Nao Conto Detalhes e muito menos
Como se vai apagando
Uma hora se vai algo pequeno e o pequeno não aparece mais, outra hora, outras coisas que o tamanho já não importa, pois a porta apesar de aberta não vê mais passar por ela coisa alguma que a atravessou um dia, uma hora, um momento. E assim um pontinho vai virando algo irreconhecível, uma nova figura, um novo desenho do lado de fora perdido na imensidão e do lado de dentro vazio. Palavras são ditas, atitudes são tomadas, consequências inesperadas por mentes pequenas que só conhecem e reconhecem a si mesmas.
Assim a chuva chega e lava e apaga os traços pelo caminho e depois de muito caminho andado não se tem como voltar, pois as migalhas demarcadoras já não estão lá. É como uma ideia que parecia incrível, fantástica, de tirar o folego que rapidamente se expressa com o grafite roçando o papel e neste roçar para lá e para cá. Freneticamente as linhas vão sendo escritas seguindo a empolgação que vislumbrou algo incrível no final onde a vista e coração alcançam. A cada palavra sobem os batimentos, emoções se acumulam, prazeres são experimentados e vivências são sentidas.
A pequenez de um ouvido que só ouve a se próprio vai corrompendo os atos, arrancando a empolgação, desmanchando as emoções, desmontando a sensação do que poderia ter sido, mas não foi. Perdido em meio a simulados, desatenções, descuidados, elucubrações irreais da falta da justa medida da igualdade da vida. Sentimentos escondidos nos ocos das árvores, mentiras expostas em vitrines coloridas, verdades protegidas por emaranhados espinheiros.
O grafite quebra, a folha rasga, o folego sustenta a corrida para longe, a linha se vai com a borracha, o vislumbre encara frente a frente a realidade e tudo vai se apagando. E tudo vai se transformando, a árvore podre cai, o espinheiro sede, e como no fim do carnaval as mascarás caem.
Tudo limpo, tudo claro, a chuva lava e alimenta, a lua cumpre seu ciclo e o sol deita a energia, o velho se transforma em húmus para alimentar de experiência o jardim. Ali então começa a surgir novo bosque, mais belo, mais forte, mais verdadeiro e escancarado, sem ocos, sem buracos, sombras belas, linhas novas iniciam novo livro, novos capítulos.
Maturidade
Por vezes eu sofri sem querer entender o óbvio, só a maturidade nos faz ver o que não queremos ou ainda não temos a capacidade necessária para ver.
É preciso ter certeza do que buscamos, ter segurança de quem somos e o que procuramos, para começar a perceber o mundo de uma forma mais realista, sem ilusões e sem tantas decepções.
Eu hoje percebo antes o que poderia me magoar, eu sei prever o incerto, onde devo pisar, o melhor caminho a tomar.
Ainda vou me equivocar, pois os sentimentos muitas vezes nos tomam, e a cabeça não pensa, mas hoje me dominam bem menos e consigo domar a mim mesma, sei onde estão as minhas fragilidades e ao que não devo ceder. Hoje eu posso sonhar , mas não tiro meus pés do chão.
Guardar objetos de recordação é o mesmo que dar dois pontos,não é nem um ponto final e mais um ponto vira reticência.
Umas das coisas mais valiosas para mim são as recordações, guardo várias com carinho e acredito que os objetos daquela recordação criam a conexão perfeita para as mesmas, sempre guardei uma desenho, caderno, apostila, um botão, sempre tive minha caixinha de lembranças, não está mas comigo mais por um bom tempo alimentei aquelas lembranças, guardar é isso alimentar a lembrança na sua memória, não é reviver mas é cultivar aquilo em você, claro que você não precisa de objetos para lembrar das coisas, mas guardar é praticamente uma prova do quanto você gostou ou não, enfim do quanto te marcou e é por vezes desejar também .Guardo tudo até aquilo que não foi tão bom, guardo para lembrar e também para atingir .
Algumas das suas lembranças me ofendem, não que eu não concorde de você as ter, mas a forma de como você as alimenta, me atinge sim ! Mas as minhas também te atinge e faço propositalmente, por extrema defesa e por pura implicância.
