhos da Natureza.
Não trago ouro, nem prata,
Nem ofereço o que passa.
Venho com os versos da alma,
Com a arte que acalma.
Não vendo o que brilha em vitrine,
Mas te dou, sem custo algum, a cultura que ensine.
Minha alma tem sede,
Sede de amplidão.
Na vastidão do infinito,
Brilhar na escuridão.
Nos incontáveis desertos desta vida,
Encontrar a flor sagrada dos nobres peregrinos.
E, como um caminhante em busca do eterno,
Me encontrar com o meu Criador.
VOCÊ VEIO
Você veio e me adotou
Você veio e simplesmente me amou,
Você veio e fez do velho ao novo,
Você veio e me trouxe o renovo.
É por isso que eu te amo,
É por isso que eu te louvo,
É por isso que eu me derramo aos teus pés,
É por isso que hoje eu te encontro e te adoro acima de tudo.
Como é bom ouvir tua voz Pai,
Dizendo que me ama.
Me abraçou, me encheu de amor
E pelo meu nome me chamou.
Havia somente nós naquele canto da praia.
Enquanto sua língua percorria o meu corpo,
O mesmo ardia, queimava...
Eu te acariciava, sua pele arrepiava.
Sedento de desejo a sua boca salivava.
Parecia querer me devorar.
E eu ali pronta pra ser o jantar.
Totalmente entregue aquele momento.
Que eu desejava eternizar.
Às margens da Laguna Porã.
Duas cidades, dois corações,
Unidas por histórias e tradições.
Ponta Porã e Pedro Juan,
Fronteira viva, terra irmã.
Laguna Porã, espelho d’água,
Guarda segredos, murmura a mágoa.
Lendas antigas, contos de fé,
Que os nativos contam, crê quem quiser.
Vieram de longe, de todo lugar,
Os que sonharam em aqui ficar.
Ergueram casas, abriram caminhos,
Tecendo o tempo com seus destinos.
No mercado, cheiros e vozes dançam,
Mistura de línguas, ritmos que avançam.
Tereré partilhado, sotaques cruzados,
Laços que nunca serão quebrados.
Aqui se vive, aqui se sonha,
Sob o sol ardente que nos acompanha.
Duas cidades, mas um só chão,
Que pulsa forte no coração.
Carta para àquela que talvez nunca venha:
Não sei quem você é, e, sinceramente, não sei se um dia existirá.
Já deixei de procurar, porque cansei de encontrar reflexos rasos onde esperava profundezas. Não quero perfumes que duram só uma estação. Nem promessas feitas sob o calor da pele, mas que evaporam no frio da ausência.
Se um dia você vier, saiba: não estou inteiro.
Carrego rachaduras que o tempo não fechou, e aprendi a conviver com o eco do que não foi.
Não preciso que me salve, já sobrevivo sozinho.
Mas se for ficar, fique com verdade. Com paciência. Com coragem pra atravessar o inverno comigo, mesmo quando não houver flor nem canto.
Não espero encantamento.
Espero presença.
Não peço juras.
Peço silêncio ao meu lado quando as palavras faltarem.
Se amor for só leveza, não quero. Porque sei que o amor verdadeiro também pesa. E permanece.
E se nunca vier… está tudo bem.
Não preciso mais acreditar no amor para respeitá-lo.
E não preciso de companhia para saber meu valor.
Mas se vier… que seja pra ficar.
Mesmo que o mundo desabe.
Mesmo que tudo falte.
Mesmo que só reste o olhar, firme, dizendo: "eu ainda estou aqui".
Pensamentos Mórbidos
A vida, diante de nós,
despedaçada em silêncios que ninguém ouve.
A maior parte são sombras —
tristeza que se arrasta, solidão que grita,
uma depressão que veste o corpo por dentro.
A vida anda.
Mas os pensamentos? Eles ficam.
