Fiz de Mim o que Nao Soube
A cada livro que termino de ler, e revigorante, eu chego ao final e sinto no meu ser todo o conhecimento e historia, e me sinto satisfeita apos ingerir tantas letras.
Nos grupos de WhatsApp, ninguém está totalmente off-line: apenas praticam a seletividade para interagir com quem lhes convém.
Assim somos nós!
Eu, sou o que sou, sou uma frase, uma palavra, um raio de sol, uma leve brisa, ou uma gota de orvalho… Sou o que sou, eu sigo o meu próprio caminho, eu sou aquele que erra, eu sou aquele que faz amor sem preconceito, eu…, sou o que sou…
A cada dia que passa, mais eu sei e compreendo a última nota da cantora Dalida.
“Pardonnez-moi, la vie m'est insupportable” (Me perdoem, a vida se tornou insuportável para mim).
Tudo o que eu mais quero e preciso é que alguém me olhe nos meus olhos e diga o quanto me ama, alguém que diga que meu sorriso é lindo, alguém que me abrace, alguém que implique comigo e depois diga que eu fico lindo mesmo daquele jeito, alguém que saiba transmitir-me amor, carinho, amizade, compreensão e até quando necessário dos estalos na cara, ou uns valentes puxões de orelhas, alguém que saiba que as palavras por vezes não adiantam nada, mas ações.
Alguém que só de olhar para mim, saiba ler em meu rosto muitas vezes disfarçado de sorriso e óculos escuros, sinta com o coração e a alma que não estou bem, que me dê um abraço, que me diga, mesmo que seja baixinho ao ouvido: "Estou aqui, e vou estar sempre, juntos vamos caminhar e vamos chegar a bom porto".
Eu sou uma gota de orvalho, uma lágrima caída..., um sentimento perdido..., um pedaço de vida... da história, sou uma palavra ainda por inventar, eu ....
Sempre me causou profunda revolta quando ouvia um orientador, com alta titulação, dizer: “felizes são os ignorantes”. Hoje percebo que deter certas verdades é gratificante por ter-las alcançado, mas uma maldição conviver com elas
Existem cenários cíclicos: guerras foram travadas, territórios apropriados, destruição, desmatamento, mágoas contraídas, ódio confeccionado, desmantelamento de laços fortes, destruição, escravização, abuso, ausência de limites. Tudo em nome de um único instinto humano: a necessidade de ter o controle de tudo, o domínio... E fez isso em nome de ideologias, discurso desenvolvimentista, soberanias, amor... Mas, no fundo, durante toda a história, o homem sempre quis ser o controlador das massas, do desconhecido, dos territórios, de tudo.
Barreiras sociais sempre foram colocadas e repassadas por gerações, reinventadas... e sua banalização é tão grande que aprendemos a conviver com as mesmas, sejam morais, éticas, intelectuais, ... Mas as vezes é divertido atravessá-las nem que seja por uma simples abstração momentânea de uma sociedade unificada; ou extrapolação do ser único; ou mesmo um momento de experiência para ter um discurso critico mais consistente.
Vivemos em um mundo de muralhas que construímos para nos defender dos próximos; À medida que envelhecemos tornamo-nos melhores construtores.
A grande tolice das massas idiotas e desprezíveis é esquecer-se do que é importante facilmente, basta existir uma festa, um evento, um “pão e circo” que todos os problemas passam, os corruptos são esquecidos, os erros apagados, ... não existe memória mas sim a esperança de um novo evento. Por isso desisti de lutar contra isso, vejo que é melhor mesmo serem enganados, roubados, ... controlados por mentes superiores, existem verdades que quando ditas podem chocar, mas é uma simples observação da realidade imutavel.
Muitas vezes, aqueles que se apresentam com as melhores intenções, bondade,... são os que escondem toda a maldade. Começa te oferecendo um sorriso, bondade, carinho, e um dia se depara desgraça e destruição.