Cuidado com o que revive, com o que talvez deseja, um dia pode se virar contra você e virar realidade mas não como você sonhava e o que pensava que seria e em vez de ser seu pesadelo do passado pode te ser milhões de pesadelos futuros.
Saudades, pensamentos e atitudes.
Quem disse que forte é o homem que não chora quando está triste com algo é porque não sabe o que realmente vive...
Saudades, essa palavrinha onde só existe no nosso dicionário, é tão complexa, que muitos não a entendem.
Ser feliz só no pensamento, não nos leva a nada, pois você precisa sentir na pele a felicidade, para que naquele momento de solidão, naquele momento de nostalgia, te coloque para rir sozinho, aquelas imagens passando em sua mente, aquelas palhaçadas, onde só seus amigos e você sabe.
Viver não é um mar de rosas, creio nisso, mas o sábio aprende com os espinhos, para que as pétalas sejam mais belas e perfumadas.
Somos o que pensamos, nada esta mais além do que nossos pensamentos, pois eles são o esboço das atitudes, das ações.
Cansamos é verdade, mas essa vida nos dá tantos sinais, que acabamos não observando o quanto podemos ser felizes, somos inúteis com nós mesmos, mas não podemos ser escravos dessa inutilidade.
Levantemos a cabeça, pois o mundo é grande demais para ficarmos presos a uma grande areia movediça. Saibamos enxergar o que está em nossa frente, pois o que está pode, num piscar de olhos, sumir sem deixar rastros.
" Relógio "
Não era eu, era você ou era eu e era você?
Na verdade foi o tempo que fez eu te conhecer
O relógio andando para frente talvez ele estivesse inconsciente
Porque parou tão loucamente fazendo você ficar na minha mente.
Mas não consigo te descrever só sei que cada segundo vale a pena
Quando estou com você, deitar e te querer do lado. Isso me deixa descontrolado culpa do relógio da vida que resolveu parar e me deixou
Atrasado e na medida de cada dia. A saudade bate em meu quarto eu não atendo me contenho deixo na cama dormindo a esperança que eu tenho desde criança e ela vai embora, mas ah! Amor vê se não demora vou dormir
Um pouco e talvez com a ajuda do tempo e meu querer eu acordarei com você nos próximos amanhecer.
As cartas mostraram o futuro
A Justiça
O Diabo
E a Morte
Tive medo, enfrentei
Quem diria? Não é?
Tava mesmo contando com a sorte
As cartas lembraram o passado
Pensei
Vou mesmo mesmo entrar nessa barca?
No caminho gritei
Peraí, mãe Dináh!
Não faltou eu virar uma carta?
As cartas velaram o presente
Ou não!
Uma delas não foi revelada
Fui torcendo
Era o Louco?
Ás de copas? Tomara!
Só não quero outro sete de espadas
As cartas me guiam de novo
Socorro!
Quem mesmo uma nova mudança?
Estou triste
Arrasada
Segura e certa
Não lhe devo a menor confiança
Sumi
Resisti
Desisti
Decidi! Meu futuro sou eu quem sabe
Vou embora
Pra sempre!
Tranca a porta
Adeus!
Mas deixa eu ficar com uma chave?
Sabe quando nada faz sentido?
Quando se achas perdido?
E não sabe o que fazer?
Entrega sua vida para Cristo
Ele é um bom amigo
Que não quer te ver sofrer
Sua vida mudará
Se com fé se entregar
E o amor do Pai sentir
Vida nova vai seguir
Vem entregue a sua mão
Com amor no coação
Vem pro céu voltar sorrir!
Já não sei mais o que faço
Se tento subir, me puxam o braço, eu caio
Uma escuridão me possui me deixando pra baixo
Me tira desse buraco!
Pai me tira daqui
Eu não sei viver sem ti
Me levanta do chão, me ergue
Eu não aguento mais viver sem razão
O Teu amor é o que quero sentir
Na sua brisa de paz onde eu vou fluir!
Ao findar mais um dia a gente precisa descansar.. não só a mente, mas o coração também e aquietar para ouvir o que Deus tem para nos dizer, as vezes os nossos sentimentos estão bagunçados e fazem muito barulho dentro da gente roubando a paz, o conforto que Deus quer nos dar...
