Moradores de Rua

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Gestos humanos
Quando eu fechei a porta e saí à rua, percebi que considerava o que aconteceria como algo que já havia acontecido, o que era familiar, era um pé no futuro. Era como se tudo existisse de forma imutável: o passado seria o futuro. Daí veio uma nova consciência que derreteu o que era sólido: a visão de um fluxo eterno no qual nada estava fixado. A percepção do movimento da minha mente agora, em que não há repetições. Tudo era novo, era o olhar de um recém-nascido.
Eu comecei a caminhar pela calçada e vi que todos os meus gestos, a forma de caminhar, as expressões do meu rosto, eram apenas um teatro inconsciente. As minhas ideias, a minha forma de enxergar e de ouvir, a minha noção do tempo, eram apenas um formato, um figurino. Tudo para me manter dentro de um padrão reconhecível, assim os outros saberiam o que esperar de mim. Conseguia, então, suprir duas carências: confirmar os costumes e ter uma ilusão da minha identidade. Assim, os outros dizem quem eu sou. Isso é o máximo que temos para responder à pergunta. Claro que o que pensam sou eu que penso, portanto, eu sou os outros. Isso me deixou em dúvida, pois as pessoas fazem parte do fluxo interminável dos movimentos e como eu poderia saber o que pensam, se duvido da percepção? O tempo é a consciência desses movimentos e da sua constante dialética. O que é horizontal vira vertical e vice-versa. Na verdade, não existe uma mente. O que há é um pensamento que engloba este momento, a realidade.

Os seres nulos


Caminho pela rua velha e escura, como de costume, mas, esta noite é diferente. Posso perceber a vida, os seres em toda a parte. Sob os meus pés, as lajes de pedra, acima de mim, os prédios se elevando no céu cinzento. As árvores se estendendo para me proteger, os postes, segurando a calçada, os homens a gritar no breu, sem nada, sem rumo. Quem me dera eu fosse antes alguém que pudesse ordenar a vida que se esvai, se eu vivesse a redimir o quanto se chorou por não haver consciência daqueles que ninguém nunca deu valor.

Na mesma rua


Eu passo
e o chão lembra.
Não é você..
É o eco do que doeu.
As paredes sabem,
o ar pesa,
e meu peito responde
como se fosse agora.
Mas não é.
Você ficou
no que eu sobrevivi.
Eu sigo
no que eu me tornei.
E por mais que doa
te cruzar no mundo,
já não existe
lugar em mim
onde você mora.

O bandido do bairro domina a rua, mas o bandido no poder domina a regra. A aliança entre eles é o que transforma o crime organizado em um projeto de poder.

Rua Chamada Passado

Estou andando pela rua chamada passado.
Às vezes, penso que sempre amei estar lá, não por querer permanecer presa a ele, mas porque foi uma época muito boa.

Não estou vivendo lá; estou apenas a passeio.
É um passeio que me faz bem. A gente sempre retorna, ainda que em pensamentos, aos lugares que amamos.

A gente ri e gargalha.
A gente suspira e sorri.

É um toque acolhedor.
Lá, confiamos em quem amamos. Lá existe o amor, esse poder que o mundo, tantas vezes, tenta nos ensinar a perder, mas que jamais deveríamos abandonar.

Há lugares que não voltamos com os pés, mas com a alma.

Cuide da sua solidão. Pegue trens para lugares que você nunca foi antes sozinho. Durma na rua sob as estrelas. Aprenda a dirigir um carro que não seja automático. Vá para tão longe que você já não tenha mais medo de voltar. Diga não quando você não quer fazer algo. Diga sim se seus instintos são fortes, mesmo que todos discordem com você. Decida se você prefere ser gostado ou ser admirado. Decida se encaixar na sociedade é mais importante que descobrir o que você está fazendo aqui.

Eu virei um profissional em carregar esse luto sem deixar ele transbordar no meio da rua.

Há lembranças que não vão embora.


Elas ficam na música,
na rua,
no silêncio entre uma mensagem e outra.


Algumas ausências ocupam mais espaço
do que muitas presenças.


Mas a vida continua.


O rio segue seu curso,
o vento atravessa as estações,
e o tempo não pede permissão.


Talvez a coragem não esteja em esquecer.


Talvez esteja em seguir em frente,
carregando as memórias
sem permitir que elas carreguem você.






Lucci Santz

Você anda…passa por Sulacap, Vila Valqueire, Madureira…muda de rua, muda de direção.Mas a sua mente continua no mesmo lugar, presa no que você tenta deixar pra trás. No fim, não importa onde você pisa…se por dentro, você nunca saiu.


DeBrunoParaCarla

"Tinha mais preocupação em acabar morando na rua do que ter um colapso nervoso."

⁠Porta trancada,
alma acalmada.
O pensamento flutua,
longe da rua.
Um nó que desata,
o tempo em pausa.
A casa é a mata,
a paz é a causa.

Fui, na Rua.
Esqueci,
o guarda-chuva.
Tomei, um banho.

Eu não estou preso em casa e nem livre na rua; eu estou em mim mesmo.

