Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
AQUELE AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca mais repeti aquele amor
que me dava mais forças pra viver,
um torpor que acendia o corpo inteiro
e fazia sonhar com tudo eterno...
Fui feliz; de sentir que atĂ© doĂa;
de querer duvidar por precaução,
mas a minha emoção gritava forte
pra deixar a loucura ser maior...
Um amor que me deu raiz e chuva,
chĂŁo e sol pra florir e vingar fruto,
fez da uva o meu vinho precioso...
Foi a minha ilusĂŁo bem verdadeira,
minha beira de abismo rumo ao céu
que só pude alcançar naquele amor...
AQUELE AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca mais repeti aquele amor
que me dava mais forças pra viver,
um torpor que acendia o corpo inteiro
e fazia sonhar com tudo eterno...
Fui feliz; de sentir que atĂ© doĂa;
de querer duvidar por precaução,
mas a minha emoção gritava forte
pra deixar a loucura ser maior...
Um amor que me deu raiz e chuva,
chĂŁo e sol pra florir e vingar fruto,
fez da uva o meu vinho precioso...
Foi a minha ilusĂŁo bem verdadeira,
minha beira de abismo rumo ao céu
que só pude alcançar naquele amor...
AMOR EPITELIAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Eu amei o teu corpo e teu amor,
meu poder sobre as tuas sensaçÔes,
foste a flor no Saara dos instintos
duma longa estiagem no meu brio...
Eu me amei no reflexo da estima
que acordou entre a pele provocada;
na menina que deu ao meu outono
um atalho que nada presumira...
NĂŁo te amei como a febre fez sentir,
mas bebi a loucura de que amei,
pela força dos poros encharcados...
Eu te amei como eco da mentira
com que sei que me amaste quando a vida
foi a lira da minha solidĂŁo...
AMOR DE MARMITA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Desisti desse amor que se come por dentro;
nĂŁo faz mal, nĂŁo faz bem, apenas tanto faz;
tem a paz doentia de manter silĂȘncio,
pois não tem mais remédio; só se remedia...
Um amor que se leva requentado a esmo,
remendando a paixĂŁo que perdeu seu tecido,
virou cinza e mornura que o vento digere
sob o tempo perdido em esforços baldios...
Se nĂŁo largo esse osso, nĂŁo sei explicar;
mas me canso do mar que nĂŁo tem horizonte
ou do céu, que no fundo, é meu fundo do poço...
JĂĄ nĂŁo quero comer esse amor de marmita,
como quem se conforma, nĂŁo tem outro jeito,
come feito quem come sem fome ou sabor...
O TEMPO DO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Aproxima-se a passos largos, o tempo em que nĂŁo haverĂĄ rĂłtulos ou nominatas para relaçÔes afetivas, sejam elas quais forem. Gays, trans, hĂ©teros, bis e outras afirmaçÔes de gĂȘnero serĂŁo coisas do passado. Coisas, mesmo. E do passado, realmente.
Nesse tempo, serå simplesmente uma questão de amor. Nascerå o império do amor sem logomarca. Da liberdade responsåvel, porém sem dogmas, do ser humano que gosta do ser humano. Que ama o ser humano... faz amor com o ser humano.
A LEI DO AMOR AO AMOR DO PRĂXIMO
DemĂ©trio Sena, MagĂ© â RJ.
Desconsideremos o pecado amoroso em sentimento. Ele não descumpre a lei do ato. A constituição dos feitos terminais. Da mesma forma, desconsideremos esse pecado em pensamento; em fantasias; em confissÔes meramente gestuais, ao sabermos que só teremos respostas também gestuais. Devidamente veladas e gestuais.
NĂŁo nos culpemos pela constatação de nossa humanidade. Do nosso poder de amar e sentir desejo alĂ©m das grades e permissĂ”es sociais. Isso nĂŁo Ă© fraqueza. Ă realmente poder. Ă a constatação da força de nossa existĂȘncia sobre todos os dogmas sociais, quiçå divinos â para quem crĂȘ no divino â ou da natureza em um todo.