A quietude interior nos faz mais sensíveis ao sussurrar do Senhor, ao seu toque suave em nossa alma, ao seu bálsamo de esperança ...
Então o que temos que fazer é apenas aquietar e reconhecer que acima de qualquer coisa que estejamos passando Ele é Deus , soberano e está no controle de tudo...
Débora Aggio
Ver-te.
Desculpa sonho meu, mas já nem posso ver-te,
já não posso toca-lo, senti-lo ou ama-lo. Ver-te
é como caminhar na praia e não poder mergulhar
em suas águas, é ouvir a voz do vento e não sentir
teu frescor. Ver-te é como tocar a rosa e sentir
seu espinho a sangrar meus dedos. A ferir a alma
no impace do desejo. Mas o que sangra é o meu
peito que em meio ao deserto de ilusões ao longe
ver-te no infinito do desejo alheio, ver-te partir
sem medo. Meus olhos já não o alcança, nem o faz
voltar com meu canto e assim percebo que não
mais encanto esse ser. Pra onde foi sonho meu?
Viajou longe pra nunca mais voltar ao conto de
meu desejo.
Do riso se fez o pranto.
Hoje poderia ser mais um dia lindo e brilhante.
De repente, não mais que de repente, as plantas parecem murchas e as flores sem perfumes.
O sol escaldante, queimando a alma, ja nem sei mais se alma tenho.
Falta-me forças pra caminhar.
Só me restas banhar-me na lágrimas que ainda insistem em rolar...
Para onde foi? Se perdeu no deserto em meio a variedades.
Desapareceu-se de mim quando o alheio apareceu.
(Kare Santana)
Pego-me na alta da madrugada, pensamentos a mil,
e todos carregam seu nome.
Não sei o que acontece comigo,
Talvez eu carregue a ilusão em meu peito.
Ilusão de que algo possa vir acontecer.
Porque? Porque ser tola a tal ponto?
Pergunta a razão:
Menina, será que não passastes sofrimentos o suficientes?
Responde o coração:
Ela só quer uma chance de ser feliz.
Pergunta a razão novamente:
Mas, será que vocês não viram que não ia dar certo?
Responde o coração:
Ela sempre ouviu dizer que a esperança é a última que morre.
No final da história, a menina se encontra só, na alta da madrugada se perguntando porque? Porque, passar por tudo isso?
E nesse dilema, ela segue a vida.
Hipocrisia
Ser ou não ser, eis a questão. Ser sim, mas ser de verdade, não ser para dizer , para encher a boca, para ficar bem na fita, com a família, com a sociedade.
Ser feliz, ser bom, ser digno, ser amado, ser humano, ser amigo.
Todos percebem hipocrisia, ela é sempre melhor e mais bonita, mais fina, mais correta, mais santa , mais cínica.
Perfeição e santidade são caminhos escolhidos, incluem atitudes, renuncias, quedas, retomadas, não é simples, nem pode ser simplesmente decidido pelo nosso desejo e o orgulho.
Ser ou não ser, eis a questão, ser sempre e ser sempre assim, assim como somos, de verdade, na derrota ou na vitória, no acerto, no erro, na saúde ou na dor, não importa onde for.
Hoje acordei cansada. Mas não como nos outros dias em que acordava cansada por pura preguiça ou simplesmente por ter dormido pouco. Acordei cansada de querer tanto e não fazer nada. De reclamar muito e não buscar soluções. De fugir ao invés de correr atrás. Cansada de ter a procrastinação como a palavra que resume minha vida. De só ver como os momentos podem ser bons depois que eles passam. Acordei cansada de só viver minha vida em sonhos.
Estive pensando no que posso fazer para mudar as coisas, mas como sempre, apenas penso. Por que é tão difícil colocar todas as minhas ideias no dia a dia? Por que é tão difícil tirá-las do papel e executá-las?
