Poemas de Guilherme de Almeida

Cerca de 39 poemas de Guilherme de Almeida
Guilherme de Almeida (1890-1969) foi um poeta, sonetista, tradutor e jornalista brasileiro. Sua obra retrata a refinada formação humanística do poeta.

O Soneto do Fim


A luz se apaga,
A sombra vaga,
O dia finda,
A alma ainda.
O tempo corre,
A vida morre,
No chão de pedra,
Onde o mal medra.
É o fim da lida,
Noite esquecida,
Sem mais alento.
Na escuridão,
O coração,
Vira só vento.

O Soneto da Noite


A noite chega,
A luz se nega,
O medo vem,
Não há ninguém.
O vento frio,
No som do rio,
Traz o temor,
De um velho horror.
A sombra invade,
Pela cidade,
Todo o clarão.
Só a memória,
Conta a história,
Na escuridão.

Velocidade


Não se lembram do Gigante das Botas de Sete Léguas?


E


Lá vai ele: vai varando, no seu vôo de [asas cegas, as distâncias... dispara, nunca pára, nem repara para os lados, para frente, para trás...


Vai como um pária

O Silêncio


A luz apaga
O sopro para
O corpo cansa
A alma lança
Um voo leve
Tão breve.
O frio chega
A vida nega
A terra chama
Quem tanto ama
Fica a saudade
A eternidade
A dor profunda
A paz inunda.
mas que exista

ESTA VIDA


Esta Vida


Um sábio me dizia: esta existência, não vale a angústia de viver. A ciência, se fôssemos eternos, num transporte de desespero inventaria a morte. Uma célula orgânica aparece no infinito do tempo. E vibra e cresce e se desdobra e estala num segundo. Homem, eis o que somos neste mundo.


Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver dentro da própria morte, o encanto de morrer


Um monge me dizia: ó mocidade, és relâmpago ao pé da eternidade! Pensa: o tempo anda sempre e não repousa; esta vida não vale grande coisa. Uma mulher que chora, um berço a um canto; o riso, às vezes, quase sempre, um pranto. Depois o mundo, a luta que intimida, quadro círios acesos: eis a vida


Isto me disse o monge e eu continuei a ver dentro da própria morte, o encanto de morrer.


Um pobre me dizia: para o pobre a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre. Deus, eu não creio nesta fantasia. Deus me deu fome e sede a cada dia mas nunca me deu pão, nem me deu água. Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa de andar de porta em porta, esfarrapado. Deu-me esta vida: um pão envenenado.


Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver, dentro da própría morte, o encanto de morrer


Uma mulher me disse: vem comigo! Fecha os olhos e sonha, meu amigo. Sonha um lar, uma doce companheira que queiras muito e que também te queira. No telhado, um penacho de fumaça Cortinas muito brancas na vidraça Um canário que canta na gaiola. Que linda a vida lá por dentro rola!

Segunda canção do peregrino

Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
e dele fiz o meu bordão.

Foi minha vista e foi meu tacto:
constantemente foi o pacto
que fez comigo a escuridão.

Pois nem fantasmas, nem torrentes,
nem salteadores, nem serpentes
prevaleceram no meu chão.

Somente os homens, que me viam
passar sozinho, riam, riam,
riam, não sei por que razão.

Mas, certa vez, parei um pouco,
e ouvi gritar:-"Aí vem o louco
que leva uma árvore na mão!"

E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros, frutos, luzes, cores...
-Tinha florido o meu bordão

Inserida por DnaCydinha

O soneto da Tempestade


O céu desaba,
A luz se acaba,
Vem o trovão,
No coração.
O raio corta,
Bate na porta,
Traz o clarão,
Na escuridão.
O vento forte,
Lembra a morte,
Ruge no ar.
A chuva desce,
A alma prece,
Quer descansar.