A preocupação com o prĂłximo nos recompensa com as confortĂĄveis migalhas remotas. E nĂŁo precisamos â nem devemos â ter drama de consciĂȘncia por usufruirmos dessas migalhas que nĂŁo causarĂŁo sofrimentos. O direito ao pecado platĂŽnico Ă© a brecha piedosa da lei do amor ao prĂłximo. E do amor pelo amor do prĂłximo.
AMOR PROIBIDO
DemĂ©trio Sena, MagĂ© â RJ.
Sei que nunca entendeste o gostar despojado,
minha fila de olhares e gestos contidos,
a canção do silĂȘncio que vai nas palavras
entre tons comedidos pra conter deslizes...
Nunca tive projetos de me projetar
nessas ĂĄguas que avisam sobre seu perigo,
fecho tudo comigo e sei me dar sem troco
e me sinto feliz, apesar de nĂŁo ser...
Sempre fui esse fruto que nĂŁo colherĂĄs,
mas respeito a recusa, quase te agradeço,
quero a paz de te amar sem temer o pior...
SĂł me deixes fingir que te sinto querer,
que nĂŁo vais me morder, mas teu olhar me lambe
sem o risco formal de machucar o mundo...
FANATISMO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A distĂąncia do prĂłximo se alarga,
pelo amor de matéria duvidosa;
pela carga de raiva dos opostos
ou da rosa dos ventos adversos...
Ninguém ama e respeita os diferentes;
preconceito Ă© bandeira dos covardes;
rangem dentes os donos da verdade
mal forjada nos templos da mentira...
Quem confunde moral com moralismo,
tem a fé como ferro de ferir,
jĂĄ morreu de mesmismo sem vacina...
Se lhes cabe algum céu é o céu da boca
duma noite sem lua e sequer céu;
fanatismo jĂĄ Ă© o prĂłprio inferno...
Amor Ă vida
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Levo a cabo,
acabo
o que começo.
Sempre luto
pra que o luto
nĂŁo perdure.
Minha testa
sĂł atesta
o que sou.
Eu contesto
com texto,
preguiça
de viver.
Tenho tudo
que tudo
me reserva,
porque nada
nada
em mar de rosas.
Sei que sei
bem menos
do que penso
que sei que sei,
tenho medo
Ă© do medo
de saber.
E tenho a paz
como pĂĄs
pra enterrar
o mau humor.
Meu amor
pela vida
cata espinhos.
Mas logo rio
do rio
de lĂĄgrimas
que choro.
Trago a flor
Ă flor
de cada poro.
SĂ UM CONTO QUASE DE AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Durante anos e anos, em todos os reencontros ocasionados sempre por ele, depois de longos afastamentos, ela dizia que o amava. Com todas as forças do seu ser. Toda sua verdade. Parecia mesmo que ela o amava, pela comoção demonstrada; os abraços desmedidos; a multiplicação das mãos; os beijos que não escolhiam quais partes do corpo.
Eles eram amigos Ăntimos; muito Ăntimos. Deitavam juntos inteiramente nus; se acariciavam sem fazer sexo; frequentavam campos, recantos e cachoeiras desertas, onde mais pareciam no jardim do Ăden. Trocavam juras de amizade perpĂ©tua, sempre assim: sem permitirem que um romance pusesse tudo a perder. Que as nominatas e os arremates fĂsicos os tornassem proibidos, porque ambos jĂĄ tinham em separado, perante a sociedade, nominatas formais incompatĂveis com quaisquer outras.
Um dia, ela não reconheceu sua voz numa ligação telefÎnica. E quando ele se anunciou, disse que lå não havia ninguém com aquele nome; portanto, era engano. Certo de que o engano era seu, e de muitos anos, o velho amigo desligou o aparelho e seguiu sem fazer queixumes.
Bem vivido, com uma larga experiĂȘncia de mundo e formado em seres humanos pela escola do tempo, aquele homem sobreviveu ao baque. NĂŁo a culpou e compreendeu que a grande amiga se rendera finalmente Ă s nominatas, mesmo sem os arremates. Fora convertida pela sociedade sempre correta, imaculada, religiosa e defensora de nomes.
AMOR Ă PARTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Fui Ă Ășltima instĂąncia de crer nos teus olhos
e de crer nos meus olhos como tua crença,
minha imensa esperança num afeto extremo
sem a mancha do medo nem da precaução...
