Memória
O passado só tem poder sobre você se a sua memória for mais forte do que a sua vontade de seguir em frente.
O tempo não apaga a memória, mas ensina a conviver com a ausência sem perder a urgência do presente.
A memória é uma casa de quartos trancados. Algumas portas abrem sozinhas, outras precisam de força. Quando entro, encontro ossos de riso e móveis de abandono. Arrumo o que posso e não tento ajeitar o impossível. Viver é aprender a escolher quais cômodos habitar.
A paciência é a alquimia que transforma perda em memória. Sem ela, o luto explode em rancor e fome. Com ela, o passado vira lembrança comestível. Aprendo a cozinhar memórias, a temperar saudade com graça. E então o que restou alimenta, em vez de matar.
Ainda que a luz se recuse a tocar o chão, há um rastro que a memória insiste em manter. Não me refiro ao toque, à palavra, ao perdão, mas ao contorno que a ausência deixa em você. O espaço que a água preenche é o mesmo que define o vaso, e o que se perde é apenas a medida do achado. Há encontros que não têm nome nem rosto, e são o silêncio que me deixou falado. Eu procuro no eco a prova de que não sumiu. E o ar que respiro não seria o mesmo, se a essência da sua passagem não tivesse ensinado o meu eu a ser extremo.
A gratidão não é um suspiro leve, mas a memória em carne viva do coração que se recusa a esquecer o dom, ela transmuta o fardo brutal da obrigação na epifania silenciosa de uma bênção.
A memória é uma artesã cruel: trabalha em silêncio, mas deixa marcas profundas. Às vezes lapida, às vezes corrói. Mas jamais deixa de atuar sobre o que somos. E reconhecer isso é aceitar que crescer dói e sempre doerá.
O corpo tem memória de batalhas que a mente quer esquecer. Há dias em que ele se recusa a colaborar, cobra presença no presente. Quando obedece, eu celebro em silêncio, quando nega, aprendo a negociar, ofereço chá, música, paciência, pequenos tratados de trégua.
Há palavras que se escondem no bolso justo da memória. Aparecem só quando o corpo precisa de consolo. Algumas são duras, outras acariciam a garganta. Se pudesse, as colocaria em moldura e as olharia todas as manhãs. Seria um museu íntimo de pequenas verdades.
A memória é pássaro que pousa em qualquer janela. Quando pousa, canta e revela céu. Algumas músicas me levam a lugares que nem sei nomear. Elas nascem de saudade e terminam em consolo. E eu as coleciono como quem junta estrelas.
Minha infância ainda soluça em algum sótão da memória. Peço perdão ao menino que fui por não ter sido o herói que ele esperava.
Viver é equilibrar-se no fio da navalha entre a memória que nos prende e a esperança que nos puxa, tentando não cortar os pés enquanto caminhamos em direção a um futuro que nunca promete nada, mas que nos seduz com a possibilidade de um novo amanhecer.
“... Ultimamente ando com a memória perfeitamente complexa.
Jamais esqueço daqueles me dão carinho sempre se lembrando de mim e daqueles que se esquecem de mim ou fingem esquecer?!...Bom quem, é mesmo estas pessoas? Ai ai ai perdoa eu disse que minha memória está complexada”
Feliz Natal!!!
—By Coelhinha
Nesse 2 de novembro.
A saudade aumenta
A memória aflora
A tristeza não aguenta
Pelo Pai que já partiu
A saudade vai a mil
No coração que já sentiu;
A perda varonil
A certeza que me anima
É o reencontro no céu
Onde Jesus está acima
Com o arcanjo Miguel
Terminando a poesia
Confesso ser a melancolia,
A culpada de tal ato constrangedor
Querendo rimar sentindo dor.
Porque há coisas
que o tempo não apaga,
apenas transforma em eternidade dentro da memória.
No fim, continuamos caminhando…
carregando aquilo
que o coração escolheu eternizar.
— Helaine Machado
