Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
E entĂŁo, jĂĄ havia acontecido tanta coisa. CaĂdo no fundo do poço, discutido com o vento, retornado do alĂ©m do tempo, aberto um frasco de saudade, chorado para nĂŁo se afogar. Tudo isso, coisas que de fato pareciam ser o ideal ou os ideais. NĂŁo havia muito mais a se fazer. Era uma guerra contra vocĂȘ, e no meio de um tiroteio a Ășnica alternativa era sair com os braços para cima, correndo para ser destrinchado ao seu lado.
Estou recluso, distante de pessoas e com poucas coisas. Sei bem o valor que os mais prĂłximos possuem. Apenas me completam, animam e me fazem prosseguir. O caminho Ă© meu, mas as marcas trilhadas nĂŁo pertencem somente a mim. Confesso que enquanto admiro alguns de coração, gostaria de sair por ai despedaçando outros ou sei lĂĄ, mostrar para cada imbecil o quanto valemos Ă pena e que pessoas sĂŁo Ășnicas. Mas infelizmente, apenas existimos enquanto alguĂ©m precisa de nĂłs.
A folha de papel insistia em ficar vazia, nĂŁo existiam palavras para descrever o irretratĂĄvel. Pior era com a vida, tudo fragmentado, indeciso, um novo dia que precisava ser consolado ou sentido. Era quase uma certeza, procurar por alguĂ©m, entender por alguĂ©m. Mas nĂŁo era o suficiente, o mosaico era eu e as cinco mil peças de dĂșvidas eram minhas. Queria que estivesse aqui, mesmo nĂŁo estando. E isso nem Ă© algo tĂŁo bom assim. Vivo do indizĂvel, do inimaginĂĄvel, insistindo em bater na mesma porta que nĂŁo se abre nunca.
Gosto de olhar as coisas com cautela, por mais que as dĂșvidas pareçam sufocar. Ă extraordinĂĄrio isso, o completo nunca Ă© por si sĂł aquilo que esperamos. Todos os julgamentos caem diante do desespero de um eco silencioso, cuja autoestima Ă© como um coma. Minhas emoçÔes sĂŁo semelhantes Ă um cubo mĂĄgico e somente quem Ă© sĂłbrio o suficiente entende que as peças nĂŁo se encaixam, mas faltam cores numa escala cinza e branca irretratĂĄvel. Tenho medo de mim, que o amor nĂŁo esteja Ă quilĂŽmetros de distĂąncia, mas Ă quilĂŽmetros do meu peito. Ă assim mesmo, quanto mais o tempo passa, mais os defeitos se tornam uma estupidez e as expectativas criam um cĂąncer difĂcil de ser curado.
Não despeje dor em quem não se importa, por mais que isso pareça inexplicåvel. Todos carregam essas poças de medo onde pisam e acabam afundando na própria desgraça. Seus bons olhos podem compartilhar a felicidade, mas por que não devem compartilhar a tristeza? Cuidado ao se afogar sozinho, tudo que é guardado para si apodrece com o tempo. Explique-se com calma, sem chutes nem socos. à inegåvel que certas coisas doem pra caramba, mas sempre existe alguém disposto a desatar parte dos nós existenciais, jogando os cacos de agonia cortantes na lixeira.
A triste verdade Ă© que todo mundo Ă© egoĂsta, por mais insensato que isso pareça, as pessoas sĂŁo egocĂȘntricas. Geralmente por desejar bem-estar ou prazer, Ă s vezes apenas para conservar a sua existĂȘncia. Ă um fato e por mais que alguĂ©m negue, lĂĄ no fundo do poço existe um narcisista desesperado querendo salvar a si mesmo. Mas Ă© aĂ que muitos se enganam, sabe por quĂȘ? As fichas sempre caem e nem tudo Ă© movido por algo banal. Eu mesmo jĂĄ optei por conhecer as cartas do jogo sem ninguĂ©m suspeitar. Pelo menos uma vez na vida o egoĂsmo Ă© aquilo que move o ser humano atĂ© determinado objetivo, aceite esse fato. Ă inegĂĄvel. A maioria pode atĂ© entrar em colapso, ficar de mau humor, possuir Ăłdio e ira ao compreender o inevitĂĄvel, mas a triste realidade Ă© que todos nĂłs estamos doentes e aprisionados na mesma quarentena.
