Poemas Bonitos
Inacessível
Como explicar ao mundo que me tornei inacessível?
Que não foi escolha, nem arrogância — foi autodefesa.
Foi o único jeito que encontrei de sobreviver às feridas que me causaram, de não me perder de vez tentando ser tudo para todos.
Como explicar que, quando finalmente deixo alguém se aproximar, essa pessoa se torna única, mesmo sem saber?
Ou que, às vezes, ela até é a única, mas não consegue corresponder?
E como dizer isso sem parecer ingratidão, sem que sofra o peso do mal-entendido de quem nunca sentiu o que é se esgotar por dentro?
As cobranças externas já são duras, mas nenhuma é mais cruel que a minha própria.
A autocobrança me corrói essa necessidade de perfeição, de acertar e estar sempre presente, de ser sempre o amparo, mesmo quando sou eu quem mais precisa de colo.
Guardei tantas vezes a minha dor no bolso para cuidar da dor dos outros que agora ela já não cabe mais.
E mesmo assim, sigo tentando.
Tentando conter o transbordar, tentando ser funcional, tentando dar conta de tudo, mesmo quando não já não tenho dado conta de mim.
E é aí que percebo: não é que eu tenha desistido do mundo.
É que o mundo desistiu de ouvir o silêncio.
Então me desfaço em partículas.
Um troféu não é apenas um troféu.
Ele é memória viva. É a prova de que você superou seus medos, venceu suas limitações e alcançou um lugar que, talvez, um dia tenha parecido impossível.
Esse objeto, que muitos chamam de simples tralha, carrega dentro de si noites mal dormidas, lágrimas escondidas, renúncias silenciosas e aquela força que você descobriu em si quando pensava não ter mais nenhuma. Ele não brilha apenas por estar em uma estante; ele brilha porque é reflexo do seu esforço, da sua entrega, da sua persistência.
Um troféu é a lembrança palpável de que você pode ir além.
Em dias de desânimo, basta um olhar para ele e tudo volta: o frio na barriga, o coração acelerado, o sabor da vitória, o abraço recebido, o orgulho nos olhos de quem acreditou em você. Ele é símbolo de quem você já foi capaz de ser — e, portanto, é promessa do que ainda pode conquistar.
Troféus, medalhas, diplomas… nada disso é entulho.
São marcas da sua caminhada, lembranças que te lembram de si mesmo. Eles não falam de objetos, mas de histórias. Histórias que dizem: você conseguiu.
E quando duvidar de novo, basta lembrar: você já foi capaz. E pode ser ainda mais.
O Valor de uma Conquista
Não adianta entreabrir a porta se o medo ainda impede os olhos de encarar a luz que insiste em entrar. A claridade não pede licença, ela apenas espera que você permita que ela invada e transforme.
Também não adianta convidar quem nunca teve a intenção de permanecer. Há pessoas que batem à porta apenas de passagem, como visitas que deixam rastros leves, mas não constroem morada. São presenças breves — e é preciso aprender a deixá-las partir, sem pesar, sem cobrança, apenas com a gratidão do instante que trouxeram.
Cada um tem seus próprios caminhos a trilhar. E, talvez um dia, alguém chegue não apenas para visitar, mas para ficar. Esse alguém trará consigo o tom da saudade, como se sempre tivesse pertencido àquele espaço, mesmo antes de chegar. Será presença que não pesa, que não se anuncia como novidade, mas como reencontro.
Porque há chegadas que são como retorno, e almas que parecem nunca ter estado ausentes.
Morri E ninguém percebeu.
Não foi uma vez só, foram várias, em silêncios que ninguém percebeu.
Morrer, às vezes, é apenas calar por dentro, deixar que pedaços se apaguem em meio ao barulho do mundo.
Escrevo porque ainda me resta esse fio, essa voz que insiste em existir, mesmo quando o corpo pede descanso e a alma se retrai.
Escrevo para me deixar — pedaços de mim, sementes de memória, rastros do que fui e do que sou.
Escrevo porque sei que, um dia, talvez eu suma de vez, e não quero que o nada seja a única herança do meu existir.
Que as palavras fiquem como quem acende uma vela na escuridão: não para espantar a morte, mas para que a vida ainda seja lembrada em sua delicadeza e em sua dor.
