Poemas Bonitos

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Eu sou uma construção de algo tão genuíno
que não sei onde me encaixar como peça.
Aonde abrirei espaço neste quebra-cabeça chamado vida?
Se faço parte dele, por que me deixas tão solta,
a ponto de sentir que não me encaixo?


Será que é porque ainda estou em construção
e minhas arestas não têm forma definitiva?


De fato, um dia estarei completa,
com estrutura firme e forte,
a ponto de me encaixar e encontrar a perfeita completude.


Mesmo genuína, buscando acertar,
ainda tropeço em meus próprios erros e medos.


Medos que me impedem de tentar,
até mesmo de errar ou de aceitar.
Eles me travam, me bloqueiam,
tomam minha mente e me conduzem
a lugar nenhum.


Será que, para me encaixar,
preciso me quebrar tantas vezes
até caber em formas
que talvez nunca foram feitas para mim?

Às vezes, não é falta de amor, é falta de fôlego.
De vontade de responder, de sorrir, de fingir que está tudo bem.
É cansaço de corresponder, de se explicar, de esconder o óbvio — que por dentro, o silêncio grita.
As notificações se acumulam, mas o desejo é de desaparecer.
Não por indiferença, mas por não saber mais como existir para tantos, quando mal consigo existir pra mim.
Não sou de muitos contatos, embora haja muitos que me amem.
Só não sei, agora, como retribuir.
E talvez isso precise ser entendido como amor também.

O Peso do Silêncio de Quem Importa




Quando tudo parece distante, e o mundo vai se apagando aos poucos, ainda restam algumas poucas presenças que nos fazem tentar.
Poucas pessoas que, sem saber, se tornam o último fio entre a gente e o resto do mundo.
Aquelas com quem ainda conseguimos falar, mesmo que pouco, mesmo que sem força.
Aquelas que acham que são só mais uma, e não imaginam que são as únicas.


É doloroso quando o silêncio vem justamente delas.
Quando você cria coragem pra aparecer, pra responder, pra tentar existir de novo — e o retorno não vem.
Dói como se o universo confirmasse o que a mente cansada já sussurra: que talvez você não faça falta alguma.


Mas o que elas não sabem é que aquele “oi” que não veio, aquela resposta que não chegou, pesam.
Porque não era só uma mensagem — era um pedido de presença, um pedido de vida.


E então a gente se recolhe outra vez.
Não por desinteresse, mas por proteção.
Porque continuar tentando onde o silêncio ecoa é como insistir em respirar debaixo d’água.


Algumas conexões salvam.
Outras, quando se calam, deixam a alma sem ar.

CONVIVÊNCIA NEGRA




Falar de consciência negra sem reconhecer nossa própria origem é como existir sem memória. É repetir discursos prontos sem permitir que a história atravesse a pele, o sangue, a identidade. É tentar celebrar algo que ainda não se entendeu, que ainda não se reconheceu, que ainda não se honrou.


Consciência negra não é só uma data, não é só um post. É memória viva. É ancestralidade pulsando em cada gesto, cada corpo, cada território que guarda marcas de resistência. É olhar para nós mesmos e enxergar o que o mundo tentou apagar. É permitir que a história antes silenciada volte a respirar.


Sem consciência da própria origem, tudo vira superfície. Vira celebração vazia, vira homenagem incompleta. Porque só entende o presente quem se permite mergulhar no passado inclusive o que dói, o que pesa, o que foi arrancado.


Ter consciência negra é lembrar que somos continuidade. É saber que cada sorriso, cada conquista, cada espaço ocupado hoje é resultado de caminhadas que vieram muito antes de nós. É reconhecer que a memória é um direito, uma raiz e um farol.


Não existe consciência sem memória.
E não existe memória sem coragem.


Consciência exige memória.
Memória exige humanidade.
E humanidade exige coragem para ver, ouvir e honrar o que fomos, o que somos e o que ainda seremos.


Humanos — mas só completos quando não esquecemos de onde viemos.




20 de Novembro 2025

Eu não sou como a maioria.
Eu penso demais.
E, às vezes, isso é bênção — me faz enxergar detalhes que quase ninguém vê, sentir o que os outros passam batido, perceber nuances que o mundo ignora.
Mas, em outros momentos, pensar assim parece uma maldição.


Porque minha mente não desliga.
Ela revisita tudo o que vivi, tudo o que falei, tudo o que ouvi.
Cria cenários que nunca aconteceram, ressuscita dores antigas e inventa novos motivos para eu me preocupar.
Eu analiso, questiono, reconstruo, desmonto…
e acabo me perdendo no labirinto dos meus próprios pensamentos.