Podemos nos reportar ao maior dos luxos para buscar satisfação, mas encontrar realmente a paz na simplicidade. Assim também são as pessoas, muitas vezes traçamos perfis padrões para o convívio, mas encontramos bons sentimentos naqueles que fogem aos requisitos.
Quase sempre a miséria é mantida para gerar benefícios próprios de poucos. Afinal, entre os miseráveis está o voto fácil, a oportunidade de autopromoção, de captar recursos sob justificativa de bons atos, manipulação... Também existem aqueles que se mimetizam como miseráveis para como integrante do grupo, desfrutar destes benefícios, justificados por uma ascensão “justa”. De que adianta curar a ferida de um doente, apenas para obter a imagem do eterno caridoso e após o reconhecimento de todos desfrutar lucros vertiginosos e esquecer os “ideais”.
O ópio da saudade
Muitas vezes em meio a correria, anseios, buscas, idealizações, superações, ...., em suma tudo o que remete a uma projeção do futuro , ficamos imersos nestes pensamentos e esquecemos de todo o resto. Mas às vezes, meio que repentinamente, nos deparamos com coisas sutis que nos chocam como uma batida de carro e nos colocam num estado de transe profundo, com sentimentos e sensações próprios de quem teve um passado e vem construindo uma história.
E em meio a esta viagem acolhedora permanecemos por alguns minutos até que alguém nos interrompa ou até que termine uma música, e quando retornamos à realidade voltamos cheios de si revigorados para continuar.
Mas forte que qualquer composto químico, droga, eletrochoque, manipulação da mente ou outra coisa que possa tirar uma pessoa da realidade, o estopim para esta viagem pode vir de um odor forte e característico de um perfume marcante, uma sensação, um lugar ou ainda mais funcional, uma música. Mas não é algo em que se possa reproduzir a todo o momento como um viciado que manipula droga a todo o momento, porque perderia toda a sua funcionalidade. São momentos únicos e irreprodutíveis que nos acometem meio que repentinamente como, ao abrir um frasco de perfume e remeter a um momento único de quando usava aquele perfume, ou uma pessoa para quem se produzia com aquele odor, ou ainda a uma carta perfumada que recebeu de alguém. E a partir daquele simples odor vem uma recordação e um arcabouço de outros sentimentos que provocam uma reflexão daquele momento até os dias atuais, como uma linha do tempo ou um longa metragem que passa em alguns segundos.
Sentimentos que tiram completamente a atenção como ao entrar em um carro e colocar naquela rádio que seus pais escutavam quando era jovem, e perceber que a música da sua adolescência agora toca lá. E ao se embebedar com uma imersão de sentimentos, passa a refletir sobre as baladas que dançou ao som daquela música, e quanto tempo passou desde então e não é mais aquele jovem; da inocência que tinha naquela época e se perdeu; das magas que fizeram você se tornar uma pessoa mais madura, mas completamente diferente; das pessoas que amou e das que te fizeram sofrer; os amigos que não vê mais bem como aqueles que não poderá encontrar; de como as coisas eram diferentes; da época que pensava em ser astronauta e no que se tornou; da vontade de mudar o mundo até o momento que se tornou apenas mais um; de como seus pais pareciam chatos em alguns momentos e que hoje, talvez, você cometa as mesmas chatices; de todo o que queria fazer e não fez; de quanto cabelo você tinha; das coisas que não precisava se preocupar e hoje te tornam uma pessoa estressada; mas também das superações que teve para chegar até onde está hoje e quem sabe, pensar melhor em para onde quer ir. E no final desta viagem de curta duração fica um bem estar e a retomada a realidade.
