Poemas Bonitos
CONVIVÊNCIA NEGRA
Falar de consciência negra sem reconhecer nossa própria origem é como existir sem memória. É repetir discursos prontos sem permitir que a história atravesse a pele, o sangue, a identidade. É tentar celebrar algo que ainda não se entendeu, que ainda não se reconheceu, que ainda não se honrou.
Consciência negra não é só uma data, não é só um post. É memória viva. É ancestralidade pulsando em cada gesto, cada corpo, cada território que guarda marcas de resistência. É olhar para nós mesmos e enxergar o que o mundo tentou apagar. É permitir que a história antes silenciada volte a respirar.
Sem consciência da própria origem, tudo vira superfície. Vira celebração vazia, vira homenagem incompleta. Porque só entende o presente quem se permite mergulhar no passado inclusive o que dói, o que pesa, o que foi arrancado.
Ter consciência negra é lembrar que somos continuidade. É saber que cada sorriso, cada conquista, cada espaço ocupado hoje é resultado de caminhadas que vieram muito antes de nós. É reconhecer que a memória é um direito, uma raiz e um farol.
Não existe consciência sem memória.
E não existe memória sem coragem.
Consciência exige memória.
Memória exige humanidade.
E humanidade exige coragem para ver, ouvir e honrar o que fomos, o que somos e o que ainda seremos.
Humanos — mas só completos quando não esquecemos de onde viemos.
20 de Novembro 2025
Hoje eu queria
Hoje eu queria poder não sentir.
Queria não precisar confessar a profundidade do que me atravessa.
Queria não dizer o quanto sinto falta,
nem admitir que tantas ausências ainda doem.
Queria poder afirmar que não sinto falta.
Queria poder jurar que não dói.
Mas dói.
E eu sinto.
E esse sentir me quebra por inteira,
mesmo quando parece me manter de pé.
Hoje eu queria poder não sentir,
mas é o sentir que me parte e, ao mesmo tempo, me revela.
O Peso do Silêncio de Quem Importa
Quando tudo parece distante, e o mundo vai se apagando aos poucos, ainda restam algumas poucas presenças que nos fazem tentar.
Poucas pessoas que, sem saber, se tornam o último fio entre a gente e o resto do mundo.
Aquelas com quem ainda conseguimos falar, mesmo que pouco, mesmo que sem força.
Aquelas que acham que são só mais uma, e não imaginam que são as únicas.
É doloroso quando o silêncio vem justamente delas.
Quando você cria coragem pra aparecer, pra responder, pra tentar existir de novo — e o retorno não vem.
Dói como se o universo confirmasse o que a mente cansada já sussurra: que talvez você não faça falta alguma.
Mas o que elas não sabem é que aquele “oi” que não veio, aquela resposta que não chegou, pesam.
Porque não era só uma mensagem — era um pedido de presença, um pedido de vida.
E então a gente se recolhe outra vez.
Não por desinteresse, mas por proteção.
Porque continuar tentando onde o silêncio ecoa é como insistir em respirar debaixo d’água.
Algumas conexões salvam.
Outras, quando se calam, deixam a alma sem ar.
Às vezes, não é falta de amor, é falta de fôlego.
De vontade de responder, de sorrir, de fingir que está tudo bem.
É cansaço de corresponder, de se explicar, de esconder o óbvio — que por dentro, o silêncio grita.
As notificações se acumulam, mas o desejo é de desaparecer.
Não por indiferença, mas por não saber mais como existir para tantos, quando mal consigo existir pra mim.
Não sou de muitos contatos, embora haja muitos que me amem.
Só não sei, agora, como retribuir.
E talvez isso precise ser entendido como amor também.
A presença que permanece
Há presenças que, mesmo ausentes,
seguem preenchendo.
Invadem uma vida de tal maneira que se tornam insubstituíveis.
E quando partem, deixam vazios tão profundos
que só a dimensão daquilo que um dia foram
poderia, novamente, preencher.
Eu sou uma construção de algo tão genuíno
que não sei onde me encaixar como peça.
Aonde abrirei espaço neste quebra-cabeça chamado vida?
Se faço parte dele, por que me deixas tão solta,
a ponto de sentir que não me encaixo?
Será que é porque ainda estou em construção
e minhas arestas não têm forma definitiva?
De fato, um dia estarei completa,
com estrutura firme e forte,
a ponto de me encaixar e encontrar a perfeita completude.
Mesmo genuína, buscando acertar,
ainda tropeço em meus próprios erros e medos.
Medos que me impedem de tentar,
até mesmo de errar ou de aceitar.
Eles me travam, me bloqueiam,
tomam minha mente e me conduzem
a lugar nenhum.
