Lugar

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A ironia da vida é que muita gente só percebe o valor de alguém quando o silêncio ocupa o lugar da presença.

Há corações que não procuram um amor; procuram um lugar onde, enfim, possam deixar de partir.

A Arte de Refazer-se


Reconstruir não é voltar ao lugar
onde a ruína aprendeu a morar.
É olhar cada resto, sem se iludir,
e escolher o que fica, o que vai ruir.


Depois da queda, muda-se o mapa,
a voz já não pede, a presença não escapa.
Muda-se a língua, o jeito de falar,
porque quem se refaz aprende a se nomear.


Também muda o acesso, a porta, a janela,
nem toda presença merece a sala mais bela.
Existem distâncias que não são abandono,
são muros erguidos para proteger o sono.


Reúne-se tudo: silêncio e memória,
feridas, desejos, fracassos, história.
Nada é varrido para fingir perfeição,
até o que doeu ganha outra posição.


E então se percebe, no fundo da pele,
que mudar não é negar aquilo que fere.
É retirar da ferida o direito de mandar,
sem deixar que o passado escolha onde ficar.


Quem se reconstrói não volta igual,
troca o caminho, recalibra o sinal.
Não distribui chaves por medo de perder,
nem abre a própria casa para qualquer querer.


E se perguntarem por que tudo mudou,
não foi o mundo: foi quem se encontrou.
Mudou a linguagem, a porta e a direção,
porque reconstruir também é mudar a própria posição.

Meu lugar nunca teve o tamanho do mundo dos outros.

Justiça não é vingança.
É a verdade chegando ao lugar onde a mentira acreditava ter comprado morada.

Ostentação


Local seguro,
Lugar arborizado, sem poluição,
Manter a auto estima elevada,
Comer bem,
Ter conexões de valor,
Olhar para o céu noturno buscando profundidade,
Enfim, viver em paz, esse é o meu maior luxo.

O gado bolsonarista invade Gramado na Páscoa! No entendimento do rebanho, não há melhor lugar para pastar!

Antigamente utilizava-se o termo curral eleitoral para definir um lugar onde um determinado político mantinha seus eleitores no cabresto. Atualmente serve para indicar a moradia do gado bolsonarista.

Lugar


Lindo Navegar
Navego nos mares agitados
Nas sensações de cada destino
No refazer rotas
Amplitude das aventuras
Para enfim chegar no lugar desejado.

Um pedido carinhoso para você.
No lugar de pedras, plante flores.
E o seu sorriso ajuda a florescer!
Rita Simões

O lugar de fala valida a identidade, mas não garante legitimidade.

Em nenhum outro lugar, além do topo de uma montanha, você se sentirá tão pequeno e ao mesmo tempo tão grande por fazer parte da obra-prima de Deus criador.

Vamos imaginar um lugar, onde as pessoas ajudam uma às outras;

Vamos imaginar um lugar, onde a religião não separa as pessoas;

Vamos imaginar um lugar, onde as pessoas estão sempre sorrindo;

Vamos imaginar um lugar, onde as pessoas choram, mas só de alegria;

Vamos imaginar um lugar, onde um não quer tomar o que é do outro;

Vamos imaginar um lugar, onde a política não é usada para fazer o mal;

Vamos imaginar um lugar, onde as instituições não são maiores que as pessoas;

Vamos imaginar um lugar, onde o dinheiro supre as necessidades de todos;

Vamos imaginar um lugar, onde há separação entre Religião e Estado;

Vamos imaginar um lugar, onde não usam o nome de Deus para proveito próprio;

Vamos imaginar um lugar, onde as pessoas são civilizadas e por isso se entendem;

Vamos imaginar um lugar, onde o feio também é bonito e aceito por todos;

Vamos imaginar um lugar, onde o ser humano tem o seu devido valor;

Vamos imaginar um lugar, onde as crianças podem brincar longe das armas;

Vamos imaginar um lugar, onde países grandes não exterminam países pequenos;

Vamos imaginar um lugar, onde os seres humanos têm comida, água, educação, e local digno para morar;

Vamos imaginar um lugar, onde a injustiça não opera por causa da ganância;

Vamos imaginar um lugar, onde não existe ditadores mas verdadeiros representantes do povo;

Vamos imaginar um lugar, onde os médicos cuidam dos pacientes porque amam o que fazem;

