Não Existe uma Pessoa Certa

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A liberdade exige responsabilidade justamente porque nenhuma autonomia existe sem consequências.

O agnosticismo não afirma que Deus não existe; afirma que a certeza exige fundamentos que talvez não possuamos.

O Estado não precisa saber se Deus existe para saber que seus cidadãos possuem liberdade de consciência.

O Direito não existe para eliminar o erro da escolha, mas para impedir que alguém fabrique clandestinamente as condições do erro alheio.

A ciência não precisa provar que Deus não existe; basta reconhecer que a ausência de evidência não autoriza transformar uma hipótese metafísica em fato científico.

Nenhuma Constituição precisa decidir se existe vida após a morte; precisa apenas garantir que ninguém seja juridicamente obrigado a afirmar que sabe a resposta.

Onde existe Estado laico, nenhuma revelação particular pode adquirir automaticamente força de lei universal, porque uma revelação não demonstrada universalmente não pode ser convertida em certeza jurídica universal.

O Estado laico não precisa decidir se Deus existe para decidir que ninguém pode ser perseguido por acreditar, não acreditar ou admitir honestamente que não sabe.

Existe uma melancolia particular na passagem do ‘quero permanecer contigo’ para o ‘devo permanecer contigo’: quando o desejo cede lugar ao dever, alguma coisa do amor se transforma.

Entre afirmar que Deus existe e afirmar que Deus não existe existe um território silencioso onde a razão pode simplesmente admitir: ainda não sabemos.

Toda doutrina que exige certeza onde só existe hipótese transforma a necessidade humana de significado em falsificação epistemológica.

Entre a liberdade e a submissão, às vezes existe apenas a coragem de questionar as respostas que recebemos prontas.

Existe uma solidão que não é falta, mas espaço. É nela que descobrimos se nossa própria companhia é abrigo ou condenação.

Estar sozinho é uma situação; sentir-se sozinho é outra coisa. Entre as duas existe quase toda a complexidade de ser humano.

Entre a norma que ordena e a consciência que questiona existe o território onde o homem começa, finalmente, a tornar-se autor de si mesmo.

Entre aquilo que somos biologicamente e aquilo que podemos tornar-nos existe o território aberto da liberdade.

Entre o dogma religioso e o dogma cientificista existe uma fronteira preciosa: a humildade epistemológica.

O cérebro fabrica certezas com extraordinária facilidade; a ciência existe, em parte, para interrogá-las.

Entre absolver um culpado e condenar um inocente existe uma assimetria moral que nenhuma conveniência jurídica deveria ignorar.

Se existe uma aristocracia que merece sobreviver ao tempo, não é a do sangue nem a do dinheiro, mas a da consciência que se recusa a ajoelhar diante da própria ignorância.