Luis Fernando Verissimo poemas Sonhos

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A última lambreta

Descia pela ruazinha de terra e pedras. Magra, leve, parecia perfeita para a lambreta que tinha.
Era uma época em que os empregos do sonho, nesta região, eram de motorista do caminhão do leite ou da Kombi escolar, ou este dela, em que passava nas pequenas propriedades vacinando o gado.
Naquele dia ela chegou mais calada. Percebia-se que algo não estava bem. Após almoçar fartamente a pequena veterinária passou a comentar suas angustias. Tudo mudaria. Estavam tirando as lambretas de serviço e colocando as Turunas (Moto que fez muito sucesso naquela época)
Olhando para mulher falante e tão minúscula, fiquei impressionado com a sua decepção. Falou que iria sentir muito a mudança. Definitivamente não aceitava ficar sem “lambretear”.
Ela que muitas vezes foi vista como a rebelde da família, pois entrava em si mesma e produzia alguns textos de qualidade questionável apenas para relaxar.
Em certa ocasião, após uma queda e com uma forte batida na cabeça, perdeu um pouco a lucidez. Naquele dia salgou o café ao tentar adoça-lo. Fez uma frase que eu nunca mais esqueci: “Se é no sábado, todos sabem que é domingo.” Exatamente assim se pronunciou. Uma frase, para mim, símbolo das confusões mentais em que ela poderia estar metida.
Mas o entusiasmo dela ao falar da velha lambreta era algo impressionante. Não parecia ter nenhum “parafuso a menos”.
Na hora de ir embora, vi que chorava e falava que nunca mais veríamos uma lambreta. Que aproveitasse aquele dia.
Indignada, parecia mesmo que estava para cometer o suicídio, pois disse que sairia de todas as formas de convivências sociais. Disse que iria se esconder, que não daria mais notícias. Nunca vi alguém tão indignado por tão pouco.
Fiquei com aquela imagem dela subindo pela estradinha e dizendo: Nunca mais. Aproveitem a última lambretinha. Nunca mais saberão de mim. Nunca mais, nunca mais...

Inserida por MoacirLuisAraldi

Pássaros da vida
Olhou encantado para o alto do parreiral.
Se não estivesse diante de uma Isabel gaúcha, jurava se tratar de uma Nebbiolo Piemontês. O clima favorável possibilitou um desenvolvimento espetacular tornando-as viçosas e lindas naquele ano. A associação com a uva italiana que tanto apreciava foi inevitável.
Fez-se adulto no tempo em que o vinho era feito de forma artesanal. Amassava-se a uva com os pés. Eram dias especiais aqueles que se ocupavam nos afazeres vinícolas.
Orgulhava-se do progresso, mas mantinha certa nostalgia em seus abundantes e fantasiosos pensamentos.
Repentinamente lembrou-se Dela.
Há tempos não à via. Contudo mantinha na memória o sorriso tão lindo, tão mágico e tão doce como o vinho suave. Nunca a esqueceu, nem esqueceria.
Por alguns segundos imaginou uma cena inusitada com o gosto de um beijo com uva Merlot que ela, atrevidamente, manteria apertada nos lábios carnudos e adoráveis num gesto de gostosa provocação. Adoraria viver isso.
Jamais houve um adeus definitivo. Apenas deixaram que os pássaros da vida consumisse-os como devoram os grãos maduros dos parreirais.
Despertou do pensamento alucinante e tratou de experimentar um cálice de vinho ali produzido.
Impossível saber quanto bebeu daquele tinto maturado. Deduz-se que foi bastante, pois no dia seguinte ele afirmava com certa convicção: Ela veio me ver esta noite. Estava encantadoramente linda como sempre.
Pode ter sido só um delírio, um sonho, uma ilusão. Mas o que importa saber a verdade se ela não faz feliz.
O que importa? Pensou.
Nada conta depois que o sonho acaba.
Lenta, mas decididamente, com o copo na mão caminhou para a pipa de Chardonnay.
Outro sabor, outra variedade, outra uva, outro vinho, mas os desejos mantidos de acordar feliz após passar mais uma noite, supostamente com a amada.
Queria uma noite longa para o tempo de felicidade, quem sabe, ser... Eterno.
Quem sabe...
Se a sorte ajudar.

Inserida por MoacirLuisAraldi

Pólen
Saudade é como ginete caindo do cavalo.
É fruto que se fere ao cair do pé.
É gangorra em seu trepido embalo.
É nome saudoso de mulher.

É a roupa sem passar,
O perfume que se deixa de lado.
É marcar gol e não comemorar.
É entrar mudo e sair calado.

É o ativo que se despreza.
É abelha sem pólen pra pousar.
É ajoelhar quando se reza.
É perder a vontade de lutar.

