Nao Consigo te Odiar
08 de junho
Meu querido Rick, eu sei que prometi que não ia mais te escrever, e você sabe como essas cartas são humilhantes para mim e dolorosas- porque o amor sempre tem um quê de dor-, mas eu não pude evitar...a saudade apertou e eu não tive outro recurso senão escrever. É que escrever alivia o peso de minha alma, lava as feridas e me ilude fazendo eu pensar que um dia você lerá esses pensamentos tolos que escrevo. Os dias têm sido bons na escola, e eu achei um jeito de conseguir minha alforria e fazer os garotos não me baterem mais. Claro que isso envolve passar cola para eles, e sei que não é certo, mas é a maneira que eu consegui. Ah, e tenho feito tantas amizades, como Paloma. Queria que você tivesse a oportunidade de conhece-la um dia. Já é começo de junho e começa a esfriar, com o outono dizendo “au revoir” de maneira sutil a todos nós. Eu adoraria lhe falar de pontuação, embora você, como a maioria das pessoas, odeie português e não consiga entender a beleza da nossa língua. Ok, talvez eu não lhe explique a função de cada um, mas eu apenas lhe digo que tenho colocado vírgulas demais nesse amor que sinto, tenho dado pausas demais, separando termos e rezando para que as coisas deem certo um dia, quando deveria colocar logo um ponto final e finalizar isso tudo; essa agonia, esses sentimentos, essas cartas sem sentido que você nunca vai ler. Você me arrancou pontos de exclamação demais, fazendo meu mundo ter mais emoção, mais vida, e eu agradeço por isso, mas agora chega. Quer dizer, tem que chegar, porque eu não posso amar você para sempre. Eu só não sei como se para de amar alguém e segue sua vida, apagando memórias e sentimentos, como quem passa uma borracha em tudo. Ah, mas estou farta, muito farta de lhe amar! Estou farta como Ana Carolina na música “Vai”, que parece que foi feita para você, porque eu quero te expulsar meu coração, mas não consigo. Eu nem sei o que fazer com esses versos, esses versos que explodem dentro de mim, como um tsunami. Tudo bem, vou parar com a bobagem que foi essa carta, e eu gostaria de usar um ponto final e enterrar você para sempre, mas por enquanto eu só posso lhe oferecer um ponto de interrogação, um “será?”, um “talvez?” como uma pergunta do tipo: e será que desta vez vou te esquecer?
-Annie.
Eu não digo que você deva se importar com o que as pessoas acham de você, muito pelo contrário, pois a única opinião que importa de verdade é a sua. Porém, isso não significa que você deva se fechar em um casulo e se voltar contra o mundo, porque devemos nos permitir sentir...Sentir a chuva que cai, sentir a neve que gela as mãos, o vento que sacode os cabelos , o mar que bate nas rochas e o amor que invade. Devemos nos permitir amar e o amor pode vir de infinitas formas diferentes...
Eu sou um mar infinito de paranoia e não sei lidar com relacionamentos, acho que por isso estou solteira, eu não confio em ninguém e sempre acho que estão mentindo para mim ou me enganando porque na minha vida inteira só mentiram para mim, me enganaram ou me usaram. A verdade é que ninguém nunca me tratou como eu merecia ser tratada, o que faz como que eu me sinta como um cachorro de rua rejeitado que ninguém quer...
Eu não era mais uma garota, eu não era mais uma mulher; eu tinha virado nuvem, minhas pernas adquiriram a consistência de uma geleia e eu facilmente poderia me dissolver no chão como espuma. Eu tinha apresentado meu TCC, eu tinha conseguido e quando todos me aplaudiram eu me senti como uma estrela brilhando no céu. Marilyn Monroe dizia que "todo mundo é uma estrela e merece direito ao brilho" e sabe que ela estava certa? Eu brilhava tal qual uma estrela e de repente nada no mundo se comparava àquilo, àquela sensação de sucesso, de reconhecimento, de glória! Nenhum amor pagava àquilo, nenhum beijo, nenhuma viagem, pois aquela vitória era minha, somente minha e isso ninguém jamais poderia tirar de mim! Minha alma virou nuvem e naquele exato momento eu me sentia brilhante, eu me sentia uma estrela, eu me sentia infinita....
