Poemas de Luto
Mergulhei na minha paixão,
Respirei a minha devoção,
Acreditei nas preces mais profundas,
Me entreguei...
Você foi o calor que me tirou do frio,
Foi a água que me matou a sede,
Você foi a flor que me devolveu o perfume,
O céu que me devolveu as estrelas.
Me entreguei,
Pois desde do início
Já sabia que em seus braços
Eu encontraria o conforto que sempre procurei.
Me entreguei,
A esta paixão que me fez ver o mundo de forma diferente.
Me fez aprender que tudo é mais simples
Quando se está acompanhado.
Me entreguei,
Pois encontrei a confiança em você,
Encontrei a felicidade ao seu lado,
A fantasia na sua presença.
Te encontrei e sem dúvidas...
Me entreguei...
..
Tendo a cova por último ornamento
Na incógnita lápide minha pequenez
Lembrança na lembrança, um talvez
Sob a terra o mais vil esquecimento
Luciano Spagnol
Cerrado goiano
ANTES FOSSE
Quantas noites! Quantos medos...
Quantos escuros!
Escuridão.
Quantos becos! Quantos segredos...
Quantos todos
Hum! Corujão?!
Cachorro uivando na rua
Ladrão pula sobre o muro
O mundo inteiro no terreiro
No quarto...
Plóc, plóc sapateiro.
Olhe o pé da Cinderela?!
Aquela moça na favela
Tão pobre!
Tão bela!
Espera o encanto no cavalo
O sonho trota no ralo
Antes mesmo do badalo.
O canto do galo...
Os segredos das noites
A prata da lua, causo bom
Kkkkk... Antes fosse.
Antonio Montes
GEADAS DA VIDA
Verde, preto em manhãs desfolhada
sacode gelo sobre a terra
bacia com água fica coalhada,
é assim que amanhece o dia
em manhãs de geadas.
A dona Quitéria, mulher fera
se levanta sedo, bem cedinho!
E segue em passos frios,
para tirar leite da vacada.
O curral esta cheio de berros
as vacas com vestes em malhas
mugem em suas danças sobre a janta
e os bezerro em desespero...
Almejam em suas sedes de esperanças.
É... O viver tem lá o seu preço
nem sempre a vida sana
os sonhos de sua gana.
Antonio Montes
AQUELA BOLHA
Aquela bolha de sabão colorida
Tão leve... Tão solta no ar
Continha n’ela o nosso amor
Você colocou sobre ela!
E como se fosse um sonho...
Sopraste rumo a lua,rumo marte
Sopras-te para o alto do calor.
Com os ventos dos sentimentos
Aquela bolha de sabão, subiu...
Subiu, subiu e ao o sol tiniu...
Tiniu de tanto carinho e amor!
Tiniu nas anciãs e vontades
Tiniu nas volúpias dos nossos corpos
Tinindo ela se elevou sob as estrelas
Rodopiou sob os anéis de saturno
E ao mundo todo em segundos
Cantou suas alegrias pelos ares
E nunca mais, sentiu dor.
Antonio Montes
CORRI DAS ÁGUAS
Corri das águas que choviam
E minhas lagrimas orvalhadas
e molhadas, fugindo eu não as via.
Também não via o tempo
que jazia
Partículas no ar me empurravam
e molhavam os sentimentos
que na vida escorregavam
e eu não sentia.
Antonio Montes
TRANSLADO
Essas marcas, essa pele
um dia irá se acabar
sucumbirá com as favas
que em sua derme esta.
Ficarás os seus rascunhos
moldado com sentimentos
desenhos feitos em punho
configuração dos pensamento.
Você vai... Você fia
estudo de tudo novo
sabedorias te indica
avanço de novos povos.
Te copiarão como cria
no refazer da geração
serás novo nesse dia
ao cunho de novas mãos.
