Nao Chega aos meus Pes
A LUA E AS ESTRELAS
E se eu não tivesse um sonho
O que eu componho
Mentiria
Mas a ilusão
Que me ergue como um pêndulo
Acalanta a fantasia
Já sei ser triste
Nesse vai e vem,
Nesse balanço
É triste ser feliz, eu já fui triste um dia...
Amanso o meu espírito com tua presença,
Com a tua voz eu danço...
Tua voz é melodia
Eu sou tão triste...
Noite passada,
Passada a noite,
Passadas e mais passadas
De mim mesmo
Eu te vejo num luau
Sob tudo que tem sobre tua cabeça
A razão que te devora
De fora pra dentro
De dentro pra fora
Você é tão feliz... e isso é triste
você tem tudo
Mas você não sabe o que é ter a lua e as estrelas...
REFERÊNCIA
E se o feio não for feio
E se o bonito não for bonito
É uma questão de prisma
De ângulo
Olhe o que vem de dentro pra fora
Não o que vai de fora pra dentro
Quando se perde o controle
Todo mundo é sincero
Na hora da raiva
Fale pouco e magoe menos
Mary had a little lamb
Isso quando criança
Na adolescência se encantou com um jumento
Mas só uma questão de sentimento
Nada de fora pra dentro
Nesse caso o bonito é bonito
E o feio pastava e zurrava poesia
A beleza da natureza não escolhe ângulo
Mas não esquece, é referência
O feio gosta de funk
E o belo canta bolero e dança tango
Pelos contos que eu não conto
Dá um desconto ao meu silencio
Não conto dos versos tristes
Não conto da estrela cadente,
Dos girassóis reluzentes
Que reluzem nos meus contos,
Não conto do meu silencio
Pois assim não o seria,
Não conto da minha alegria,
Que não valem nem um conto,
Pelos contos que eu não conto,
Conto pelos e apelos
Só não conto meus segredos
Pelos contos que eu não conto
O PUPILO
comparecia; comparecia sempre, era pertinente, talvez não soubesse fazer direito, mas comparecia; era frequente como aquele aluno dedicado que estuda obstinadamente pra passar de ano. Talvez não devesse ser assim, o amor não é matemática, geografia ou uma matéria que se decora; mas era didático, exato nas suas ciências e na sua consciência; depois a brisa e as estrelas entravam pela janela e as vozes dos bichos rimavam na noite um poema pantaneiro. Eu fugia numa lembrança, um galope ingênuo de uma adolescência cambiava em cores fantástica e o rosto do namorado inesquecível que se perde no tempo, nos contratempos e em suas fragilidades, sorria por trás dalguma árvore ou galopava solitário como um fantasma perdido entre as águas e o verde divino do pantanal. Era uma lembrança boba que reprovava aquele aluno dedicado e comprometido que pela manhã encarava os jacarés em busca dos frutos que o rio oferecia, e na volta cuidava de algumas poucas cabeças de gado que rasgavam o silencio dando brilho e lógica às manhas ensolaradas e esperança de fartura às tardes chuvosas. O resto era dedicação e preocupação com o ano letivo. Quem entenderá a alma feminina; as fantasias sempre povoarão os mais inóspitos desertos; nos pântanos seus sonhos emergirão dos rios uma teimosia absurda que torna o complicado, o impossível, um sentimento resistente ao tempo e às pelejas naturais. O espectro existia, agora ostentava um bigode bem aparado e uma barba rala de uma década, a idade de Ísis a filha mais velha, que desconhece suas verdadeiras origens e diariamente brinca com Irina na escolinha da comunidade, com quem percebes-se uma amizade só explicada pelos seus laços sanguíneos. Fico as vezes olhando e imaginando, conjecturando o que poderia ter sido uma família... estivemos no lago mais jamais revelei sobre Ísis; não era mais a mesma coisa, os olhares eram outros, as palavras eram pesadas e submergia na água turva do lago afundando todos os anos de sonhos e tudo que na minha mente pudesse ser factível. Assim passei a dedicar-me totalmente ao pupilo, a admirar a sua dedicação, a sua obstinação, a frequência que me exauria, mas preenchia os vazios e tangia o passado... passava sempre, as vezes no limite, as vezes ficava em recuperação, mas se recuperava espetacularmente me surpreendendo, e agora começa a pensar que é poeta; escreve algumas abobrinhas, fala muito na Clarice e na Cecília; sei não...