Vamos imaginar um lugar, onde as crianças não morrem nos hospitais por causa da imperícia, negligência e imprudência;

Vamos imaginar um lugar, onde a polícia não é corrupta e as pessoas confiam nela;

Vamos imaginar um lugar, onde não existe ladrão, mas sim, distribuição de renda;

Vamos imaginar um lugar, onde a máquina do governo não escraviza o contribuinte;

Vamos imaginar um lugar, onde não há terrorismo porque ninguém faz mal a ninguém;

Vamos imaginar um lugar, onde a gente se preocupa com as crianças nossas e também com as crianças dos outros;

Vamos imaginar um lugar, onde toda loucura e esquizofrenia são devidamente curadas;

Vamos imaginar um lugar, onde os psicólogo, psicanalistas e psiquiatras, não aparecem na TV, só para ganhar dinheiro, mas também, para darem suas honestas contribuições à sociedade;

Vamos imaginar um lugar, onde se quer liberdade para si e também para os outros;

Vamos imaginar um lugar, onde os hipócritas e avarentos não estão no poder;

Vamos imaginar um lugar, onde se errarmos, nos arrependemos, e obtemos perdão;

Vamos imaginar um lugar, onde se condenado, a condenação é justa, e digno o cumprimento da pena;

Vamos imaginar um lugar, onde não há espaço para os sádicos, cujos tais, gostam de torturar;

Vamos imaginar um lugar, onde não tenha que ocorrer catástrofes para que os povos se unam;

Vamos imaginar um lugar, onde o maior e o melhor é aquele que mais serve os outros;

Vamos imaginar um lugar, onde as diferenças são respeitadas, e por isso, há diálogo, e não bombas;

Vamos imaginar um lugar, onde os fabricantes e vendedores de armas mudaram de profissão;

Vamos imaginar um lugar, onde não há pirataria de produtos porque os impostos são baixos (justos);

Vamos imaginar um lugar, onde as pessoas aprendem umas com as outras porque se amam;

Vamos imaginar um lugar, onde não há presunção, arrogância, e nem vaidade dos homens;

Vamos imaginar um lugar, onde viver a vida é mais importante do que matar as pessoas;

Vamos imaginar um lugar, onde as pessoas mais velhas têm o que ensinar às mais jovens;

Vamos imaginar um lugar, onde eu, você, e todos os outros, podemos construí-lo, e terminá-lo;

Vamos imaginar um lugar, onde a amizade é permanente e damos a vida uns pelos outros;

Vamos imaginar um lugar, onde podemos enxugar nossas lágrimas e vivermos uma vida melhor;

Vamos imaginar um lugar, onde o dinheiro seja usado e não os seres humanos usados pelo dinheiro;

Vamos imaginar um lugar, onde todos nós possamos nos amar além das religiões e das seitas;

Vamos imaginar um lugar, onde querer é poder, e assim, possamos valorizar o ser, e não o ter;

Vamos imaginar um lugar, onde existe vida em todos os sentidos, e a morte, a morte morreu.

Se você não me disser a verdade, não tem como eu ajudar a minha metade. Se tem outro em meu lugar ou se você quer colocar, te deixo livre para viver. Não prometo te esperar, o coração vai cicatrizar e uma hora sei que vou te esquecer. Se era medo de me machucar, já tem meu perdão. Tá esperando o que?

A poesia nunca foi um lugar para gente limpa.
Os que procuram perfume nas palavras deveriam comprar flores de plástico. Duram mais e não fazem perguntas.
Um poema de verdade chega cheirando a cigarro velho, sangue seco e cerveja derramada sobre um balcão onde ninguém acredita em finais felizes. Não nasceu para ser recitado em auditórios cheios de gente elegante. Nasceu para estragar o jantar de alguém.
As pessoas querem versos educados. Querem metáforas que façam carinho na culpa, rimas que embalem o sono, autores que peçam desculpas por existir.
Que se danem.
A poesia não veio ao mundo para ser simpática. Veio para arrancar o verniz das coisas. Para lembrar que existe mais ódio escondido atrás de um sorriso do que em um punho fechado. Mais luxúria atrás de uma oração do que em muitos quartos de motel. Mais mentira em um discurso bonito do que na boca de um bêbado.
Os melhores versos não conversam.
Eles entram sem bater.
Sentam na sua sala.
Bebem a última cerveja.
Acendem o último cigarro.
Olham nos seus olhos e dizem aquilo que você passou a vida inteira tentando esconder de si mesmo.
É por isso que incomodam.
Porque toda boa poesia é uma acusação escrita com tinta.
E toda acusação verdadeira deixa cicatrizes.
Se um poema termina e você continua exatamente a mesma pessoa, então aquilo era só tinta sobre papel.
Não poesia.