Quis viver algo Ă parte, uma lenda sem fraude,
um amor com poder sobre todos os mais,
pela paz da nĂŁo jura e do nĂŁo compromisso
nem do certificado de laço exclusivo...
Inventei uma troca de silĂȘncios fĂ©rteis
entre jogos de olhares que diziam tanto
ao encanto exclusivo de gestos secretos...
Só queria te amar sem trair convençÔes
ou ferir coraçÔes com raĂzes no meu
que nĂŁo tem o direito de roubar o chĂŁo...
AMOR DE FESTIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Eram tĂŁo exaltados
o teu amor de festim,
a tua louvação,
que hoje nĂŁo nego:
conquistaste meu ego;
não o meu coração.
AMOR
DemĂ©trio Sena, MagĂ© â RJ.
O amor nĂŁo Ă©
um bem de compra,
troca e reclame...
jamais me ame âtambĂ©mâ...
ou simplesmente
me ame...
ARQUIVO MORTO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um amor que nĂŁo sei com quem usar,
porque jĂĄ me cansou essa procura,
feito cura que agora me adoece
de sem dor e sem dar o que acumulo...
Quero alguém que meus olhos possam ver
dentro e fora, por todas as vertentes;
desde os dentes a todos os sentidos,
para ter uma histĂłria bem escrita...
Tenho amor nos meus poros, nos meus eixos,
na minhÂŽalma e na caixa do meu peito,
neste jeito que até me desabona...
Mas nĂŁo tenho a quem ter e ter certeza
de que valem as penas de uma troca;
cada riso e tristeza de uma vida...
AMOR ENGANOSO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Houve quem me fizesse descrer nesse amor
que se jura e confessa com fogo nos olhos,
vem na flor dos sentidos e grita no corpo
feito alma de fora; coração exposto...
AlguĂ©m veio e desfez o paraĂso em mim,
trouxe o fruto enganoso e me fez devorar,
pra no fim da ilusĂŁo me diluir no caos
desta paz fria e triste que secou meu chĂŁo...
Tive quem atestasse que tudo Ă© mentira,
mesmo quando é verdade que o låbio supÔe
aos ouvidos carentes da certeza incerta...
Foste o sonho que veio pra me despertar
e saber que o amor sĂł foi pena cumprida;
minha vida estĂĄ livre desse desengano...
O AMOR COMO CIDADANIA
DemĂ©trio Sena, MagĂ© â RJ.
Apregoa-se aos quatro ventos a velha e boa tolerĂąncia, porque isso jĂĄ Ă© alguma coisa para que se garanta um convĂvio socialmente aceitĂĄvel, seja na famĂlia ou na sociedade externa. E tambĂ©m porque o amor, embora seja um mandamento e uma prerrogativa de convivĂȘncia pacĂfica e saudĂĄvel, nĂŁo Ă© um dispositivo que atende naturalmente ao frio comando religioso, jurĂdico e social dos mandamentos, leis e prerrogativas.
Mesmo assim, que o genĂ©rico seja estabelecido. Que as pessoas ao menos se tolerem como sinĂŽnimo improvisado e transversal de amar. Um dever cĂvico de assegurar a paz, por tratado e assinatura. Façam o bem ao prĂłximo ou pelo menos nĂŁo façam o mal, mesmo que seja sĂł por obediĂȘncia; interesse religioso; temor da lei do retorno. O que nĂŁo Ă© de livre natureza e precisa existir para sobrevivĂȘncia do ser humano, tem realmente que ser lei; mandamento; engenho de convivĂȘncia social.
NinguĂ©m precisa ter drama de consciĂȘncia por nĂŁo amar a quem acha que deveria. Nem por amar menos; ter sua preferĂȘncia entre duas ou mais pessoas que merecem o mesmo sentimento; na mesma medida. Forçar afetos, treinar emoçÔes, traçar metas sentimentais nĂŁo tem como funcionar. Neste caso, estabeleça dentro de si o bom senso; a imparcialidade; a razĂŁo que lhe garanta o senso de justiça quando precisar decidir sobre o que fazer numa bifurcação de cunho social ou familiar.