Meu maior desejo é aprender a me apaixonar pela vida, aprender a apreciá-la de todo coração, vive-la. Já passei tantos dias, meses, anos deprimida a ponto de só querer mergulhar no sofrimento, mas não é o que almejo para o futuro. Futuro. Penso tanto sobre o que será daqui um tempo, mas quando lembro que tudo o que acontecerá adiante será simplesmente as consequências das minhas escolhas de agora, fico com medo. Com medo de não estar fazendo o certo. Com medo de que toda essa magia que vejo no que vai ser depois não seja muito diferente do que já agora. Medo de que seja ainda pior que a realidade que estou vivendo no momento.
Enfim estou indo dormir... cansada. Cansada por ter tido a chance de sair com meus amigos, de jogar papo fora, de tomar sorvete, de tirar fotos, de aproveitar mais um dia e apenas ter ficado no meu quarto, reclamando, pensando e escrevendo sobre o quanto estou cansada.
Sobre expectativas.
Não é raro nos percebermos esperando...
Um gesto, uma palavra, uma defesa ou um reconhecimento.
Criamos lindas fantasias sobre como o outro deveria ser, sobre os valores que deveria ter, ou sobre as belezas que deveria apreciar. Quanto mais ao outro amamos, mais dele esperamos.
Pois amar, é ansiar pelo amor do outro, e por isso tantas vezes ao outro endereçamos as carências embrulhadas em mimos e presentes.
Nesta doce ciranda, sempre haverá um pedaço amargo, um espaço não preenchido, não correspondido, que assim pode ser lido como não-amado.
O desafio é construir amores, consciente do espaço amargo, com falhas na correspondência, mas que por respeito às diferenças, sabedoria dos limites, amaremos o outro com o reconhecimento de um espaço que não pode ser amado.
A saudade;
Lá está você sentado no meio da estrada, na qual olha para os lados e não ver diferenças. Aí pensa : como seria diferente se tivesse amado todos eles de forma igual; se tivesse feito as mesmas promessas; se tivesse usado os mesmos peso e medida, em qualquer tipo de julgamento que tenha feito. Talvez a saudade fosse só uma , e assim melhor sentida. Mas logo você acorda e vai viver todos os caminhos e suas respectivas diferenças, claro.
Josué Morais.
Se ela soubesse o quanto é amada, não sairia por aí em busca de colecionar amores vazios de sentimentos.
Se ela soubesse o quanto desejo seus beijos, não sairia por aí sentindo o gosto de outras bocas.
Se ela soubesse o quanto respeito tenho pelo seu corpo, não sairia por aí trocando carícias com qualquer idiota que lhe fala de amor.
Se ela soubesse quantas vezes sonhei em estar ao seu lado, não se negaria a fazer parte da minha realidade.
Se só por um instante ela pudesse ver a si mesma com meus olhos, certamente se apaixonaria. O sorriso dela? É sem dúvidas o mais lindo que meus olhos já contemplaram.
Ontem eu sonhei, sonhei com a felicidade, sonhei com você. Senti no peito uma sensação incrível, não sei o que era, só sei que era bom, muito bom, senti algo que jamais senti. Sabe, o que eu pensei? Que eu tinha me completado, encontrado a pessoa perfeita, esta que ocupasse o vazio que tenho no meu coração.
Ontem vivi tudo aquilo de forma especial, de uma forma inesquecível.
Hoje parei para refletir, daí, percebi que, na verdade, não era um sonho, era real. Todos os momentos, não era ilusão, não era apenas um desejo, era verdadeiro. Eu só notei hoje, que você estava ali. Apesar de ser por apenas "um minuto", foi essencial para que amanhã, eu possa lembrar e dizer, você foi, você é, você sempre será a mulher que me fez sonhar, um sonho real, um sonho inesquecível.
Meus 15 anos!
Eu sempre me senti diferentes das outras garotas. Não mais bonita, nem mais feia, só diferente. Nunca gostei de maquiagem, quando usava me sentia o curinga personificado. Minha moda? Eu mesma criava o meu jeito de me vestir. Saltos? Nunca gostei, eu preferia All Star. Roupas com decote? Eu passava longe!
Eu estudava em uma escola de tempo integral - Escola Estadual de ensino integral Emanuel Rosa Sales. Meu tempo de escola não era diferente desses famosos clichês que passam nos filmes: "Garota bonita vs Garota feia".