Você se foi com a chuva de verão levando o sol e a luz
Pra mim paixão não foi e jamais será aquilo que seduz
Assim eu me pergunto o que é isso então que nada apraz
Sinto saudade e a felicidade eu penso nunca mais
Ficaram sim lembranças doces e jamais esquecerei
Nossos momentos e a cumplicidade que tinhamos em comum
O que vivemos juntos, a dimensão não sei
Mas algo igual jamais encontrei em sentimento algum
Sigo mais triste e mais sozinho embaraçado em meu viver
Tentando acreditar no amor ou algo similar
Eu sou teimoso, leigo e insisto nessa insensatez
O que de nós persiste ainda dá prazer
E isso me intriga e me faz acreditar
Que a chuva de verão que um dia te levou te trará outra vez
FELINO
Subo no telhado as vezes
Só pra não esquecer que sou gato,
Mio lembranças
Só pra não esquecer que sou criança
Mio meus medos
Mas não conto meus segredos
Tomo banho de lua e de estrelas
Porque tê-las, porque contê-las
É a amplitude de um felino
Mas essa tristeza, essa perda,
Esse desatino é o meu destino
Alguma coisa entre nós aconteceu
Mesmo que não tenha acontecido coisa alguma
Alguma coisa se perdeu nessa lacuna
Reviro telhas, essa centelha ainda periga um incêndio
Não sei de tudo não sou compêndio
Sou só um bicho no teto olhando uma ave no castelo
Contemplando em silencio
O que não é bonito só por ser belo,
É ansioso não por ser aflito,
É sereno e suave não por ser passivo
É perene não por ser perpétuo
Mas por ser completo e extenso
NOVENTA POR CENTO
Amo os negros
Pelos que não amaram
Pelos que escravizaram
Pelos que acorrentaram
Pelos que humilharam
Pelos que torturaram
Amo os negros pelo que semearam
Pelo que colheram,
Pelo que ergueram
Pelo que derrubaram
Amo cafuzos, morenos, mulatos
Todos os mestiços que herdaram essa Cultura rica
Que corre no sangue e carrega a nobreza africana,
Amo essa melancolia crônica
Por toda a dor de seus Antepassados
Amo os negros pelos que discriminam,
Pelos que excluem, pelos que desdenham
Amo esses noventa por cento
Que carregam a força e a raça
E compõem essa nação
Amo os negros porque vejo em cada afrodescendente
Um pouco da capacidade de amar,
Da valentia e resignação
Que que torna fascinante
Um pouco dessa África que é a minha esposa.
Você não sabe que depois vem outro dia
Com outras paisagens e outros ocasos,
A vida é transitória e o nosso orgulho pune a alma,
Depois vem outro dia com outras necessidades
Uma sensibilidade maior vai te fazer perceber
O que verdadeiramente é belo
O que verdadeiramente soa bem aos ouvidos;
Nesse tempo o grasnar das gralhas vai ferir teus tímpanos
E a primavera de cigarras e pardais vai estar bem distante...
BARQUINHO DE PAPEL
De vez em quando vou a praia
Não com a frequência de antes,
Mas ainda sonho diante das ondas...
Se eu fosse um peixe eu já teria sido pescado
Se eu fosse uma embarcação já teria naufragado...
Talvez tenha acontecido em outras vidas
Com peixes espadas e um navio fantasmas
Com degoladas namoradas
Que amei intensamente e nunca as tive...
Mas ainda sonho nessa imensidão de vagas enormes
Como um barquinho de papel que sobe e desce nessa ilusão
Que viaja no passado e de vez em quando vai a praia,
E não com a frequência de antes, mas ainda sonha...
REVELAÇÃO
Não demora ...
A noite chora uma neblina,
A brisa fria espalha uma melancolia,
Ecoa a ladainha ...
Os sinos já dobraram uma chamada;
A igreja relampeja a fé,
O amor abraça e beija,
E a esperança pra essa dor é a esperança...
Não demora,
Gótica, a catedral ordena...
Badalam os sinos,
Os meninos abalam,
Nossos destinos baladam,
A gente dança e a dança demora,
Não demora o tempo urge,
Acorda a urbe,
O tempo voa,
A solidão povoa
Demônios, fantasmas e monstros,
A certeza dessa incerteza apocalíptica não demora...
