Palavra Sábia
A história da nossa vida
Poderia ter sido contada
A partir de simples olhares
Coisa que sabemos decifrar
Desde cedo
Colares de mau olhado
Olhos que causam medo.
Passagens bonitas
Belas, muito belas
Todas elas tiveram seu tempo
Num passado que ficou
À deriva de olhares
Passagens fraternas
Olhadelas furtivas
Olhos aos pares
Esquivas
O brilho que se apagou
Num olhar do passado
E que nos olha de outro jeito
Entre todos
Somente um olhar
Jamais se apagaria
O brilho do amor eterno
Pois amores eternos
São olhos tristes
Olhando pro par de olhos
De quem insiste em não os ver
E vão brilhar mais além
Das estrelas no firmamento
Eterno pranto
Sem retorno e sem apelo
Porquanto seria preciso
Olhar em nossos olhos
Para vê-lo.
Edson Ricardo Paiva.
Nos momentos
Em que penso
Nas coisas que penso
Chego mesmo a pedir
A opinião do silêncio
Que se cala
Ouço a voz do vento
Vejo a sombra que vem lá de fora
O gato do telhado
Nada fala mais alto nesse instante
Que a luz da Lua
Sobre o desencanto
que me causa a noite
Não existe mais
A beleza do mistério ou espera
Quisera ...não há mais nada além
Que o Fogo da vela, por demais tremulante
Mas se a gente olha direito
De fora pra dentro
Pode ser que seja a hora
De cerrar pra sempre essa janela
E mandar a Lua ir embora
Aqui dentro do peito
A opinião do silêncio
Faz sentido e fala mais alto
E num ato propenso à mudanças
Quando a Luz me alcança
Há essa dança bruxuleante
Essa sombra felina
Essa bagunça progressiva
Ao mesmo tempo
Mansa e silenciosa
Coração deserto
A vida desmorona
E se torna em ruinas
Eu penso em silêncio
No ruído ausente
A conclusão é nada
Sozinho nessa confusão
Fraterna
Mas que não termina
A falta de paz
Que a quietude tanto traz
Há essa eterna madrugada
Em que tornou-se a vida.
Edson Ricardo Paiva.
Hoje eu não tenho nada
E mesmo se hoje eu tivesse
Não sei se saberia o que fazer
Assim como fui fazendo sem saber
As coisas que fiz
Agora eu entendo que não sabia
A vida nunca depende somente
das coisas que a gente faz
Muito menos do que deseja
Cada vida é um mundo
E todo mundo, igual a mim
Também não tem nada
Além da ilusão
Em ter aquilo que não tem
Mas poucos mais
Além de quase ninguém
Procura perceber
Que por mais imagine ser
Não passou de possuir uma mera ilusão
Uma espera ansiosa
Uma palavra mal falada
Um egocentrismo
A busca por algo além
Que somente os levou a nada
E hoje, sem nada
Igual a mim
Dentro de um Universo vazio
Eu olho de longe posso ver
Se conseguisse, eu poderia rir
das promessas sem sentido
Que seduzem
As mentes de quem somente
Tornou a vida a cada dia mais vazia
devido às próprias decisões
Eu hoje não tenho nada
Mas posso ver e sentir
Tamanha aflição
de quem um dia pensou ter tanto
Enquanto perdia
Por obra das próprias mãos
O que um dia pensou ter de sobra
A vaidade é uma cobra de duas cabeças
e destila o veneno que te mata
Na saudosa visão do que se foi
Que começa a doer
A cada palavra e cada mentira vã
A cada vez que a própria ira
Te faz cair de joelhos
E sentir vergonha
Em olhar o próprio rosto
No espelho de cada manhã.
Edson Ricardo Paiva.
"Sempre será perdida
Toda força despendida em vão
Pra saber onde se quer chegar
Não é preciso ir até lá
Antes, aprenda a medir a distância"
Edson Ricardo Paiva
"Olhe ao seu redor
Descubra o que espera do mundo
Quem não sabe direito o que quer
Na verdade não deseja nada
E vem recebendo da vida
A vida inteira
A única verdade que lhe cabe"
Edson Ricardo Paiva
Meu espírito de pássaro
Passou perdido por algum lugar
Faz tempo que não sabe aonde
Um mísero passarinho
Um papagaio cuja linha se rompeu
Num atalho, um retalho de vida
O olhar perdido
Acatando às vontades da ventania
Meias verdades, volta e meia
Vagueia ao Sol do Meio-dia
Implorava por um poleiro
Um sorriso de pranto, um canto qualquer
Um galho pra poder pousar
E cantar por um dia inteiro
e deixar o seu rastro perdido
Esquecido na linha
do horizonte que se rompeu
Essa vida era minha
Esse pássaro era eu.