Antonio Montes
SONETO AO PÉ DO PEQUI
O fado ao pé do pequi, no cerrado
pôs-me a ouvir e um soneto narrar
estórias que eu não podia imaginar
e que fez da gratidão o meu agrado
Era o destino me propondo reciclar
pra me tirar do espírito aperreado
do fútil que estava acorrentado
me dando a chance doutro lugar
Sim, ai eu pude então ser evocado
qual a terra prometida, vim me achar
na eterna busca de ser encontrado
De filho pra pai, pai me vi no olhar
então na compaixão fui anunciado
e entendi o doce sentido de amar...
Luciano Spagnol
Cerrado goiano
ao meu velho pai
à flor da língua
uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestigio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra não: é só floriléfio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor
neoplatônica
a boca é o lugar onde se engendra
o silêncio e se proferem sentenças
de morte e colhem blasfêmias
e serpenteiam sortilégios
e se enfunam as flores da fala
até forjar a ficção de outra boca
de onde se extrai a idéia do beijo
nevermore
fizemos piqueniques em Pasárgada
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões dalém mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)
bilacmania
livre espaço a ave aurora
as asas cantando climas céus
nuvens agora o sol o vôo
a vida o olhar (re)volta
tempo alegria de novo
a prosa do observatório
o poeta esquadrinha a natureza
em busca de indícios: eclipses
o grafismo das garças no lago
estrelas cadentes e outros sinais
da língua de deus.
e deus, crupiê do acaso,
foi passar o verão noutra galáxia
deixou no céu uma guirlanda de enigmas
e mais meia dúzia de coincidências
pra orientar o frenesi dos tolos
e as especulações da astronomia
canção do exílio
o poeta sem sua plumagem
é um deus exilado do cosmo
strip-teaser metafísico
só lhe resta sambar no inferninho
do caos
sob os neons do nada
sempre nu diante do espelho
sem espelho diante de si
o espelho
do outro lado um estranho
faz simulações como se fosse
um demônio familiar
é sempre noite, um assassino sonha
com mulheres assassinadas em série
sob as palmeiras de Malibu
o mundo é só uma ficção plausível
a imagem que baila ao rés-da-lâmina
é um último e improvável vestígio
da existência de Deus
o resto são ecos de outras faces
gestos de espanto e despedida
a música dos relógios, a morte
eternidade
para os estóicos o tempo não era
a mera caravana dos sucessos,
essa aventura quase sempre sem sentido
no rumo da anti-Canaã,
a terra onde não há qualquer Moisés
extravagando no Deserto dos Sinais
existe assim um outro tempo, imóvel,
no qual paira a palavra impronunciada,
o mito, sendo tudo e nada,
e idéias como flores ainda à espera
de outra Era ou só da primavera
e da decifração posterior
em suma, se os estóicos não criaram
um sistema solar irresistível
capaz de orientar a órbita dos astros
e as caravelas do conquistador,
em troca talvez tenham inventado
a melhor metáfora do amor
corações futuristas
pular a bandeira
pular a bandeira bordada
pular a bandeira bordada de seda e estrelas
rodar no balanço
rodar no balanço do mundo
rodar no balanço do mundo de sombras e
cachaça
dançar a ciranda
dançar a ciranda do sono
dançar a ciranda do sono perdido na noite
guardar o segredo
guardar o segredo da lua
guardar o segredo da lua afogada no poço
quase soneto cheio de si
ó minha amada, canto em teu louvor
como se fora nato noutras terras
mais adestradas nos bailes do amor,
em Franças, Alemanhas, Inglaterras;
canto-te assim com tal engenho e arte
que até Camões invejaria o fogo
com que me ardo, outrora degredado
entre mil musas lusas e andaluzas,
e agora regressado aos seus brasis,
ó minha ave, minha aventura
e sobretudo minha pátria amada
pra sempre idolatrada, salve, salve:
o resto é mar, silêncio ou literatura
Olhos de ressaca
minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente
eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores
e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos
eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca
e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua
eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua
se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.