*O LUGAR ONDE A POESIA NÃO SERVIA PARA NADA*

Eu era novo na cidade e ainda não tinha escolhido um lugar para beber. Toda cidade exige isso de você. Um lugar onde entrar sozinho não pareça uma declaração de fracasso. Um balcão onde ninguém pergunte seu nome. Uma mesa onde você possa ficar olhando para o copo como se houvesse alguma resposta lá dentro.

Encontrei o pub perto de um parque.

Era pequeno. Bucólico demais para o meu gosto, mas não o suficiente para me fazer ir embora. Havia árvores antigas do lado de fora, bancos de madeira e uma iluminação amarela que fazia tudo parecer mais importante do que realmente era.

Dentro, havia estantes cheias de livros, quadros de artistas locais e alguns instrumentos musicais pendurados nas paredes. Um pequeno tablado, quase no mesmo nível do chão, servia para música, debates literários e noites de poesia.

Pedi uma bebida e sentei no canto do balcão.

Era um bom lugar para observar.

E observar é uma das poucas coisas que ainda consigo fazer sem estragar tudo.

Uma mulher subiu ao pequeno tablado.

Trazia algumas folhas na mão.

Começou a declamar.

Não era uma poesia bonita.

Ainda bem.

Falava de solidão, de perdas, de um homem que foi embora, de uma mãe que nunca soube abraçar, de noites em que o telefone não toca e de manhãs em que ninguém tem coragem de admitir que gostaria de não ter acordado.

Falava de gente.

Isso já era uma coisa bastante desagradável para algumas pessoas.

No canto próximo ao balcão havia um grupo de homens e mulheres que parecia ter escolhido aquele lugar por engano. Tinham roupas boas, relógios caros e aquele tipo de conversa que costuma começar com dinheiro e terminar em dinheiro.

Um deles riu.

Outro disse que aquilo era deprimente.

Uma mulher comentou que poesia não servia para nada.

O homem do relógio concordou.

— Poesia não paga conta.

Era uma frase perfeita.

Curta.

Prática.

Estúpida.

Eles riram.

Eu bebi.

A mulher continuou.

E, enquanto ela falava, comecei a pensar que talvez aquela fosse a pergunta errada.

Para que serve a poesia?

A pergunta parecia razoável até você perceber que existe uma doença escondida nela.

A necessidade de que tudo tenha utilidade.

Se alguma coisa não produz dinheiro, produtividade ou resultado, passa a ser considerada inútil.

Uma árvore precisa dar fruto.

Um homem precisa produzir.

Uma mulher precisa vencer.

Um filho precisa ter futuro.

Uma casa precisa valorizar.

Um livro precisa ensinar.

Uma conversa precisa gerar alguma coisa.

Até o descanso precisa servir para recuperar alguém para o trabalho do dia seguinte.

Tudo precisa servir.

Talvez fosse por isso que aquela mulher incomodava tanto.

Ela estava ali fazendo uma coisa que não servia para nada.

Ou, pelo menos, não servia para aquilo que eles entendiam como vida.

Ela não estava vendendo nada.

Não estava aumentando patrimônio.

Não estava melhorando o currículo.

Não estava produzindo uma estatística.

Estava apenas dizendo alguma coisa que doía.

E talvez fosse justamente aí que estivesse a resistência.

A poesia não consertava o mundo.

Não pagava aluguel.

Não trocava o óleo do carro.

Não diminuía a fila do supermercado.

Não impedia que um idiota fosse eleito presidente de alguma coisa.

Mas resistia.

Resistia à ideia de que o ser humano pudesse ser reduzido ao que possui, ao que produz e ao que consegue provar.

Ela funcionava como metáfora daquilo que dá sentido à existência.

Não porque tivesse respostas.

Mas porque fazia perguntas que ninguém conseguia transformar em dinheiro.

Quem sou eu?

O que perdi?

Quem amei?

Quem ainda me ama?

Por que continuo aqui?

Perguntas inconvenientes.

Nenhuma delas cabe numa planilha.

O grupo continuava rindo.