Edson Ricardo Paiva.
Tem horas
Que não interessa
Saber ou dizer o que é
Tem horas
Que o coração quase chora
E outras em que quase
Hora em hora, frase em frase
O jogo muda
A vida oferece ajuda
Alguma coisa quase sempre
Assume o papel de coisa
E precisa ir embora
E aquilo que fica aqui
Causa rica alegria
E assim
Tem dias em que a gente ri
A risada mais sincera desse mundo
Não espera mais nenhum segundo
E quando dá essa risada
É só de alegria
Jaz o que ficou pra trás
No tempo do nunca mais.
Edson Ricardo Paiva.
Nada
Nesta vida ou neste mundo
Nos pertence
Apesar de tudo que fazes
Ou que sabes
O sapato apertado
A alegria que não te cabe
Cada dia ... cada segundo
Os olhos inchados de tristeza
A promessa vazia
A gula engolida
A ira, orgulho, a vingança
Voz desafinada
Os passos errados
Na dança do dia-a-dia
Melodia do tempo
A travessa de salada
Cada passo apressado
A cara amassada de tanto descanso
Nem mesmo o descaso
Que usam pra te afligir.
Eu, quando em criança
Vencia a corrida
E pensava que os pés eram meus
Cada ordenado recebido
Por cada trabalho malfeito
Eu fazia de conta que era meu
Assim como tudo na vida
Cada elogio, sincero ou fingido
Que eu hoje em dia não mais eu espero
Por cada poema mal escrito
Seja ele feio ou bonito
Eu pensava ou fazia de conta
Que eram meus ou pra mim
Assim como cada coisa errada
E cada coisa na qual eu não quero pensar
Cada marca de pés sujos
deixados ao longe na estrada
A comida que ficou salgada
Cada culpa atribuida
A palavra que não foi escrita
As contas que não davam certo
Nas lousas da infância
Nas coisas da vida
A pedra que não alcançou a vidraça
Na verdade não passou nem perto
E agora eu não sei
Se foi erro
ou se errar
foi o certo
Cada mentira mal contada, que a mãe descobria
E a dor das chineladas que levei da vida
Agora eu sei
Somente as dores e as risadas são da gente
Não se leva culpa
Nem talento
A vida é uma mera ilusão
Arrastada no vento
Um dia você olha tudo isso
E fica feliz ou se arrepende
O mundo ensina coisas
Lições que jamais se aprende
Mas um dia ouve tocar
O sinal de saida
E percebe, no apagar das luzes
Que da vida
Não se leva nada.
Edson Ricardo Paiva.
A maior alegria que existe
É a de não saber-se triste
Receber calor do Sol
E boas recordações
Que haverão de vir no inverno
Receber de bom grado
A tudo que vier
Tristeza há de vir também
E passar
Vai passar sem ser vista
A eterna alegria
Não é algo que se conquiste
Se algum dia que a tristeza vier
Eu me agarro à alegria
Que estiver mais perto
Decerto essa vez
A tristeza nem vai perceber
O quão triste me fez.
Edson Ricardo Paiva.
Poesia Sutil.
Eu penso ser muito bom
O fato de a flor não saber
Pois, se a flor dedicasse atenção
À tamanha admiração
daquele que a fita
Pode ser que aconteceria
de a flor então desejar
Querer ficar mais bonita
A estranha rareza a que se busca
Alçada no ver da vaidade
é beleza irreconhecível
Pois o olhar da cobiça a ofusca
Conduzindo almas perdidas
Nos caminhos da ilusão
Felicidade ... rara; querida!
Pobre plágio de alegria
A transforma num fácil jogo
E vem a falsa impressão
de estar dando as cartas
Farta-se em vê-las perdidas
Difícil esse jogo da vida
Perceba a felicidade
em andrajos vestida
Fingindo desenxabida
Morando na casa ao lado
Simplicidade é ter um valor
Invisível aos olhos de ver
Que nem ao menos pára para iludir
Infinita ... reluzente
Milhões de vezes mais cara
Real essência da vida
Modesta, invisível
Contrasta ao que não se basta
Do desejo em possuir
Àquilo que a alma enleva
Palavra jamais aludida
Uma entrave obsessiva
Insistente em mentir pra verdade
Suave arremedo, perdida
Enquanto a beleza mais bonita
É o fato de a flor
Ser bela sem o saber
A beleza mais bela da vida
É aquela que a gente não vê.
Edson Ricardo Paiva.
