Poema Maos de Semeadora Cora Coralina

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►Amor Mitológico

Amar-te é como uma brisa de verão
Indescritível, mas que aquece meu coração
Buscar um senso racional é inútil
Te amar se provou algo surreal
Chamem-me de estúpido
Teus olhos são reveladores, e misteriosos
Seus lábios são pecadores, e impiedosos
Tua pele és macia feito a neve
Te farei versos para entreter seus ouvidos
Lhe presentearei com um texto lírico
Peço-te, entretanto, teu sopro sobre meus ombros
Prometo transformar o céu em um oceano
Puramente para lhe mostrar o quanto lhe amo
Que o que sinto desafia o próprio mundo,
Que desceria ao Tártaro para ficarmos juntos
Serás tu a Perséfone sequestrada?
Se sim, eu lhe resgataria, e a traria de volta a sua casa.

Meu amor será um colosso, feito Tifão
Farei de tudo para sentir suas mãos
Levantarei o mundo, como Atlas, o titã
Com o seu carinho, faria flechas para o Cupido
E de Hefesto eu me tornaria um pupilo
E para ter seu brilho, de Hélio me tornaria amigo
As irmãs nos reservaram um belo destino,
E seremos abençoados diante do Monte Olimpo.

Por ti eu furtaria o fogo de Prometeu
E o brilho dele seria somente teu
Se pedir-me, lhe daria o raio de Zeus
E os céus seriam somente seus
Dei-me um sorriso, e o mar se contorcerá em redemoinhos
Avisando para o deus marinho,
Que tu tens o poder de ter tudo aquilo.

Faria mais que doze trabalhos
Por ti eu enfrentaria o Leão todos os dias de março
Tudo para ficar ao teu lado,
E jamais refletiria se o meu sangue fora desperdiçado
Pois você seria Helena de Troia, e eu um príncipe flagelado,
Por fim, subiria até os Alpes
Apenas para gritar que estou apaixonado.

Choro!

Sem ninguém perceber
Pois é choro da alma
Que ninguém pode ver

Choro!

Por não estar com você
Por sofro por ti
Sem ninguém perceber

Choro!

Não por você
Mas por aquilo que sinto
Sem você perceber

Choro!

Não por causa de dor
Mas choro por algo
Que alguns chamam de amor...

Ao Meu Amigo

Meu amigo eu sei as dores que tu passas
Quantas dúvidas amargas ganham o teu coração
Criam forças nas mordaças dos teus medos
Te sufocando a escuridão dos teus segredos
mas tens que saber que contas comigo
mas tens que saber também já passei por isso
mas eu sei que tudo passa,

Deus te leva em Suas mãos
e eu te levo meu amigo
dentro do meu coração

mas tens que saber que contas comigo
mas tens que saber também já passei por isso
mas tudo vai passar, mas tudo passará, eu sei que vai
Estarei ao teu lado para te ajudar a ver além.

O Tempo (à luz da minha vida)


Poema – Por Geórgia Palermo


A vida escorre pelas mãos
enquanto achamos que ainda há tempo.


Quando se vê, os dias viram anos.
Quando se vê, o cotidiano vira memória.
Quando se vê, aquele que caminhava ao nosso lado
passa a morar na saudade.


Eu amei sem pressa,
mas o tempo teve pressa demais.


Foram quase quarenta anos
de fé, amor e cumplicidade.
Uma vida construída no simples,
nos gestos pequenos,
na amizade que sustentava tudo.


Quando se vê,
o marido vira lembrança,
o pai vira exemplo,
o amigo fiel vira ausência presente.


Ele foi abrigo,
provedor,
pai maravilhoso,
amor fácil de amar.


Talvez eu nunca mais encontre
alguém tão inteiro,
tão companheiro,
tão amigo.


E então o tempo me ensinou,
da forma mais dura,
que nada deve ser adiado.
Nem o abraço.
Nem o “eu te amo”.
Nem a presença.


Hoje entendo:
o amor que foi vivido não se perde.
Ele apenas muda de lugar
e passa a viver dentro de nós.


A única falta irreparável
é a do tempo que não volta.
Mas o amor…
esse permanece.