Estava morrendo sufocado
E mesmo assim
Insisti em soprar meu ar
Nos seus pulmões

Eu me afogo
Me afogo no vazio do meu peito
E sigo em queda
No infinito constante de mim mesmo

Ao Mar

Eu me lanço ao mar

Um mar de incertezas
Um mar de desafios
Um mar turbulento
O mar mais violento que ja conheci

E ele me leva pro desconhecido
Para terras assustadoras
Terras de problemas sem solução
Terras de tempestades eternas

E eu gosto

Se vá

Quando nós nos olhamos pela primeira vez
Ela disse que eu a olhava como ninguém jamais fez
E é verdade
Ela era diferente

E ela dizia
"Você é linda e nunca vou deixar você ir embora"
Ela viu uma beleza que eu não enchergava em mim mesma
E eu não quis me ir

E quando acabou
Ela me ignorou
Me abandonou
Fugiu de tudo o que tinhamos

Ela disse que não me deixaria ir embora
Mas ela mesma foi

Vivo

Eu caí
Me deixei cair
E fui absorvido por tudo
Um oceano de sentimentos
Um oceano de sensações
E foi bom

Porém
Algo estava errado
Não conseguia me mexer
Não conseguia respirar
Estava engasgando

Invadiu meus pulmões
Já não podia mais respirar
Já não podia mais ver
Ja não podia mais sentir
Me afoguei

Mas
Nada me puxa para o fundo desse oceano infinito
Então porque eu continuo a descer?
Porque continuo negando que posso voltar a superfície?
Porque não consigo me permitir?

Minha última gota de força me faz subir
E começo a sentir meus dedos
Minhas pernas
Meus braços
Consigo me mover novamente

Sinto o peso esvair de mim
E o ar enche meus pulmões
Respirar dói
Como da primeira vez

Mas agora
Tudo é diferente
Posso ver
Estou vivo
Como nunca estive antes

Inserida por azuleoutrascores

Ele era a faca mais afiada que eu ja conheci
E decidi enfia-la no meu peito
Porque ingenuamente achei que não iria doer

Senti a pontada por todo o meu corpo
Mas eu não queria acreditar que doía
Por mais que o sangue já me encharcasse inteiro

E quando você estava quase me transpassando
Eu tirei você de mim
E doeu ainda mais

Mas pelo menos agora eu sei
Que por mais que a dor seja horrivel
A ferida pode finalmente cicatrizar

Inserida por azuleoutrascores

deixei que ela me moldasse
e me tornei uma obra de arte
que eu mesmo não compraria.

Inserida por azuleoutrascores

Todos diziam
Que eu era frio
Que tinha um coração de pedra
Que não tinha sentimentos

Os sentimentos só machucam as pessoas
E eu simplesmente deveria guardar meu coração num armário escuro
Mas nao adianta fingir que la ele estaria imune
Ele só estaria escondido

Coisas escondidas mofam
E estragam
Por isso deixei ele bater
Mesmo se sangrar

Porque quando algo sangra
Significa que ele funciona
E se doi
Significa que eu sinto

Eu sou quente
Meu coração é de carne
Eu tenho sentimentos, até demais
Eu estou vivo

Inserida por azuleoutrascores

Chuva

Ela lava-me a alma
E sinto o peso me esvaindo
Me derramo
E me sinto

O ar está leve agora
Tudo está leve
Inclusive meu peito
Que já pode encher-se novamente

A leveza está no seu eu
E o seu eu é pura leveza
Que é embalada
Pelo som da chuva

Inserida por azuleoutrascores

não saem de mim
estão sempre ali
fazendo-me reviver tudo
fazendo-me não suportar meu eu

e questionar o porquê de coisas
que não se respondem
pois nunca
se perguntaram

Inserida por azuleoutrascores

Tudo posso

QUERO GRITAR
ESVAZIAR O PEITO DE UMA SÓ VEZ
TIRAR TODO O PESO DE MIM
mas nada posso

QUERO CORRER
DEIXAR TUDO PRA TRÁS
FUGIR DESSA ANGÚSTIA
mas nada posso

QUERO BATER EM ALGO
USAR O PUNHO COMO MINHAS PALAVRAS
GOLPEAR ALGO COM FORÇA PARA ESMAGAR A DOR
mas nada posso

Só me resta fechar os olhos
Respirar o mais fundo que o meu peito permite
E enquanto mergulho dentro do meu eu...
Tudo posso

Inserida por azuleoutrascores

Coloco o copo sobre a mesa
Estou satisfeito
Bebi demais dessa sua necessidade
De querer ser vinho
Quando não passa de um pacote de kissuco

Inserida por azuleoutrascores