Nao Alimentar Esperancas
A terra treme e não é o chão, sou eu. Cada rachadura no solo parece ecoar uma falha em mim, somos feitos da mesma matéria instável.
Esses meus sentimentos confusos, nascidos de batalhas esquecidas e águas escuras, não clama por atenção, apenas permanecem. Vai de geração em geração, cruzando limites, sustentados pela força discreta daquilo que é verdadeiro demais para morrer.
A tempestade que se forma no fundo de um copo de uísque, após algumas doses, não é efeito da embriaguez, é o desbloqueio silencioso de lembranças mal enterradas, de amores antigos e mal resolvidos. Não necessariamente são meus, mas ainda assim doem como se fossem.
Diante de uma esfera que reflete o mundo ao redor, não me reconheço no reflexo. Ainda vejo o menino assustado, encolhido na própria pele. Vejo o covarde que, apesar dos anos, não encontrou força para enterrar seus próprios demônios e talvez nem tenha decidido se quer viver sem eles.
O tempo é um mestre tardio, só entrega respostas quando já não há perguntas, cura quando a dor já foi assimilada e oferece lições quando já não há mais como aplicá-las. Sua sabedoria chega sempre depois da necessidade.
Dor no peito
(visão da morte e seus prenúncios)
Dor literal, não literária!
É no coração mesmo, no real.
Começou do nada,
quase sem sentir...
Foi aumentando devagarinho,
mas sem parar um segundo.
Tomou a parte superior do peito.
Adentrou as costas.
Respiração parecia até normal...
Um incômodo.
Uma tristeza.
Um ai...
Como se fosse partir
sem ter, ainda, onde chegar.
2021
Saudade e um vazio
Um livro qualquer da estante...
Pego-o
Aquele vazio de não me acostumar
Bate em mim
Forte.
Uma data simples, comum: outubro de 2019,
Marcou aquele fim de ano.
Penetra-me
Sem machucar!
Finca o pé sem estreitar visões
Sem deixar sinal
É só um passado... quase distante,
Vindo de livros
Um passado que está onde deve ficar,
Pois lembranças nada são que memórias
_______> Vêm e vão _______>
Passam
Nada mais são!
11/09/2024
O velho
(versão II)
Quis depor dentro de mim, mas impossível
Não cabia dentro de mim um juiz,
Mas um dia coube o meu eu, tão orgulhoso!
Os meus defeitos continuaram sãos por muito tempo
As minhas mãos, aniquiladas pelo perdão que nunca veio
O bolor tomou conta de toda a minha pele.
Envelheci...
Mais caduco era antes com aqueles risos falsos
Hoje, orgulho-me de não ser nada e falar claro.
Muitas vezes sou criança e todos correm atrás de mim
Falo do mundo, xingo, brigo com os gatos!
Mas que importa? Sou um velho sincero como tantos.
Às vezes paro numa época da vida
Lembro-me dos filhos, colho flores
Procuro a namorada que antes me acariciava...
Sinto seus beijos e suas mãos em meus cabelos.
Sou um velho rabugento e espero passar o tempo
Aguardo a morte e vejo minha eterna namorado me acenando
Ralho com os mortos, pois é mais perto deles que me encontro agora.
abril/ 1971
REVELAÇÃO
Domingo como tantos de final de ano...
Não fosse a revelação da existência de uma “musa”,
tudo transcorreria pausadamente igual.
Como se sentir sendo a fonte
de inspiração amorosa de outra pessoa?
Ainda mais quando este alguém é a fonte
de inspiração da maioria dos versos escritos por essa “musa”?
Levitar é a única resposta
frente à vastidão do mundo
com estrelas
buracos negros
e o seu olhar profundo!
Dez/1992
BEIRA
(inspiração adolescente)
Com licença!
Aqui não é lugar pra mim.
Eu sou um revoltado...
-- Ora quero amor.
-- Ora a solidão.
Com licença!
Aqui não é lugar pra mim.
Eu sou um neurótico.
-- Ora não sei por onde vou.
-- Ora encontro só caminhos.
Mas com licença!
Aqui não é lugar pra mim.