Eu penso
Nas cores dos pensamentos
Quando poucos de nós as vê
Penso também
Nem sabermos dizer
Sobre as cores que as coisas tem
Mesmo se acaso as virmos
Penso ser muito triste
Ter o tempo se arrastando
De vez em quando
Uma estrela cai lá do Céu
Ninguém faz um pedido
Perdendo pra sempre
O tempo que foi perdido
As cores estavam lá
Nuvem branca passou
Sete Céus pintados de azul
O vermelho do pranto
Uma gota prateada, ali num canto
A luz se apagou
Sem traduzí-la as cores
Nem calor pra secá-la
Só cinza-escuro
dos pensamentos a conduzir
Em brancas nuvens
Tantos pés, onde não querem ir
As cores dos pensamentos
Finalmente prosperam
Em algum momento da vida
Assim o quiseram.
Edson Ricardo Paiva.
Não se pode segurar o tempo
É difícil saber
A maneira certa
de prender a vida
Assim como a tudo
Que nela houver
Mas, numa tarde qualquer
Acontece de olhar
O vento e a chuva na janela
E guardar no coração
Que nem magia
A chuva que caiu naquele dia
Mesmo sem perceber
A gente vai vivendo
E não enxerga o quanto é triste
O olhar insistente
A buscar somente
O brilhar da prata
Um tosco brilhar que ofusca
A arte da luz do Sol
Que parte e que se reparte
Numa humilde bolha de sabão
E flutua leve, ao sabor da brisa
Mas a pressa de viver
Não deixa ver
Que é dessa simplicidade
Que a vida precisa
E vai ficar eternamente
Se a mão da gente
Pesar feito pluma
Só então se aprende
A repartir a vida
Igual o brilho da espuma
Parte a luz
Com força suficiente
Pra dividi-la e deixá-la ir
Muito tempo se perde
Até que se perceba
Em quanto poder existe
Quando a força da mão é leve
Então
O dom de prender a vida
E vivê-la feliz
Grato a tudo que nela houver
Veja que não importa
O quão breve ela seja.
Edson Ricardo Paiva.
"Se um pobre pode sentir-se rico
Sabe ser mais rico que um rei que não sente nada"
Edson Ricardo Paiva.
Procura.
O real saber
Não é saber onde fica
O lugar em que a gente se machuca
Quando vai lá
...e por isso não ir
Nem tampouco saber
Como não se machucar
Bom mesmo é não saber.
Desconhecer que o dia renasce
Pois o mesmo dia
Nunca existiu duas vezes
Pra isso é preciso sorver
Um novo cálice de vida
Assim que o dia amanhece.
Entender
Que não existe um novo amanhecer
Pois, quase sempre
Amanhece de novo
Mas que nada
Nunca é novo eternamente.
Guardadas as devidas proporções
Olhar um pouco além
Do lugar onde a rua termina
Comer doce de Lua
E quando precisar
Parar um pouco e descansar
Se possível
Que seja lá no alto da colina.
O calor do asfalto incomoda
E se acaso a roda gira
Que seja uma roda gigante
Pra poder passar a vista
Lá do alto do mirante.
Cada segundo de vida
Que se vive neste mundo
Dura somente um instante
O Mundo gira
O tempo passa
O giro é pra frente
Se a gente olha em derredor
Lugares iguais
São iguais
Por mera opção de escolha
Nada mais.
É preciso aprender
Que cicatrizes
Não são cura
Antes, lembranças
de lugares que não guardavam
Aquilo a que se procura.
Existem noites claras
Manhãs escuras
E nunca é tarde pra saber
Que apegar-se à dor
É algo que ninguém queria
Mas um dia, sem perceber
A gente jura.
Edson Ricardo Paiva.
Hoje
Eu gosto de saber
O quanto é curta a vida
Longe
Encosto meus ouvidos
Na parte estreita
Escondida nas dobras do tempo
Pois o tempo sim, se curva
Estronda uma trova
Um dobrado
Apito de trem
Um grito que me vem
do outro lado
Prova
Que apesar de ser
Curta a vida
A vasta estrada continua
Basta saber
O túnel
Que deve ser atravessado
depois da próxima curva
Onde existe um rio de águas turvas
Ou uma linda alameda
Que culmina
Em límpida queda d'água
e envereda
Noutra estrada
Esta, bem colorida
Onde se vive
Pro resto d'outra vida.
Edson Ricardo Paiva.