Será que, para me encaixar,
preciso me quebrar tantas vezes
até caber em formas
que talvez nunca foram feitas para mim?
Hoje choro.
Choro ausências, presenças partidas, histórias que ficaram pelo caminho.
Em prantos, tento entender a minha pequenez diante do mundo,
recapitulando a importância que tantas pessoas tiveram na minha vida,
o quanto eu me doei, o quanto construí silenciosamente nos outros.
Choro por tudo:
por aquilo que tive e não soube guardar,
por aquilo que nunca tive e ainda assim senti falta,
por aquilo que não terei e já dói como perda antes mesmo de existir.
O peito pesa, o coração tropeça,
os olhos se fecham para não ver e, ao mesmo tempo,
se abrem para dentro de mim, onde tudo lateja.
No fundo, chorar é o meu jeito de respirar o que sufoca,
de dar forma à dor antes que ela me consuma.
E, enquanto as lágrimas caem,
descubro que ainda há algo vivo em mim:
a capacidade de sentir — mesmo quando dói.
O Lar que Carrego
Não sou ponte para todos atravessarem, nem porto seguro para cada vento.
Meu caminho se mede em detalhes, e é nos detalhes que alguém se aproxima ou se perde.
Há quem tente pousar sem perceber que não me posso dividir; sou inteira, como rio que não aceita leito pela metade.
Entrego-me aos que vêm com coragem de tocar a profundidade, de sentir o invisível no silêncio de um olhar.
Minha presença não é apenas companhia, é chão e abrigo, sombra e luz, algo que se reconhece e se respeita.
Não se prende quem me encontra, mas se escolhe quem se atreve a navegar meu território de leveza e paz.
Quem insiste sem ver, desvia; quem entende, permanece.
Não carrego culpa nem fardo, carrego lar—porque lar não é lugar, é essência, e minha essência é rara.
E aqueles que merecem meu tempo, meu riso e meu abraço, sabem: o paraíso não se dá, se descobre.
Como te aconselhar senão pelas palavras que escutei aqui dentro de mim?
Hoje percebi que há coisas que não se resolvem com pressa. Existem silêncios que não aceitam atalhos, e processos que só o tempo sabe conduzir. Esperar, às vezes, é o único caminho, mesmo quando a ansiedade tenta nos empurrar para frente.
Aprendi que atropelar o ritmo natural das coisas traz arrependimentos depois. O que é forçado volta a cobrar paciência; o que é ignorado se transforma em peso. Permitir que a vida tenha seu próprio compasso é, no fundo, um ato de coragem.
Cheguei a essa conclusão depois de muito me ouvir. Talvez não sirva para você. Mas, se em algum momento essas palavras encontrarem eco no seu coração, já terão cumprido seu destino.
Nos detalhes habita a sutil beleza,
Que a olhos nus nem sempre se revela;
Só quem traz alma em seu olhar, com certeza,
Percebe o que a vida silenciosa sela.
O tempo passa e esconde sua leveza,
Entre gestos, suspiros e aquarela;
Mas o coração atento à sutileza
Transforma o instante em eterna janela.
Pois há segredos que só o sentir descobre,
E segredos que só o olhar sabe tocar;
A vida inteira é arte que se cobre,
E nos pequenos sinais vem se mostrar.
Quem vê com alma entende, não se encobre:
Nos detalhes, a beleza quer se doar.
Da minha alma para a tua
Da minha alma para a tua, eu deixo esse pequeno pedaço de luz que ainda resiste dentro de mim.
Não porque eu esteja sempre forte, inteira ou certeira, mas porque aprendi que mesmo os cacos guardam brilho.
Se eu pudesse te olhar agora, olho no olho, diria que a vida nem sempre é leve — e está tudo bem não ser. Diria que a gente se perde, cansa, duvida, desmorona. Que às vezes o mundo pesa, o peito aperta, e a esperança parece fina demais para nos sustentar.
Mas também te diria que existe algo invisível que insiste.
Uma força que não se vê, mas se sente.
Um recomeço que nasce silencioso, como quem pede licença.
Da minha alma para a tua, eu deixo esse abraço que não precisa de braços:
o abraço do reconhecimento.
Daquilo que dói, daquilo que pulsa, daquilo que ainda sonha.
Eu te desejo profundidade — daquelas que não te afogam, mas te devolvem ao teu próprio eixo.
Desejo descanso na tua mente, respiro no teu peito, leveza no teu passo.
E desejo que, mesmo quando tudo parecer escuro demais, você consiga perceber que existe um fio de luz costurando cada parte do seu caminho.
Se em algum momento você sentir que está só, lembre-se:
minha alma conversa com a tua no silêncio.