Deitado no divã de rosto para cima
Se apossava dele certa letargia
E chegava da rua um tal de alarido
Enorme e tristonho que vinha sorrindo

deitado no divã de rosto para cima
se apossava dele certa letargia
e chegava da rua um tal de alarido
enorme e tristonho que vinha sorrindo
e ouvia toda noite da sua janela
o batuque do samba lá na casa dela
e entre tantos chapéus via o seu vestido
dançando no salão como um anjo caído

Eli apaixonado por sambá ouvindo
e ele apaixonado por samba ouvindo
rodava no salão com seu vestido lindo

Eli apaixonado por sambá ouvindo
e ele apaixonado por samba ouvindo
dançava no salão com seu vedtido lindo

Elí apaixonado por sambá ouvindo
e ele apaixonado por samba ouvindo
girava no salão seu vestido lindo

- “Ex Governanta”...começou subitamente Lagosta.
Eu te amo tanto que caminho na rua
Sempre conversando no mundo da lua
Sempre passando tempo expressando ideias
Sempre jogando jogos de tabuleiro com estratégia
Para prolongar nossa linda vida bela


Sempre em comunhão para ter uma lógica
Mas quando não concordava
Sempre tinha uma revolta


Para expressar ideias
Para beneficiar
Sempre um e outro ajudar


Mas hoje em dia
Você me largou
Largou a todos nós
Você nos deixou
Você me recusou


Ex Governanta!
Só lhe vejo como um passado
Todo embaçado
Como pessoas unidas
Você nos deixou


Nos revoltou, mas sofremos calados
As ideias não são mais expressadas
Não há mais falácias boas em nossas caminhadas
Por que você se afastou
Porque nós nunca lutou a sua ida!


Não volta mais a vida
A revolta não é mais ocorrida
Entre seus problemas


Sempre a esquemas
A sociedade ignora
Por dentro ela chora
Mas por fora não se importa com você, porque?


Porque não tem vontade de discutir
Só de aceitar
Por isso que por sua causa
A população vai se calar


Todas as minhas lágrimas derramadas
Lembro das agonias que nos protestava
Lembro dos momentos que não nos resguardava
Sinto a nossa falta


EX GOVERNANTA
EX GOVERNANTA
EX GOVERNANTA


Só lhe vejo como um passado
Todo embaçado
Como pessoas unidas você nos deixou
Mas sofremos calados


As ideias não são mais expressadas
Não há mais falácias boas em nossas caminhadas
Porque você se afastou
Porque nós nunca se revoltou com a sua ida


Não volta mais a vida
A luta não é mais ocorrida
Entre seus problemas


Sempre a esquemas
A sociedade ignora
Por dentro ela chora
Mas por fora não se importa com você. Porque?


Porque não tem vontade de discutir
Só de aceitar
Por isso que por sua causa
A população volta a se calar.
EX GOVERNANTA.


Apitou o sinal, e Gabiroba ficou apavorado ao ver tantos pés passando apressados, pra lá, pra cá, por todo lugar. A quadra era coberta e o barulho ficou insuportável, ele se escondeu até o alvoroço acabar, olhou para cima e viu o gambá dormindo bem sossegado no galho da goiabeira.

Na rua todos tinham medo quando ele passava sorridente com aquele saco de estopa muito bem fechado, nem sabia para onde ele ia mas muitos olhos medrosos o seguia até sumir na esquina da trilha.
Ele sempre saia de tardezinha quando a noite brotava azulada e devagarinho tudo escurecia deixando as lâmpadas e os postes onde elas acendiam um pouquinho mais claro para quem ia e vinha.
Ao amanher o dia ele voltava com o saco de estopa quase vazio e algumas vezes nem o saco trazia mais debaixo do braço e todos se perguntavam o que estava acontecendo e o que ele tinha naquele saco que todos os dias enchia oculto pela privacidade da sua pequena casinha.
E como lá dentro daquela casa cabia tantas coisas para ele colocar naquele saco de estopa todos os dias? A curiosidade muitas vezes nos faz comportar como idiotas presunçosos mas foi essa mesma curiosidade que me fez seguir o homem do saco naquele dia e decobrir que ele não roubava criancinhas mal criadas como minha avó sempre dizia...na verdade ele era um Emprestador de Ombros! E o saco estava cheinho de ombros amigos que ele emprestava todas as noites para consolar que voltava para casa e encontrava a tristeza...e não tinha nenhum ombro amigo para chorar.

A rua da memória sempre me recebe do mesmo jeito:
um beco torto, desses que fingem não conhecer ninguém.
As minhas pegadas — educadas como sempre
apontam discretamente para mim,
como quem indica o culpado que já nasceu pronto.


O alvo mudou, claro.
Mas a corda bamba continua ali,
com aquela generosidade silenciosa
que oferece tropeços como lembranças grátis.
E eu, que já fui pele exposta querendo posar de metal,
ainda caio no truque.


Dizem por aí que esforço salva, silêncio ilumina, amor acerta.
Engraçado.
A verdade vem com farpas e ainda querem que a gente sorria ao morder.


Aprendi a trancar a língua antes que ela fale demais.
E a coragem… bem, essa eu mantenho no bolso, dobrada.
Troco trevas por tropeços, puxo o prumo para o fundo,
faço aquela coreografia conhecida:
nada firma, nada fixa.
Até meu rosto erra o próprio caminho
quando eu digo “tanto fez”,
sabendo que foi exatamente o contrário.


Cada um costura seu casulo com o fio que sobrou.
Depois finge que observa de longe
o afogamento alheio, testando a água
como quem não está com a respiração pela metade.
E ainda distribui sentença, sermão, palpite
tudo embrulhado na convicção
de que a verdade cabe numa mão fechada.


Mas a verdade…
ah, essa prefere escorregar.
Não cabe em palma nenhuma.
E morde.
Principalmente quem jura que não sente.

Tu é só eu sou a rua do amar para sempre

Se não somos reconhecidos quando andamos pela rua, sorte a nossa.

Charles Bukowski
Sobre a escrita. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2023.