Nao Controlamos o que Sentimos

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Quando ninguém me espera, o tempo perde sua educação e mostra que a existência não tem plateia, tem apenas presença.

Há solidões que não expulsam, apenas iluminam o contorno exato daquilo que eu nunca tive coragem de admitir.

O vazio não me assusta quando o reconheço, o que me apavora é a tentativa de preenchê-lo com qualquer coisa que não seja verdade.

Há uma solidão fértil, como terra depois da chuva, que não me isola: me prepara.

A solidão não me roubou; ela retirou o excesso de vozes até sobrar a pergunta que realmente importava.

Voltar ao começo não é caminhar para trás. É ter coragem de encontrar, entre os escombros, a versão de nós mesmos que ficou esperando para ser amada.

O arrependimento é uma espécie de fantasma: não grita, não corre, não ameaça. Apenas senta ao nosso lado nas madrugadas e nos obriga a lembrar.

Minha epifania não veio como luz.
Veio como uma porta que se abriu apenas para revelar outra fechada atrás dela.
Por alguns instantes, acreditei que a vida finalmente havia decidido me surpreender com gentileza. A notícia chegou como quem devolve o ar aos pulmões de alguém que estava se afogando. Sorri. Acreditei. Permiti-me imaginar possibilidades que eu havia enterrado há muito tempo.
Mas algumas esperanças são frágeis demais para sobreviver à verdade.
Então veio a segunda notícia.
E com ela, a compreensão cruel de que aquilo que parecia uma bênção era apenas um erro. Um equívoco. Uma felicidade enviada ao destinatário errado.
Minha epifania foi perceber que, às vezes, a pior notícia não é aquela que chega trazendo dor. É aquela que primeiro chega trazendo esperança.
Porque a dor machuca.
Mas a esperança, quando é arrancada das mãos, leva junto pedaços de nós que nem sabíamos que ainda estavam vivos.


- Tiago Scheimann

Descobri tarde demais que a liberdade não era um presente.


Era uma sentença.


Ninguém me empurrou para os erros que carrego.
Ninguém escolheu por mim os caminhos que me quebraram.


A vida apenas colocou as portas diante de mim e observou, em silêncio, enquanto eu escolhia qual delas me destruiria.


- Tiago Scheimann

A pior solidão não é estar sozinho.


É perceber que ninguém jamais visitará os lugares onde você mais sofreu.


As pessoas conhecem seu rosto.
Conhecem sua voz.
Conhecem sua história resumida.


Mas existem corredores inteiros de escuridão dentro de você que permanecerão desconhecidos até o último dia.


- Tiago Scheimann

Às vezes olho para trás e não sinto saudade de quem eu era. Sinto pena. Pena daquele homem que acreditava que a dor tinha um propósito, sem saber que algumas feridas simplesmente acontecem, permanecem e envelhecem conosco.

Existe uma tristeza que nem as lágrimas conseguem alcançar.


Ela não grita.
Não quebra nada.
Não pede ajuda.


Apenas se senta em silêncio ao seu lado e passa a morar ali, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.


- Tiago Scheimann

Minha maior epifania foi perceber que eu não corria de volta ao passado para corrigir meus erros; eu corria para abraçar o menino que ficou perdido lá, acreditando que nunca seria suficiente para ninguém.

Algumas despedidas não terminam quando a porta se fecha; continuam acontecendo dentro de nós por anos, em silêncio, como um inverno que se recusa a partir.

A tragédia de algumas vidas não está no abandono que sofreram, mas na incapacidade de acreditar que ainda podem ser escolhidas.

Existem feridas que não querem ser curadas; querem apenas que alguém reconheça que elas existiram e que doeram mais do que as palavras conseguem contar.

A maior prova de existência não é ser visto, mas continuar íntegro quando ninguém se dispõe a compreender.

Não desperdiço energia discutindo com o inevitável. Transformo cada golpe da existência em matéria-prima para construir uma versão mais sólida de mim mesmo.

Há orações que não saem da boca; nascem no peito como lampejos de água para uma sede antiga.

A negligência que encontrei na infância não terminou quando deixei de ser criança. Ela aprendeu a crescer comigo. Mudou de rosto, de voz, de silêncio, mas nunca deixou de caminhar ao meu lado.


Há dores que não gritam; elas se infiltram na arquitetura da alma e passam a sustentar tudo o que somos. A minha fez do afeto um território estrangeiro. Nunca aprendi a reconhecê-lo sem antes procurar a ausência que costuma vir depois.


Por isso, amar, para mim, nunca foi um gesto espontâneo. É uma travessia sobre uma ponte construída com tábuas podres. Cada passo parece anunciar uma queda.


Mas existe algo ainda mais difícil do que amar.


É permitir que alguém me ame.


Há uma parte de mim que permanece escondida, como se tivesse sido convencida, ainda menino, de que carinho sempre cobra um preço e de que toda permanência é apenas um atraso para o abandono. Quando alguém tenta atravessar essa distância, meu primeiro impulso não é abrir a porta. É procurar a saída.


Talvez a pior herança da negligência não seja a solidão.


Seja a incapacidade de acreditar que um dia alguém possa olhar para todas as minhas ruínas e, ainda assim, decidir ficar.


Porque existem infâncias que não acabam. Apenas aprendem a respirar dentro do adulto que sobreviveu.


- Tiago Scheimann