Sobre o Sol que nos encobre
Hoje eu queria saber
Que será que ele sabia
Estarmos nós aqui
Ou será que ele só alumia
Sem sequer imaginar
Sobre a poesia que nos inspira
A luz derramada
Por sobre os nossos dias
Os caminhos da vida
E os desalinhos das trilhas
E, que apesar de tanta luz
Não sabia de nada
Somos nós, tão pequenos
Que apenas nos cabe viver
Sem nunca...jamais conhecer
O tamanho do alcance das suas vistas
É tão estranho
Ver o Sol lá no Céu, todo dia
E não saber
Que será
Que ele brilhava tanto
A buscar companhia
E no entanto
Solidão era só o que sentia.
Edson Ricardo Paiva.
A que se esconde atrás da luz.
Toda luz se esconde
Atrás da luminosidade
E não se sabe ao certo
Se é perto de meio-dia
Metade de meia-noite
O calor na metade
O morno é meia verdade
A chuva de vida a cair
No meio-fio da calçada
O calor gelado de deserto
Enxerga ao longe na escuridão
Se olhar de perto, é nada
O ser sozinho em cada um
Esta é a única verdade
Escondida noutra frase
Qual como se fosse a sua causa
Foi quase sem perceber
E que por não saber
Era verdade
A linha de aço era tão linda
mas chega uma hora
Em que tanto faz
Aparadas as arestas
Pouca coisa resta
E o pouco que restou
Não presta
Pois faço melhor ainda
Quando existe um pequeno espaço
Pra guardar a minha paz miúda
Indifere, se alegre ou triste
É paz, nada muda
Diante disso
Me fere só quando existe
E se estou na mesma dimensão
Que a gente está, quando olha.
O Céu à minha frente
É bem distante das estrelas
A folha não escolhe cair
Mas, se escolheu ser folha, ela cai
Independe do lugar
Onde está, quando olha
Nada muda num momento
O espinho da flor dói minuto
A beleza da flor, pela eternidade
As estrelas sempre estarão no céu
E o vento sempre há de varrer as folhas
Porém, não basta chover
Não é sempre que a chuva molha
Os caminhos da vida são vastos
Não é toda escuridão
Que se encontra escondida
Do outro lado da luz
Tudo varia conforme
O lugar que se está, quando a olha.
Edson Ricardo Paiva
Se quiseres saber onde fica
O lugar que se chama felicidade
Busque lá no céu da noite
Em meio ao oceano de estrelas
A mais pequena que tiver
O nome dela é felicidade
A velha geladeira
Que já não dá gelo e nem gela
Pois nos planos do tempo, consiste
Ensinar-te ouvir a voz que existe
E quase ninguém escuta
Não se pode segurar o vento
O Todo indivisível que se divide
Se chama felicidade
Luz da Lua
Atravessando as frestas da simplicidade
Que agora inexiste
Só passos sem rumo
A quadra de amarelinha,
...sem pedrinha pra jogar
Ser livre é não sentir-se
Censurado, sob olhar nenhum
Felicidade, é saber um Deus existe
Mas não precisar pedir perdão
A felicidade é complicada desse jeito
Porque é feita das coisas mais simples
Estrelinha, calçada, vento, abraço, respeito
A vida a passar como um momento
Um breve vento que me leve a alma leve
Tão enorme
Quanto a menor estrela
A mais pequena que se vir no céu
O nome dela é o meu.
Edson Ricardo Paiva.
Quem sabe
Se olhar pra frente
Pode ser
Que só o presente
Amanhã seja passado
Quem sabe
Se olhar pros lados
No meio da madrugada
E num beco escuro
Perceba que só agora
Eu me sinto seguro
Fui criado à beira
De uma vila chamada loucura
Minha casa ficava na esquina
Da rua impossível, com a difícil
Foi difícil, mas saí de lá
Quem sabe
Se olhar pra baixo
E caminhar depressa
Nessa fria madrugada
Eu ache a solução da diferença
Entre vida e tristeza
Quando a vida inexiste
Tristeza é voz perdida
Vaga-lume, precipício
A parte mais difícil
Se esquecer como se faz
E eu quero paz
Quem sabe
O olhar pra cima
A chuva fina
Me perdoe
Pra que eu possa prosseguir
Perdido
E descansar os pés
Lá na praça do passo esquecido
Onde eu queira
Finalmente olhar
Pra dentro da minha alma
Quem sabe, pode ser até
Eu escute o som das palmas
Aplausos que se escuta
Quando a gente finalmente aceita
Que de fato perdeu a luta.
Edson Ricardo Paiva.
Eu duvido
Quase nunca
Ninguém
Há de saber
Qual é
Devido
À fé que não se tem
Até que não se tenha
É como apanhar
Um espinho num jardim
Apanhe
Sem saber qual é
Até que assim ele te arranhe.
Edson Ricardo Paiva.
