Nao Amplie a Voz dos Imbecis
Nada mais triste que um poeta feliz: pois quando a alma já não encontra abismos em que lançar sua luz, a poesia começa a morrer. Talvez o poeta precise de alguma ferida que não cicatrize, não para sofrer, mas para transformar o sofrimento em forma, e a falta em vontade de criar.
Se todo começo exige uma causa, o primeiro começo é a única coisa que não pode começar; talvez o paradoxo não esteja no universo, mas na exigência humana de que tudo tenha uma origem.
Talvez o universo não tenha um primeiro instante; talvez seja a nossa consciência, aprisionada ao tempo, que transforma a eternidade em uma sequência de acontecimentos.
O infinito não precisa de uma porta de entrada; quem exige uma primeira porta talvez esteja apenas confundindo a arquitetura da mente com a arquitetura do universo.
Talvez a pergunta mais filosófica não seja ‘quem criou o universo?’, mas ‘por que nossa razão sente necessidade de que exista alguém ou algo que o tenha criado?
Não se trata de saber muitas coisas, mas de descobrir aquilo que permanece invisível quando cada coisa é examinada isoladamente.
A realidade não conhece as fronteiras que as disciplinas inventaram; compreendê-la exige atravessá-las.
A privatização juridicamente legítima não se mede pela quantidade de patrimônio público que se transfere, mas pela compatibilidade entre a transferência realizada, a finalidade constitucional preservada e o procedimento que autorizou sua realização.
A realidade não se curva à narrativa que construímos sobre nós mesmos; cedo ou tarde, ela cobra evidências.
O desejo não funciona como tribunal moral: alguém pode ser excelente e ainda assim não ser desejado.
A verdadeira confiança não exige demonstração permanente; ela permanece de pé mesmo quando ninguém está olhando.
Quem conhece seus próprios limites negocia melhor porque não precisa aceitar qualquer preço para evitar a perda.
A solitude não é o vazio entre dois relacionamentos; pode ser o espaço em que o indivíduo finalmente escuta a própria voz sem a interferência das expectativas alheias.
Quem não consegue permanecer consigo mesmo frequentemente procura no amor uma anestesia para perguntas que deveriam ser enfrentadas em silêncio.
Aquele que constrói uma vida interessante não precisa transformar o relacionamento em seu único acontecimento extraordinário.
Ser livre não significa não precisar de ninguém; significa não precisar trair a própria consciência para que alguém permaneça.
Há homens que procuram uma mulher para completar sua existência quando ainda não começaram a escrever a primeira página dela.
A autonomia não elimina o amor; elimina a necessidade de transformar amor em mecanismo de sobrevivência.
