Lar
NOSSO LAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Numa data longínqua, este mundo será de todo mundo. Será num tempo em que a vida se tornar um dom valorizado e os nossos olhos puderem nos levar muito além... Bem pra lá do que se olha sem ver.
É a lei da natureza, especialmente no que tange o ser humano: Só teremos aquela paz que transmitirmos como quem fertiliza o solo e põe a semente. Assim como todo mal que se faz, o bem que fazemos a quem quer que seja encontra um espelho eficiente onde se agiganta e volta para nós. Não é mágica nem religião. É uma realidade quase ou essencialmente científica, pronta para ser comprovada quando nos oferecermos de corações abertos... Cobaias felizes que só terão a ganhar, tornando a terra um planeta melhor.
Continuaremos a sonhar em vão com tudo isso, enquanto nossos sonhos forem voltados para os próprios egos. Estiverem pendentes em nossos pregos, nossas pendências e os caprichos que nos emperram na caminhada para o futuro que seria ideal.
Ainda creio no ser humano. Creio que lá na frente, bem na frente, a vida será por toda vida. Chegaremos ao ponto em que o mundo, mais do que a nossa casa, será nosso lar, quando aprendermos a ser irmãos.
EX-LAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma treva cavalga sobre as luzes frias
que refletem seu facho na ilusão dos olhos;
nas lacunas vazias que fazem saber
a verdade que ronda os limites da casa...
Belos móveis e quadros, paredes, enfeites,
boas fotos que mostram momentos vividos,
badulaques de vidro, copos de bom gosto
e vinagres; azeites; temperos; aromas...
Mas aquelas pessoas perderam a graça,
não há risos abertos, conversas floridas,
nem há vida nas vidas que jazem ali...
Dias nascem tão velhos das noites insones,
tanto sonho perdido na sombra e no vão;
na magia quebrada sobre o chão da casa...
LAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Cabe ao sonho tão somente
ser semente,
porém temos que ser chão.
Os amores que se prezam
não existem sem o fogo
da paixão.
E quem ama se permite
criar asa,
mas o chão está no ar.
Cabe à casa nada mais
que ser casa;
só nos resta ser um lar.
Salmo do Que Sobrou
Pai,
fui abandonado pelos que me chamavam de lar.
Fui traído pelas promessas que fiz a mim mesmo.
Chamei de amor aquilo que me devorava
e ainda assim ofereci o pão.
Me disseram:
homem que chora é fraco.
homem que parte, é culpado.
homem que sente, não serve.
Então calei.
Por anos calei.
Enterrei meu grito sob pneus e porcas,
numa oficina que cheirava mais a passado que a graxa.
Mas nem o barulho das engrenagens
conseguia abafar o ruído do que eu não dizia.
Na bancada, deixei as chaves.
Foi sem querer —
mas nada é por acaso quando o mundo está desabando.
Vi minha amada me olhar como um estranho.
Vi a verdade sobre meu filho me atravessar como espada.
Vi minha família me virar o rosto
como se eu fosse o próprio erro.
E eu?
Eu só queria um pouco de verdade,
um pouco de chão
onde meu coração coubesse.
Gritei para o céu,
mas só ouvi o eco da minha fé ferida.
“Pai… nas tuas mãos entrego o que sobrou de mim.”
Não era mais súplica.
Era rendição.
De mim restou apenas isso:
um suspiro com nome.
Um corpo em estilhaços
que ainda crê no vento.
Explodi por dentro.
Morri sem coroa.
Mas, como o meu Mestre,
fui enterrado na injustiça
e renasci no invisível.
Se até os anjos
merecem morrer,
quem sou eu para não cair?
E no entanto,
olha para mim —
ainda aqui.
Ainda verbo.
Ainda caminho.
Não vim para ser exemplo.
Vim para ser espelho.
Para que os que sofrem
saibam que a dor também
pode ser oração.
Este é o salmo do que sobrou.