Responsabilidade jĂĄ Ă© quase amor. NĂŁo substitui, mas recapeia. Remenda. E se vocĂȘ nĂŁo tem amor, mas tem bom carĂĄter, tudo se resolve bem a contento, pois o bom carĂĄter sempre garantirĂĄ suas boas escolhas. O seu perfeito juĂzo para tolerar; entender; ter consciĂȘncia; usar a prĂłpria razĂŁo atĂ© para dar ou nĂŁo razĂŁo, sem cometer injustiça. No fim das contas, tudo se mistura de modo a ser amor. Ainda que por cidadania.
CIDADĂO DO MUNDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ser humilde, mas nunca ser ovelha;
ter amor sem perder o prĂłprio brio;
concordar, discordar sem me trair,
sem cair nas amarras dos mandantes...
Tenho lado, partido, às vezes crença,
mas me livro, descarto e digo basta,
quando menos se pensa em meu poder
de pensar e sentir por conta prĂłpria...
Quero ser o que sou, mas no caminho,
posso estar, trocar pele, até conceitos,
deixar ninho e voltar se assim quiser...
Sei rasgar os padrÔes e os uniformes;
desmentir os informes, as cartilhas
da direita, da esquerda e do volver...
LIRA FUGAZ
DemĂ©trio Sena, MagĂ© â RJ.
Dei amor sem amar; isso teve o seu preço;
entreguei um vazio que forjou essĂȘncia;
tive tua fé cega num guia de gesso,
pela funda ilusĂŁo de vencer a carĂȘncia...
O que fui para ti foi um caso de urgĂȘncia;
fui ficando, e depois, me tornei endereço;
me deixei dominar ou cedi Ă dormĂȘncia
e meu fundo sem alma se deixou do avesso...
Dei assim, sem doar, o melhor dos empenhos;
os carinhos e beijos foram meus engenhos
de levar uma vida que julguei a dois...
Mesmo assim fui sincero na minha mentira,
na canção passageira da qual foste lira,
mas mostrou, desde antes, nĂŁo haver depois...
PARA NOVAS SAUDADES
DemĂ©trio Sena, MagĂ© â RJ.
Outra peça de amor serå bem vinda
numa vida que agora estĂĄ vazia;
uma farsa bem doce, aconchegante,
fantasia de todos os desvelos...
Outro alguém pra fingir que bem me quer,
ser capaz de qualquer desdobramento
pra sarar minhas mĂĄgoas com carĂcias;
bons momentos de falsa eternidade...
JĂĄ me cansam sinceros bons humores,
os amores azedos de franqueza
de quem faz o dueto ser duelo...
Quero a luz da ribalta passional;
emoçÔes, alegrias de festim,
mais um fim de saudosas ilusÔes...
AMOR INCONFESSĂVEL
DemĂ©trio Sena, MagĂ© â RJ.
Subfalo do amor inconfessĂĄvel
num silĂȘncio de voz subliminar,
tenho medo e por isto subcalo
tudo em mim que flutua sobre nĂłs...
Relutando em meu ser te subquero
com a força incontida que contenho,
subespero a resposta que nĂŁo hĂĄ
e me fecho na minha subvida...
Meu amor se acomoda em subter
teu olhar de viés e sub afeto,
veto exposto num tom de permissĂŁo...
Subfujo em usar subterfĂșgios
nas paixĂ”es onde penso achar exĂlios
ou refĂșgios nos quais me sub oculto...
ABRAĂADO Ă SOLIDĂO
DemĂ©trio Sena, MagĂ© â RJ.
à assim que te amo; sem ação;
deixo minhas palavras ancoradas,
pois o meu coração é cais distante
onde guardo incertezas e temores...
Eu te quero com tanto nĂŁo querer,
sonho tanto e com tanto nĂŁo dormir,
que nem sinto sentir essa mordaça
em meus lĂĄbios; na lĂngua dos meus olhos...
Estou sempre abraçado à solidão
deste amor cujo eco nĂŁo existe;
sĂł a triste mudez correspondida...
Sendo assim que te amo sou segredo
que a coragem do medo perpetua
sob a lua de nossa improbidade...