Somente quem se decepcionou sabe que a verdade nĂŁo Ă© apenas um drama, mas um tiro de calibre .12 que atravessou o peito deixando marcas irreversĂveis. Pior ainda Ă© quando a pessoa procura diante da vida os estilhaços de ilusĂŁo. LĂĄ contĂ©m todo tipo de porcaria: solidĂŁo, autoestima baixa, angĂșstia e negação. E Ă© a partir desses cacos que ela tenta encaixar os pedaços e regenerar o que sobrou.
AmanhĂŁ Ă© um novo dia, e eu gostaria de congelar o tempo, inexistir por um pequeno momento. NĂŁo exatamente deixar de viver, mas mudar a rotina e sair das regras entediantes. Que aquilo que se ama pudesse ser feito em vez das obrigaçÔes, sem a necessidade de sofrer tanto por algo. E tudo bem, eu gostaria de alguĂ©m ao meu lado. Sinto-me vazio nessa questĂŁo de amar, sem dar nada de mim mesmo. Queria vocĂȘ aqui me abraçando, com o calor do corpo de fato. Esta noite, eu prefiro que as palavras saiam da sua boca e nĂŁo de um livro sussurrando na minha mente.
â Sua peste.
â O que eu fiz?
â Algo.
â Ta.
â Mas nĂŁo quer nem saber?
â NĂŁo. Eu vou fingir que nĂŁo.
â Certo.
â Bobo. E o que serĂĄ de nĂłs?
â Algo.
â Algo?
â Algo!
â Ok.
â Beleza.
â E se vocĂȘ esfriar me avisa? NĂŁo quero bancar a ridĂcula.
â Claro. NĂŁo terei saĂda.
â Ătimo. E por quĂȘ?
â Porque se eu esfriar, provavelmente estarei precisando de vocĂȘ pra me aquecer.
Falar Ă© fĂĄcil, difĂcil Ă© ouvir. Somente quem se sente aprisionado sabe que a vitalidade se despedaça igual uma peça de porcelana. A solidĂŁo, a futilidade, o fracasso, o anonimato, Ă© tĂŁo, tĂŁo grande que chega a ser insuportĂĄvel. Vivemos numa caixa de vidro mental e fĂsica. Um sistema com permissĂ”es, normas e aceitação que molda tudo aquilo que nĂŁo Ă© dito e que caso se rebele, se torna apenas outra estatĂstica num mundo que nĂŁo irĂĄ parar para consertar o seu coração. Ao ler estas linhas, qual o tamanho da sua jaula? Cinquenta metros, cinquenta quilĂŽmetros, alguns centĂmetros? A limitação da sua mente? Ă isso? Uma caixa de Pandora que liberta de tudo, medos, tristeza, guerras, desprezo, menos a capacidade de ouvir. Cuidado com isso, ainda faltam alguns itens para saĂrem da imaginação. O que acontece quando vocĂȘ abre essa caixa e a esperança nĂŁo estĂĄ mais lĂĄ? Oras meu caro, a resposta Ă© simples, a vida termina e nĂŁo existe uma passagem de volta. Ă uma longa viagem num campo minado onde vocĂȘ caminha tentando sobreviver, ou melhor, apenas existir. Pontes deveriam ser uma bela travessia para admirar a paisagem, nĂŁo um cemitĂ©rio. Imagino a quantidade de pessoas que se sentem atordoadas, vazias, levando porradas da vida diariamente e aguentando para prosseguir atĂ© a luz do fim do tĂșnel, uma luz que na verdade estĂĄ apagada hĂĄ muito tempo por falta de manutenção: aquele cuidado com o tesouro mais precioso que alguĂ©m poderia possuir.
