Nao Ha Passageiros na Nave Espacial Terra
Há algo profundamente contraditório em continuar, mesmo quando nenhuma razão clara se apresenta, mas talvez seja nessa contradição que nasce a resistência, uma força que não precisa de explicação para existir.
Há uma santidade quase mística no cansaço de quem deu tudo de si no campo de batalha da própria mente, sem recuar um centímetro sequer diante do abismo que o medo cavou. O verdadeiro herói não é aquele que ostenta uma armadura intocada, mas o que levanta com o peso de mil derrotas nas costas e ainda consegue sorrir para o sol com o olhar de quem já viu o inferno. A melancolia é o combustível dos fortes, o filtro aristocrático que separa o ouro da nossa essência do entulho das expectativas alheias, fúteis e vazias. Seja o regente soberano da sua própria agonia e faça dela uma abertura triunfante para os dias de glória que o destino, por justiça, agora te deve. A dor não é um fim, é o prelúdio necessário para a sua coroação.
- Tiago Scheimann
O pessimismo paralisa, o otimismo cego ilude, mas há uma terceira via, a lucidez que luta mesmo ferida. Viver é um ato de resistência consciente, onde cada respiração se torna uma afirmação contra o desgaste do tempo. Não busque eternidade em feitos grandiosos, mas no olhar que, por um instante, foi capaz de enxergar além da superfície. Às vezes, é em um gesto simples que o infinito se revela, quase como um sopro que atravessa o tempo.
- Tiago Scheimann
Há noites em que minha alma pesa tanto que respirar parece um esforço desumano, mas mesmo assim, eu respiro, porque desistir nunca foi uma opção.
Aprendi que Deus, às vezes, responde no silêncio, porque há verdades que só um coração quebrado consegue compreender.
Há uma beleza trágica em perceber que as pessoas que mais amamos são as que mais têm o poder de nos ferir, e que o perdão não é um favor que fazemos ao outro, mas uma cirurgia de emergência que realizamos em nós mesmos para remover o projétil da mágoa.
Há dias em que caminho como quem atravessa um inverno sem fim. Dentro de mim, tudo parece frio, pesado, quase irreconhecível. Cada passo é menos coragem do que insistência em não cair. E sigo, não porque a dor diminuiu,
mas porque me recuso a deixar que ela escreva o fim da minha história.
O amor é casa, e casa precisa de estrutura, eu só entro onde há pilares fortes, teto firme, e portas sinceras.
Há flores que só florescem no concreto da dor e a beleza delas é a prova de que a vida sempre encontra um caminho.
Há almas que são a própria combustão poética, incandescentes mesmo vestidas com o tecido mundano da prosa, sua beleza não é a métrica, mas a substância indomável de sua essência.
Há dias em que a alma parece uma casa sem teto: tudo entra, tudo molha, tudo desaba. Mas mesmo nas ruínas, algo dentro pede reconstrução. E esse pedido é prova de que a esperança, embora pequena, ainda respira. Respira fraco, mas respira.
Há noites em que o céu parece fechado, mas é dentro de mim que a escuridão é mais espessa. Mesmo assim, procuro estrelas na memória. E sempre encontro uma: a da fé que não apagou. Porque Deus brilha mesmo quando não o vejo.
Há um piano em meus ossos que toca notas quebradas, cada acorde é um pedaço de mim que insiste em existir. Quando a cidade dorme, a música remexe entulhos antigos, e eu me descubro inteiro nas frestas de um acorde menor.
Há dias em que a esperança veste roupas velhas e disfarça o medo. Ela caminha pela sala, tropeça, ri, insiste em ficar. Não é heroica, é teimosa e essa teimosia me sustenta, um ato minúsculo que repele a avalanche de desistências.
O corpo tem memória de batalhas que a mente quer esquecer. Há dias em que ele se recusa a colaborar, cobra presença no presente. Quando obedece, eu celebro em silêncio, quando nega, aprendo a negociar, ofereço chá, música, paciência, pequenos tratados de trégua.
Há palavras que surgem como fósforos acesos em mãos trêmulas. Acendem-se, queimam rápido, deixam cheiro de algo que foi e não volta. Guardo-as em potes de vidro para que não se apaguem por completo, e quando preciso, abro um pote e relembro o calor que um dia tive.
A chuva hoje tocou a janela como quem pede licença para entrar. Dentro de mim há móveis que rangem com lembranças. As palavras saem mansamente, como se pedissem perdão. Às vezes penso que sou feito de corredores vazios. E nesses corredores ecoam os passos que um dia me ensinaram a voltar.
Há um silêncio que tem cheiro de infância perdida. Ele se esconde nas gavetas e nos retalhos do falar. Quando me ponho a escrever, o silêncio ensina como ferir com calma. Sinto que as palavras são pontes frágeis entre mundos. E atravessá-las é ato de coragem e covardia.
Há palavras que se escondem no bolso justo da memória. Aparecem só quando o corpo precisa de consolo. Algumas são duras, outras acariciam a garganta. Se pudesse, as colocaria em moldura e as olharia todas as manhãs. Seria um museu íntimo de pequenas verdades.
Há músicas que voltam em espasmos, sem avisar. Elas me pegam pelo braço e me obrigam a sentir. Dançar sozinho em silêncio é uma prática sagrada. A melodia ajusta o passo da alma. E, ao final, a sala inteira cabe dentro do peito.