Bruna, é uma daquelas garotas que todos os meninos são loucos para "pegar". Realmente linda e atraente, mas posso dizer que tinha muita beleza e pouco conteúdo. Eu era exatamente o oposto dela. Enquanto os garotos faziam fila para namora-la, eles também faziam fila para fugir de mim.
O meu primeiro e tão sonhado beijo, aconteceu com um garotinho da escola, que tinha por nome Pedro. Eu estava feliz, cheguei a pensar que ele e eu namoraríamos (quanta inocência)... Depois de alguns dias trocando beijos e acreditando que estávamos juntos, Pedro me deu um belo fora dizendo:
- Não posso mais ficar com você, meus amigos estão me zoando e falando que estou namorando uma garota que parece menino.
Eu chorei muito ao ouvir aquilo, eu tinha apenas 13 anos e não entendia porque insistiam em me rotular gay.
Comecei a perguntar a mim mesma se aquilo era resultado do modo como eu me vestia ou talvez o jeito masculino como eu andava (eu já tinha ouvido alguns colegas dizendo que eu não sabia rebolar e andava de um jeito masculino. Eu nunca imaginei que existia regras na forma de andar, onde diferia homens de mulheres.) Talvez a minha falta de feminilidade tenha contribuído em toda essa construção pejorativa que as pessoas tinham com a minha aparência.
Um dia almoçando sozinha na escola, sentou uma garota na minha mesa (de nome Nicole) para me fazer companhia. Isso raramente acontecia... Ela me tratou bem como há muito tempo não acontecia, disse que entendia tudo que eu estava vivendo pois também passou pelo mesmo ao se assumir.
Fiquei brava por ela ter agido como se eu também fosse lésbica. Levantei furiosa e fui embora pra minha sala deixando o almoço quase intacto na mesa. Sentei na minha cadeira e comecei a refletir que talvez aquela menina tenha sido a única que me tratou bem, não se importando com o que falavam sobre mim. E se eu tinha tanta raiva daqueles que me julgavam, porque logo eu iria julga-la? Voltei ao pátio e olhei em volta para encontra-la e fui até onde ela estava para me desculpar.
Ela desculpou-me e se tornou minha melhor amiga. Quando alguém zoava a gente nos chamando de lésbicas ela sabia exatamente como nos defender, até parecia que ela acostumou com aquilo ao ponto de ser mais forte e pouco a pouco ela me ensinava a ser forte também.
Depois de um tempo esse tal menino - o Pedro - começou a me zoar com os demais amigos... Me chamava de "Maria macho", "sapatão" e uma série de coisas desse gênero. Eu chorava e tinha vergonha de ir a escola. Eu implorava que minha mãe me tirasse de lá, mas ela inocentemente achando que era preguiça de estudar, não atendeu meu pedido. Eu comecei a rezar que a convivência na escola melhorasse, mas tudo só piorava, passei a ter medo de me aproximar das pessoas e chorava quase sempre que estava sozinha.
Eu comecei a cair em uma depressão enorme. Piorando eu morria de medo de falar para minha mãe o que estava acontecendo. Eu tinha medo que ela também achasse que eu era lésbica. (eu era só uma garota de 13 anos sentindo-se só).
Os boatos sobre minha sexualidade se espalharam e logo todos os alunos e alguns professores já estavam sabendo da história e tomando essa mentira como uma verdade absoluta. Eu me afundava a cada dia em uma solidão absurda dentro de mim. E sempre quando me viam chorando nos cantos da escola, afirmavam que era vitimismo para chamar atenção.
Tentei me afastar da Nicole para diminuir os boatos, mas sem ela a escola era ainda mais difícil de suportar. Nossa amizade só crescia e os boatos de que estávamos namorando se espalhou pela escola.
Em uma manhã de quarta-feira fui ao colégio, mas não tive coragem de entrar na sala de aula. Eu tive fobia/medo daquelas pessoas que se diziam meus colegas. Covardemente desisti de entrar na sala e segui de uniforme, livros e mochila até a saída para tentar ir embora da escola, mas infelizmente os portões já haviam sido fechados e eu em uma atitude desesperada para não entrar na sala, segui em destino ao banheiro do vestiário feminino. Fiquei lá por quase 4 horas sentada no chão do banheiro, por mais desconfortável que fosse, era melhor para mim que entrar na sala.