Nota de memória:


Este poema nasce da minha própria história.
Fiquei viúva no dia 31 de dezembro de 2021, após quase seis meses de internação do meu marido, em decorrência de complicações da Covid. Foram quase 40 anos de casamento, construídos com fé, amor, cumplicidade e amizade.


Ele foi um pai maravilhoso, um provedor dedicado e um amigo fiel. Um amor fácil de amar.
Escrevo estas palavras como quem guarda aquilo que o tempo não consegue levar. 🌿🤍

ARTE POÉTICA

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

Para mim, o importante em poesia é a qualidade da eternidade que um poema poderá deixar em quem o lê sem a ideia de tempo.

O poema não é feito dessas letras que eu espeto como pregos, mas do branco que fica no papel.

O amor deve considerar-se como um grande poema, cujo primeiro canto é o casamento.

A poesia é uma criação da cultura, mas esta deve permanecer invisível no poema.

RECEITA DE MULHER
(Vinícius de Moraes)

Para ser uma grande mulher..!!!

É preciso que haja qualquer coisa de flor......
Que seja bela.....
Que seja sem ser.....
Que se reflita e desabroche no olhar dos homens.....
Que seja leve como um resto de nuvem, mas que seja uma nuvem.....
Que dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos ao abri-los não mais estará presente.....
Que surja, não venha; parta, não vá.....
Que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente....
E que em sua incalculável imperfeição constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação........

O grande livro que sempre me valeu e que aconselho aos jovens, um dicionário. Ele é o pai, é tio, é avô, é amigo e é um mestre. Ensina, ajuda, corrige, melhora, protege. Dá origem da gramática e o antigo das palavras. A pronúncia correta, a vulgar e a gíria.

Cora Coralina
Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. São Paulo: Global Editora, 2012.

Nota: Trecho do poema Voltei.

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Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do Passado antes que o Tempo passe tudo a raso.

Cora Coralina

Nota: Trecho "Ao leitor" - epígrafe do livro "Poemas dos becos de Goiás e estórias mais". Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965.

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⁠Poeta é a sensibilidade acima do vulgar.
Poeta é o operário, o artífice da palavra.
E com ela compõe a ourivesaria de um verso.

Cora Coralina
Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. São Paulo: Global, 2012.

Nota: Trecho do poema O poeta e a poesia.

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Reconhece teu erro.
Mesmo que custe muito,
ao teu orgulho e vaidade.

Jamais justifique o errado.
“Fulano foi o culpado.”
Arrepender e reparar
é o caminho certo
da Paz espiritual.

Cora Coralina
Vintém de cobre: Meias confissões de Aninha. São Paulo: Global Editora, 1997.

Nota: Trecho do poema Aprende…

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Sou espiga e o grão que retornam à terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos têm relances de enxada, gume de foice
e o peso do machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.

Cora Coralina

Nota: Trecho do poema "A gleba me transfigura", do livro "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha". 6ª ed., Global Editora, 1996, p.109.

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Inserida por portalraizes

Este livro
foi escrito por uma mulher
que fez a escalada da
Montanha da Vida
removendo pedras
e plantando flores.

Cora Coralina
Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo: Global Editora, 2014.

Nota: Trecho do poema Ressalva.

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Inserida por pensador

⁠Poeta é ser ambicioso, insatisfeito,
procurando no jogo das palavras,
no imprevisto do texto, atingir a perfeição inalcançável.

Cora Coralina
Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. São Paulo: Global, 2012.

Nota: Trecho do poema O poeta e a poesia.

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Inserida por pensador

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências do presente.

Aprendi que mais vale lutar
Do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

Cora Coralina
Vintém de cobre. São Paulo: Global, 2012.

Nota: Poema Ofertas de Aninha (Aos Moços).

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⁠Mas... ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo.
O medo que todo homem sente
da mulher letrada.

Cora Coralina
Meu livro de cordel. São Paulo: Global Editora, 2012.

Nota: Trecho do poema Amigo.

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Inserida por pensador

⁠A vida é uma flor dourada
tem raiz na minha mão.
Quando semeio meus versos,
não sinto o mundo rolando
perdida no meu sonhar
nos caminhos que tracei.

Cora Coralina
Meu livro de cordel. São Paulo: Global Editora, 2012.

Nota: Trecho do poema Variação.

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Inserida por pensador