Inserida por MoacirLuisAraldi

Trechos da vida

Dorme a tarde enferma e calada.
Impiedosa a chuva debocha.
Bate no vidro sem nenhuma graça.
Solitária a alameda deixou ser tomada pelas águas.
Sem o fascínio do sol estampado
Meu semblante enrijece desmedido.
O caminho encharcado me inibe,
Tropeço no lodo criado.
Cair nunca é esperado,
Em pé supera-se a quem está sentado.
Mas as resvaladas que não se acredita
Estatelam no chão uma intenção bonita.
A roupa enlameada até entristece,
Mas não compromete o aclive do ser.
Cada escorregada faz deslizar
A vontade de tudo superar.
Melodias cantadas animam a subida,
Nesta avenida íngreme e sangrenta.
É preciso ser forte para fazer o percurso
Dos trechos enlameados da vida.

Inserida por MoacirLuisAraldi

Sede de Boca

Qualquer boca é boca
mas havia a tua boca
e olha, que coisa louca
a boca, que boca,
e olha, que sede louca
de boca, da tua boca.

Inserida por chintons

Último poema
E uma súbita e inexplicável angústia me invade.
Tão cedo. Tão sem avisar.
Eu até sabia que um dia a poesia perderia a graça.
Torci tanto que não fosse já.
Morrem com vida meus versos, talvez a pior das mortes.
Antes estar sendo devorado por corvos
E provocando no ar um cheiro de carniça
A ficar “morfinando” a falta de inspiração.
Acreditei no sonho que talvez só eu sonhasse
Sem que o talento soubesse.
Dei-me por completo ao poema.
Dei-me em todas as letras do alfabeto.
Pensei cobrir-me de tudo,
Mas fiquei completamente descoberto,
Esquecido, escondido, cego, surdo, mudo e quieto.
Permita-me Deus, ao menos,
Escrever o epitáfio para meu último teto.
“Pensou saber, mas morreu analfabeto”

Inserida por MoacirLuisAraldi

Adi Vinhar:
Ato de adicionar ao vinho o sabor leve e marcante dos amantes. Refere-se ainda ao ato de adivinhar por mero acaso ou suposição que vinho, lareira e amor tem sabor de sedução.
(“Sem sentido”)

Inserida por MoacirLuisAraldi

Não podem proibir Deus de acrescentar algo que ensine ao homem que está no caminho do que é correcto


Luís Poças Falcâo...( um filho de Deus )Luís Poças

Inserida por LouFalk1

O caminhar feminino
dá vida aos saltos altos
em passos que mais parecem pássaros.

Inserida por MoacirLuisAraldi

Vista de longe ela era linda.
De perto sua beleza era infinita.
Para mim... Um anjo de amor sem fim.
Lida pelo poeta um verso de perfeita métrica
num corpo da mais rica silaba poética.

Inserida por MoacirLuisAraldi

Quando foi a última vez que você se pegou caminhando, mas não caminhando para cumprir seus afazeres rotineiros... Falo daquela caminhada despretensiosa, sem pressa, sem rua certa e sem relógio no comando?
Quando foi a última vez que, caminhando, você olhou para cima, para aqueles ângulos de visão que normalmente nossa pressa não permite?
Pois é... As paisagens mudam, as estações revelam suas belezas, suas cores, e nós, parte desse sistema, raras vezes deixamos nossas vidas robóticas de lado pra simplesmente observar a criação da qual somos parte.
E que bem danado nos faz! Alivia as tensões, acalma a mente, traz uma sensação gostosa de paz...
É relembrar o óbvio... Sempre andamos para frente, mas a escolha do que carregamos conosco, ou deixamos para trás a cada passo dado, é uma escolha pessoal de cada um.

Inserida por decofleck

Quero mais que um fim de semana de sol.
Quero a batida perfeita, o som mais maluco...
Os abraços mais sinceros e os beijos mais pegados.
Quero sorrir sem motivo, andar sem roteiro, dançar até cansar!
Quero a família feliz, os amigos por perto e aquele chimarrão na roda!
No fim, só quero que a simplicidade desenhe o passar das horas...
E que o colorido da vida seja bem vivo!

Inserida por decofleck

Ai a pessoa te pergunta... O que você ganha se doando tanto...
Simples parceria... Realização pessoal, quer algo que ninguém nunca vai te tirar é isso: realização pessoal.
Quem me conhece sabe que sou movido a desafios, que me entrego por completo as bandeiras que levo.
Na vida as melhores coisas não dependem de dinheiro, dependem mais do sabor que acrescentam à ela mesma!
Quero ter a certeza de que fiz tudo que queria, quando queria e como queria, que não me apeguei a roteiros e nem padrões, apenas segui o que senti como verdade, fluir de dentro de mim.
Felicidade não se paga, não se compra, nem se vende.
Ai que me refiro!

Inserida por decofleck

Qual é o plano parceiro?

