Seus olhos. Antes mesmo de entender o... Gabriel Parice Lopes

seus olhos.


Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, eu já tinha encontrado alguma coisa nos olhos dela que não sabia explicar. Eu falava dos olhos porque era a maneira mais fácil de falar do que acontecia comigo quando olhava para ela. Pareciam ter profundidade suficiente para esconder tudo aquilo que eu não conseguia dizer. E talvez fosse exatamente por isso que eu gostasse tanto de mergulhar neles.


Porque havia dias em que o mundo parecia fundo demais.


As coisas lá fora tinham aquele peso que a gente tenta fingir que não sente. A vida seguia, as pessoas continuavam falando, os dias continuavam passando, mas existiam momentos em que tudo parecia difícil de levar. E então eu encontrava aqueles olhos.


Era como cair no mar sem ter medo de afundar.


Eu não precisava saber nadar. Não precisava saber para onde estava indo. Bastava entrar.


Talvez seja isso que algumas pessoas fazem com a gente. Elas não resolvem necessariamente aquilo que está quebrado, não apagam os problemas, não tornam o mundo mais fácil. Elas apenas conseguem fazer com que, por alguns instantes, a gente não precise lutar contra ele.


Ela era esse intervalo.


Eu podia passar horas tentando organizar dentro de mim aquilo que não tinha nome e, ainda assim, bastava olhar para ela para alguma coisa se aquietar. Havia um tipo de silêncio naqueles olhos que não era vazio. Era abrigo. Um lugar onde eu podia deixar todas as coisas que carregava sem precisar explicar por que elas pesavam tanto.


E talvez eu tenha amado também essa sensação.


A de ser recebido por alguém sem precisar chegar inteiro.


Eu acreditava que amar era isso: oferecer alguma coisa de si e perceber que, de alguma forma, aquilo também fazia o outro respirar melhor. Cada gesto pequeno parecia carregar uma energia que não precisava ser anunciada. Um cuidado aqui, uma presença ali, uma tentativa de estar perto quando o mundo ficava difícil. Como se amar fosse construir, aos poucos, um lugar onde dois poderiam descansar.


E eu queria ser esse lugar para ela também.


Talvez por isso a distância sempre tenha parecido tão cruel. Porque quando alguém se transforma em refúgio, a ausência deixa de ser simplesmente ausência. Ela começa a parecer uma porta fechada para um lugar onde você costumava conseguir respirar.


E ainda havia a saudade.


Aquela espécie de presença que continua existindo mesmo quando a pessoa não está. As lembranças permanecem vibrantes, ocupando espaços inesperados, aparecendo no meio de uma música, de uma noite, de um pensamento qualquer. Você percebe que algumas pessoas conseguem permanecer dentro da gente mesmo quando já não estão ao nosso lado.


Foi assim que ela ficou em mim.


Não como uma foto parada no passado, mas como uma paisagem que ainda aparece quando fecho os olhos.


E talvez seja por isso que aquela imagem do mar sempre tenha feito tanto sentido.


Porque eu não mergulhava apenas nos olhos dela.


Eu mergulhava naquilo que sentia quando estava ali.


Na tranquilidade que encontrava. Na versão de mim que aparecia quando não precisava me defender de nada. Na sensação de que, por alguns minutos, eu estava exatamente onde deveria estar.


Ao lado dela.


E talvez algumas pessoas sejam mesmo obra de alguma força que a gente não entende. Não necessariamente porque foram feitas para ficar para sempre, mas porque, em algum momento da nossa história, precisavam existir.


Ela existiu.


E me ensinou que existem olhos capazes de ser oceano.


Que existem abraços que parecem margem depois de muito tempo à deriva.


Que existe amor que não chega fazendo barulho, mas vai preenchendo os espaços vazios até a gente perceber que já não sabe exatamente onde termina a nossa solidão e começa a presença do outro.


Hoje, talvez eu entenda que mergulhar nos olhos dela nunca foi apenas sobre olhar.


Era sobre confiar.


Sobre fechar os olhos para o mundo por alguns segundos e acreditar que, se eu afundasse, alguém me encontraria.


E talvez seja essa a coisa mais bonita e mais dolorosa sobre amar alguém profundamente: às vezes, a pessoa se torna o mar onde você aprendeu a respirar.


E quando ela vai embora, você passa um tempo tentando descobrir como voltar a superfície.


Mas algumas profundidades não desaparecem.


A gente apenas aprende a carregá-las.


E eu ainda carrego aqueles olhos comigo.


Como quem um dia caiu no mar e, em vez de ter medo da profundidade, descobriu nela um lar.