Nao Gosto do que Vejo
Hoje eu preciso de uma bebida que não tenha história, que não tenha safra e que não me lembre de nenhum brinde que a gente deixou de fazer.
A dor mudou de formato, cara. Ela não é mais aquele soco na boca do estômago... Agora ela é uma presença silenciosa, tipo um vizinho barulhento que tu acabou se acostumando a ouvir através da parede.
Hoje a gente bebe por tudo aquilo que a gente guarda e que não serve para mais nada, a não ser para machucar.
Para qualquer outra pessoa, é lixo; para mim, era a prova material de que o que eu vivi não foi um delírio da minha cabeça.
O soco no estômago é saber que, enquanto eu vou passar o dia evitando as redes sociais pra não ver foto de casal feliz, ela provavelmente vai estar ganhando flores...
Veio só aquele aperto seco no peito, tipo quem reconhece uma cicatriz antiga, aquela que já não sangra mas ainda dói quando aperta no lugar certo.
Hoje a gente brinda pelas mensagens que a gente tem a decência de não mandar — porque às vezes o maior gesto de amor que resta é o silêncio que a gente escolhe segurar.”
Apaguei letra por letra. Devagar, quase com respeito, tipo quem desliga um som que já não devia ter ligado.
Talvez seja assim mesmo que a coisa funciona. Não é uma porta que fecha de um dia pro outro, é mais um instante aqui, um minuto ali, se somando devagar, sem pedir licença…
Não é uma sensação boa, mas confesso que também não é totalmente ruim. Depois de tanto tempo só sentindo falta, dói de um jeito diferente sentir raiva. Quase parece um sinal de vida.
O compasso hoje não desafinou. Ele mudou de ritmo. Ficou mais seco, mais duro, tipo bateria sem melodia por cima ainda.
O celular não sabe que dói. Ele só sabe contar os anos e mostrar de volta, feliz da vida, achando que tá me fazendo um favor.