O homem do relógio começou a falar do carro novo.

A mulher ao lado dele mostrou fotografias de uma viagem.

Outro falou sobre investimentos.

Tinham muito.

Era evidente.

Talvez tivessem tudo.

E foi justamente isso que me incomodou.

Pareciam ter passado tanto tempo acumulando coisas que esqueceram de acumular alguma experiência que não pudesse ser fotografada.

Talvez confundissem ter com ser.

Eu não podia julgá-los.

Também tinha passado boa parte da vida fazendo coisas que não sabia se queria fazer.

Trabalhando.

Pagando.

Cumprindo.

Esperando.

Adiando.

A diferença talvez fosse apenas o tipo de mentira que cada um contava para continuar funcionando.

A mulher terminou o poema.

Algumas pessoas aplaudiram.

Poucas.

Ela agradeceu e desceu.

Passou perto de mim.

Por um instante, olhou para o meu copo.

Depois para mim.

Não disse nada.

Talvez não precisasse.

Pedi outra bebida.

Depois outra.

A noite avançou.

O grupo foi embora.

Um deles saiu falando ao telefone sobre uma reunião às oito da manhã.

A poesia havia terminado.

O dinheiro continuava funcionando.

O mundo tinha sobrevivido a mais uma noite.

Paguei a conta e saí.

O parque estava quase vazio.

Comecei a caminhar para casa.

A cidade parecia diferente sem as pessoas falando.

Os prédios eram apenas prédios.

As lojas estavam fechadas.

As vitrines continuavam iluminadas para ninguém.

Passei por um carro importado estacionado na rua.

Pensei no homem do relógio.

Ele provavelmente chegaria em casa, colocaria as chaves sobre uma mesa cara e dormiria numa cama confortável.

Talvez fosse feliz.

Eu não sabia.

E esse era o problema.

Ninguém sabe.

Passamos a vida tentando construir uma resposta com coisas que podem ser medidas.

Salário.

Cargo.

Casa.

Carro.

Viagens.

Seguidores.

Objetos.

Conquistas.

E, no fim, quando tudo isso fica em silêncio, sobra uma pergunta que não pode ser respondida por extrato bancário.

Você viveu?

Ou apenas funcionou?

Continuei andando.

Pensei novamente na mulher do pub.

Talvez poesia fosse isso.

Não um luxo.

Não uma distração para quem não tem problemas.

Mas uma espécie de resistência contra a vida automática.

Um pequeno defeito na máquina.

A recusa em aceitar que nascer, trabalhar, pagar contas, envelhecer e morrer seja uma biografia suficiente.

Talvez um poema seja apenas alguém dizendo: eu estive aqui.

Eu senti isso.

Eu perdi aquilo.

Eu amei alguém.

Eu tive medo.

Eu não entendi.

Mas estive aqui.

E talvez fosse isso que aquelas pessoas não compreendessem.

A poesia não precisava salvar ninguém.

Bastava impedir que alguém se transformasse completamente naquilo que o mundo queria que ele fosse.

Cheguei em casa.

Abri a porta.

Acendi a luz.

Meu gato apareceu no corredor.

Olhou para mim com aquela expressão de quem estava profundamente decepcionado com a minha pontualidade e com a espécie humana em geral.

Tinha fome.

Claro que tinha.

Coloquei comida no prato.

Ele comeu.

Depois passou pela minha perna e desapareceu.

Fiquei alguns segundos parado no meio da sala.

A casa estava silenciosa.

Não havia aplausos.

Não havia relógios caros.

Não havia gente discutindo patrimônio.

Não havia ninguém perguntando quanto eu ganhava ou o que eu possuía.

Havia apenas um gato, uma garrafa pela metade e eu.

E foi ali que entendi uma coisa bastante simples.

Talvez a poesia não sirva para nada.

Talvez nunca tenha servido.

Talvez esse seja justamente o seu valor.

Porque algumas coisas precisam existir sem prestar contas.

Uma música.

Um beijo.

Uma conversa inútil às três da manhã.

Um homem bebendo sozinho.

Uma mulher lendo seus versos para meia dúzia de desconhecidos.

Um gato esperando alguém voltar para casa.

Nada disso aumenta o patrimônio.

Nada disso melhora a produtividade.

Nada disso aparece no currículo.

Mas, quando tudo o que pode ser comprado, medido e contabilizado finalmente perde importância, são essas coisas que permanecem.