Ser referência é mais do que ser visto.
É lançar sementes silenciosas, tocar vidas sem perceber.
É força e fraqueza entrelaçadas, esperança que inspira quem se afoga em seus próprios dias.
Rafael Fernando transformou meu olhar em arte — e, nesse gesto, me lembrou que tudo que vivemos reverbera.
Ser referência é isso: florescer, mesmo sem saber quem colhe.
Da minha alma para a tua
Da minha alma para a tua, eu deixo esse pequeno pedaço de luz que ainda resiste dentro de mim.
Não porque eu esteja sempre forte, inteira ou certeira, mas porque aprendi que mesmo os cacos guardam brilho.
Se eu pudesse te olhar agora, olho no olho, diria que a vida nem sempre é leve — e está tudo bem não ser. Diria que a gente se perde, cansa, duvida, desmorona. Que às vezes o mundo pesa, o peito aperta, e a esperança parece fina demais para nos sustentar.
Mas também te diria que existe algo invisível que insiste.
Uma força que não se vê, mas se sente.
Um recomeço que nasce silencioso, como quem pede licença.
Da minha alma para a tua, eu deixo esse abraço que não precisa de braços:
o abraço do reconhecimento.
Daquilo que dói, daquilo que pulsa, daquilo que ainda sonha.
Eu te desejo profundidade — daquelas que não te afogam, mas te devolvem ao teu próprio eixo.
Desejo descanso na tua mente, respiro no teu peito, leveza no teu passo.
E desejo que, mesmo quando tudo parecer escuro demais, você consiga perceber que existe um fio de luz costurando cada parte do seu caminho.
Se em algum momento você sentir que está só, lembre-se:
minha alma conversa com a tua no silêncio.
Não para salvar, não para ensinar,
mas para caminhar junto.
Porque no fim, somos isso:
um encontro de sobrevivências,
um eco de sensibilidade,
um gesto de presença.
Da minha alma para a tua —
que você continue existindo com verdade,
sentindo com inteireza,
e deixando no mundo a marca bonita
de quem sobreviveu à própria tempestade
e ainda escolhe tocar outras almas com cuidado.
Ainda Não
Há dias em que o corpo pesa mais do que a alma.
E, mesmo sem feridas visíveis, tudo dói.
O respirar dói.
O levantar dói.
O existir... exaure.
Há algo dentro de mim que grita em silêncio,
pedindo socorro, mas sem força para pedir.
Como se eu esperasse que alguém qualquer um
ouvisse o som do que não digo.
Eu me sinto como quem tenta juntar os cacos
de um vidro que insiste em se cortar nas próprias mãos.
Tento reconstruir o que já não sei se pode ser reconstruído.
Mas, mesmo fraca, ainda espero —
porque uma parte de mim ainda acredita
que não é tarde demais.
Talvez eu não precise de promessas,
nem de frases bonitas,
só de alguém que diga: fica.
Fica mais um dia.
Mais um respiro.
Mais um pedaço de esperança.
Porque, por mais que tudo em mim peça fim,
ainda não estou pronta para morrer.
Ainda não.
Só quero que alguém me tire daqui —
desse lugar onde tudo é dor e silêncio,
onde a alma sangra e ninguém vê.
E se um dia eu não conseguir mais pedir ajuda,
que este texto grite por mim:
eu só queria viver,
mas de um jeito que não doesse tanto
Carta aberta: o cansaço que ninguém quer ver
Não é drama.
Não é falta de fé.
Não é preguiça.
É exaustão.
Física, mental, emocional. Uma falência silenciosa do corpo e da alma.
Tenho tentado.
Fui a médicos, psicólogos, psiquiatras, fiz exames, busquei respostas.
E ainda assim, nada muda.
Parece que estou me apagando aos poucos, como uma luz que vai perdendo força, mesmo quando alguém gira o interruptor com força.
É uma junção de tudo: depressão, ansiedade, burnout, hormônios em desordem, imunidade baixa, cansaço crônico.
Um corpo que pede socorro, e uma mente que já não tem mais fôlego pra gritar.
Às vezes, levantar da cama é uma guerra.
Tomar banho parece escalar uma montanha.
Comer, responder mensagens, existir… tudo dói.
E o pior é sentir que ninguém entende.
