Mesma Moeda
Na mesma rua
Eu passo
e o chão lembra.
Não é você..
É o eco do que doeu.
As paredes sabem,
o ar pesa,
e meu peito responde
como se fosse agora.
Mas não é.
Você ficou
no que eu sobrevivi.
Eu sigo
no que eu me tornei.
E por mais que doa
te cruzar no mundo,
já não existe
lugar em mim
onde você mora.
Há pessoas que voltam iguais, mas nós já não as provamos com a mesma boca. O tempo muda o sabor de quase tudo.
Ainda penso nela, mas não com a mesma dor.
O vazio continua aqui. Não desapareceu. Apenas deixou de ser um quarto sem janelas.
Entre as frestas que o tempo abriu, o ar finalmente entrou. E, pela primeira vez em muito tempo, eu consegui respirar sem que cada lembrança parecesse um afogamento.
Ela ainda existe em mim. Só já não ocupa todo o espaço. O silêncio continua, mas deixou de ser um castigo e passou a ser apenas silêncio.
Talvez seja isso que chamam de seguir em frente. Não esquecer alguém. Apenas aprender que até o vazio pode deixar passar um pouco de luz.
Você só conseguirá se relacionar com outras pessoas na mesma profundidade com a qual você se conecta consigo mesmo.
Quem é raso consigo mesmo está fadado a viver relações igualmente superficiais, isso explica as atuais relações miojo, que só duram alguns minutos e o sabor é superficial.
“Grande parte dos seus problemas tem a mesma origem. Para descobri-la, não procure longe: olhe no espelho.”
Olhe para si e veja a vida em si mesma, majestosa, como se tivesse sido desenhada no papel. Há vidas que parecem ter seguido um projeto; outras precisaram ser remodeladas; algumas tiveram de ser erguidas do zero, muitas vezes em meio à tempestade.
A regra, porém, é a mesma que sustenta a todos. Nos dias bons ou ruins, nosso mundo pode tremer, mas são os reforços que construímos que nos impedem de ceder ao peso, e os remendos que carregamos tornam-se verdadeiras medalhas de sobrevivência diante de uma finitude que contempla a todos.
Nosso mundo, por mais efêmero que seja, ainda é nosso. E dentro dele decidimos o que construir, o que preservar e quais pontes teremos coragem de atravessar. Nem tudo nasce perfeito. Algumas partes vêm do sonho; outras, da mais pura necessidade de resistir. E é justamente nessa mistura entre planejamento, improviso, queda e reconstrução que reside a grandiosidade de cada um de nós.”
Charles Eugênio
Não há nada que derrube uma pessoa confiante e em paz consigo mesma. Essa é a graça, e se faz acontecer quando aprendemos a olhar o lado bom da vida.
Estamos On-line?
Mais um dia no escritório. A mesma mesa engolida por papéis amarelados. Um computador que parece saber mais sobre mim do que qualquer confissão que eu já fiz em voz alta. Um telefone que grita quando o mundo não deveria ter voz. E uma fila de gente com o olhar gasto, esperando.
Esperando uma solução.
É quase cruel como ainda chamamos isso de solução. Quase sempre é só mais um protocolo frio, mais um formulário que não sangra, mais uma senha esquecida, mais um número que ninguém sabe decifrar. Um labirinto de papel e código onde a dor entra viva e sai desidratada.
As pessoas chegam com problemas mais viscerais, reais até o osso, e recebem respostas virtuais, sem carne, sem cheiro, sem peso. Querem resolver a vida pela tela como quem tenta estancar uma hemorragia com papel. O mundo aprendeu a transformar qualquer desgraça em número de protocolo — e isso, de algum jeito, nos parece normal.
Eu observo.
Estamos todos on-line.
Pelo menos é o que dizem.
Há gente conectada ao banco, ao trabalho, ao aplicativo, ao governo, ao médico, ao amante, ao ex-amante, ao desconhecido que nunca viu seu rosto e ainda assim opina sobre sua vida. Sabemos quem comeu o quê, quem viajou para onde, quem morreu sozinho, quem traiu sem piscar, quem enriqueceu e quem perdeu a própria dignidade no processo.
Sabemos de tudo.
Menos de nós.
O computador continua aceso.
Uma luz pálida, quase doente, tremendo na minha frente.
Talvez seja isso que chamamos de vida agora: uma luz insistente dizendo que ainda estamos disponíveis, como mercadoria em prateleira.
Mas disponíveis para quê?
A fila cresce como um organismo vivo, respirando devagar, pesado, impaciente.
Cada pessoa carrega uma pequena tragédia particular, escondida mal e mal sob a pele: uma aposentadoria que nunca chega, uma dívida que morde por dentro, um benefício negado, um documento perdido, uma doença que não espera, uma separação que ainda sangra, um filho que depende de um sistema que não sente nada, um pedido que depende de outro pedido, que depende de uma assinatura que depende de alguém que não está.
A humanidade inventou a burocracia para domesticar o caos.
Depois inventou a internet para acelerar o colapso.
Talvez seja por isso que essa palavra — conexão — me soa cada vez mais como uma piada mal contada.
Estamos conectados a tudo.
E desconectados de quase tudo que ainda pulsa.
Falamos em nuvem como se ela tivesse consciência, como se guardasse algo além de dados frios. Mas talvez ela só armazene nossos rastros: fotos sorrindo enquanto por dentro tudo desaba, conversas vazias, promessas digitais, e uma quantidade obscena de ruído disfarçado de vida.