É cansativo carregar uma cabeça que nunca descansa.
É exaustivo sentir tudo com essa intensidade que ultrapassa o limite do corpo.
É difícil ser alguém que sente antes de entender e que entende antes de conseguir explicar.


E sabe o que dói?
O mundo espera praticidade, pressa, respostas rápidas e emoções fáceis.
Mas eu sou feita de profundezas.
De camadas.
De silêncios que falam mais do que eu consigo colocar em palavras.


Eu não sou como a maioria.
E, em dias bons, isso me faz única.
Mas, nos dias ruins…
isso pesa, dói, sufoca — como se eu carregasse um universo inteiro dentro de mim, implodindo em silêncio.


E ainda assim, sigo aqui, tentando transformar essa intensidade em algo que não me destrua,
mas que me torne alguém capaz de sentir o mundo de um jeito que poucos conseguem.




3 de dezembro de 2025

O Lar que Carrego


Não sou ponte para todos atravessarem, nem porto seguro para cada vento.
Meu caminho se mede em detalhes, e é nos detalhes que alguém se aproxima ou se perde.
Há quem tente pousar sem perceber que não me posso dividir; sou inteira, como rio que não aceita leito pela metade.


Entrego-me aos que vêm com coragem de tocar a profundidade, de sentir o invisível no silêncio de um olhar.
Minha presença não é apenas companhia, é chão e abrigo, sombra e luz, algo que se reconhece e se respeita.


Não se prende quem me encontra, mas se escolhe quem se atreve a navegar meu território de leveza e paz.
Quem insiste sem ver, desvia; quem entende, permanece.
Não carrego culpa nem fardo, carrego lar—porque lar não é lugar, é essência, e minha essência é rara.


E aqueles que merecem meu tempo, meu riso e meu abraço, sabem: o paraíso não se dá, se descobre.

Como te aconselhar senão pelas palavras que escutei aqui dentro de mim?
Hoje percebi que há coisas que não se resolvem com pressa. Existem silêncios que não aceitam atalhos, e processos que só o tempo sabe conduzir. Esperar, às vezes, é o único caminho, mesmo quando a ansiedade tenta nos empurrar para frente.


Aprendi que atropelar o ritmo natural das coisas traz arrependimentos depois. O que é forçado volta a cobrar paciência; o que é ignorado se transforma em peso. Permitir que a vida tenha seu próprio compasso é, no fundo, um ato de coragem.


Cheguei a essa conclusão depois de muito me ouvir. Talvez não sirva para você. Mas, se em algum momento essas palavras encontrarem eco no seu coração, já terão cumprido seu destino.

O Poder Invisível do Perfume


Para mim, os perfumes têm o poder de acolher.
Trazem conforto, paz, bem-estar, boas memórias.
Mas também podem despertar o oposto: aversão, antipatia, desconforto, mal-estar, dor de cabeça.
Tudo isso apenas com a nossa presença — sem que as pessoas consigam, de fato, entender o porquê.
Elas apenas sentem. Reagem.
O perfume aproxima. Ou afasta. Involuntariamente.


E às vezes, tudo começa com a escolha de um perfume.


O perfume tem o poder de abraçar por dentro de um abraço, de nos tornar desejáveis, inesquecíveis.
Tem cheiros que despertam vontade de morder.
Outros que fazem a gente querer ficar ali... no silêncio do afeto, no calor da pele, na paz daquele instante.


Tem perfume que acalma, que traz leveza.
Tem perfume que acende — nos coloca em chamas, em desejo, em urgência.
E sim, tem perfume que desperta euforia, fúria, desprezo, rejeição, ânsia, asco.


Por isso, a escolha do nosso perfume precisa ser cuidadosa.
Porque mais do que um aroma, ele é extensão da alma.
É presença que fica, mesmo quando a gente vai.

Sinto Muito


Eu não sei,
não transparecer o que sinto.
E sinto muito —
por sentir demais,
por deixar que o coração se derrame nos olhos,
na voz, no gesto.


Sinto o que não cabe em mim,
o que não se explica,
o que insiste em escapar em forma de silêncio.


Não sei fingir leveza quando há peso,
nem esconder ternura quando há verdade.
E talvez seja isso:
meu erro, minha beleza,
minha entrega.


Sinto muito.
Mas é o sentir que me mantém viva.

