Nao me Peca pra te Esquecer
A Vida ao Fundo dos Teus Olhos
Amar-te é reconhecer
que o infinito
não vive nas estrelas, mas no intervalo entre o teu silêncio e o meu.
Quando anoitece, descubro
que o corpo também pensa,
que a pele também tem sede.
Há em nós um pensamento antigo,
como se o universo nos tivesse imaginado antes de nos encontrarmos.
E se o mundo ruísse agora,
se tudo se desfizesse em pó,
ficaria ainda este fogo
o teu, o meu, o nosso
a incendiar o que resta da noite.
No teu beijo encontro a origem,
no teu corpo a razão,
no teu olhar a prova
de que o universo não é caos
é escolha.
E eu escolho-te,
mesmo sabendo
que o amor
é sempre um risco
que vale a vida.
Há um impacto poético que
acontece entre o mar e a falésia,
não como violência,
mas como reencontro de velhos cúmplices.O mar desfaz-se em espuma, a falésia em ecos.
As pegadas da alma não são rasto nem luz: são o instante em que o ser se desfaz do próprio peso e se torna apenas vibração.
Coraçãmo-te
Coraçãmo-te como quem
guarda um voto de silêncio:
não por renúncia,
mas por reverência.
Quando te aproximas,
o mundo reorganiza-se:
linhas invisíveis alinham-se,
portas internas giram,
e o destino lembra-se da sua
própria geometria.
Quando te penso, o mundo suspende-se,
como se a própria existência
aguardasse instruções.
E descubro que o amor é isto:
uma inquietude tão profunda
que já não precisa de nome.
Mar
horizonte reduzido
à pergunta que não se diz
entre ambos,
o suspiro.
O mar não fala:
escreve-me por dentro.
Estar na presença de pessoas verdadeiramente boas altera o peso da vida. A energia que emanam não muda apenas o ar: transforma também a relação entre nós e aquilo a que chamamos vida.
Há mundos inteiros
dentro de um instante;
não é o instante,
mas o universo
que nele se abriu
dentro de nós.
Quando és torrencial, não te entregues a quem só sabe ser chuvisco: a tua alma não foi feita para quem teme afogar‑se em ti.
Idioma da Pele
Aproximo-me.
Não de ti.
Do abismo que existe entre a tua pele e a minha.
E caio.
A tua pele não me chama.
Arrasta-me.
Como a noite arrasta o último clarão do dia.
Há um fogo
entre a carne e a alma.
Nenhuma sabe onde termina.
A minha pele.
A tua sede.
Entre ambas,
o mistério.
O resto
é silêncio.
O teu corpo.
O meu.
Dois limites.
O desejo:
a tentativa impossível
de os afastar.
Naufrágio
A tua presença roça-me a alma como fogo lento na pele.
Não te toco.
E, ainda assim, o pensamento regressa a ti com a insistência das marés, como se o corpo se lembrasse daquilo que nunca aconteceu.
Naufraguei nos teus olhos.
Há naufrágios tão quentes que até a eternidade escolheria morrer neles.