Na hora do intervalo um grupo de meninas da minha sala entraram no vestiário para retocar a maquiagem antes de irem almoçar. Ironicamente notei que o assunto da conversa era sobre mim. Elas falavam em alto e bom som, para que quem entrasse naquele banheiro pudesse ouvir que os diretores deveriam expulsar-me, pois pois era inaceitável um namoro lésbico na escola. Todas caiam na risada, pareciam contar a mais engraçada de todas as piadas.
Abri a porta do banheiro e com toda a raiva que eu estava sentindo, empurrei uma delas contra o banco do vestiário. Por ironia, era a Bruna. Mas meu ódio me cegou e não consegui parar de machuca-la, suas amigas tentaram separar a briga e chamar socorro, mas até lá eu já tinha feito um estrago no rosto dela.
Fui suspensa após isso e quando finalmente voltei à escola minha vida se tornou um inferno ainda pior. Bruna começou a espalhar boatos mentirosos sobre mim, afirmava aos quatro cantos da escola que me viu beijando uma garota e eu havia batido nela para que ela não falasse a verdade sobre mim.
E enquanto pessoas como a Bruna e o Pedro se voltaram contra mim, a Nicole se aproximava cada vez mais e me fortalecia.
O tempo foi passando e eu acabei me encantando por aquela garota. Me encantei por ela e não por ser uma menina. Acabei me apaixonando pela forma que ela me cuidava e me protegia do mundo. Eu não sei se nasci lésbica ou se me tornei devido as circunstâncias, mas até hoje não me arrependo.
Parei de me importar com o que as pessoas falavam sobre mim e passei a ter orgulho de quem eu era. Tomei coragem e me assumi para minha mãe que, graças à Deus, me aceitou bem. No início eu tinha receios de assumir até a mim mesma, mas depois que eu me aceitei vi que minha sexualidade não me fazia menos que as demais pessoas.
Fomos o primeiro casal lésbico da escola. Era algo novo e inusitado, após isso muitos outros casais gays começaram a assumir também.
Ao me assumir, uma porção de barreiras difíceis começou a surgir para que eu quebrasse. Eu era vítima de preconceito constantemente. Até daqueles que deveriam nos defender. Acabei sendo obrigada a mudar de escola após uma conversa de diretores com minha mãe. As pessoas não aceitavam e parecia que a minha sexualidade desmoralizava a todos.
Pessoas se afastaram e deixaram de ser meus amigos, no início não entendia o que estava acontecendo comigo. Eu era uma menina como todas as outras, a única coisa diferente era o que eu trazia no meu coração. Mas desde quando a minha forma de amar muda quem eu sou?
(...) ANOS PASSARAM
Deixei de ser a menina assombrada, para me tornar a mulher destemida. Concluí o ensino médio e iniciei a faculdade de Psicologia.
Um certo dia vindo da faculdade, encontrei uma garota desolada, com a cabeça baixa, sentada em um banco na rodoviária. A faculdade é em uma cidade vizinha, então fazia parte da minha rotina descer do ônibus na rodoviária e ficar na espera da minha mãe ir buscar-me.
Já era tarde e não tinha quase ninguém na rua, era por volta de quase onze e meia da madrugada. Me aproximei e quando a tal garota levantou a cabeça, vi que se tratava da Bruna. Nesse momento eu gelei, fiquei paralisada e sem ação.
Ela tentou ignorar a minha presença, continuando sentada em um banco, tentando abafar o choro. Creio que se sentiu intimidada. Tentei me aproximar, porém eu estava com certa vergonha. No fundo eu sentia muita mágoa, raiva e desprezo ao lembrar de tudo que ela me causou anos atrás, mas ir embora e deixa-la para trás naquele estado me traria peso na consciência. Já era tarde e seria perigoso para qualquer garota ficar ali naquele horário sozinha. Insisti para que ela se abrisse e eu pudesse entender o motivo do choro. Mesmo com muito medo que ela me tratasse mal como tratou em todas as vezes que cruzamos.