Do homem que perdeu tudo,
menos a centelha que o fez de novo.
E se este corpo já não cabe na velha vida,
que seja templo
de uma fé que arde
sem pedir plateia.
Não foi em troca por um lar no paraíso e nem tão pouco por uma vida eterna, mas foi simplesmente por amor a ti Deus.
Hino de cura
Fazer do lar um ninho
Do amor, um caminho
Uma oração para a paz
Um afago que satisfaz
Um agora, inteiro e refeito
Sem nenhum preconceito
Água para lavar o passado
Flores para perfumar esse estado
De espírito.
Ressonância Noturna
Em meu lar, ressoa a voz, Do vizinho que não guarda o tempo. No silêncio, ecoam palavras, Que invadem, perturbam o momento.
Alugado o espaço onde vive, Enquanto o meu é minha morada. São pequenos e próximos lares, Mas a paz, por ele, é roubada.
O síndico espera por vozes, De outros que se sintam oprimidos. Mas os corajosos se foram, E o silêncio dos justos, vencidos.
Há noites em que o descanso reina, E noites que em vigília me encontro. O relógio, sem leis ou limites, Transforma em tormento o meu sono.
Buscar consolo na casa materna, Um lar que já não me pertence, Bagunçaria minha rotina, Em uma fuga que não convence.
É aqui que vivo, é aqui que insisto, Na luta por um pouco de paz. Pois cada eco, cada grito, É um apelo que não se desfaz.
Oração para a Benção da Casa
Deus Pai, de bondade e amor,
Pedimos que entre em nosso lar e abençoe todos os que aqui habitam. Afaste todo espírito mal-intencionado e envie seus amparadores para nos proteger e defender. Senhor, repreenda as forças que não contribuem para nossa evolução. Que esta casa seja preservada de roubos e assaltos, defendida contra incêndios e tempestades, e protegida de tudo que possa perturbar a paz das noites.
Que a sua proteção esteja presente, dia e noite, nesta casa, e que sua infinita bondade permeie os corações de todos os moradores. Que aqui reine a paz duradoura, a tranquilidade benfazeja e a caridade que une nossos corações.
Desejamos que a saúde, a compreensão e a alegria sejam permanentes neste lar. Que nunca falte o pão em nossa mesa, o alimento que energiza nosso corpo e fortalece nossos ânimos, para que possamos resolver todos os problemas, superar dificuldades e cumprir com as nossas obrigações diárias.
Que esta casa seja abençoada pela energia da Sagrada Família de Nazaré. Que assim seja, e assim se faça.
A criança vem ao mundo e vai ver durante algum tempo tudo sob o olhar dos pais. O lar é a escola mais importante da vida, e a formação do ser humano é ministério divino.
Os pensamentos dos tolos vagam tão longe de seu lar, que os mesmos não transformam a casa onde moram, seu paraíso temporário na terra, mesmo que aos poucos.
Frio
Não vejo chão! Não vejo paredes!
Cadê um braço para aconchegar minhas dores?
Sem lar! Sem ar! Afogado! Engasgado!
Sabem que sou gay! Acho que não sabem que sinto as mesmas dores que eles! Que derramo lágrimas quentes como eles! Que busco afeto como eles! Não sabem? Não enxergam? O frio da rua me anestesia! Meu único consolo! É que estou anestesiado com o frio da rua! Quantos como eu precisarão do frio da indiferença?
DESSE SENTIDO
Ser mãe é nascer de novo sem morrer, é sorrir com os olhos cansados, é ser o lar mesmo sem paredes, é amar sem medida e entender que o sentido da vida cabe inteiro no colo.
Seu lar não precisa ser um lugar. Não importa aonde você vai nem o que você faz. Quando você está com a pessoa que te ama do jeitinho que você é… está em casa.
Pai e mãe tomam o lugar de honra e felicidade, quando tornam seu lar o lugar da presença, da unção e do temor
a Deus.