VOCÊ SABE ONDE FICA O BERIMBAU DO GOZA?
Seu Iteovaldo tentou explicar
Mas aos 85 anos já não lembrava direito:
"_Era um lugar bonito, de riso e de grito e admiração..."
O adolescente esperava ansioso
Sem querer saber de toda aquela prosa:
"_Só queria saber onde fica o berimbau do goza..."
_"Tem borboletas e passarinhos...
Tem uns ninhos e outros bichos e tem dois montinhos..."
Era meio poético falar assim,
Mas seu Serafim, bem vivido e bem sucedido
Imaginou que seria melhor compreendido:
_"Você desce uma alameda e tem uns matinhos
Que metem medo, mais pelos segredos que pelos perigos;
Foi assim comigo, tinha um fogaréu, vinha um vendaval
Mas depois dali estaria o berimbau..."
_"Sei não, começou seu Rui, que tinha algo de Barbosa
Comigo foi fácil achar o berimbau do goza;
Fui com Serafina, que era cega,
Surda e muda, e tateava tudo
E perguntava o tempo
E desfrutava a brisa e o calor da manhã,
O barulho das águas e o cantar das aves...
E era tão lindo aquele caminho,
Que o tempo voou e chegou a noite,
Surgiu uma nave de brilhos bonitos,
Improvisei uma rima pra Serafina
Que luzia como um vagalume,
Falava e via e me escutava,
Num impulso catei meia dúzia de rosas
Naquela magia ela já levitava,
Gemia algo que eu não entendia,
Mas lhe deixava formosa
Acho que era ali o berimbau do goza...
Não fiz nenhum curso,
Não frequentei universidade,
Não mudei de município,
Fui sempre da mesma cidade,
Pouco frequentei escola,
Soltei muita pipa e ainda penso
Que jogo um pouco de bola
E o que vejo na mídia
Tem a dimensão do perigo,
Namorei uma tal de Lídia
Que nunca namorou comigo,
Assim virei poeta
Namorando a solidão
No vulto de muitas meninas
Que existiram nas minhas rimas
Fascinaram como as primas
Mas não passou de ilusão
POEMA DE AMOR
Não é tão fácil escrever um poema
Escrever um poema não é tão fácil assim
Você reza três novenas pro santo do dia
E três novenas pra são Serafim
Pensa na namorada que um dia foi embora
Na solidão que invadiu os seus dias
Diga que tudo isso faz parte da vida,
Que no mais, tudo é belo, que tudo é alegria
Então comece falando da beleza do amor,
Do seu sorriso de luz e dos olhos de céu
E se a vida amarga um pouquinho,
Não chega a ser amarga como um copo de fel,
Fale da esperança que você tem,
E se não tem nenhuma, tem esperança de ter
E se você tem ou não tem tudo isso
Um poema de amor você pode escrever...
REFLUXO
tinha a solidão da lua no olhar,
o azul do que não discernia a clarear
o dia e o que não entendia
tinha o perfil suave de uma ave
a planar sozinha e soberana,
era a beleza simples, absoluta e singular
esquece os meus desejos,
os versos, o universo dessas emoções,
a vida é muito mais que uma cachoeira
o fluxo e o refluxo de um rio...
a vida continua depois do fim do mundo
depois dessa represa a vida continua
continua pra quem percebe
que esteve bem perto
do que é perto de felicidade
ficou essa ilusão que nem é ilusão
mas é o suficiente pra romper a névoa
que embaça o pensamento,
sigo firme nessa incerteza
que sustenta o insustentável:
é só desejo que eu vejo, é só desejo...