Sabe o que percebi ontem? Eu não sinto mais ressentimento em relação à Bia e em meu coração, de algum modo, não sei como, não sei quando, eu encontrei uma forma de perdoá-la, pois quando eu estava agoniada em relação ao meu relacionamento foi tão fácil conversar com ela e contar tudo.Ela me perguntou: "Você está apaixonada por ele? Se você vir que isso não vai dar em nada, pule fora antes de sofrer". Eu não soube responder o questionamento dela, mas me senti grata pelo conselho. Então hoje eu poderia ter ficado em casa, sabe? Mas eu senti que precisava ir, porque hoje era o dia em que ela apresentaria o TCC e eu de alguma forma senti que precisava estar lá, que precisava estar lá por ela. Isso soa um pouco bizarro, não? Depois de tudo que aconteceu entre nós...Mas eu fui, tentei acalmá-la, fiquei ao lado dela a noite toda e quando todos a aplaudiram , eu aplaudi também e senti orgulho dela. Foi nesse momento, com a chuva de aplausos que eu percebi como eu queria, mais que queria, como eu precisava estar ali por ela, como me orgulhava dela e como eu a tinha perdoado, como em meu coração eu encontrei essa forma secreta e silenciosa de perdão. Eu sei que nossa amizade talvez nunca mais volte a ser o que era, aliás, eu duvido que volte, mas o importante é que eu a perdoo, de todo meu coração eu a perdoo!
Meu querido F, Supostamente, eu não deveria estar lhe escrevendo, pois lhe escrever é lhe entregar uma parte da minha alma, uma parte de minha sensibilidade, no entanto, acho que você merece isso , merece ao menos uma carta, e eu espero sinceramente que seja só uma. Agora que acabou eu posso gritar as palavras que me sufocavam, agora que acabou eu posso me permitir engolir esse nó que estava se formando em minha garganta pouco a pouco. Eu sei sobre sua ex. Eu sei que vocês voltaram a ficar e que é questão de tempo até reatarem o namoro. Eu poderia me fazer de sonsa, de desentendida e fingir acreditar que é sua mãe que está ligando quando toca seu celular , mas eu não sou esse tipo de garota, me desculpe. Eu estou, admito, dividida entre a serenidade e a descrença, pois enquanto uma parte minha deseja que você seja feliz , outra parte apenas aguarda para ver quanto tempo esse relacionamento vai durar dessa vez, quanto tempo ela vai demorar para colocar outro chifre em você. Eu sei que é arrogante de minha parte, mas seria divertido ver você quebrar a cara ao perceber que escolheu a garota errada. Porque a garota certa sou e sempre serei eu, mas quando você perceber isso será tarde demais para flores e bombons, tarde demais para você tentar agir como um cavalheiro, tarde demais para me amar. A verdade é que você nunca soube me cativar, nunca soube falar a minha linguagem do amor, pois eu sou feita de versos, eu sou feita de poesia e eu merecia amor. O fato é que eu não me permiti te amar e se você me perguntar o porquê disso eu não sei explicar para mim mesma. Talvez no fundo eu soubesse que você não era o suficiente para mim e nunca seria. Eu acho que é isso, eu sabia que você nunca seria extraordinário o suficiente para se encaixar na minha vida e no meu coração. Talvez também eu tenha me tornado uma pessoa amarga ao longo dos anos e não me permita amar mais ninguém... eu não sei. O que eu sei, ou que gostaria que você soubesse, mais precisamente falando, é que eu acho você um cara legal, inteligente e decente- de longe , o mais decente com quem já me envolvi- mas você está fazendo um papel de otario nesse momento. Eu queria que você soubesse que se porventura a gente namorasse eu não iria restringir sua liberdade como ela faz, pois eu acho que o amor tem que ser livre para ser amor e do contrário é prisão domiciliar , é regime fechado, é prisão preventiva, é medida cautelar, mas não é amor. Eu espero que você encontre o que está procurando e lhe desejo sorte nos dias que virão. Por fim , quero que saiba que é você quem decide se isso pelo que estamos passando são reticências ou um ponto final, pois eu acredito no princípio do in dúbio pro reo e concedo o benefício da dúvida e uma segunda chance, mas jamais uma terceira. -de sua meio amiga e meio amor, Audrey.