Vivemos em um mundo doente, onde todo mundo diz “cuide-se”, mas ninguém tem tempo pra escutar.
Os profissionais tentam, mas o sistema é frio, impessoal, repetitivo.
E a gente segue colecionando diagnósticos, receitas, e o mesmo vazio.
Escrever isso talvez seja o pouco de vida que ainda me resta.
Talvez alguém leia e se reconheça — e perceba que não está sozinho.
Talvez isso sirva pra lembrar que há uma linha muito tênue entre estar vivo e apenas continuar existindo.
Eu não sei o que vem depois.
Só sei que estou cansada.
E que, se eu ainda falo, é porque algo em mim insiste em não se calar completamente.
Mas eu queria, de verdade, só descansar — de tudo isso, de mim, do peso que é sentir demais.
Deus me enviou pessoas
Eu pedi a Deus, anjos.
E Ele me enviou pessoas.
Eu não sabia pedir ajuda.
Ainda não sei.
Não diretamente, não com palavras.
Mas eu já gritei, de todas as formas possíveis.
Gritei aos céus.
Gritei no meu quarto, trancada, abafada pelos travesseiros.
Gritei com a mão na garganta.
E gritei em silêncio, com o olhar perdido no vazio.
Mas Deus ouviu.
E me enviou pessoas.
Pessoas que eu nem imaginava,
mas que estendem as mãos e apoiam outras vidas,
inclusive a minha.
São poucas, mas conseguem me alcançar.
Cuidam de mim, mesmo sem entender tudo.
E eu… eu não tenho palavras pra agradecer.
Eu queria sorrir, gritar, voar, abraçar.
Dizer o quanto isso me faz bem, o quanto me faz feliz.
Mas ainda não consigo.
Quimicamente, meu corpo não permite.
Estou tão exausta que, às vezes, não consigo nem falar.
Quando elas estão por perto, eu me sinto perdida,
tentando apenas dar conta,
retribuir um pouco do que recebo.
Queria poder devolver o sorriso,
não deixá-las tão preocupadas.
Mas, por dentro, às vezes,
eu ainda estou gritando.
Enquanto olho pra elas,
tentando achar em mim alguma coisa
um sinal de vida,
um recomeço,
um pouco de mi
Orações Escritas
Lugar de Filha
Deus, me sinto tão pequena diante de tudo e sobre tudo, diante da Tua grandeza.
Tua bondade é inquestionável e inegociável.
Mas sou humana, falha, e me perco diante de tudo que vejo e da desigualdade.
Mas tem dias em que não quero lutar, resistir, questionar ou lamentar.
Queria apenas me jogar em Teu colo e ali me deixar ficar.
Meu maior desejo é estar nesse lugar me abandonar ali, em Ti.
Porque sei que o lugar de uma filha é no colo de seu Pai.
E Tu és o meu.
Entre o cansaço e a reinvenção
Há momentos em que tudo parece parar.
O corpo não reage, a mente pesa, e o coração se cala.
Mas antes desse vazio, vieram os dias de luta,
os de sobrecarga, de resistência, de pura tentativa.
Vieram os tempos em que foi preciso sobreviver —
reinventar-se, aprender o que nunca se imaginou,
buscar um novo rumo, mesmo quando o chão faltava.
E, sem perceber, fomos adoecendo.
Talvez não de febre, mas de esgotamento.
De tentar ser fortes o tempo todo.
A vida é isso: um constante sobreviver.
É cair, e mesmo sem forças, tentar levantar.
É seguir com os pedaços que sobraram,
e fazer deles uma nova forma de ser.
Eu tenho vivido assim: lutando,
mesmo quando o cansaço me visita.
Porque entre o desgaste e a esperança,
ainda há um fio de fé que me faz continuar.
E no meio do caos, eu me reinvento —
vez após vez,
vida após vida,
em mim mesma.
Mas, às vezes, sinto falta da mulher que fui.
Daquela que sonhava sem medo,
que acreditava no novo, que se lançava inteira.
Sinto falta da energia que me fazia criar,
das madrugadas acesas por ideias,
das vontades que me moviam.
Quem sabe seja tempo de voltar —
não à dor, não ao peso,
mas ao fogo que me acendia por dentro.
De reencontrar em mim o brilho da busca,
a alegria do recomeço,
a coragem de tentar outra vez.
