O Dificil Facilitador do Verbo Ouvir
É com esgar de esfomeado que me ponho a saborear vorazmente o verbo. A carne minha que do escrever depende. Do viver insólito, do morrer mais insólito ainda. O que era não mais é, o que será talvez já seja. Eu não sei. Nunca vi. Se vivo, amo. Se amo, desfaço. Se desfaço, refaço uma vez mais e assim, amo novamente. O ciclo de minha vida é acíclico. Mutante, mutável. Amável, entrementes. Ouço o risco do lápis no papel, dançando ao compasso de minhas mãos gélidas, deixando palavras vulneráveis, passiveis de serem apagadas. Que se apaguem. A mesma fome do verbo que me fustiga agora é a mesma que me fará escrever tudo de novo, viver tudo de novo, e ainda assim, viver tudo diferente.
Se amar não fosse verbo ainda
assim te amaria em todos os
tempos possíveis:
passado, presente e futuro.
Depois de um tempo aprendendo idiomas, você vê que não existe verbo mais importante na vida, todos são importantes em um certo momento. Por isso não leve uma só ação para o resto da vida como se fosse a mais importante. Tem horas que queres amar e outras que é necessário odiar!
Bem aventurados
No princípio era verbo...
E o verbo deixou de ser sonho...
Nasceu enfim o poema da vida eterna.
Bem aventurados...
Aqueles que têm em sua alma a certeza da justiça...
Aliada com sabedoria reveladora em Cristo.
Bem aventurados os que têm misericórdia...
Pois estes compreenderão o amor de Deus para com seus filhos.
Bem aventurados os que têm em seus corações o dom da compaixão...
Pois estes serão capazes de amenizar os conflitos daqueles que estão a sombra da vida.
Sem esperança...
Sem amor...
Sem fé...
De tal maneira que ao falares em Cristo, milagres acontecerão.
A dor desaparecerá,
A esperança renascerá,
O amor se eternizará.
Pois bem aventurados são aqueles cujo dom cumpre o maior mandamento da vida...
“Amar a teu próximo como a ti mesmo”
Nascendo em cada cristão o amor por si...
E para o mundo.
Nascerá em cada coração um Cristo vivo e ardente.
Que fará jorrar em cada essência um Deus infinito,
...Bom...
E por ser Bom, a felicidade reinará em espíritos eternos.
Não mais com sede de justiça,
Mas sim a justiça amorosa de Cristo para a vida eterna.
O beijo vejem do verbo beija, e os seus labios podem conjugar com este verbo tocando os seus labios aos meus.
Decidi viver mesmo conjugando o verbo sofrer. Quero conhecer a vida mesmo sabendo que ela ja está obsorvida.
Tenho voltas que não se resolvem em mim. Um verso caído que nunca se desculpa. Um verbo perdido que não sente culpa. Uma dor que não tem fim.
Amor, não é metade, é verbo decassílabo, conjugado em primeira pessoa. Amor, não é saudade, é verso infinitivo, consumado em poesia à toa.
Sou doce como um néctar, mas sou amargo para alguns sentidos. Sou instável como o verbo, mas mesmo assim, sou afago para alguns adjetivos.
O teu verbo é tão indecente, que semeia a serpente na flor. E tuas asas cortam como dentes, transformando o teu sangue em vapor.
Imitando o réptil escamado e aquecendo-me ao sol: lagartear. Tanto o verbo quanto o frio, só no sul se encontra.
A gente não se escolhe a quem ama, nem como a ama, apenas ama. O verbo amar hoje em dia é visto como um simples bom dia, mas erra quem pensa que é assim. Amar não é dizer bom dia, amar é como se fosse feito tudo por aquela pessoa. Você a ama, a defende e a quer com você.
LIVRE
Sou verbo,
pronome, e algarismo,
eu sou!
arte, riqueza, lirismo,
Sou água,
pedra, terra, ar,
eu sou!
céu, estrelas, luar,
Sou morte,
tristeza, ódio, dor,
eu sou!
vida, flor, amor,
Sou paz,
tempo, cor, espírito,
eu sou!
humanidade, ciência, mito,
Sou fim,
da métrica e da rima,
eu sou livre!!!
porque sou eu, a poesia.
DATAS NA CONJUGAÇÃO DO VERBO SER
Era a noite da revolução,
Era o vinte e quatro de um Abril
De lágrimas mil
Num Argoncilhe
Que era mansão
E coutada de gentes
Da delação;
Ainda agora os hão,
Nunca diferentes
E sempre pelo não.
Eram os dezoito de vida
Do rapazola que eu era então.
Era o ano que me dava
E depois me roubava daí por três,
A vida de minha mãe
Que Deus levou e tem
Sem mais porquês.
É hoje, neste mesmo dia
De um vinte e cinco de Abril,
Daqui a tão poucas horas,
Que meu padrinho de batismo
Desce à terra do campo santo,
Fria,
No seu gélido manto.
Lá se foi a alegria
Da festa do simbolismo
Daquela madrugada fria
E ainda hoje eu cismo
Ao defecar na privada,
E de encontro ao já pensado
Pelo meu povo castigado:
"Eles" sorvem tudo
E não deixam nada!...
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Triste Por Escrever, em 24-04-2024)