Não sei exatamente o que é mas eu sinto que as coisas estão mudando , mesmo que a mudança ainda não seja algo visível, que seja algo que se opera nas profundezas e ainda não veio à tona. Isso faz algum sentido? Talvez faça, quer dizer, minha formatura é em um mês exato, eu de repente estou esperando minha carteirinha da OAB chegar, minha Pós começa quarta-feira e eu estou comprando um carro! Eu já não tenho medo do mundo. Eu abro minhas asas e me preparo para voar, como o passarinho do livro do Fisk, o do "Spreading wings." Eu me sinto aquele passarinho agora. Ainda não é hora de voar, mas logo será. Eu sinto isso.
A vida de recém-formada não é nem de longe tão glamurosa quanto eu pensei. A vida vem e nos dá uma série de tapas na cara de uma só vez e ainda quer que a gente levante e continue sorrindo. A sociedade nos exige isso, mesmo quando tudo o que a gente quer é se afundar no travesseiro e chorar até desidratar.
A gente sempre acha que não é suficiente para aquela pessoa e aí de repente descobre que aquela pessoa não é suficiente para você. Eu não caibo em mim, eu sou feita de poesia, exalo frieza mas por dentro sou só amor, embora ele não mereça esse amor. Eu sou uma pedra preciosa, ele está acostumado com bijuterias, no entanto, não se oferta uma Swarovski para quem não sabe usar.
Eu não entendo o proporção dos meus sentimentos, pois logo que o vi eu quis desmaiar, fugir para longe. Depois quis beijá-lo. Mais adiante eu quis cuspir na cara dele como ele foi idiota, idiota, idiota! Ele trocou um diamante por uma bijuteria, pois doa a quem doer, eu sou um diamante! Há gosto para tudo nesse mundo. Inclusive, há mulheres que preferem bijuterias a ouro, enquanto outras têm alergia a qualquer coisa que não seja ouro pois qualquer outro material causa uma irritação na pele, uma vermelhidão, uma coceira...
Meu querido Rick, sei que não escrevo há muito tempo, e eu inclusive deveria tomar juízo e parar de escrever estas cartas bobas. Hoje, no entanto, estou aflita e precisei escrever para não sufocar com minhas preocupações. A prova de matemática é amanhã e por mais que eu tenha passado a semana estudando, não sei se saberei resolver as questões. Eu não sei lidar com ângulos, formas geométricas e raízes quadradas juntos e misturados em uma questão. Pensando bem, eu não sei nem lidar com eles individualmente. Acontece que eu não sou feita de números e lógica, nada disso. Eu sou feita de palavras, de advérbios que intensificam, de substantivos que explicam, de verbos que dramatizam, e de pronomes que apresentam, demonstram e captam todo amor que eu sinto por você. Sinto-me neste momento banhada de luz pelo sol que se põe e pelas listras azuis e rosas que se formam no céu da tarde. Imagino se você está olhando para o céu agora, mas creio que não...você deve estar flertando com uma garota qualquer, comemorando um gol ou andando de bicicleta na avenida em alta velocidade e de braços abertos para mostrar que você é destemido. Você deve estar tendo uma vida incrível, cheia de amigos, de novidades, e eu estou perdendo essa parte da sua vida. Cada dia que passa, uma nova página da sua vida é escrita, cada mês, um capítulo, cada ano, um novo livro, e eu vou sendo deixada para trás, e o garoto que eu conhecia vai ficando no passado e eu vou deixando de conhece-lo, de reconhece-lo, de entende-lo, como se eu fosse uma leitora voraz tentando ler todos os capítulos da sua vida, mas sempre acabo ficando para trás, em algum canto esquecido de sua história, de sua memória.