Qual é o plano parceiro, se do tempo já não domino faz tempo
Dos dias e noites não entendo, o por que de tanto contratempo
Lá na infância me via, brincando por longas tardes
E mesmo que imaginasse, o tempo assim não corria
Se hoje tivesse 500 dias, talvez ainda faltasse
Horas, minutos, segundos, na correria de meus dias

E onde então está o pause parceiro, preciso me reorganizar
Vida louca assim não dá... o tempo voa, escoa e decola
Talvez, se ao invés de mais tempo, tivesse mais dois braços...
Trabalharia dobrado, daria mais abraços... quem sabe olhasse pra mim
Já que de mim, as vezes tem tudo, mas pra mim, não sou atento assim

Mas o controle é Ele quem tem... e me pergunto impaciente
Qual o plano Onipotente? Por que acelerar assim?
Logo me vem a mente, que saibamos melhor do tempo
Aproveitar cada momento, sem dele ser prisioneiro
Afinal é ele grande parceiro, das memórias de minha vida
Testemunha íntima dos fracassos e glórias vividas...

Que bom será quando reaprender a ouvir meu coração
Entender que seu ritmo constante, não se modifica em meio ao turbilhão
Mantem seu compasso, mesmo que o corpo exija
"Vamos, acelere o passo, olha o tempo, o compromisso, o atraso"
Não será mais ele o culpado da correria das minhas andanças
E nos verdes campos da vida, serei eu o potro xucro domado.

Inserida por decofleck

Certo dia a Paixão sentiu-se só...
E olhando pela janela de sua casa, contemplava o horizonte ao longe,na busca pelo fim de sua solidão.
Fixava seus olhos no sol, que majestosamente escondia-se atrás das montanhas,e vinha a lua e suas canções, e as estrelas e suas sapequices...
Novo dia acontecia, e ali estava a Paixão, tentando entender a solidão...
A Rosa toda discreta, a dias observava a amiga
Fazia de um tudo para ser notada, mas a Paixão olhava longe, não se fazia presente!
Foi então, que num esforço sobrenatural, o maior e mais belo botão se formou, e era tão viva sua cor, que impossível não chamar atenção!
Neste dia, a Paixão entendeu que a solidão nada mais é que o resultado do não querer ver, que em algum lugar, alguém te ama, olha por você!
E que nas coisas mais simples, talvez mais perto do que se possa pensar, o Amor se revela de forma sublime...
Foi tão intenso o aprendizado, que a Paixão virou Amor, e a Rosa...
Ahh a Rosa...
Esta dedica-se até hoje a nobre missão de aproximar os corações solitários, a fim de que troquem olhares, para que no meio disso tudo, o Amor enfim aconteça!

Inserida por decofleck

Seria eu uma mistura de humano e águia?
De onde vem esse desejo apaixonante pela liberdade
Essa sensação divina de sentir o vento batendo no meu rosto
Como se explica o levantar de meus braços nos lugares mais inusitados
Parecendo assim, como que a querer levantar voo
Gosto de ver o mundo além do que minha humilde visão alcança
E desbravar serenos, intensos, pequenos e imensos horizontes
Ter a certeza de que cada nova paisagem me reserva um novo sabor, um novo aroma, uma nova aventura...
E de lá de cima ver meu reflexo nas águas, e constatar que sou feito da mesma pureza daquela que minha sede mata
Serei eu, muito mais humano, quando me permitir ser você... Águia...
Pois dos seres vivos desta terra, tu és a que nos céus, mais se aproxima de Deus.

Inserida por decofleck

Não quero muito.
Basta-me uma morada de dois versos.
Um mínimo de inspiração.
Uma corda no violão.
Um reservatório de fé e otimismo.
Uma vertente de amor no coração.
O barulho da natureza pra me tirar o sono.
O ruído da poesia tinindo em meus ouvidos.
Alguns abraços de gratidão.
E a certeza que vivi o que podia ter vivido.

Inserida por MoacirLuisAraldi

Gotas
No alto da estante o livro desequilibrou-se vindo de encontro ao chão.
Espatifou-se na sala cheia de crianças.
Foi letra pra todo lado.
Uma cena que até hoje permanece viva na minha memória.
Emocionei-me ao ver o brilho nos olhos dos pequenos leitores
Que puderam tocar e provar a doçura de cada grafema que alegremente iam recolhendo.
Que espetáculo ver gotas culturais invadindo o universo de cada uma delas.

Inserida por MoacirLuisAraldi

Catorze versos me recebem com festa, numa alegria que poucas vezes vi.
Como é maravilhoso chegar ao poema e ser recebido assim.
Descobri que o soneto e dócil e que seus versos, apesar de carrancudos são muito amáveis.

Inserida por MoacirLuisAraldi

Todos os dias o pássaro pousava no mesmo lugar,
coloria e alegrava o ambiente com seu canto.
Tiraram-lhe o galho. Ausentou-se.
Hoje pousa em outras árvores.

Inserida por MoacirLuisAraldi