Peso
"Não é prazer, é fôlego.
Escrevo para que o peso diminua,
pois trago oceanos na garganta
e apenas gotas na fala.
Estranha ironia a de ser ponte
que deseja o encontro,
mas não conhece o mapa
para traduzir o próprio abismo."
Nenhuma tempestade apaga o sol interior, a chama é selvagem, eterna, mesmo sob o peso sufocante das nuvens mais densas.
O passado não me arrasta, me arma, não é peso, mas fundação, é raiz indestrutível da árvore que sou.
Minhas promessas têm pé e braço, faço o que digo e digo o que penso, a palavra voltou a ter peso comigo.
Quando somos verdadeiramente doação, tornamos a vida do próximo
mais leve, ao partilhar-lhe o peso que o sufoca.
Renasço das quedas como quem recolhe brasas e delas forja amanheceres. Carrego o peso do mundo nas costas, não por orgulho, mas porque sei que dignidade se sustenta no esforço. Não escrevo para o aplauso, minhas palavras apontam as feridas que pedem cura. Ao doar-me, faço habitável a vida do outro e, nesse gesto, reconstruo a minha. Sigo insistente, acendendo luzes onde o silêncio impera, transformando dor em exigência de justiça e sentido.
Nem tudo o que pesa é fardo, às vezes é missão. O amor não retira o peso, mas dá sentido ao que se carrega. A leveza vem quando entendemos que até a cruz tem propósito.
Não é a diminuição da carga, mas a certeza inegociável de não estar só que alivia o peso e me permite seguir.
