Nao me Peca pra te Esquecer
Sabe… certas dores não gritam. Elas silenciam a alma devagar, como quem fecha as cortinas de um teatro depois do fim. Algumas feridas não sangram mais, mas seguem abertas dentro da gente, como páginas que o tempo não teve coragem de virar.
Elas criam um véu — sutil, quase invisível — sobre tudo o que fomos antes do abismo. E é nesse véu que a alma aprende a respirar diferente, com mais cautela, com menos fé. Nunca tente levantar esse véu… Ele não é esquecimento. É sobrevivência.
Eu penso tanto em você… Te quero com uma fome que não se sacia, um desejo que me incendeia por dentro e arde em silêncio. É loucura sentir saudade de um corpo que nunca toquei, mas é teu nome que meus lábios murmuram nas madrugadas quentes, como uma oração proibida. Mesmo sem te conhecer, minha pele já te reconhece, como se teu toque estivesse gravado em mim desde antes do tempo.
Infelizmente, o dinheiro não ajuda com o que mais desejo na vida: compreender este mundo. Ele compra livros, experiências, até algum tempo... mas não me dá respostas. E quanto mais vejo, mais confuso tudo parece. As coisas se repetem, os erros se acumulam, e as certezas se dissolvem diante do caos disfarçado de rotina.
Talvez o erro esteja justamente em esperar sentido de algo que nunca prometeu lógica. O mundo não se organiza para agradar nossa compreensão. Ele apenas é. A natureza segue, indiferente. A dor acontece, com ou sem motivo. O amor chega e vai, sem roteiro. O mundo não se curva à nossa busca por sentido.
Mas mesmo assim, eu não consigo apenas aceitar. Não sei viver na superfície. Sinto que preciso ir além, aprofundar, mergulhar mesmo sem saber se há fundo. Porque há um tipo de alma que não se satisfaz com o raso, que precisa tocar o enigma, mesmo que isso custe paz.
Talvez eu nunca compreenda. Mas ainda assim, eu preciso tentar.
Apega-te à tua verdade, não à que o mundo impõe, mas àquela que pulsa no silêncio quando estás só. Essa verdade íntima, que resiste mesmo nas noites mais longas, é a chama que não se apaga. Nela habita tua essência mais pura, e quem se ancora em si mesmo, por mais que o vento sopre ou as marés mudem, nunca se perde.
Propósito não se acha... constrói-se. Não é um tesouro enterrado, é um caminho pavimentado com escolhas, erros, tentativas e recomeços. É moldado no silêncio das madrugadas, nas quedas que ensinam mais do que as vitórias. É quando você para de procurar sentido nas coisas e começa a dar sentido a elas. Propósito é ação com alma, não destino pronto.
Aprecio as estrelas... não apenas por sua beleza silente, mas por aquilo que simbolizam: a doce ilusão da permanência. Embora saiba que estão em perpétua agonia, consumindo-se em esplendores terminais, ainda assim parecem eternas aos olhos de quem, da Terra, as contempla. Lá do alto, brilham com uma serenidade que desmente o caos de sua essência. Enquanto os mundos se desfazem, os deuses se calam e os mortais esmorecem como brumas ao vento, as estrelas seguem cintilando, indiferentes à finitude que nos devora. E é nesse cenário celeste que me permito sonhar... sonhar que o tempo cessa, que os amores não fenecem, que os instantes ternos permanecem suspensos no véu da eternidade. Porque, ao fitá-las, sinto como se tudo aquilo que me é caro — um olhar, um gesto, uma memória — pudesse resistir ao tempo, envolto na luz serena de um firmamento que não se apaga.
Durante muito tempo, confesso, temi o mundo... mas não por suas dores naturais, nem por seus silêncios frios. Tive medo de viver em um mundo onde você não estivesse. A simples ideia da sua ausência era como um vento cortante atravessando o peito, como uma noite sem estrelas, como uma eternidade sem luz. Havia algo na sua presença que fazia o tempo parecer menos cruel, e a vida, ainda que imperfeita, tornava-se suportável, quase bela. Sem você, tudo perdia cor, propósito e rumo. E assim, mais do que temer a morte, temi a vida sem você... porque viver, se não for para dividir o olhar, o riso e o silêncio com quem se ama, é apenas existir à margem do que poderia ter sido eternidade.
Era uma vez um homem que acreditava caminhar só... não por falta de passos ao redor, mas porque havia se tornado prisioneiro de muros erguidos dentro de si. Vivia entre palavras guardadas, olhares desviados e silêncios pesados como correntes. Até que um dia, como um raio de sol que ousa atravessar as frestas da cela, apareceu ela: uma amiga que não se intimidava com o seu estranho jeito de existir.