Fiquei olhando para o gato.

Ele me olhou de volta.

Nenhum dos dois tinha uma resposta.

Pela primeira vez naquela noite, isso não pareceu um problema.

Talvez viver seja justamente continuar fazendo coisas que não servem para nada e que, por alguma razão, fazem a existência valer alguma coisa.

Talvez seja por isso que ainda escrevemos.

Por isso que ainda ouvimos música.

Por isso que ainda amamos mesmo depois de descobrir que amar não oferece nenhuma garantia.

A poesia não existe para tornar a vida mais útil.

Existe para impedir que a vida se torne apenas útil.

E naquela noite, sozinho em casa, com um gato faminto andando pela sala e a cidade inteira funcionando do lado de fora, percebi que talvez essa fosse a única forma de resistência que ainda me interessava.

Continuar vivo.

Mas não apenas funcionando.

*Era outra noite no pub*

Eu ainda estava procurando um lugar que parecesse menos falso que os outros. Não necessariamente um lugar bonito. Beleza demais sempre me deixou desconfiado. Eu queria apenas um lugar onde ninguém precisasse fingir tanto.

Ela era uma das inúmeras profissionais que frequentavam o escritório. Já havíamos conversado algumas vezes. Coisas de trabalho. Horários. Processos. Café ruim. Aquele tipo de conversa que mantém duas pessoas civilizadas e completamente desconhecidas.

Naquela noite resolvemos sair.

Conhecer um pub.

Talvez conhecer um ao outro.

O segundo sempre dá mais trabalho.

Sentamos, pedimos alguma coisa e começamos pelo roteiro habitual dos primeiros encontros. Trabalho. Filmes. Música. Viagens. Relacionamentos. Pequenas biografias cuidadosamente editadas para não assustar ninguém.

As pessoas fazem isso.

Entregam uma versão resumida de si mesmas.

Como se fossem currículos emocionais.

Depois de algum tempo, a conversa cansou de ser educada.

Foi quando ela começou a falar de coisas que não cabiam no escritório.

Disse que crescera sentindo a falta de amor do pai. Não a falta física. A outra. A pior. Aquela em que o sujeito está presente, respira na mesma casa, ocupa a mesma cadeira e ainda assim parece ter feito um acordo com a própria ausência.

Depois veio o casamento.

Falido desde o começo.

Algumas relações não terminam. Apenas continuam mortas por falta de coragem dos vivos.

E havia o relacionamento mais recente.

Abuso emocional.

Ela não precisou usar muitas palavras.

Certas coisas aparecem no jeito como alguém segura o copo.

No intervalo antes de responder.

Na maneira de rir quando conta alguma coisa que ainda dói.

Eu ouvi.

Não porque soubesse o que dizer.

Eu quase nunca sei.

Também não acredito nessa obrigação moderna de oferecer uma frase bonita para cada ferida. Às vezes a melhor coisa que alguém pode fazer é não transformar a dor do outro em palestra.

Então fiquei ali.

Ouvindo.

Ao redor, o pub fazia seu trabalho habitual.

Gente bebendo para esquecer que precisava voltar para casa.

Casais se olhando como quem verifica se ainda existe alguma coisa ali.

Homens falando alto para parecerem importantes.

Mulheres rindo de coisas que provavelmente não tinham graça.

Garçons carregando copos.

Garrafas alinhadas.

Luzes baixas.

Música suficiente para impedir que o silêncio dissesse alguma coisa.

Era um lugar razoavelmente decadente.

Gostei.

A decadência, pelo menos, não costuma mentir.

Observei os rostos.

Todo mundo parecia estar tentando parecer alguma coisa.

Feliz.

Interessante.

Desejável.

Bem resolvido.

As imagens estavam por toda parte.

Nas paredes.

Nos copos.

Nas roupas.

Nas fotografias.

Nos telefones sobre as mesas.

Cada um carregava uma pequena propaganda de si mesmo.

Era curioso.

A espécie humana inventou espelhos e depois passou a acreditar neles.

Talvez seja por isso que eu goste tanto de observar pessoas quando elas não sabem que estão sendo observadas.

É quando a propaganda falha.

É quando aparece o sujeito.

Ou o que restou dele.

Ela continuou falando.

Eu continuei ouvindo.

Em algum momento percebi que aquela noite já não era sobre conhecer um pub.

Era sobre conhecer alguém além da pele.

