Poema Nunca te Esquecerei
Nunca essa luz
por ver-me assim tão verme
por desfazer-me
assim neblina,
por conduzir-me sem rima,
mudo acalanto
nina esta ausência
este fazer ruir
nesta desgravidez
neste desencanto,
ausência...
DOR
Nunca soube o que era dor,
A não ser a dor que dói n’alma,
A dor de não doer, mas de padecer de dor,
Mas um dia conheceu o prazer
E as suas delícias...
E a dor do desprazer
Lhe cobraria por toda malícia
E pode perceber
Que a dor do desprazer
Doía mais do que a dor de padecer
E então conheceu o amor
E a dor de amor doía mais
Que a dor do desprazer
Eentão conheceu a paixão
Que já doia antes de doer
Que já doía antes de ser dor
E sentiria a perda antes de perder
Que morreria sem desfalecer
Porque nem sempre paixão vira amor...
Saldade é essa coisa salgada que me diz nunca mais...
Saudade é esta coisa doce que se avoluma
e te traz pra bem perto de mim...
PARTES
A minha parte triste nunca parte,
A minha parte alegre é deserta,
Aminha parte de luz povoa a triste,
A minha parte alegre inexiste...
O que eu tenho de todo as vezes se parte,
Tem parte que as vezes se encorpora,
E sentimentos estranhos apavoram
Dividindo o meu ser em muitas partes
A parte boa de mim alaga desertos
No nordesre do meu ser tem secas iminentes
Gente morrendo de fome, muitos espectros
Arrogantes e outros subservientes...
algum dia me falaram em lucidez insana,
em insensatez sensata,
nunca entendi, jamais entenderia;
eu colhia pétalas de estrelas
que caiam no terreno baldio na frente da minha casa,
a boca roxa de jamelões ou a língua azeda de tamarindo
que as safras me proporcionavam além da cerca de arame farpado;
eu ainda não tinha sonhos,
eu tinha a leveza das pipas e o mistério dos piões
e percebia o calor e as matizes da manhã,
extasiado com esses milagres sem perceber os seus efeitos,
mas para isso eu tinha os amendoins torrados ou confeitados,
tangerinas nas portas das quitandas
como um adorno mágico e perfumoso aos dias da minha adolescência.
Não se fazia projeto para a felicidade;
a felicidade estava nos sorrisos e nos olhares,
nas canções românticas que cantavam o amor
nas radiadoras das periferias, que alimentavam os sonhos
e a necessidade de sonhar; então eu sorria fácil
perdido nas divagações da minha mente,
leve e encantado com as cores dos balões
e o rebuliço aconchegante das feiras livres do meu bairro;
sua gente de olhares meigos e risos fáceis
nas manhãs luminosas que clareavam
os dias da minha adolescência e acalantavam os sonhos da minha vida
as vezes penso que sou triste,
as vezes não penso em nada,
as vezes tenho saudade do que nunca tive,
mas era tudo o que eu tinha
quando eu não tinha nada...
agora nem tenho essa ilusão...
Eu teria feito qualquer coisa por você
A prova disso foi tudo o que eu fiz
Mas você nunca fez o mesmo por mim
IMORTAL ATÉ MORRER
O tempo é uma tampa sobre o passado. Ninguém nunca retorna dessa rampa eterna. Sequer acampa sobre o presente, pois esse logo não é. Vira passado, e o presente já é outro. Somente o futuro continua lá; sempre lá, desafiando nossa caminhada.
Uma vida é simplesmente o joio por entre o trigo, no campo das vivências que a cada dia nos impõe. Cá comigo, afirmo que a mesma é joia rara. Se acaso nos causa uns arranhões, alguns graves, morrer não ganha minha questão. Não tem como ganhar.
É que o mundo é franco. Preto no branco. Mas muitas vezes dá um branco em meu preto e não resta fundo. Mesmo assim vou à frente, porque o tempo não pode me tampar. Tomei a decisão de apostar na imortalidade que o sonho empresta.
No fim das contas, nossa imortalidade é provisória. Por isso temos que aproveitá-la e não morrer enquanto a morte não chega.
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nestes tempos em que se alardeia mais do que nunca o ato de educar, fracassamos exatamente por tentarmos fazer num ato o que exige de nós um processo...Um interminável processo.
MULHEROLOGIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se a Rosa nunca
foi Margarida,
nem tia Flora
a prima Vera,
minha Esmeralda
sequer Luzia...
Não tive a Glória
de ter Socorro
e quase morro
pra ter Vitória,
porém o tempo
a tudo Sara...
Nem tudo é Dulce,
o mundo amarga,
mas tenho fé;
a Norma é simples;
viver a Diva
como Eva é.
ADULTERADOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Conheço adultos que nunca se dão conta de que a conta está posta, feito promissória vencida. O tempo voa. Suas loas não pagam mais a vida, nem o mundo circula em seu redor, como antes parecia fazer. Parecia. Não girava.
São gastos e velhos moços. Meninos e meninas que roem ossos dos dias que já não são seus, nas esquinas cruéis de seus outonos. Eles tanto dão adeus e despacham esses dias, quanto se agarram aos despachos, não querendo ir. Não querendo largar a barra da saia do passado que ainda querem presente. Por isso envelhecem mimados, disfarçam as rugas com gargalhadas postiças, farras forçadas, baladas nas quais são como peixes fora d´água, mas na busca insana de uma inclusão que já não lhes cabe. Cresceram sem crescer, apodrecem nos galhos onde não aceitam ser maduros e formam famílias sem saber por que; pra quê.