Fico pensando se eu te encontrasse por acaso na rua um dia, em uma dessas reviravoltas do destino, eu fico me perguntando se eu te reconheceria e se você me reconheceria. Uma parte do meu coração me diz que eu sempre vou te reconhecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer situação, mas será mesmo? Será que você mudou tanto quanto eu sinto que mudei? De qualquer modo, eu lhe desejo sorte na sua vida e jogo mil beijos às estrelas, como se elas pudessem entrega-los a você...
-Annie.
(Anseios de uma jovem escritora)
Eu não sei dizer se foi a literatura ou a música que tocaram minha alma e me fizeram ficar tão sensível, tão triste, tão frágil a ponto de eu vir aqui na sacada, de pijama, às 22 horas escrever. Creio que eu seja feita dessas duas coisas, de literatura e de música, como se a melodia e a poesia fossem duas linhas que se entrelaçassem dentro de minha composição genética, como se fossem meu próprio DNA. (Anseios de uma jovem escritora).
As coisas não fazem sentido e a dor vem e vai com pontadas desconfortantes em meu peito e penso se eu de repente não mereci isso. Penso se em algum momento- possivelmente fevereiro- eu não fui feliz demais e o universo esteja contraponto esse sentimento com uma tristeza excessiva para equilibrar os sentimentos dentro de mim. Estarei eu sendo punida por algo que fiz? Algo que deixei de fazer? Acaso atraí a fúria dos deuses sendo feliz demais ao pensar que uma vez na vida meu amor era correspondido? Descobrimos que não era. Nunca foi. Algum dia será? Será que eu entre tantas pessoas não mereço amor? Tanta gente quer ganhar na loteria, ficar rico, comprar um carro, mudar de país, e eu só queria ser amada. Eu só queria querer e que a outra pessoa me quisesse de volta. Era tudo o que eu precisava. Talvez a vida tenha outros planos para mim e não me permita viver o amor. Quem sabe a vida guarde essa dádiva para alguém mais merecedor do que eu. Ou quem sabe a vida me destine grandes feitos e um amor correspondido se torne banal diante de minha missão no mundo. Quem sabe eu me torne uma mulher incrível que descubra a cura do câncer, e aí qual será a importância de viver um amor correspondido? Ouço o Cd do Keane e choro porque eu queria que só uma vez um garoto me amasse. “We might as well be strangers” toca e eu penso que eu e Josh poderíamos ser estranhos em outra cidade, em outro mundo se nossos caminhos não tivessem se cruzado. Se eu não tivesse mudado de escola hoje seríamos estranhos e não haveria tanta dor em mim." Eu te amo". Segurei essas palavras antes que elas pulassem de minha boca e ele escutasse, estragando tudo entre nós para sempre. O observei se afastando e abracei meu próprio corpo que já tremia de saudade dele. O ar soprava forte embaraçando meus cabelos e obstruindo minha visão tornando assim tudo pior. E daí eu explodi, explodi dizendo que o amava tirando um grande peso do corpo e da alma e sem perceber me lançando sobre um abismo. Porque o mundo é cruel, as pessoas têm que fingir não se importar, sofrer em silêncio e se roer de dúvidas. Do contrário você é bombardeado por todos. Isso e tão verdade, porque todo mundo ama alguém, mas a sociedade hoje tem essa coisa se “pegar sem se apegar” e quem se declara e não segue os padrões é ridicularizado. Eu vejo pelas músicas sertanejas. Tudo é na base do “pego, mas não me apego” e isso me parece tão errado! Amar é ato de integridade. Amar é ato de coragem
18 de dezembro
Querido Josh, faz tempo que eu não te escrevo, eu sei, e peço desculpas, mas meu coração passou por tantas reviravoltas nesses dias que eu mal consegui formular meus pensamentos. É estranho como as coisas acontecem e porque acontecem. Josh, se eu te contar sobre Yuri você não acreditaria. Não acreditaria que eu descobri que estou apaixonada por ele e que descobri isso somente porque ele quis ficar com Sandra e eu fiquei furiosa. Fiquei furiosa porque fiquei com ciúmes e me vi perdida em sentimentos que eu nem sabia o nome. Acontece que eu não estou mais confusa. Eu passei muito tempo pensando, eu passei muito tempo te amando e ainda te amo. Acredite quando eu digo que não é fácil te amar porque você é pessoa mais complicada do mundo, mais até do que eu e você me confunde. Você constantemente me