Nao Gosto do que Vejo
Puxo o ar com força
ele não deseja encontrar meus pulmões
o coração acelera
o estômago queima
os músculos reagem
primeiro os braços paralisam
depois, as pernas
o intestino aperta
e sinto que tudo deseja fugir de dentro
– inclusive eu!
o único pedido preso na garganta
é que alguém testemunhe
que alguém socorra-me da agonia derradeira
que o vento sopre e me arraste rápida
e furtivamente
sem que nem mesmo eu perceba
– o desejo é que alguém me encontre
e sussurre com sinceridade ao meu ouvido:
está tudo bem, querida, está tudo bem!
Tudo já está se resolvendo
assim, no gerúndio, no caminho,
tudo já está se resolvendo…
e, mesmo já acostumada a vivenciar essas crises,
eu possa me dizer também:
– vai passar, já passou outra vez
vai passar agora também
eu não quero morrer assim
… de ansiedade!
um dia fui eu
outro dia não mais
o que serei eu
sem um pingo de paz?
a guerra
a morte
o não
o talvez
o tempo
a hora
o espaço
desfez
Se o sol fosse à noite
o que a lua é ao dia
não seria necessário
esta estranha afasia
não seria nem prudente
pensar na estadia
não seria permitida
esta boba poesia!
Nem mesmo o sol
deixaria
a porta aberta do cais
o tempo tão logo
entraria
na solidão dos haicais
eu, em grande assombro,
diria
as rimas em nada falam
além das tais fantasias
além dos além do mais!
Se o sol fosse à noite
o que a lua é ao dia
não seria necessário
esta estranha afasia
não seria nem prudente
pensar na estadia
não seria permitida
esta louca poesia!
(mar)
ninguém disse nada
só pensou
só ficou
só colheu
o que não plantou
ninguém disse nada
só calou
só deixou
só morreu
o que não andou
ninguém disse
"nada!"
(o dia seguinte)
a tristeza não cabe no peito
não cabe na alma
não cabe de jeito
NENHUM
dentro de mim
mas a tristeza acorda o sentido
já adormecido
do corpo que inflama
da mente que clama
um tempo melhor
então, tristeza, lava
com tuas penúrias
a face daqueles
que sonham
que pedem
o alvorecer
vem!
derrama a verdade
despida de medos
livre de segredos
no rosto que espera
o milagre de SER
e, depois de tudo,
a vida continua…
talvez a esperança
esta doce criança
chegue, enfim…
se você acha que seu crime é liberdade de expressão
preste tento
vire o avesso
você não tem mais salvação
eu não estou me aguentando dentro de mim
e sou a única que pode me escutar
afogo-me no mar de sentimentos que criei
e não dou conta de me salvar
queria nunca ter visto seu olhar
queria não sentir sua presença a me observar
queria deixar de te amar
queria esquecer que o encontrei
queria deixar-me em paz
queria deixá-lo em paz
QUERIA?
Pena que palavras não fossilizem!
Quem pronunciou a primeira delas?
Se ao menos elas existissem
Palavras, meros sons que reverberam...
O que será que se escreve
Quando os pensamentos já não são suficientes?
O que será que se pensa
Quando as palavras se fazem ausentes?
O que será que se sente
Quando a alma não está mais presente?
O que será? O que será?
O que será das verdades sem a gente?
como pode uma alma ser tão triste, tão triste
a ponto de não conseguir nem mais sonhar?
– a tristeza profunda é isso:
nada de sonhos
nada de perspectivas
nada de ilusões as quais se agarrar...
“Fazer uso da palavra”
expressão carregada de signos
e significados
usar não apenas
– fazer uso –
um verbo seguido do substantivo quase verbal
ação sobre quase-ação
somada ou multiplicada?
Pedir licença à palavra
ou a quem vai escutá-las
estar no comando da fala
ou capitular diante delas
as palavras
vilãs ou heroínas
sagradas ou assassinas
tomadas de empréstimo por alguém
“fazer” necessita de complemento
não existe solto e só
a boca prende as letras
transforma-as em sentidos
apenas para quem as entende
surpresas
borbulham
à língua que se rende
a fazer uso da palavra
outra vez
baila e sente
o movimento
a intenção
o despertar
a ilusão
das pretensiosas mentes.