Não para salvar, não para ensinar,
mas para caminhar junto.
Porque no fim, somos isso:
um encontro de sobrevivências,
um eco de sensibilidade,
um gesto de presença.
Da minha alma para a tua —
que você continue existindo com verdade,
sentindo com inteireza,
e deixando no mundo a marca bonita
de quem sobreviveu à própria tempestade
e ainda escolhe tocar outras almas com cuidado.
O Peso de Sentir em Silêncio
É difícil lidar com a dor e, ao mesmo tempo, ter consciência dela.
Difícil lutar contra a vontade de desistir e, ao mesmo tempo, querer seguir.
Difícil segurar o próprio peso sem querer ser um peso para ninguém.
Eu sei o que carrego. Sei da minha dor, da minha luta. Sei que não sou o centro do mundo e que todos têm seus próprios problemas. Por isso, me contenho. Por isso, me silencio. Por isso, engulo as palavras antes que pareçam um pedido de socorro inconveniente.
Não quero ser fardo, não quero ser vítima, não quero estar sempre no mesmo lugar de vulnerabilidade. Eu tento. Eu busco. Eu me movimento. Mesmo quando parece impossível, eu me esforço.
Mas o que é mais difícil nisso tudo?
Talvez seja entender todo mundo enquanto ninguém me entende.
Talvez seja cuidar para não incomodar enquanto ninguém percebe o quanto dói.
Talvez seja ser forte o suficiente para lutar contra a dor, mas não o bastante para ser compreendida.
E assim sigo: entre a vontade de sumir e a necessidade de continuar. Entre o silêncio e o grito que nunca sai. Entre a consciência de tudo e a sensação de que minimizam.
Se soubessem quantas vezes ouvi palavras de onde menos esperava…
E como, em certos momentos, a vontade de morrer se torna um sussurro persistente só para que, no fim de tudo, percebam que era real – cada suspiro das palavras ditas e das que foram sufocadas dentro de mim.
Entre Luzes e Sombras: O Drama da Composição
A fotografia nasce do diálogo entre a luz e a sombra. Uma não existe sem a outra, e é justamente nessa oposição que o olhar encontra o equilíbrio.
A luz revela, expõe, dá forma ao que estava oculto. Já a sombra guarda mistério, sugere o que não se mostra por completo, trazendo profundidade e silêncio à cena.
Quando se encontram em harmonia, luz e sombra compõem mais do que uma imagem: criam emoção. É o claro-escuro que dá intensidade a um retrato, que faz um olhar falar mais alto, que transforma um cenário comum em poesia visual.
Não há fotografia sem sombra, assim como não há vida sem contraste. É nesse jogo que se constrói o drama da composição — a escolha de mostrar ou esconder, de realçar ou suavizar.
Fotografar é compreender que a luz precisa da sombra para existir em sua plenitude. É aceitar que beleza e verdade se revelam no contraste, onde os extremos se tocam.
Espontaneidade: A Alma da Imagem
Autoral: Jorgeane Borges
Retrato e Alma: O Olhar que Fala
No retrato, mais do que rostos, o que se busca é a alma. Um olhar, quando capturado com verdade, pode dizer mais que mil palavras — pode contar histórias, revelar silêncios, expor fragilidades e, ao mesmo tempo, guardar mistérios.
A fotografia de retrato não se limita à superfície. Ela atravessa a pele e chega ao invisível. É a tentativa de traduzir em imagem o que não pode ser tocado: a essência.
Por isso, diante da câmera, não basta posar. É preciso se permitir ser visto — mesmo que em partes, mesmo que nas frestas de um olhar distraído ou numa expressão que escapa sem querer.
O retrato verdadeiro não é apenas sobre quem é fotografado, mas também sobre quem fotografa. É o encontro entre dois mundos: o da lente que busca e o da alma que, por um instante, se deixa revelar.
Um olhar pode ser espelho, pode ser janela, pode ser abismo. No retrato, ele é tudo isso ao mesmo tempo.
Espontaneidade: A Alma da Imagem
Autoral: Jorgeane Borges
O Momento Decisivo: O Instante que Não Volta
A fotografia vive do instante. Há um segundo exato em que tudo se alinha: a luz, o gesto, o olhar, a atmosfera. É nesse ponto de encontro que nasce a imagem única, impossível de ser repetida.
O momento decisivo não é apenas técnica — é sensibilidade. É estar presente, atento, entregue ao que se revela diante de si. É confiar que, em meio ao fluxo da vida, há uma fração de tempo que guarda a eternidade.
Quando o clique acontece, não se captura apenas uma cena. Captura-se o irreversível: aquilo que não voltará a acontecer da mesma forma.