De início ela me tratou mal e disse que eu estava tripudiando da tristeza dela. Ela implorou para que eu me afastasse, mas eu fui insistente. A verdade é que ela estava insegura, achando que eu estava ali para me engrandecer com sua dor.
Sentei ao seu lado no banco em que ela se encontrava e disse:
- Eu não quero te fazer mal, se o destino fez que a gente se encontrasse a essa hora, talvez fosse mesmo pra ser assim, do contrário, as forças superiores teriam enviado uma daqueles suas amigas do ensino médio. - Rimos juntas.
Ela começou a chorar e me abraçou, fortemente como se fosse um pedido de desculpa por ter durante tanto tempo me perseguido. Creio que a minha piadinha fora de hora sobre ensino médio tenha despertado tais lembranças nela.
Ela ainda presa no meu abraço, contou-me que acaba de ser expulsa de casa e o motivo era sua sexualidade. Eu fiquei surpresa. Puts! Sempre imaginei ela héterosexual e agora essa revelação, caramba me pegou realmente surpresa. Ela chorava mais que antes e me pedia desculpa por tudo que me causou e me abraçou ainda mais forte.
Quando minha mãe finalmente chegou para me apanhar da faculdade, eu expliquei toda a situação e pedi permissão para leva-la para dormir aquela noite em casa.
Minha mãe respondeu algo que me fez agradecer aos céus por ter a sorte de ter nascido daquela mulher:
- É claro que pode Lanny. Algumas vezes na vida, nós pais tememos tanto que nossos filhos sofra, que brigamos para que eles sigam um caminho que a nossos olhos seria menos doloroso. Talvez seus pais só esteja com medo de tudo que você vai enfrentar pela sua sexualidade. No início eu também agi assim, mas depois me preocupei em não der para minha filha um exemplo dessas pessoas que não se importam com com a felicidade. Nós as vezes buscamos tanto o melhor para nossos filhos e esquecemos que o melhor nem sempre é o caminho mais fácil e sim o caminho que mesmo difícil os fazem mais felizes. Eles vão te aceitar Bruna, é questão de tempo até que eles vejam a filha maravilhosa que você é.
Naquela noite e por mais alguns meses Bruna passou a dormir em minha casa. Esquecemos sobre o passado e firmamos uma amizade forte. Hoje somos quase como irmãs. Após alguns meses sentindo na pele o peso da rejeição e do preconceito ela foi finalmente aceita por seus pais e hoje é namorada de uma garota linda que costumo chamar de cunhada.
Não sei se dá pra tirar uma moral dessa história, mas se desse seria: O mundo gira e as pessoas que hoje você oprime, amanhã pode ser uma das poucas que vai te estender a mão quando precisares.
Repentinamente me vejo sendo outra vez aquela garota de quinze anos. Isso é tão assustador!
Me vi presa outra vez dentro de mim mesma, com medo de sair do quarto e viver. Parece tão louco me sentir assim. Eu sempre me achei/pensei ser tão segura de mim mesma.
Me sinto de mal com o espelho, quando fico diante dele vejo um reflexo errado de mim. Por mais louco que seja, ele mostra a imagem de uma garota de quinze anos chorando, mas eu sou uma mulher. Ele deve estar refletindo errado ou sera o reflexo da minha alma?
As pessoas me olham, mas sinto que são sempre olhares focados para as minhas "imperfeições" e nunca olhares de admiração. Eu já desisti de conhecer novas pessoas por vergonha da minha aparência, recusei alguns encontros por puro medo do que os outros pensariam de mim depois de me conhecerem a fundo.
Sei que muitas pessoas não entendem meus sentimentos, minhas escritas, minha palavras. Mas a confusão dessas palavras combinam com meu excesso de sentimentos confusos. Sou tão de mal comigo mesma que me recuso a pensar na ideia de alguém me ver com bons olhos... É como se fosse impossível na minha cabeça.
Cinco anos passaram e a garota de quinze anos ainda não morreu dentro de mim. Ela continua chorando e se sentindo abandonada nesse mundo onde só parece caber pessoas de boa forma e pouco conteúdo.
Gosto de pessoas que buscam despir não só meu corpo, mas minha alma também.
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