Janela
Viver é colecionar adeuses discretos. Nem todo fim tem trombetas, muitos se vão por uma janela fechada. Eu faço inventário desses pequenos fins, para não esquecê-los. Cada adeus me ensina a salvar pedaços para recomeços. E, mais uma vez, o coração vira caixa de sobras transformáveis.
A chuva hoje tocou a janela como quem pede licença para entrar. Dentro de mim há móveis que rangem com lembranças. As palavras saem mansamente, como se pedissem perdão. Às vezes penso que sou feito de corredores vazios. E nesses corredores ecoam os passos que um dia me ensinaram a voltar.
O vento traz nomes que o mundo esqueceu. Eles pousam na janela e demoram a sair. Eu os recolho como se fossem folhas importantes. Coloco-os no bolso e sigo caminho mais leve. Carregar nomes é forma de resistir ao esquecimento.
A memória é pássaro que pousa em qualquer janela. Quando pousa, canta e revela céu. Algumas músicas me levam a lugares que nem sei nomear. Elas nascem de saudade e terminam em consolo. E eu as coleciono como quem junta estrelas.
A depressão é como um nevoeiro que entra pela janela aberta e apaga as cores do jardim, deixando tudo com um tom de cinza-hospitalar que nos tira o apetite de viver. A gente aprende a tatear os móveis e a caminhar no escuro, esperando que o sol decida voltar das suas férias eternas.
Às vezes, o café esfria no balcão enquanto a gente assiste ao tempo passar pela janela, percebendo que a pressa do mundo é apenas uma tentativa desesperada de não encarar o fato de que a beleza real mora no que é lento, no que dói devagar e no que se cura sem alarde.
Eu conheço a melancolia pelo modo como ela acende as coisas simples: uma xícara, uma janela, um nome antigo, e tudo passa a doer com elegância.
A melancolia é uma janela aberta por dentro, o vento entra, desarruma tudo e, ainda assim, deixa o quarto menos morto.
A religião constrói as paredes e o teto para abrigar a fé, mas é o misticismo que abre as janelas para a imensidão do invisível.
Reno Fioraso
Tirei uma dúvida com a janela do meu quarto: além do bem-te-vi despertador de todo dia; da visita de um solitário beija-flor; e rota das maritacas, quando chego na janela não espanto a turma e não espantando, evidencia que existe empatia, solidariedade e amizade comigo também. Assim, pelo privilégio, a janela e eu ficamos felizes e confortados, pois a solidariedade é inimiga da solidão.
Entre um sol e outro
Já vi o sol saindo da escuridão por entre as nuvens da janela de um avião,
Já vi o crepúsculo com seus diversos tons avermelhados desaparecer do horizonte praiano,
E em nenhum destes fantásticos acontecimentos eu vi, porém eu senti você renascendo,
Sofro de tensas saudades, mais tenho a esperança de que está muito perto o nosso reencontro.
"No interior, o que mais me intriga é ver quanta gente espicha os olhos para a janela do vizinho, esquecendo-se de arrumar a bagunça no próprio quintal."
Livro aberto é janela a brilhar,
leva a gente pra longe, sem precisar viajar.
Tem aventura, sonho e emoção,
cada página é um mundo na palma da mão.
Quem lê descobre, imagina e cria,
faz do saber uma doce magia.
No livro mora um amigo fiel,
que ensina a voar sem sair do papel.
Existem histórias
Ela chega como luz de fim de tarde,
dessas que atravessam a janela
sem pedir licença
e mudam o clima do dia inteiro.
Nos olhos, mora um silêncio bonito,
daqueles que não afastam,
aproximam.
Um mistério calmo,
que dá vontade de ficar.
O sorriso não grita,
ele sussurra.
E nesse sussurro
existe aconchego,
existem histórias que ainda não foram contadas.
Ela é dessas presenças raras:
não precisa chamar atenção —
ela simplesmente acontece.
E quem vê, sente.
''A Utopia Dispersa''
Ao decorrer da estrada,
olho mundo através da janela do carro,
bate uma brisa fria,
o tempo passa,
e eu continuo na estrada,
vejo pessoas felizes,
vejo outros carros e casas.
Sem querer cochilo,
e quando me dou conta já está a noite
e ainda não cheguei em casa,
der repente começa a chover
e um vento forte vem e minha cara,
fecho a janela,
e abro meus olhos,
tudo aquilo foi um sonho,
apenas um sonho e mais nada.
Como o vento a entrar pela janela.
"A Beleza da vida
É o Sol lá no céu
Numa noite de chuva
É saber sentir
Quando não houver
Sentido e nem valor
O que vale na vida é o amor
Amar é enxergar a beleza
E sentir o seu sabor
Na água da chuva que cai
Na beleza da noite
É olhar-se no espelho
Poder ver a sorte
Pela imagem refletida
Ser somente uma ilusão
Por mais bela ela seja
Pois a imagem verdadeira
É o Sol no céu
Numa mente que o veja
E que sejam todos nossos sonhos
Bem assim
Como o Sol que brilha
A beleza na vida é o olhar que trilha
Confiante
Encarar de frente a todas as vicissitudes
Como quem sorri perante o espelho
E entender que o velho Sol é também uma ilusão
Como a chuva que se torna tempestade
O que vale na vida é o amor
Que se vai, que voa e que evapora
E que volta maior quando retorna e que te invade
Como o vento pela janela
No momento em que transforma a brasa em chama
E a chama da vela em nada
Nada além de uma vela apagada
E teu quarto em escuro
Era tudo o tempo todo uma questão de proporção
Pense, que o futuro continua a pertencer a Deus
Apesar de tua ilusão ao olhar pro espelho
Pois, em toda tempestade que cair
O Sol vai estar brilhando lá no céu
Talvez leve algum tempo pra entender
Que a beleza mora lá no olhar
Que sorri quando chora e está aqui
Mas que olha e não vê. "
Edson Ricardo Paiva.
1742
"Acordei com um corrupião (Icterus jamacaii) à minha janela. Veio em busca de frutos. Estou achando que é o mesmo que eu livrei de uma gaiola, quando tinha sete anos. Quando EU tinha sete anos. Isso é possível?"
Corri para a janela
à espera do sol,
Uma distração
para não concentrar
a minha mente
nos teus olhos lindos,
como um jeito de tentar.
Desejei boa semana
e saí para passear,
mas com você
no coração de um jeito
que não vai passar,
Comecei a me apaixonar,
não faço a menor
ideia no que irá dar.
Só sei que comecei
a me apaixonar,
e você também tem
me visto por todo o lugar.
Disparei as fotos pela
janela da memória,
Desci para verificar e pisar
sobre o que restou da péssima História.
Recorrerei ao descarte
sempre que for necessário,
Para proteger o sonho e não permitir
ter um coração desiludido.
A rua em que me encontro não é meu destino.
Um beija-flor passou
na janela,
Foi você que desejou
um bom dia,
Mistério de amor
que chegou
para me fazer sacodida.