Tem dores que a gente não diz em voz alta.
Elas moram quietas, esperando que o tempo faça o que a gente não consegue.
E, mesmo quando tentamos seguir, há sempre algo que puxa de volta
uma lembrança, uma falta, um cansaço que a alma não disfarça.
Eu entendo que sinta essa vontade de desistir.
Porque também conheço esse desejo, profundamente,
onde o mundo parece pesado demais pra carregar.
Mas, ainda assim, tem algo que me faz ficar.
Talvez a esperança tímida de que exista um alívio depois do caos.
Talvez o desejo de me reencontrar.
Ou talvez só o amor, mesmo pequeno, que insiste em não ir embora.
Eu não tenho respostas, só um motivo pra continuar tentando:
ver se, no meio do caminho, essa dor também aprende a descansar.

E se essa fosse a sua última semana?
E se aquele foi o último abraço que você deu em alguém?
E se ela partir, quais foram suas últimas palavras para ela?


A gente vive como se houvesse tempo.
Adia o perdão, o carinho, a verdade.
Promete encontros, inventa desculpas,
e deixa o amor esperando na porta —
como se o amanhã fosse um direito,
não um presente.


Mas e se o amanhã não vier?
Se a vida decidir fechar os olhos antes de nós?
O que restará — senão o peso do não dito,
e o eco das ausências que poderíamos ter preenchido?


Por isso, abrace agora.
Diga o que sente.
Peça desculpas, se for preciso.
Não economize presença.
O tempo é um sopro,
e ninguém sabe quando o vento muda de direção.

Quando eu partir


quero que fique cada partícula de mim,
nas frestas do tempo,
no cheiro da terra molhada,
no toque que deixei nos ombros de quem amei.Que fiquem minhas palavras,


aquelas que escrevi com alma cansada,
e também as que calei por medo de ferir.Quero que, em cada olhar que se perca no horizonte,
haja um traço meu
um sopro, um eco, uma lembrança boa.Não quero ser esquecida,
nem lembrada com dor.
Quero ser presença leve,
como o vento que passa,
mas ainda toca.

Orações Escritas
Acalma Minhas Urgências


Senhor, escrevo-Te sobre a minha alma e as minhas urgências.
Eu nunca tive pressa — sempre fui tranquila, cheia de sonhos, projetos e anseios.
Mas, ao mesmo tempo, sempre contida, ponderada, paciente.
Sempre soube esperar o tempo do outro e das coisas, respeitando a Tua soberania.


Mas, Senhor, acalma as minhas urgências ou envia socorro.
Aja, Senhor, aja.
Tenho medo de deixar-me atropelar pela ansiedade e acabar desistindo de tentar, de esperar


É cansativo, exaustivo.
Minha mente não para, tentando achar solução, mesmo quando Tu me pões à prova e dizes que sou a menina dos Teus olhos, que tudo vai ficar bem no final.


Mesmo que uses pessoas para cuidar de mim, hoje vejo o Teu amor através delas — essas que têm zelado por minha vida.
O Senhor tem me sustentado através delas, e eu não posso falhar: nem Contigo, nem com elas, nem comigo mesma.


Coloca em meu coração novamente:
O desejo que queima.


Devolve-me a sede de viver.
Traz de volta o brilho dos meus olhos e, junto com ele, a vontade de sorrir — e o sorriso que, a tantos, enchia de alegria, mas que me roubaram.
Não sei… perdi tudo em algum lugar do caminho e não posso voltar para buscá-lo.


Tenho urgências, Senhor.
Ouve o meu clamor de filha.

Nos detalhes habita a sutil beleza,
Que a olhos nus nem sempre se revela;
Só quem traz alma em seu olhar, com certeza,
Percebe o que a vida silenciosa sela.


O tempo passa e esconde sua leveza,
Entre gestos, suspiros e aquarela;
Mas o coração atento à sutileza
Transforma o instante em eterna janela.


Pois há segredos que só o sentir descobre,
E segredos que só o olhar sabe tocar;
A vida inteira é arte que se cobre,


E nos pequenos sinais vem se mostrar.
Quem vê com alma entende, não se encobre:
Nos detalhes, a beleza quer se doar.

Quando você sofrer, há sempre um remédio:
Ou você se acostuma ou se anestesia.
Não faça da dor um pretexto, castigo ou purificação.
A dor é um fato e só. Merece medicação e não explicação.
A dor é uma visita incômoda. Por que pensar por que ela veio? Já não basta o próprio doer?
Só nos cabe em tais momentos nos livrar deste incômodo.

Homenagem às mulheres

Dê flores, mas nunca esqueça de dar amor!