A nuvem não sabe quem somos.
E, às vezes, suspeito que nós também não.
Existe uma espécie de wi-fi interno. Não sei se é alma, instinto ou só um nome bonito para o que foi sendo abafado aos poucos.
Alguma coisa dentro da gente deveria ainda captar sinais.
Um desconforto no peito.
Um arrepio sem motivo.
Um silêncio que pesa.
Um aviso bruto, quase animal, dizendo: pare.
Mas o dia inteiro somos atravessados por notificações.
O celular vibra como um nervo exposto.
O computador pisca como um olho doente.
O telefone cospe vozes.
Alguém chama.
Alguém exige.
Alguém cobra.
Alguém vende.
Alguém promete salvação em três cliques.
E depois nos perguntamos por que estamos exaustos, como se a resposta não estivesse gritando o tempo todo.
Talvez nossos neurorreceptores não estejam quebrados.
Talvez estejam apenas afogados.
É difícil ouvir qualquer coisa pequena quando o mundo inteiro decidiu gritar dentro da sua cabeça.
A sociedade aprendeu a ocupar cada fresta do silêncio. Música forçada no elevador. Tela acesa na sala. Podcast enchendo o carro. Vídeo mastigando o almoço. Mensagem invadindo a conversa. Notificação mordendo o sono.
Nunca estamos sozinhos.
E, ainda assim, nunca estivemos tão abandonados por dentro.
Fico encarando a tela.
E me vem aquela pergunta antiga, quase primitiva, que ninguém aguenta sustentar por muito tempo: de onde diabos vem tudo isso?
A vida.
A consciência.
Esse impulso cego de continuar mesmo quando nada faz sentido.
Aquela coisa estranha que empurra alguém a acordar numa terça-feira qualquer, vestir a própria pele como se fosse uniforme, pegar um ônibus lotado, engolir trânsito, entrar numa fila e passar o dia tentando consertar problemas que já nasceram condenados a serem substituídos por outros.
Talvez exista mesmo uma inteligência maior.
Talvez exista uma nuvem original, viva, pulsante, indiferente.
Talvez sejamos só fragmentos dela, esquecidos de si mesmos.
Ou talvez não exista absolutamente nada.
Um vazio elegante, sem explicação, sem propósito, sem testemunha.
E isso, de algum modo, também parece plausível.
A diferença é que ninguém recebeu o manual.
Entramos aqui sem instruções, sem mapa, sem legenda.
Passamos anos tentando decifrar o painel de controle da própria existência, apertando botões aleatórios, esperando que algo acenda.
Depois alguém nos chama de velhos.
E o sistema começa a falhar de verdade.
Memória falha.
Joelhos rangem.
Dentes cedem.
Sono vira fuga.
E então aparece a mensagem final, sem emoção, sem piedade:
encerrando sessão.
Sem atualização.
Sem suporte.
Sem segunda tentativa.
A fila continua.
O telefone grita outra vez.
O computador exige uma senha como se ainda houvesse controle.
Uma pessoa pergunta se falta muito.
Eu olho sem saber o que responder.
Nunca sei.
Talvez seja essa a única honestidade que ainda não foi censurada dentro de nós.
Não sabemos por que estamos aqui.
Não sabemos o que somos quando ninguém está olhando.
Não sabemos para onde isso tudo está nos levando.
Mas seguimos on-line.
Sempre on-line.
Publicando fragmentos de felicidade para provar que ainda existimos.
Dando opiniões como quem tenta convencer a si mesmo de que pensa.
Acumulando contatos para fingir que não estamos afundando sozinhos.
Comprando coisas para simular vitória.
E encarando uma tela brilhante enquanto alguma coisa dentro de nós, em silêncio absoluto, tenta desesperadamente estabelecer uma conexão que nunca chega.
Talvez o problema nunca tenha sido o sinal.
Talvez o problema seja que desaprendemos a escutar o que ainda está vivo por dentro.
A fila finalmente se move.
Um corpo se levanta.
Outro ocupa o lugar como se nada tivesse acontecido.
O telefone volta a tocar.
Eu encaro a tela do computador.
E, por alguns segundos, não faço absolutamente nada.
Só isso.
E penso que talvez estar realmente conectado seja exatamente isso:
aguentar alguns segundos sem ser invadido por nada.
Só você.
Sua cabeça.
Seu silêncio.
E aquela pergunta incômoda, crua, quase sangrando por dentro, que nenhum aplicativo jamais vai conseguir responder:
quem diabos está usando você enquanto você acredita estar vivendo?
Você vai ver eu me afastar na mesma intensidade que cheguei! Vai até tentar me segurar, mas eu estarei longe, longe das suas mãos, longe o bastante pra não me alcançar mas.
Você não está sozinha.
Há outras pessoas atravessando a mesma ponte, enfrentando a mesma tempestade e tentando chegar ao outro lado.
Quando finalmente chega ao fim da ponte, você pensa que encontrou a saída.
Mas não encontrou.
Existe outra barreira.
E ela é ainda mais assustadora.
Uma parede muito alta, feita de areia, molhada pela chuva, cheia de buracos. Pessoas estão escalando, mas você sabe que aquilo não é realmente seguro.
Aí você diz para si mesma que não vai mais cometer aquele erro, quando vê já fez novamente. É aprendizado ou é burrice?! As vezes me sinto como o apóstolo Paulo.
