Andressa Medeiros - andressamedlem
Talvez eu simplesmente parta.
Mas, desde que tenho você, a partida me assusta.
Não é que ela não me atraia,
é só que me dói imaginar você sozinha.
Me dói amar tanto, temer tanto te deixar para trás,
e ao mesmo tempo desejar tanto ir embora.
Que covardia…
Me sinto uma contradição ambulante,
uma verdade que se culpa por parecer mentira.
Porque não dá pra racionalizar
o vazio que mora no meu peito.
E o que machuca ainda mais
é perceber que nem esse amor imenso
consegue preencher o buraco que me engole por dentro.
Maldito o seu dom, de me fazer sonhar
Abrigar tudo o que você nunca quis realizar
O amor por sua pobre e ingênua poesia,
Soava falsa, todavia, eu já sentia...
Mais um ensaio, um cuidado, um abraço
Nada daquilo era raso, mas a profundidade também da casa ao estrago.
Por fim, o mais mentiroso foi eu
Me vesti de você e me fiz refém de suas dores
Essa dança começou e a rendição nos submeteu.
Estavamos perdido, afinal
isso nunca foi mentira, foi real.
Sonhos falidos não servem abrigo
Outrora era tudo, agora, um bom amigo.
Que o tempo ensine a nós, que vivemos em desamparo,
que a vida adulta não é tamanho fardo.
Você pode ser, para si, o abrigo nunca encontrado,
o afago, por vezes, negado.
Orgulhe-se: o tempo de outrora, é passado.
No peito, a falta fincou raízes, e eu nem sei dizer como seria viver sem ela.
O que me resta?
Não há restos…
há apenas o que sempre houve:
esse existir em silêncio,
um constante suportar.
A falta caminha comigo todos os dias,
é o único lar que conheço,
não importa para onde eu vá.
Hoje eu entendo:
um abraço talvez me curasse,
uma palavra, um abrigo, um olhar…
mas o tempo levou quem podia oferecer isso,
o tempo para o antídoto, não existe mais.
E agora, não há remendo.
Ficou a ausência,
e as marcas abertas
de cada eco dessa dor interminável,
ressoando dentro de mim como algo que nunca cessa,
apenas aprende a continuar..
Sou feita de fragmentos indomáveis,
de partes que sangram poesia e sobrevivem ao caos.
Não sou calma, sou mar em ressaca,lucidez após o excesso,
sou o que fica quando tudo vai.
Carrego amores mal resolvidos no bolso,
cigarros que nunca acendi, promessas quebradas no fundo do peito, feito cacos jogados no asfalto da memória.
Tem dias que me reconheço inteira no espelho,
noutros, só estilhaços.
Mas ainda assim eu vou
de salto, de risco, de coragem torta,
porque parar nunca foi opção.
Me perco fácil nos olhos de quem sente demais,
me encontro rápido na música alta,
num verso cru, num gole amargo,
num “fica” dito sem planejamento.
Sou feita de falhas bonitas,
de ruínas que aprenderam a florescer.
E mesmo em pedaços, eu ardo,
eu canto, eu erro, eu amo
porque ser inteira nunca foi sobre perfeição,
sempre foi sobre ser.
Tem dores que não passam. E tudo bem.
Porque viver não é correr pra sair da dor
é aprender a caminhar com ela sem se perder de si.
Eu já quis respostas. Já tentei controlar o caos.
Hoje, escolho só viver.
Com presença.
Com coragem.
Com mais gratidão do que reclamação.
Não tô esperando um “depois que tudo isso passar”.
Tô vivendo o agora, porque é nele que a transformação acontece.
Mesmo quando ela não faz barulho.
Mesmo quando ela ainda dói.
-andressamedlem