confunde com sua frieza excessiva e depois com sua atenção, com seu intuito de me cortejar que me deixa tonta. Eu preciso dizer que quase explodi de felicidade quando te vi início do mês indo ajudar seu pai no tralho e pedindo como eu estava, se eu estaria nas jantas e aí quando você veio querer ficar comigo eu derreti como sorvete. Eu sei que a gente não ficou, eu sei que a gente quase ficou e deveria ter ficado, mas se você soubesse a confusão que estava meu coração naquele dia.... eu sentia que estava a mercê do destino como um marinheiro que espera o vento favorável para zarpar com o seu barco e eu só percebi a extensão e a intensidade de meus assentimentos hoje à tarde. Estávamos almoçando na casa da minha tia. Ela sabe que eu tenho um “crush” em você e disse que quando foi colocar o lixo para fora viu você passeando com seu cachorro. Eu quase engasguei. Eu quase cuspi todo mousse de abacaxi no pote de sobremesa e saí correndo pois era o que eu queria fazer. Eu queria ir para casa de papai, pegar o cachorro e sair correndo até perto da casa de minha tia, que é perto de sua casa. Eu queria pegar o cachorro e sair correndo para onde quer que você estivesse e foi o que eu fiz. Eu disse para Larissa que eu estava com cólica e que precisava deitar. Ela estranhou, mas pela minha cara viu que eu armava algo e eu expliquei no caminho que eu precisava ver se você estava por perto, precisava conversar, precisava te ver e Larissa colocou o cachorro na guia e eu tomei um copo de água e saí correndo. Você deve achar que eu sou louca e eu sou, eu sei. Eu sou doida mesmo, querido, eu sei, mas é que eu te amo com uma intensidade avassaladora que nem Deus nem os homens explicam. É algo idiota, certo? Ir para a casa do meu pai, pegar o cachorro e sair para passear só porque minha tia me disse que te viu passeando com seu cachorro. Eu preciso dizer que o pôr do sol estava lindo no horizonte, o verão dava as boas vindas, havia um leve vento soprando e meu coração dava pulinhos de ansiedade. Já pensou que grande coincidência te encontrar? Eu nem saberia o que dizer. Eu diria: “que supressa, Josh, você por aqui! ”. “Que grande coincidência! ”. Se alguém me dissesse que Eric, Rick ou qualquer outro garoto estaria do outro lado da cidade eu não gastaria minha paciência, minha beleza, nem minhas pernas indo até lá para ver se ocasionalmente o encontraria. Mas minha tia disse seu nome e a partir daí tudo mudou e eu não consegui ouvir mais nada do que ela disse. Pensei que eu precisava te ver e eu fui. É claro que eu não te vi, mas meu coração precisava te ver, por isso eu corri, me arrisquei e fui. Quando eu cheguei próximo ao ginásio de esportes eu olhei o pôr do sol, olhei as pessoas caminhando na rua, olhei a rosa vermelha que desabrochava no canteiro e pensei como eu não faria isso por ninguém no mundo. Pensei que se alguém tivesse me dito que viu Yuri passear com o cachorro- embora Yuri nem tenha cachorro- eu não sairia me perdendo toda à procura dele. Eu não teria feito isso. Então foi que eu entendi. Eu entendi e a consciência me clareou a mente a ponto de quase me cegar a alma. Eu entendi o que o que eu á sabia há muito tempo que era o fato de que eu te amava e que te amava tanto que correria a cidade toda só para te ver mesmo que com a menor possibilidade de te encontrar. Eu te amava tanto que eu fazia besteiras sem nem notar. Eu te amava a ponto de ir até a sua casa se duvidasse, embora eu não fosse tão doida assim porque não teria nenhum álibi para isso. Eu não faria algo assim por Yuri e isso ficou claro em minha mente. Eu não teria saído correndo de casa como se minha vida dependesse disso, mas por você sim Eu não faria isso por ninguém, mas você é a exceção a toda regra que eu já estabeleci na vida. Você é a única exceção, como a música do “Paramore” que eu não canso de cantar. “You are the only exception”, Josh. Sempre foi. Sempre foi você. Você é a exceção de cada rega, a cada frase que eu construo, você é minha fraqueza, meu calcanhar de Aquiles, o pedido que eu faço para a primeira estrela toda noite. Por você eu iria até a lua e ainda além. Eu iria onde precisasse ir por você. A intensidade que eu senti quando pensei em te ver me consumiu e devo dizer que esse amor avassalador