Bem, eu sou um quase louco.
-- Ora não reconheço imagens.
-- Ora, há hora em que há menos ainda.
Com licença, eu me vou!
Aqui não é lugar pra mim.
-- Ora nem para ti.
-- Ora nem para nós todos!
Nós somos... quase.
Só isso!
Um pouco de nada com um toque de cor!
Set/ 1970
A PROCURA
Procuro você
Não há encontro
Existe uma variedade de crianças:
Irrequietas, quietas, travessas, malcriadas, comportadas.
Onde está você?
Em que ponto do passado encontrá-lo?
Vasculho o prédio:
Por baixo da mesa, das cadeiras,
No pátio, diretoria, no lixo.
Não o encontro!
Vou à Bahia, de Mucuri ao Ibó.
Vasculho Itabuna, Vitória da Conquista, Ibirapitanga...
Perdeu-se!
Não foi a morte que o levou
Foi a vida!
Junho/ 1974
PALAVRAS... LAVRAS
(Essencial é ver; ser, basta!)
Não há palavras! Há.
Esperar?
Não há por quê. Para quê?
Silêncio...
Tristeza...
Invisibilidade!
Não sou.
Sou?
Ser!
Essência,
Basta?
Que bosta!
Universo
Terra/ mar/ ar...
Misture tudo!
Nada?
Vazio!
Dez/ 2017
ACORDA!
(Assim, não. Continua até quando der!)
Desabafo?
Não!
Insônia?
Não!
Sonhos?
Sim!
Acorde.
Durma.
Fale!
Movimentos ________^^^^^^^^^________********_______~~~~~~~~
Ande & desande!
(dez/ 2017)
Foco na construção da vida
Seguir reciclando a vida e o já vivido.
Basta de manter o que não é mais necessário e é supérfluo:
- seja em coisas materiais, relacionamentos, projetos ou pessoas;
- não fiquemos com os votos e os vínculos que se foram, apesar das marcas e das realizações já conquistadas.
Basta das coisas que não têm mais razão de ser.
Deixemos o novo penetrar os olhos, o coração e a mente.
É preciso abrirmo-nos para tudo que já foi pensado e sentido neste mundo.
Projetemos tudo em nossa mente e em nosso coração para, através de nosso corpo e de nossas mãos, modelarmos o ar, a terra, o fogo e o céu com sentimentos nobres.
Baixemos do Cosmos tudo que precisamos, toda a energia disponível.
Reencontremo-nos, pois nossos projetos eram embriões que, agora, fertilizados, pedem para brotar e nascer.
A vida é sempre bela. É o maior presente que os criadores do Universo nos proporcionaram.
Olhemos tudo! Mais que isso, enxerguemos a fundo tudo o que sempre esteve conosco, o nosso melhor.
Mas não esqueçamos dos nossos limites e dos demais seres.
Tudo nos indica que estamos neste mundo para evoluirmos, melhorarmos.
Viemos do pó do Universo, do Cosmos.
Nossa caminhada vem de longe e não tem fim.
A vida tem um sentido e uma razão de ser. Busquemo-los!
Nossa essência pessoal e a divina, entrelaçadas, nos conduzem.
Abram-se corações e mentes!
Deixemo-nos ser levados por seres de luz.
Aprendamos com a luz, as trevas e com as sombras!
Coloquemos tudo o que obtivemos numa nova gaveta, reorganizemos nossas coisas e atividades.
Vamos renomear e reorganizar tudo para termos mais clareza do que fazer da vida.
Estamos todos no mesmo caminho e no mesmo barco, apesar dos passos de cada um serem diferentes uns dos outros.
Não hesitemos!
Sigamos!
2021
Às vezes meus olhos choram, não porque o corpo dói, mas sim porque a alma clama por algo que em mim adormeceu.
Deus não quer que modificamos o nosso corpo, mas que aperfeiçoamos o nosso caráter, para que venhamos parecer cada dia mais com ele e não com o mundo.
Maldito dia em que eu nasci e Deus disse lá do alto, terás grandes virtudes porém não será o suficiente para as pessoas te amarem, não como eu.