Talvez esse seja o meu novo recomeço:
reavivar o que um dia me fez viva.
Mas por hoje, por agora,
apenas revisito essa eu do passado
em uma galeria lotada de momentos,
de construção, de vivências, de trabalho,
de luta, de sonhos —
imagens arquivadas, jamais vistas,
que hoje revisito pouco a pouco
e sinto falta,
mas não me encontro lá.
Despedindo-me em Silêncios
Há dias em que me percebo partindo sem sair do lugar.
Não é fuga, é cansaço de permanecer inteira.
Vou me desfazendo devagar,
como quem solta o ar e deixa o corpo repousar no intervalo.
Já não há pressa em resistir.
A resistência virou hábito, quase uma oração muda,
dessas que não se aprendem, apenas se sentem.
Deixo pedaços meus em cada esquina do dia
um pouco na roupa pendurada,
outro no copo que esqueci de lavar,
e tantos nos silêncios que deixei falando por mim.
Não há ruído na minha ausência;
há um eco que insiste em sussurrar: “ainda estou aqui”.
Mas estar tem me custado caro,
como se cada gesto cobrasse uma parte da alma.
Não quero piedade, nem perguntas.
Quero apenas o direito de ser brisa,
de existir em fragmentos,
de não precisar me reconstruir hoje.
Se um dia eu me dissolver inteira,
não busquem culpados,
apenas saibam que eu tentei.
E que, em cada fragmento que deixei,
havia uma tentativa de ficar.
Hoje não
Eu luto contra esse dia todos os dias, exaustivamente.
Antes era um dia de cada vez, um dia por vez.
Hoje é uma frase que me acompanha todos os dias.
Hoje não. Não será hoje.
Mas, de forma consciente, venho me fragmentando.
Deixando pedacinhos de mim soltos.
Em tudo que faço, silencio, ouço ou digo.
Onde escrevo, onde publico.
Pedacinhos.
Talvez parte de um quebra-cabeça que não faça sentido
para quem olha hoje...
Caso, em algum momento, essa exaustão me vença,
tudo isso ganhará uma clareza e deixará de ser invisível a olhos nus.
Tudo que é invisível hoje fará sentido na minha ausência,
no momento em que todos aprenderem a ver com o coração
cada pedacinho solto de mim deixado por aí.
E isso só será possível na minha ausência.
Hoje não.
Hoje só me fragmento mais um tiquinho...
Culpada de Existir
Sinto-me culpada,
culpada de pesar.
Um dia ouvi de alguém:
“você é pesada, cheia de monstros, nada vai pra frente.”
E eu acreditei.
Desde então, caminho tentando ser leve
me desculpando por existir demais,
pedindo perdão até pelo silêncio.
Vivo aparando arestas,
diminuindo gestos,
falando baixo para não incomodar o ar.
Mas a verdade é que não sei ser pouco.
Sou feita de profundezas,
de medos que têm nome e de dores que respiram.
Não sou monstro,
sou só o reflexo de tudo o que engoli para não gritar.
E ainda assim, me culpo.
Por sentir, por ficar, por tentar caber.
Um dia, quem sabe,
eu aprenda que pesar também é existir.
E que mesmo as almas cansadas
merecem um lugar para repousar.
Amordaçadas
Ah, Deus...
se cada palavra tivesse o poder de gotejar como ferida aberta —
dessas que expulsam o que faz doer —
talvez existissem curativos capazes de cicatrizar
todas as tristezas deixadas por palavras que ferem a alma.
E ela, ferida de morte,
morre amordaçada,
sem direito de gemer o próprio sangrar.
Quantas almas mortas em corpos vazios cruzamos por aí?
Tantas seguem caladas,
sem brilho no olhar,
sem o direito de falar sem ser julgadas por sentir.
E eu...
eu sou alma ferida,
perdida,
morta a vagar...
Há, lucidez em uma depressão?
Há, sim — e é uma lucidez que machuca.
Há lucidez em uma depressão porque a gente enxerga tudo com uma nitidez cruel: o peso dos dias, o cansaço na alma, a falta que ninguém vê. É como se o mundo inteiro gritasse e, ainda assim, só você escutasse o silêncio.