E isso é perigoso.

A pele é uma excelente embalagem.

Esconde defeitos.

Esconde medos.

Esconde abandono.

Esconde pais ausentes.

Casamentos mortos.

Relacionamentos que transformaram carinho em controle.

Esconde quase tudo.

Até que alguém decide falar.

Então a embalagem começa a rasgar.

E você descobre que ninguém é exatamente aquilo que parece.

Nem eu.

Posso parecer um humano,
mas no fundo sou apenas notas inexoráveis,
hinos desconcertantes ao nascer do sol e muito silêncio
uma noção boba
um suspiro
uma emoção arrogante
eternidade em cativeiro, perpetuação irrepreensível
curvas, não uma única linha reta
uma contradição
uma contração tola, mas necessária
uma abstração
uma piada interna
uma risadinha sóbria
um enigma.

Talvez todos sejamos.

A diferença é que alguns aprenderam a esconder melhor.

Eu não tenho muita paciência para isso.

Nunca tive.

Talvez porque, depois de certa idade, você perceba que passar a vida inteira construindo uma imagem de si mesmo é uma maneira bastante sofisticada de morrer antes da hora.

Você começa tentando ser alguém.

Depois tenta parecer alguém.

Depois passa a defender essa aparência.

E, quando percebe, já não sabe mais onde termina o personagem e começa o sujeito.

Ela falava sobre o passado.

Eu pensava no meu.

Não havia muita diferença entre nós nesse ponto.

As histórias mudam.

A falta permanece.

Cada pessoa encontra uma maneira diferente de carregar aquilo que não recebeu.

Alguns bebem.

Alguns trabalham demais.

Alguns colecionam amantes.

Alguns colecionam dinheiro.

Alguns colecionam diplomas.

Alguns fazem discursos sobre felicidade.

Outros simplesmente ficam quietos.

Eu prefiro o silêncio.

Ele pelo menos não exige explicação.

Ficamos ali por algumas horas.

Duas pessoas tentando descobrir se havia alguma coisa além das apresentações.

Talvez houvesse.

Talvez não.

Não importa tanto.

Há encontros que não precisam terminar em romance para terem alguma importância.

Às vezes basta alguém enxergar você por alguns minutos sem pedir que você seja diferente.

Isso já é quase uma espécie de milagre.

Mas eu desconfio de milagres.

Eles costumam cobrar juros.

Quando saímos do pub, a noite continuava exatamente como antes.

A cidade não tinha aprendido nada.

As pessoas também não.

Os carros passavam.

As luzes continuavam acesas.

Alguém ria do outro lado da rua.

Alguém provavelmente chorava em algum apartamento.

Alguém estava começando um casamento.

Outro estava terminando.

Alguém dizia “eu te amo” sem saber o que aquilo significava.

Outro dizia “vai ficar tudo bem” sabendo perfeitamente que não ficaria.

E eu pensei que talvez essa fosse a grande piada.

A gente passa a vida procurando uma linha reta.

Não existe.

Existem curvas.

Desvios.

Contrações.

Recaídas.

Pequenos momentos de lucidez entre longos períodos de estupidez.

E, no meio disso tudo, chamamos a coisa de vida.

Talvez seja isso.

Uma contradição tentando respirar.

Uma emoção arrogante fingindo ter respostas.

Uma abstração andando por aí com documentos, contas, lembranças e alguma esperança mal escondida no bolso.

Uma piada interna que ninguém explicou.

Uma risadinha sóbria diante do absurdo.

Um enigma.

E talvez a parte mais amarga seja descobrir que não existe solução.

Só continuação.

A eternidade em cativeiro.

A perpetuação irrepreensível.

Você acorda.

Trabalha.

Ama mal.

É amado mal.

Perdoa quando consegue.

Machuca quando não consegue.

Bebe alguma coisa.

Escuta alguém contar uma história.

Conta a sua.

E segue.

Não porque encontrou sentido.

Mas porque, por alguma razão estúpida, ainda não acabou.

Talvez sejamos apenas isso.

Notas inexoráveis.

Alguns acordes desconcertantes ao nascer do sol.

Muito silêncio.

E uma vontade quase ridícula de continuar, mesmo sabendo que, no fim, ninguém saberá exatamente o que fomos.

Talvez nem nós.

E é aí que começa o verdadeiro problema.