me cega e me eleva todos os dias e apesar de tudo o que você fez eu ainda te amo. Eu amo você. Eu amo você e estou apaixonada por seu melhor amigo. Parece piada, mas não é. É fácil amar Yuri, mil vezes mais fácil que amar você. Mas o que eu sinto por ele não é nem de perto o que eu sinto por você e quando eu corria eu pensava nisso tudo. Eu pensava que você é sim a única exceção e que o que eu sinto por você é maior do que o que sinto por ele. Eu não sei o que somos, eu não sei o que seremos. Eu não sei quantas quadras eu corri tropeçando em pedras e no meu próprio coração para tentar te ver, mas eu tive certeza de que se fosse por você eu iria aonde precisasse ir. E se eu te visse? E se eu não te visse? Isso me acalentava a alma. Esse amor é como um fogo que alimenta meu coração e do qual eu não posso fugir. Então essa carta mal elaborada, esse suspiro à meia noite, esse delírio todo é para dizer que eu finalmente descobri. Eu descobri que te amo com a força de uma tempestade e que sou apaixonada por Yuri com uma suavidade de uma chuva. O que eu sinto por você é mais forte e eu sei que é amor. Eu sei que você é a minha exceção, o meu ponto fraco e eu te odeio por isso. Então eu finalizo essa carta dizendo que independente do que passou eu ainda te amo e eu espero que a gente dê certo, de verdade. Desejo mil beijos de boa noite, e desde já um feliz natal, meu querido.
Com amor, Annie.
Eu não sei lidar com as coisas dando certo na minha vida amorosa, definitivamente. Eu fico esperando o momento em que ele vai pisar na bola e fazer algo errado, como ser estúpido, perder o interesse ou simplesmente sumir para aí eu me encher de razão e orgulho e dizer: "tá vendo? os homens são todos iguais". No entanto, até agora ele não fez nada errado e isso me assustou porque eu estou habituada a lidar com coisas ruins ou desagradáveis, mas não sei lidar com o bom do amor e isso fez eu querer sair correndo e me boicotar, fugir para as colinas como um ratinho assustado.
Eu esperei. Eu imaginei uma música que não veio. Eu aguardei um frio na barriga, uma facada no peito ou algo que me fizesse desmoronar, mas eu não desmoronei. Na verdade, meus pés nunca estiveram tão lindos em um scarpin preto e minhas unhas nunca estiveram tão bonitas e eu nunca fui tão bem-sucedida. Na verdade, eu não perdi nada e só ganhei um aumento na minha autoestima, um admirador na minha vida, uma conquista na minha lista, mas eu não seria um prêmio para ele pôr na estante. Porque eu sou maravilhosa demais para ele e ele não é nada além de um rostinho bonito e um beijo bom. Eu sou inteligente, bem-sucedida, independente, poderosa e ele já não é nada. O fato é que ele não tem nada que eu admire e eu acho que é por isso que eu jamais me apaixonaria por ele. Não que eu não flerte, pois ele para mim é um flerte e como já dizia uma mulher foda, “até que eu quero amor, mas meus olhos estão no game” e ele faz parte do game, mas é apenas isso e não mais que isso e acabou, pois, eu mereço mais. Eu mereço alguém que me venere e que lamba o chão que eu piso e não alguém que esteja no game comigo e com mais quatro mulheres porque eu realmente sou uma mulher extraordinária e não mereço nada menos que o extraordinário e a devoção. Eu sinto pena. Pena das quatro mulheres mendigando o afeto dele como se ele fosse muitíssimo especial a ponto de suprir todo amor e carência delas. Eu sinto pena porque eu já sofri também por outro homem que me fez comer o pão que o diabo amassou e me transformou da rainha das flores para rainha do gelo. Eu queria abraça-las. Queria dizer que vai ficar tudo bem e que elas valem muito e são diamantes sendo jogadas a um porco. Eu queria dizer que eu nem as conheço, mas que as compreendo e que elas são incríveis, maravilhosas, poderosas e capazes de conquistar o mundo, embora elas não saibam disso ainda, mas um dia vão saber. Eu não preciso aprender isso porque eu já aprendi, porque eu sofri e sofri tanto que o sofrimento me valeu por uma encarnação e hoje eu consigo falar disso e rir. Falar do meu antigo amor enquanto degusto o melhor vinho de uma vinícola famosa sentindo o clima da serra. Hoje eu dou as cartas e tenho minha independência profissional e financeira. Hoje eu sou a minha melhor versão.