A depressão não é falta de clareza; às vezes, é excesso. É perceber demais, sentir demais, carregar demais. E isso não te faz menos capaz — apenas mais humana.
Quando você sofrer, há sempre um remédio:
Ou você se acostuma ou se anestesia.
Não faça da dor um pretexto, castigo ou purificação.
A dor é um fato e só. Merece medicação e não explicação.
A dor é uma visita incômoda. Por que pensar por que ela veio? Já não basta o próprio doer?
Só nos cabe em tais momentos nos livrar deste incômodo.
Há quem ache exagero, drama, fraqueza.
Mas ninguém imagina o inferno que é existir entre dois extremos que se devoram:
a apatia da depressão e o caos da ansiedade.
De um lado, um vazio que te puxa para baixo, que apaga cores, vontades, sentidos.
A vida perde o gosto, o brilho, o nome.
Nada interessa, nada empolga, nada move.
Você sabe que está ali, respirando — mas é como se não estivesse em lugar nenhum.
Do outro lado, uma mente que não para.
Pensamentos atropelados, exigências que se acumulam, cobranças que nunca cessam.
Um corpo implorando por descanso, pedindo dias inteiros de sono, semanas de silêncio,
mas forçado a continuar funcionando como se nada estivesse acontecendo.
Entre esses dois mundos, existe o burnout.
A exaustão que não vem só do trabalho, mas do peso de existir quando tudo dói.
É quando o corpo quebra, quando a alma grita, quando não há mais força para fingir.
É quando você percebe que passou tempo demais segurando o mundo com as próprias mãos
e agora mal consegue segurar a si mesma.
E ninguém vê.
Porque por fora você continua andando, respondendo, vivendo.
Mas por dentro… por dentro é um campo de batalha.
Um fogo lento que consome sem fazer barulho.
O que assusta não é só a depressão que apaga,
nem a ansiedade que acelera.
É viver presa entre as duas, sem parar, sem descanso, sem lugar seguro.
É pedir ajuda para dentro e ouvir só o eco.
É pedir sono ao corpo e receber insônia.
É pedir paz e receber pensamentos que machucam.
Esse é o inferno que ninguém entende — o inferno de continuar de pé quando tudo em você já caiu.
Entre Luzes e Sombras: O Drama da Composição
A fotografia nasce do diálogo entre a luz e a sombra. Uma não existe sem a outra, e é justamente nessa oposição que o olhar encontra o equilíbrio.
A luz revela, expõe, dá forma ao que estava oculto. Já a sombra guarda mistério, sugere o que não se mostra por completo, trazendo profundidade e silêncio à cena.
Quando se encontram em harmonia, luz e sombra compõem mais do que uma imagem: criam emoção. É o claro-escuro que dá intensidade a um retrato, que faz um olhar falar mais alto, que transforma um cenário comum em poesia visual.
Não há fotografia sem sombra, assim como não há vida sem contraste. É nesse jogo que se constrói o drama da composição — a escolha de mostrar ou esconder, de realçar ou suavizar.
Fotografar é compreender que a luz precisa da sombra para existir em sua plenitude. É aceitar que beleza e verdade se revelam no contraste, onde os extremos se tocam.
Espontaneidade: A Alma da Imagem
Autoral: Jorgeane Borges
Retrato e Alma: O Olhar que Fala
No retrato, mais do que rostos, o que se busca é a alma. Um olhar, quando capturado com verdade, pode dizer mais que mil palavras — pode contar histórias, revelar silêncios, expor fragilidades e, ao mesmo tempo, guardar mistérios.
A fotografia de retrato não se limita à superfície. Ela atravessa a pele e chega ao invisível. É a tentativa de traduzir em imagem o que não pode ser tocado: a essência.
Por isso, diante da câmera, não basta posar. É preciso se permitir ser visto — mesmo que em partes, mesmo que nas frestas de um olhar distraído ou numa expressão que escapa sem querer.
O retrato verdadeiro não é apenas sobre quem é fotografado, mas também sobre quem fotografa. É o encontro entre dois mundos: o da lente que busca e o da alma que, por um instante, se deixa revelar.
Um olhar pode ser espelho, pode ser janela, pode ser abismo. No retrato, ele é tudo isso ao mesmo tempo.
Espontaneidade: A Alma da Imagem
Autoral: Jorgeane Borges