vem o alvorecer mas a solidão da lua
continua na luz do olhar
Ainda não tinha o terminal de ônibus, já faz alguns anos, num daqueles rompantes Laura saiu abruptamente e nunca mais apareceu; cheguei a sonhar com seu rosto adornado surgindo com sua cabeleira dourada sobre a superfície da lagoa numa espécie de medusa; eram pesadelos que me traziam insônias
e me aceleravam os batimentos cardíacos trazendo-me uma espécie de apneia, depois quando eu conseguia me restabelecer corria pra varanda e ficava contemplando aquele véu prateado pela lua; vinham- me as lembranças de histórias mais tristes; visagens criadas pelo tempo, de amores consumidos pelas águas, nas vozes marcantes e inconfundíveis de meus antepassados; era bem possível que para terceiros tudo ganharia um tom folclórico e lendário, mas quem ouvira de suas bocas, dadas as devidas proporções, percebia-se, tudo era verídico. Portanto nunca era surpresa quando um corpo aparecia boiando nas águas da lagoa; mas esse não foi o caso de Laura; não foi o encanto da lagoa ou o desencanto com a vida que a levou. Talvez exatamente o contrário; talvez o encanto com tudo que soprava na brisa e aquele murmurar apaixonante que movia silhuetas quando a lua cochilava sob alguma nuvem; aquele encanto que soprava notas de alguma música, trazendo a ilusão gratuita de que a vida pode ser bela; talvez isso. Meditando assim, perdi a conta das vezes que vi os primeiros raios da aurora, ouvindo feirantes armando suas barracas, na esperança vã de ganharem a vida com a venda de seus produtos. Ganhar dinheiro jamais será ganhar a vida; assim passaram-se os anos, de modo que Laura era uma figura arredia atrás das portas; uma moldura desalinhada que mal suportava a foto desbotada; uma curiosidade que suspirava na minha alma a querer saber onde lhe levara tanta pressa de viver. encontrava sempre alguém que fazia parte daquele grupo que bebia e se derramava à noite, então o sorriso indeciso de Laura voltava a bailar às margens da lagoa como um fantasma teimoso; mas agora eu tinha Mirna, de olhar suave e fala mansa, que me falava de grandes poetas e cantarolava boleros enquanto se balançava na varanda como se a vida fosse eterna.
Numa noite depois de um evento no passeio público, nos dirigíamos à praça do Ferreira, quando num dos bares que tocava em alto volume uma música brega eu a vi, estava sozinha, sentada a uma mesa e ostentava um copo de cerveja que ergueu num leve cumprimento arremedando um sorriso; percebi como ela sofrera a ação do tempo, como o tempo pode ser cruel! Seria melhor nunca mais tê-la visto e ficar com aquelas lembranças bonitas. Agora aquela angústia se sobrepunha e Laura não passava de uma lembrança melancólica.
MARROM
A aeronave me esperava imponente
Eu demente de medo
Se algo de ruim acontecer
Não conte meus segredos;
Um dia perceberão que sou o grande poeta desse país,
Comentarão AMORAMORA
Mas então brincarei com os anjos...
Depois de uma existência pobre
Diga a alguém que muito amei
E que meus sentimentos e ressentimentos são nobres
Que além disso, acreditar na humanidade
E a loucura me fez poeta....
Queria ter falado mais de amor, mas é tão difícil,
Os edifícios tolhem os horizontes,
Os nascentes e os ocasos,
Não comente sobre mal resolvidos casos
Eu te amo demais, eu amo todos vocês,
Perdoem o mal jeito e a minha insensatez
Eu devia ter sido mais forte, eu devia ter tido mais sorte
A aeronave me espera imponente,
Publiquem meus poemas decentes
Desfrutem escondidos dos poemas indecentes,
Mas não comentem este lado marrom
Façam-no acreditar que eu era bom
A minha grande frustração é o país sem leis
E a corrupção me faz desejar ter nascido francês
A aeronave me espera imponente...
ÓPERA
Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho
Mas tem um grilo que cricrila pela noite afora
Ele conversa sobre os medos da noite
E tem os gatos; e os gatos cantam
Como só os gatos sabem de ópera
E eu roubo-lhes as vidas
Já tenho sete, afora o infarto
Conversei com Deus nesse dia
Vi Maria na última travessia da Dutra
Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho
Mas o negro que vejo no antigo engenho
Tem cicatrizes nas costas,
Mas tem prosas bonitas de Angola
E derrama poesia quando fala de sinhá
E quando não fala de nada
Eu percebo o meu Brasil moreno
Tão rico, tão grande, tão pobre e pequeno
Que eu namoro as namoradas que não são minhas
E as minhas namoradas não namoram comigo
E eles pensam que eu não tenho nada e eu nada tenho
Porque o que eu tenho é sentar na calçada
E olhar a lua, as estrelas e o firmamento
E tudo isso já pertence a russos e americanos
Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho
Mas eu tenho a magia das palavras
Essa coisa que me instiga e me oferece a ilusão mambembe
De que eu de nada preciso
Que o resto é abstrato, o resto é engano...