A gente se ilude, não é? A gente faz todo um esforço para ter controle, para dominar determinadas situações quando na verdade não temos controle sobre nada! Não controlamos nem nós mesmos, quem dirá os outros! Eu não tenho controle sequer sobre minha estagiária! Basicamente a vida é feita de escolhas. Todos os dias eu escolho ajudá-la e ela insiste em me desafiar. Todos os dias ele escolhe me mandar mensagens e eu escolho responder. O controle é uma ilusão, o controle é uma falácia. A vida é um tango no escuro e você tem que aprender a dançar e confiar...mesmo naquilo que você não vê. A vida é um tango no escuro, é um lançar-se em um abismo, é um salto de fé. A vida é um deixar-se fluir pois deixar fluir é tudo o que realmente temos.
"Eu que não amo você" dos Engenheiros do Hawaii começou a tocar e eu de repente me vi teletransportada para outra época, outro ano, outra cidade. Eu me vi no primeiro ano da faculdade afogando as mágoas de cada uma das minhas dores do amor em cada milímetro de álcool que existia no bar da faculdade enquanto a música invadia o ambiente. Havia risadas, amigos, a juventude, a noite e meu coração sangrando sobre o chão do bar. Minha mesa estava cercada de amigos e risadas. E agora também estava. Era outro ano, outra cidade, outros amigos, a mesma músicas mas eu estava diferente. Meu coração não doía há alguns anos, agora eu ria e flertava por esporte e eu amava a vida, a noite, a música e a liberdade e queria devorar a liberdade como se eu fosse um animal preso em cativeiro por toda uma vida.
Insensatez ou não, pela primeira vez eu senti algo que por muitos anos eu não sentia: segurança. Ele fazia eu me sentir segura e isso era estranho e assustador. Eu sentia vontade de sair correndo pois eu não era boa em relacionamentos, porque isso era novo e assustador e eu não sabia, não sabia lidar com isso. Eu queria dizer para ele se afastar de mim pois, como bem classificou um amigo meu na faculdade, eu era uma gata arisca e eu arranhava e lesionava facilmente quem chegasse perto demais de mim. Mesmo assim, apesar do meu medo e receio eu tinha a sensação estranha de que ele me protegeria e de que eu poderia ser eu mesma com ele. Eu não precisaria aplicar a regra "amar e fugir" e quem sabe eu poderia me permitir ficar... Então eu comecei a olhar para ele. Olhar de verdade como se eu o visse pela primeira vez na minha vida e isso me assustou. Isso me assustou porque eu pela primeira vez em muitos anos cogitei a possibilidade de confiar em alguém, de dar o benefício de dúvida e não agir com desconfiança como se alguém fosse me apunhalar a qualquer momento. Isso me assustou e ainda me assusta quando eu paro para pensar pois eu tenho certeza de que ele vai me machucar mais cedo ou mais tarde.
Eu tenho medo de me apaixonar de novo. Não gosto de perder a razão, não gosto de ver a mercê de alguém, ao mesmo tempo em que eu amo a sensação de flutuar e ver a poesia incendiar meu ser de dentro para fora e fazer meu mundo todo colorido.