As mulheres são raramente lembradas por coisas boas, e falar que hoje é o dia delas é uma sacanagem. O dia da mulher é todo dia, toda hora e todo segundo. Não há amor maior do que o amor de mãe, amor que acolhe, amor que não escolhe, amor que não desiste. Sei que presentear com flores é um belo ato, mas e o amor? Dê amor, flores a gente encontra na rua, amor só no coração, amor que vocês, mulheres, tem muito. Coração que cabe sempre mais um, continue amando assim. O que seria de nós sem vocês?

Vivemos, todos os dias, pequenas despedidas.
O pior é que muitas delas são imperceptíveis.
Acostumados a correr, deixamos de notar
a vida que escorre pelos mínimos detalhes.


Ela passa entre os dedos,
como água cristalina, invisível, silenciosa.
E, no fluxo do tempo, vamos nos despedindo
de olhares, de lugares, de cheiros,
de instantes que se perdem sem aviso.


Só percebemos, tarde demais,
quando a lembrança nos cutuca:
aquilo já passou,
e não voltará mais.

Hoje eu coloco diante de Ti, Deus que governa o Universo, cada centímetro do lar que preparo em meu coração.
Que a varanda seja abrigo de brisa e orações, rede que acolhe silêncios, plantas que respiram a Tua criação.
Que a sala tenha o aconchego de um abraço: sofá claro, luz amarela, cortinas dançando com o vento, perfume que anuncia paz.
Que a cozinha seja mesa posta para encontros, onde eu e meu filho partilhamos risos, músicas e gratidão.
Que os quartos sejam refúgios de descanso, com janelas abertas para a vida e para a Tua presença.
Que a casa inteira exale limpeza, alegria, cheiro de começo.


Profetizo liberdade para meu filho: que ele caminhe seguro, que conquiste a habilitação, que o automóvel chegue como símbolo de novas estradas e possibilidades.
Que nada do antigo peso permaneça, nem poeira de memórias que feriram.
Que cada dia nesta morada provisória seja etapa de cura, preparando-nos para a casa definitiva — erguida do zero, estruturada pela Tua mão, testemunho vivo da Tua Palavra.


Declaro, em fé, que o Universo ecoa o Teu comando.
Que os anjos digam amém, que as portas se abram, que a vida floresça.
Tudo vem de Ti, Dono do ouro e da prata, Aquele que constrói e recria.
Recebe este sonho, Senhor, e devolve-me em realidade.
Que este lar, presente e futuro, seja morada de luz, de paz, de recomeço, para sempre.

Lamento


As noites me atravessam como lâminas cegas.
Não cortam de uma vez, mas deixam a carne cansada.
Fico imóvel, presa num corpo que respira
sem me perguntar se ainda quero estar aqui.


A dor não grita mais.
Ela se aquietou como fera domesticada,
um silêncio úmido que escorre pelas paredes.
Choro sem lágrimas, sangro sem ferida,
vivo sem presença.


Há um vazio que pesa.
E pesa tanto que até o gesto mais simples,levantar a mão, virar a chave, abrir a boca
parece impossível.
O tempo me olha e ri:
sou prisioneira de segundos que nunca passam.


Não há música, não há claridade,
não há nem mesmo o consolo do choro.
Só a anestesia.
Um torpor que me segura pela garganta
e me faz existir em estado suspenso,
como quem vive de ausências.


Ainda assim, respiro.
E talvez esse seja o maior dos lamentos:
continuar aqui,
mesmo quando já me despedi tantas vezes de mim.




Jorgeane Borges
8 de Setembro de 2025

Entre Luzes e Sombras: O Drama da Composição


A fotografia nasce do diálogo entre a luz e a sombra. Uma não existe sem a outra, e é justamente nessa oposição que o olhar encontra o equilíbrio.


A luz revela, expõe, dá forma ao que estava oculto. Já a sombra guarda mistério, sugere o que não se mostra por completo, trazendo profundidade e silêncio à cena.


Quando se encontram em harmonia, luz e sombra compõem mais do que uma imagem: criam emoção. É o claro-escuro que dá intensidade a um retrato, que faz um olhar falar mais alto, que transforma um cenário comum em poesia visual.


Não há fotografia sem sombra, assim como não há vida sem contraste. É nesse jogo que se constrói o drama da composição — a escolha de mostrar ou esconder, de realçar ou suavizar.


Fotografar é compreender que a luz precisa da sombra para existir em sua plenitude. É aceitar que beleza e verdade se revelam no contraste, onde os extremos se tocam.


Espontaneidade: A Alma da Imagem
Autoral: Jorgeane Borges