Nada neste mundo Ă© permanente. As pessoas se vĂŁo, as verdades mentem, o cafĂ© esfria e os pensamentos mudam. Somente quem joga pilhas de rosas aos prĂłprios pĂ©s conhece a realidade sufocante de tentar renascer sem estar morto. Em algum momento, começamos a limpar a consciĂȘncia e tentamos enterrar o remorso. Se for preciso, eu acendo um fĂłsforo e queimo minhas memĂłrias Ă base de gasolina. Se for preciso, eu faço de tudo pra me livrar da tristeza de lembrar de alguĂ©m. Se for preciso, eu liberto meus amores da forma mais banal possĂvel. Simples assim. SĂł por paz, sĂł por liberdade.
Aos poucos o tempo vai acalmando as tempestades e curando as cicatrizes, deixando para lĂĄ quem nĂŁo te acrescenta nada mais. Com o passar dos anos a noite se torna o novo dia e vocĂȘ aprende que a existĂȘncia nĂŁo se mede em relĂłgios, mas com quanta coragem fomos capazes de entregar nossa vida a alguĂ©m. Amor Ă© assim, vocĂȘ entrega seu coração, seu ombro amigo e alguns abraços em troca de algo, mas algo que nem mesmo os julgamentos e as expectativas poderiam prever. E aĂ meu amigo, vocĂȘ chegou num beco quase sem saĂda. Aquilo que parecia ser eterno nĂŁo dura e quem parecia ser o nosso mundo se torna um fim de nada. Aprenda a deixar ir, nĂŁo precisa esquecer, apenas saiba que quando decidem nos amar, talvez seja tarde demais. Quando precisam de nĂłs, talvez nĂŁo estejamos disponĂveis para se doar. Quando resolvem nos entender, talvez nĂŁo existam motivos para continuar. E desta forma, a vida mostra seu jeito estranho de ser, provando que quando falam com nĂłs, talvez nĂŁo sejamos capazes de ouvir. Ă aquela velha histĂłria onde aqui se faz e aqui se paga, e que nenhum piscar de olhos devolve um sorriso que se transformou numa decepção.
Um dia alĂ©m do dia, vocĂȘ entende que as pessoas conquistadas valem mais do que todos os bens perdidos e que mudanças sĂŁo inevitĂĄveis quando descobrimos que a vida exige coragem. Estar sĂł nĂŁo significa nĂŁo amar a si mesmo, pois a solidĂŁo monĂłtona nĂŁo cabe numa Ășnica palavra. Um dia vocĂȘ entende que pode chover mais dentro de si do que numa tempestade lĂĄ fora e que nĂŁo importa com quantas lĂĄgrimas vocĂȘ foi capaz de se reerguer, mas com quantas decepçÔes vocĂȘ aprendeu a cair. Com o passar dos anos o seu corpo torna-se um refĂșgio e vocĂȘ descobre que as pessoas nĂŁo sĂŁo a sua pele, mas a cegueira da ignorĂąncia. Ame o que vocĂȘ possui nas piores situaçÔes, isso lhe ensinarĂĄ sobre algo que o mundo nunca poderĂĄ lhe tirar, a sua esperança. Creia em algo, mesmo que seja em alguĂ©m, na arte, na escrita, na dança ou na vida. Nada vem de graça e o preço pode ser alto demais. Esteja disposto a pagar caro pelas pessoas que vocĂȘ possui. Companhia, amor e lealdade nĂŁo se encontram na lata de lixo da prĂłxima esquina da vida. Geralmente alguĂ©m tenta apanhĂĄ-las para ficar na melhor, quando na verdade o melhor Ă© disputado e alguĂ©m sai ferido. Tiros de sinceridade nĂŁo sĂŁo para qualquer um. A munição Ă© rara e os apoios pra lĂĄ de escassos. Amizades verdadeiras nĂŁo crescem a longas distĂąncias, mas florescem dentro do peito e aguardam atĂ© a prĂłxima primavera voltar. E de estação em estação, tudo termina, atĂ© que o tempo que lhe foi dado vire pĂł num adeus eterno.
Ame o que vocĂȘ possui nas piores situaçÔes, isso lhe ensinarĂĄ sobre algo que o mundo nunca poderĂĄ lhe tirar, a sua esperança.
â VocĂȘ escreve tudo de forma tĂŁo poĂ©tica.
â Talvez porque nĂŁo eu tenha outra forma de sentir.