Ela o chamou de amigo, mesmo quando ele dizia que não sabia ser. Disse que ficaria, mesmo que o mundo partisse. E prometeu que, se um dia os dois se encontrassem sós no destino, ficariam sozinhos... juntos.
Ele a questionou, como quem duvida da própria liberdade, e ela o respondeu com leveza, como quem não tem medo de cuidar... nem de se deixar ser cuidado. Entre perguntas e provocações, entre o medo do amor e a esperança do abrigo, os dois descobriram que talvez a verdadeira fuga da solidão não estivesse no mundo lá fora, mas nos olhos de quem vê a alma e ainda assim decide ficar.
E assim, entre prisões internas e promessas eternas, nasceu uma história onde dois corações, marcados por feridas, aprenderam que não há maior liberdade do que encontrar repouso um no outro.
E viveram... como sabem viver os que ainda acreditam no amor que se escreve devagar.
Talvez seja mais fácil amar alguém que não conheço, porque no desconhecido mora a liberdade de imaginar o outro sem falhas, sem cicatrizes, sem o peso do cotidiano. Mas então me pergunto: será amor ou apenas atração disfarçada de encanto? Porque o amor real exige convivência, paciência e a coragem de amar mesmo quando o espelho revela rachaduras. Já pensei que o amor só valeria se durasse para sempre, mas o “para sempre” é uma fantasia que o tempo insiste em contrariar. Existem amores que duram um instante e mesmo assim deixam marcas que resistem à eternidade. Descobri que amar não é prender, nem possuir, mas sentir... com presença, com verdade, com entrega. E mesmo que termine, se foi amor, existiu. E isso basta. Porque o amor, em sua forma mais pura, é o motivo da existência. Não precisa ser eterno no tempo; precisa apenas ser verdadeiro no momento.
Alguns dias- ou se não muitos- da minha vida eu jurei que não ia conseguir.
Jurei que a vida era mais difícil do que eu imaginava, me debulhei em lágrimas, senti um misto de raiva, ódio e tristeza, desabei por um tempo.
Mas como a fênix, e qualquer outro animal na face da Terra eu levantei, me reergui, aprendi a viver um dia de cada vez.
Comecei a descobrir que nada é para sempre, que as situações passam, os dias passam, a vida passa.
E passa como um sopro, e cada vez mais o ar impulsiona esse "sopro".
Quando achares que é o fim, lembre-se: para todo fim um recomeço.
Não celebramos os vivos com a mesma intensidade que velamos os mortos. Se pudéssemos comparar, quantitativamente, os que brindam nossas conquistas e os que estarão ao redor de nosso caixão, veríamos o tamanho da hipocrisia coletiva.
Bruno Soares
Não há prisão mais cruel do que aquela em que o carcereiro é alguém que te chamava de amor, de mãe, de pai ou de amigo.
Somos tratados como corpos de aluguel. O problema não é quando estamos doentes, mas sim quando estamos curados e saudáveis. Afinal, como venderão "solução" se não houver caos?
O que a indústria vende não é cura, é dependência. Lembre-se: um corpo livre de doenças ameaça o trono de quem lucra com a desgraça alheia.
A democracia transformou a escravidão em escolha e a submissão em participação; não nos libertou, nos tornou meros colaboradores, dando a nós ironicamente o direito de decidir a quem seremos submissos.
Não é a solidão que nos arruína, mas o medo dela. Desse medo nascem os enganos mais fatais: tomar escuridão por luz e algemas por abraços. Quem teme a própria companhia é engolido pela carência; senta-se à mesa com a serpente e toma do seu veneno em taça de vinho.
Quando a serpente inocula o veneno, discutir com ela não restitui a saúde. Há feridas que não exigem respostas — exigem distância, antídoto e silêncio.
Temos tempo para assistir desconhecidos, acompanhar vidas que não nos pertencem e percorrer infinitamente uma tela, mas cada vez menos tempo para olhar nos olhos daqueles com quem compartilhamos o mesmo sangue.
Aos poucos, tratamos os nossos como se fossem obsoletos, sem perceber que algumas despedidas não nos darão uma segunda chance.
Talvez essa seja a grande ironia da vida: um dia, a morte nos chama ao subsolo de um hospital para reconhecer justamente o corpo daquele que tivemos uma vida inteira para conhecer.
Bruno Renan M. Soares
O talento linguístico não consiste em falar incontáveis idiomas. A verdadeira sabedoria está na escolha cautelosa das palavras. Afinal, que valor tem um exímio intérprete, se não consegue controlar a língua que nele habita?
