O Poeta e o Passarinho
" SOCORRO "
Socorro eu peço! Volta-me a atenção
e dá-me um pouco do que tens guardado
no afeto, para um outro, reservado
por mais que isso pareça-te ilusão!
Careço deste amor desperdiçado
que doas, sem motivo ou pretensão,
a quem nem sabe lá o que é paixão
nem retribui do que lhe tens doado.
Perceba-me um instante! Morro a dor
de não saber falar-te deste amor
que me consome inteiro, a cada dia…
Te peço, pois, socorro! Dá-me alento
enquanto aqui pereço, aos poucos, lento,
na fome de te ter… Hoje, agonia!
" PROVOCAÇÃO "
Se vê que isso é, tão só, provocação
e que ela te diverte imensamente!
É fácil ver o que é que tens em mente
expondo, desta forma, tua intenção!
Tu ages deste jeito inconsequente
mas sabes muito bem, e de antemão,
que apenas mexes toda com a emoção
sem ter, do amor, paixão real, ardente.
Qualquer libido entende o teu recado,
tua sede de querer deste pecado…
Tu só verás, com isso, mais sofrer…
Preserva-te e, ao fim, terás do amor
quem queira a parceria em teu ardor
e venha, intensamente, te querer!
" ROGO "
Olhou-me de relance, disfarçado,
por curto tempo apenas, bem discreta,
admirando, um pouco, este poeta,
que, por tudo o que belo, é enamorado!
Mal sabe se solteiro ou se casado,
lançou-me o olhar sem ponderar a seta
enquanto a observava aqui, pateta,
e o lance dela me direcionado.
Menina: não sou nada, pouco valho,
sou carta posta fora do baralho
sem serventia alguma pra esse jogo…
Não posso dar-te colo ou atenção
nem dividir contigo o que é paixão
ou atender, do olhar, esse teu rogo!..
Aniversário
Mais um ciclo finda,
a primavera em flor
Já se tornou lembrança,
suave calor.
Senhor, a Ti a prece,
em gratidão profunda,
Por este dom sagrado
que em mim redunda:
Sentir pulsar a vida,
em cada fibra, forte,
Viver a própria vida,
encontrar minha sorte!
Porque vivo a vida,
em cada novo instante,
De viver, simplesmente,
vibrante e constante!
" ESCOLHO "
Escolho, eu, não saber do que inda incerto
deixando que o futuro se desnude
no tempo, na medida, na amplitude
e, de qualquer desejo meu, liberto!
Prefiro, sendo assim, que nada mude
por não sabê-lo claro, a descoberto,
exposto, na incerteza, a céu aberto
vivendo-o, a cada instante como pude.
Não mudarei-lhe as cores da aquarela
nem fecharei-lhe as folhas da janela
apenas porque o olham com temor…
Eu, não saber, escolho! É meu direito…
Ele há de vir a mim sábio, perfeito
e, ao fim, trará consigo, e só, o amor!
" CONSENSO "
Não mais, no seu olhar, vi mágoa, pranto,
qualquer sinal de ainda haver rancor!
Guardou-me, com certeza, em seu amor
num recordar sincero, puro (e quanto)!
Em mim não há resquícios mais, de dor,
tristeza, de agonia ou desencanto
ficando o relembrar, pra meu espanto,
do quanto houve a paixão em forte ardor.
Seguimos, cada qual, por nova estrada
enquanto o recordar nos faz morada
e a história finda, enfim, em gratidão…
Foi tudo muito bom, real, intenso,
e temos tudo isso, por consenso,
mantido (e bem guardado) ao coração!
JOIAS
Foi quase! Faltou pouco! Um bocadinho
pro céu descer à terra em paraíso!
Arrebatou, no instante, o meu sorriso
pensando aqui na cruz do pecadinho…
Tá certo! Eu que não tenho, cá, juízo,
mas juro que rezei quieto, baixinho,
pra que se revelasse, no cofrinho,
um pouco do tesouro que diviso.
Só mais um bocadinho do recorte
pra que essa maravilha de decote
me revelasse as joias de valor…
Então, tu poderias vir a mim
que eu te daria, é certo, amor sem fim
em troca delas, dadas por penhor!
"JULGAMENTO"
Já fecha-me o semblante… É o julgamento
que faz dos versos fortes deste poeta
ou pela ilustração tão indiscreta
com que completo a ideia ao pensamento!
A opinião tão forte, tão seleta,
não vê a cruz me posta e o meu tormento
de aquilatar o mundo em sofrimento
e toda a insanidade que o completa.
Não quero que a poesia perca o rumo
por isso, ao lhe dar corpo, então, assumo
o risco deste julgamento errado…
O teu semblante, fecha-me em pudor
na crítica leviana a se compor
sem ver todo o teor do que postado!
Somente amar você,
Até o amor ficar mais forte,
O dia em que te conheci,
Essa foi a minha sorte!
Sorte do meu coração
Ter encontrado o teu amor,
Foi a coisa mais linda
Meu jardim virou só flor,
E assim a vida ensina
Que cada um tem uma sina,
E que devemos sim,
Acreditar no amor!...
O amor
renasce
da cinza,
O amor renasce
do pó!
É tempo de ser feliz
ainda,
Não quero mais
viver tão só!