E esses adultos que não conseguem acompanhar a idade, de repente abandonam seus rebentos ou agem como se fossem filhos dos próprios filhos. Roubam seus momentos, anos e vidas, e querem que a família faça como o mundo já não faz: gire ao seu redor; viva exclusivamente para eles e satisfaça todos seus caprichos.
Por indiferença ou abandono, este mundo está cheio de crianças que serão adultos que nunca foram crianças... e que por isso, nunca serão adultos... a exemplo dos adultos que agora os adulteram.
BREVE CARTILHA TEATRAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
De fato exagere,
só nunca exagere
com exagero.
Para temperar,
procure saber
se pega tempero.
Tenha gestos grandes,
mas não mania
de grandeza.
Quando for sutil,
seja bem sutil;
sem sutileza.
PAI NOSSO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Pai nosso,
que nunca mais
nos deu a paz
da lucidez
no seu olhar...
Que ao nosso afeto
prefere as ruas,
confunde as horas
e fecha os dias
virando luas...
Pai nosso,
que está no bar,
faz muito tempo
que a nossa casa
não é um lar...
LIVRE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Seja livre. Livre o bastante para nunca precisar fugir de quem você é.
POR NADA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O nada nunca existiu,
se nada vezes nada
ou sobre nada,
nada seria...
Nem haveria ninguém;
alguém me responda,
se for capaz,
e de boa fé...
Afinal nada é nada,
e nada mais...
é ou não é?
MENTALIDADE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca tive um mentor. Nem na mais tenra idade, quando somos suscetíveis aos comandos de quem admiramos. Em toda minha vida sempre admirei pessoas, tive meus ícones, mas não fui um fantoche dos caprichos de quem quer ter alguém para incutir seus conceitos, preconceitos e complexos dourados de virtudes.
Mentores dominam, vigiam, fazem aparas intermináveis e decidem a quem podemos admirar; quem pode ser nosso amigo e quem deve ser desafeto. Nosso gosto apurado é aquele que "bate" com os seus, e teremos constantemente que optar entre eles e alguém que os incomode com algum sinal de vida mais inteligente. Isso ocorre porque os mentores sabem que seus soldados podem se tornar livres, ampliar seus horizontes e as relações humanas, ou se debandar para os campos de outros mentores.
Sempre tive amigos. E nunca tive preguiça de ser quem sou sem as escoras dos donos da verdade ou dos pontos de vista. Como nunca fui, jamais me aceitei mentor nem mestre de quem quer que seja. Prefiro ser um amigo. Dar uma dica e deixar à vontade. Apontar um caminho, se solicitado, mas deixar explícito que existem outros, e quem sabe, um melhor. Opinar, sabendo e fazendo saber que a minha opinião é humana, mesmo que técnica; e por isso, passível de falha.
Quem é meu amigo pode ser amigo do meu inimigo. Quem me admira pode admirar a quem deprecio, a quem me faz concorrência e talvez ameace o meu destaque. Se alguém me tem em alta conta, não me aproveito para engaiolá-lo e ter seu canto só para mim, seja por admiração, temor de que um dia me supere, fique livre ou caia nas garras de outro dominador de notoriedades.
Não; não tenho... nunca tive mentor... tenho mente.
SEDENTARISMO DE AFETO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um odor de foi bom; mesmo assim nunca mais;
uma dor de partida que me parte ao meio;
meio termo completo a se ocultar de nós
onde a voz faz de conta que não diz aos olhos...
Sempre falta coragem quando chega o fim,
dizer sim à verdade requer exercício,
mas a nossa preguiça não deixa fazê-lo
e nos prende à promessa do velho amanhã...
Nosso amor sedentário acumulou gordura,
ganhou peso e tontura; prenuncia infarto;
se não partes não parto nem somos presentes...
Somos cais da saudade que sequer teremos
nesse mar de lembranças que o rancor polui;
já nos demos adeus e não sabemos disso...
PAZ DE SER QUEM SOU
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca me agradou essa ideia de vencer por desafio. Para mostrar ao meu redor o quanto posso e confio em providências que vão além dos meus dotes humanos. Também não me obrigo a lutar por autoestima. Muito menos por palavras, olhares de apreciação, troféus e comendas. Ganho e perco em meus desempenhos, com projetos que não são de vitórias. São projetos de vida.
Não combato, em nenhuma hipótese, aqueles inimigos de plasma ou neon, nem os mais próximos, que são de massa corpórea. Às vezes me defendo, mas não exatamente guerreio por um lugar no mundo. Sou trabalhador; não guerreiro. Vivo e creio na paz de ser quem sou. Jamais fui campeão nem perdedor. Dor dos outros não me realiza. Quero apenas o dom de me aceitar.
CAMPOS DE MINH´ALMA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca fui um guerreiro; prezo a paz,
mas ainda estou vivo; ainda sonho;
realizo ilusões de mundo e vida
e me ponho a caminho do amanhã...
Não supero inimigos nem os tenho,
porque vale o que sinto, e sou assim,
há um sim entre os campos de minh´alma,
que não são de batalhas e torneios...
Tenho mãos desarmadas, peço e dou,
jamais tive ou causei qualquer despeito,
sou afeito às conquistas em comum...
Não me aprazem troféus, medalhas, faixas,
caixa, rótulo, título, renome
ou pronome de fino tratamento...