E é justamente por isso que a fotografia emociona. Ela congela a vida no exato ponto em que ela estava prestes a escapar.
A arte de fotografar é, então, a arte de estar pronto. Pronto para ver, sentir e decidir. Porque o tempo não espera — mas a imagem, uma vez feita, resiste ao esquecimento.
Espontaneidade: A Alma da Imagem
Autoral: Jorgeane Borges
Amanheceu.
E o dia, indiferente, abriu as janelas do mundo como quem não sabe da ausência.
As pedras da rua não guardaram os passos de ontem; a feira já se enchia de vozes, e o barulho dos sacos plásticos abafava qualquer lembrança.
Ninguém reparou que havia um vazio a mais no caminho — o vazio nunca chama atenção, ele apenas existe.
A vida não para para velar dores.
Ela mastiga rápido, engole em seco, e segue adiante como se nada tivesse acontecido.
O coração que ontem batia, hoje não pulsa mais, mas os relógios continuam impassíveis, ticando segundos.
É cruel: o tempo não tem luto.
Há quem espere que a memória seja abrigo, mas a memória também cansa.
Logo, o nome se perde no meio de tantos outros, o rosto se dissolve em poeira de esquina, e o silêncio se torna o único registro.
Tudo volta ao fluxo, como se nunca tivesse sido.
Talvez seja essa a verdade mais dura:
ninguém é insubstituível na pressa do mundo.
E, ainda assim, dói pensar que um gesto tão definitivo se apague com a mesma facilidade que uma pegada na areia.
A cada esquina da alma, existe um território sem mapa.
Lá não chegam bússolas, nem calendários, nem vozes apressadas.
É um lugar onde o instante se desfaz antes mesmo de ser lembrança.
Quem ousa atravessar esse espaço percebe:
não há chão firme, apenas fragmentos suspensos, como se o tempo tivesse desaprendido a andar.
E nesse intervalo, entre o que se é e o que já não cabe, o corpo respira uma ausência que não tem nome.
A vida continua do lado de fora — carros, pregões, crianças, a pressa de sempre.
Mas aqui dentro tudo corre em outra velocidade, como se o relógio tivesse se cansado.
Nada dói e nada cura, apenas permanece, num silêncio espesso que se confunde com ar.
É curioso como o mundo insiste em pedir certezas,
quando, na verdade, somos feitos de incertezas que se costuram mal.
Talvez o único gesto verdadeiro seja aceitar a própria incompletude,
como quem carrega uma cicatriz invisível que ainda assim pulsa, mesmo quando ninguém vê.
Eu deixo a maré subir até cobrir tudo.
Não me apresso a segurar o que a água leva.
Deixo que o sal lave o que não serve mais,
mesmo que, por um instante, pareça que nada reste.
Quando a água recua,
vejo o que brilha no fundo:
fragmentos de conchas, pequenos lampejos de vida,
tesouros que só aparecem depois da tormenta.
Não é preciso contar o que a corrente arrastou.
Basta o que ficou,
a beleza simples que resiste
e que só se revela quando o mar se acalma.
Orações Escritas
Entre a Essência e o Silêncio
Em minhas orações, não consigo Te pedir muita coisa que não seja pela minha essência, minha alma e meu caráter.
Sei lá… às vezes acho que não sou merecedora; que pedir pode ser abuso ou atrevimento.
Que no meu quase nada há tanto, que mesmo em meio às minhas necessidades, eu vejo que muito eu tenho — e Te louvo e agradeço.
Eu olho o mundo à minha volta e percebo muitos com tão menos, com quase nada.
Digo isso de forma material, espiritual e até na saúde física.
Mas as minhas dores são invisíveis.
Tenho até vergonha de necessitar ou pedir algo diante da realidade do mundo.
Vivo esse conflito dentro de mim, onde a razão quer sufocar as minhas dores.
Ah, Deus, eu já pedi tanto para ser invisível.
Para que me desviasse dos olhos maus, dos caminhos tortos e das línguas maléficas.
E, de certa forma, tenho me tornado invisível de fato.
As dores da alma não sangram, não têm odor, não podem ser tratadas com curativos.
Por isso são machucadas e reabertas diariamente — como aquele dedinho do pé que, uma vez ferido, tudo parece afetá-lo novamente.
E quem pode dizer que essa dor não é real?
Só porque não é visível, não deixa de existir.
Se cada um cuidasse de si, investindo tempo em curar as próprias dores, em nutrir os próprios sonhos e conquistas, o mundo seria mais leve.
Haveria menos interferência, menos conflito.
Mais paz.
Mais tranquilidade.