"CONSIDEREM"
Talvez me considerem na vaidade,
na vida de luxúria e de pecado,
entregue a essa velhice em bom estado,
porém sem ver o peso dessa idade!
Sou, do que fiz de mim, o resultado
e, francamente, vivo, é bem verdade,
com força da paixão, na intensidade,
fazendo, co'a poesia, um bem-bolado.
Se a lua pode amar estrelas tantas,
também tive paixões reais (e quantas)
sabendo que o amor é um bom caminho…
Me considerem, pois, um mero poeta
que tem uma alma impura e indiscreta,
mas sofre e chora quando está sozinho!
" IMAGEM "
Que imagem passo eu? A verdadeira?
Aquela que demonstra, em perfeição,
o que trago guardado ao coração
ou a que finjo ser, por brincadeira?
Transmito o que me é justo, o que é paixão,
de forma honesta, séria, firme, obreira,
ou dou, a quem me vê, total canseira
por camuflar a essência aqui em questão?!
Será que me conheço, de verdade,
ou prisioneiro sou, na realidade,
da imagem que pretensamente exponho?...
Preciso conhecer-me aqui, primeiro,
e tudo o que retenho em meu celeiro
pra imagem não fazer-se, apenas, sonho!
" AVULTA "
Eu fico aqui sentado, sem maldade
observando, apenas, a intenção
daqueles que só vivem da ilusão
de que, pra amar, também se tem idade!
O amor olha, de cara, a pretensão
de quem se veste só da mocidade
achando que ela dura a eternidade
e, então, isso lhes basta ao coração.
Há três amores que nos vem (ou mais):
aquele que é da infância, os joviais
e o que chega depois, na vida adulta…
Pra amar não tem idade, tempo certo…
O amor se nos expõe, de peito aberto,
à força da paixão que, em nós, se avulta!
" ESQUEÇA "
Passou, jogou-me o olhar feito em malícia
acompanhado de um sorriso ao rosto
e ali se fez o curso, então, proposto
de que, lhe ter, seria uma delícia!
Vontade de provar-lhe a carne, o gosto,
mas isso se faria uma estultícia..
Teria, ao fim, história é pra polícia
e assunto, de luxúrias mil, composto.
Sorri de volta, a lhe guardar segredo
de qual seria o rumo desse enredo
que já não tinha nem pé nem cabeça…
Não sou mercadoria de vitrine
e antes que isso, em vendaval, culmine
melhor deixar prá lá. É fato. Esqueça!
" INSPIRAÇÃO "
Não parta, inspiração! Fica comigo…
Não sei viver sem ter a tua presença
a me exalar a luz, o tom, a crença,
a força, o amor, a paz de um ombro amigo!
Preciso-te, ao cumprir minha sentença
de poeta ser na, estrada em que fatigo…
A mim, pois, não imputes tal castigo
de abandonar-me em tal tristeza imensa.
Abraça-me por réu junto ao teu peito
em que, de tua poesia, me deleito
ao te sugar os seios de mulher…
Comigo, fica aqui, inspiração!...
Não quebres, num adeus, meu coração
que sempre quis de ti (e ainda eu quero)!
" FINGES "
Só finges que não notas! Na verdade
o teu olhar não perde nenhum lance
e, mesmo quando eu olho de relance
me flagras na maior cumplicidade!
Percebes a intenção nesse romance
e a tratas como singularidade;
um vício herdado lá da mocidade
que ainda se mantém ao meu alcance.
E te divertes com o que flagrado
à espera de colher do resultado
já visto que ficou tudo evidente…
Me flagras! Tu só finges que não notas…
Percebo na postura, então, que adotas
que o meu olhar te deixa bem contente!
" DESIGUAL "
O desigual, às vezes, favorece
e, o que fora de prumo, dá sentido
ao belo, ali contido e adormecido,
que, sob o nosso olhar, então, floresce!
A estética diria haver despido
o que a beleza, aos olhos, enaltece
e não se sabe como isso acontece,
mas fato é que há o perfeito no descrido.
As diferenças não são mais notadas
e, as formas desiguais, lá, desprezadas
porque o conjunto todo, ao fim, agrada…
E, o que era pra ser feio, fica lindo
enquanto essa beleza vai remindo
ao que tocado foi por mãos de fada!
" PROPOSTA "
Deixei-te sem palavras, sem resposta,
sem dúvidas que, até, desconcertada,
surpresa, constrangida, apavorada
quando eu te perguntei se estás disposta!
Assim, de bate-pronto, na jogada,
o susto ajuda na questão suposta
deixando tu’alma totalmente exposta
sem ter qualquer suspeita arquitetada.
Então, fala mais alto a carne em jogo
do que a razão, ao ponderar o rogo,
abrindo, ao fim, caminho pra paixão…
E, sem palavras, sem resposta pronta,
ponderas que a proposta não te afronta
e acabas, pois, na palma, aqui, da mão!
A POESIA
Atenção, senhores:
a poesia
nem sempre cabe
nas palavras.
Para parir o verso...
As palavras flutuam
nascem e morrem
no mesmo instante
do pouso.
Silêncio!
Abram-se as portas!
O poeta descobriu
as metáforas!
Dizer- se,
Fingir-se,
Rasgar-se,
Embriagar-se...
Até a última
gota de alma.
Pronto.
Pariu-se a poesia!
— Que ruflem os tambores!
Até o dia clarear.
