Mal estar
Indiferença.
Parece normal
Achar normal
Sentir calor no frio
Buscar o bem no mal
Estar em certos lugares,
Repletos de espaços vazios
As filosofias desta vida
Igualando demais
Aquilo que é desigual
Tempestades e estios
Na triste solidão de estrelas
Tão distantes e desertas.
Até o leito seco de um rio
Pode ser bem natural
durante alguns meses do ano
Mas é certo
Que mundos e gentes
Seguem ciclos diferentes
A graça da vida
Sempre subtraída
Atraindo pra junto de nós
Aquilo que nos faz
Irracionais
A seguir nos dividindo
Por corredeiras que se multiplicam
Sem criar raízes
Eu juro que pelo menos
Esperava um pouco mais
Que o nada ao quadrado
Mas essas simples frações reais
Jamais nos vem por inteiro
Aquelas coisas bonitas
Que a gente Infinitesimalmente crê
E, no fundo, acredita que não vem
Na angustiante efemeridade
desta vida que se vai
Naturalmente.
Edson Ricardo Paiva.
Havia um mal-estar no vagão. Como se fizesse calor demais. A moça inquieta. Os homens em alerta. Meu Deus, pensou a moça, o que é que eles querem de mim? Não tinha resposta. E ainda por cima era virgem. Por que, mas por que pensara na própria virgindade? (...)
Então os dois homens começaram a falar um com o outro. No começo Cidinha não entendeu palavra. Parecia brincadeira. Falavam depressa demais. E a linguagem pareceu-lhe vagamente familiar. Que língua era aquela?
De repente percebeu: eles falavam com perfeição a língua do "p". (...)
Cidinha fingiu não entender: entender seria perigoso para ela. (...) Queriam dizer que iam currá-la no túnel… O que fazer? (...) Me socorre, Virgem Maria! me socorre! me socorre! (...)
Se resistisse podiam matá-la. Era assim então. (...)
Tirou um cigarro da bolsa para fumar e acalmar-se. Não adiantou. Quando seria o próximo túnel? Tinha que pensar depressa, depressa, depressa.
Então pensou: se eu me fingir de prostituta, eles desistem, não gostam de vagabunda.