Soturnos, escorrem pela mente,
corroem as paredes do ser,
como ferrugem em ossos vivos.
E a gente aprende a sorrir sem alma,
a calar o grito que quer sair.
Vale a pena insistir em esperança
quando até a luz nos parece mentira?
Vivi contigo
quando me deste
teu vinho boca a boca
Amei e senti
quando trocamos
carinho boca a boca
Sufoquei e sofri
quando me tiraste
o fôlego boca a boca
Morri sem ti, imploro
que me ressuscite
boca a boca.
O segundo choro
Chorar como criança ao perder a mãe é o segundo grande choro da vida.
O primeiro é o do nascimento — quando somos separados do ventre.
Agora, é o coração que se rompe, e não importa a idade, voltamos a ser pequenos, pedindo colo ao mundo.
A dor é o outro lado do amor — e só dói tanto porque foi imenso.
Com o tempo, a lágrima vira saudade, e a ausência, lembrança viva.
O amor de mãe nunca parte.
Ele permanece habitando os nossos silêncios.
Eu sou
Eu sou o sussurro que paira antes do grito,
o silêncio que dança nas frestas do tempo.
Eu sou a lâmina sem fio que corta o que não se pode tocar,
o olhar que não se dobra, mesmo diante da luz.
Eu sou o passo que não ecoa,
mas faz tremer o chão.
Sou a sede que não se sacia,
o caminhar sem destino,
a fome sem nome.
Sou a palavra que se nega a ser dita,
o desejo que não cabe em desejo.
Sou o rastro invisível deixado em corações que jamais saberão meu nome.
Eu sou o erro e o acerto,
o meio sem bordas,
o abraço que aperta sem tocar.
Sou quem molda a si mesmo a cada respirar,
sem roteiro,
sem permissão,
sem plateia.
Eu sou aquele que dança com as sombras,
não por medo da luz,
mas por amar a textura do escuro.
Aquele que colhe o que não plantou,
e semeia em terrenos onde ninguém ousa pisar.
Eu sou a chama que não arde,
o frio que não gela,
o toque que não acaricia...
mas marca,
finca,
mora.
Sou o que nunca se cansa,
mas finge cansaço só para sentir o gosto do repouso que nunca vem.
Sou o viajante sem mapa,
o traço sem desenho,
o verbo sem tempo.
Eu sou.
E por ser, não peço licença.
Apenas respiro...
E no meu respirar,
o mundo aprende a conter o fôlego.
NOITE SEM NOME
Beijei o asfalto
com lábios de cachaça,
Fumaça,
no Cais...
um abraço fantasma,
Ecoava,
Recife chorava
comigo,
Madrugada.
Eterno Retorno
Vivo mil vidas num só instante,
sou chama que ri da cinza.
O tempo curva-se diante
da vontade que não finda.
Deuses caíram por minhas mãos,
ilusões, trapos do medo.
Quem encara o abismo em vão
nunca será o segredo.
Ergo-me além do bem, do mal,
sem bússola, céu ou chão.
O caos — meu berço original,
a dor — minha redenção.
Três Portas
No meio escuro da vereda errante,
perdi-me além do mapa da razão.
Eis que surgiu, com olhos de diamante,
a sombra em forma de revelação.
“Abandona a esperança”, disse a brisa,
no arco negro onde o mundo se despia.
Caminhei, e a dor virou divisa,
na terra em que o tempo se esquecia.
Vi línguas feitas só de penitência,
reis em tronos de fogo e de vergonha.
A carne é fraca, mas há consequência —
o espírito é quem mais apanha.
Depois do Inferno, ergui-me em lamento.
No Purgatório, aprendi a subir.
Em cada passo, o céu, como argumento,
me abriu um verbo: “Amar é resistir.”
E quando a luz do Éter me tocou,
senti que Deus não era um velho rei.
Era o silêncio, eterno, que brotou
em mim — o paraíso que busquei.