Quando você finalmente fica sozinho, sem o pub, sem as imagens, sem os outros, sem a roupa social, sem a profissão, sem a história que conta sobre si mesmo, sem ninguém para confirmar que você existe...

quem sobra?

Talvez aquele seja o único encontro que realmente importa.

O resto é apenas barulho.

E talvez eu ainda esteja procurando um pub onde possa me encontrar.

“O passado não morreu. Ele apenas mudou de lugar: agora mora dentro de nós.”

— Juliana Hoffmann Liska

Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
De preferência num lugar onde o verão a denuncie, onde o espelho a encontre primeiro e a camisa jamais consiga mentir.
Escolha uma tinta resistente, dessas que sobrevivem ao sal, às madrugadas, e aos discursos que fazemos quando juramos ter seguido em frente.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
Depois viva.
Colecione cidades. Troque de mesa, de estação, de calendário.
Aprenda idiomas suficientes para dizer adeus sem parecer ferido.
Ainda assim, numa esquina qualquer da memória, o nome continuará ali, feito fronteira desenhada em mapa antigo.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
Há pessoas que partem.
Há pessoas que ficam.
E há aquelas mais perigosas: as que partem e ficam.
O tempo, esse cambista desonesto, troca paixão por distância, e distância por silêncio;
mas raramente devolve o valor exato das coisas.
Por isso alguns amores terminam como impérios:
não por falta de grandeza,
mas pelo excesso dela.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
Porque um dia você acordará sem lembrar daquela voz um pouco rouca por conta do cigarro,
sem lembrar do perfume,
sem lembrar dos cílios, das unhas longas,
e daquele cabelo com um desenho que parecia sempre mudar quando você olhava de novo.
Sem lembrar da última mentira
ou do último beijo.
Mas bastará a pele respirar sob a luz
para que a cicatriz leia em voz alta
aquilo que a memória finalmente havia aprendido a calar.
Descobrirá, tarde demais,
que tinta não guarda pessoas.
Guarda sentenças.
E não existe crueldade maior
do que transformar um corpo vivo
no túmulo de alguém
que continua respirando em outro peito.
Tatue o nome de alguém que você queira esquecer.
Então ame de novo.
Beije outras bocas.
Durma em camas onde nunca pronunciaram esse nome.
E, ainda assim, toda vez que alguém tocar exatamente aquele pedaço da sua pele, será ela quem responderá primeiro.
Porque certas loucuras
não são feitas para durar.
São feitas para durar em nós.
E a tatuagem,
essa jamais foi uma homenagem.
Foi a forma mais elegante
que o desespero encontrou
de nunca mais esquecer.
Depois viva.
Cruze fronteiras onde ninguém saiba pronunciar o nome dela.
Perca-se em estradas que terminam no mar.
Descubra que o pôr do sol muda de país, mas continua encontrando o mesmo pedaço da sua pele.
Haverá fotografias.
Numa delas você estará sem camisa, rindo em alguma praia do Uruguai, com a impressão de que finalmente venceu.
E ela talvez deslize o dedo pela tela, ache bonita a paisagem, inveje a liberdade daquele homem, sem perceber que a resposta para tudo o que viveram estava escrita no seu peito, naquela mesma fotografia.

(Ele literalmente tatuou o nome dela no peito)

Algumas tocarão a tatuagem com curiosidade.
— Quem foi?
Você acenderá outro cigarro, olhará a fumaça subir como quem assiste uma cidade desaparecer ao longe e responderá qualquer mentira suficientemente bonita.
Porque existem perguntas
que não merecem a verdade.
...
Então ame de novo.
E ame direito.
Cometa o erro de acreditar outra vez.
Deixe que outra boca percorra exatamente o lugar onde um dia você decidiu condenar a sua pele.
Talvez ela beije as letras sem saber que beija um fantasma.
Talvez diga que a tatuagem é bonita.
E nunca descubra que algumas obras de arte foram feitas no exato instante em que o artista perdeu a razão.
...
Porque certas loucuras não são feitas para durar.
São feitas para atravessar países, colecionar hotéis, sobreviver a novos corpos, a novas camas, a novos nomes.
Até que um dia você perceba a perversidade mais refinada do destino:
já não sente falta dela.

O meu auge não é um lugar onde eu chego. É o fogo que me consome e me reconstrói todos os dias. Eu não busco a perfeição do agora; eu sou a fúria constante de quem se recusa a caber no próprio passado.