Grandes soluções, inventos, alternativas mirabolantes... perdem todo o seu ar de ineditismo quando vistas do ponto de vista real: são meras observações de fluxos, ciclos, processos, ... naturais. Para cada ação existe uma reação, para cada estímulo existe uma resposta, ... e tudo isso é regido por ciclos mapeáveis e reproduzíveis. Como um rio que tende ao equilíbrio dinâmico após um distúrbio, como a proliferação de bactérias que reagem em um vazamento de óleo, como o crescimento demográfico em resposta a melhores condições de vida, como a insatisfação de uma população e queda de uma representação frente a deliberações que ferem os objetivos do povo,.... É incrível como em uma aula sobre revolução francesa, por exemplo, os alunos se identificaram semelhanças com momentos de contestação da forma de poder, até mesmo nos dias atuais e estabeleceram paralelismos e projeções, ou como em uma aula sobre “wetlands” os alunos mais atentos viam o que parecia óbvio: sua aplicação em tratamento de efluentes, ... Conheça a fundo os processos, busque na história fenômenos semelhantes, tenha sensibilidade de observar os as tendências naturais de resposta e conhecerás as melhores soluções. Mas nunca se considere um inventor, porque antes de ti alguém pode ter pensado a mesma coisa. Existe uma diferença grotesca entre inventar e descrever algo que observa, ou uma ferramenta que adaptou para solucionar um problema, otimizar, ... Invenção é uma palavra muito mais ligada ao ego que à sua real aplicação.
Por fim gostaria de me manifestar contrário à tendência atual de especialização, segmentação e limitação do saber. Grandes pensadores não estudavam, inovavam e faziam importantes descrições e constatações apenas em uma ciência, mas em praticamente todas. Isto porque não se limitavam a ser especialistas do sub segmento de uma parte de uma divisão de uma ciência. Eles tentavam entender o todo, as inter relações, ... e estas visões multidisciplinares lhes garantia uma visão mais clara de como realizar um teste, ou uma maior riqueza de argumentos, ou permitia uma ferramenta mais funcional... Filósofos eram engenheiros, matemáticos, cientistas naturais, ... é como o reger de uma orquestra, tiram o melhor de cada instrumento (ciência) para desenvolver sua canção (pensamento). Hoje se você se propõe interagir com diferentes ciências, se você explica algo sob diferentes pontos de vista ou fundamentado por diversos argumentos, provavelmente é prolixo, criticado pelos limitados (quem não acompanha tem aversão), ou vai ser um gestor, ou.... Quando tento juntar as áreas biológicas com exatas e humanas o resultado é o susto e as críticas dos ignorantes e a afeição de um futuro colega de trabalho. Uma vez ao termino de uma aula um aluno cabisbaixo me apresentou seu trabalho de conclusão de curso da primeira graduação. Abriu o arquivo aparentemente apreensivo e cabisbaixo aguardando criticas (o que seria bom se elas fossem legitimas e construtivas), mas ao final só consegui elogiar; foi então que ele me revelou o posicionamento da banca. Ele se propôs a desenvolver uma cadeira em um curso de designer, mas seu projeto com mais de 100 páginas, falava sobre a disposição dos órgãos humanos e que uma postura inadequada poderia, por exemplo, comprimir o diafragma limitando a respiração, a oxigenação do cérebro e consequentemente a capacidade produtiva; ele também falou sobre os custos de diferentes materiais e as possibilidades de aquisição do produto/público; falou sobre segurança/risco de tombo e como o seu modelo mitigava isso; sobre designer em si; sobre como desenvolveu um protótipo; ângulo de visão frente a uma TV ou tela de PC; sobre mudanças e adaptações para diferentes ambientes; ... e segundo ele, a banca criticou. Me veio à mente situações semelhantes onde pessoas que viam o que não lhes era familiar, criticavam para não admitir suas limitações pessoais ...
O saudoso passado...
Durante muito tempo ouvi, como um mantra enfático, a afirmativa: “Saudade do passado! No meu tempo era muito melhor...”. Repetidas vezes isso me provocou a revolta adolescente de quem gostaria de convencer que o meu presente também era bom, seja pelas tecnologias, avanços, mudanças histórias, conquistas, .... e até pela minha presença. Por mais que o desafio de mudar esta frase motivasse, era uma realidade irredutível. Contudo, como o bêbado que retoma a sobriedade, a maturidade trouxe uma capacidade analítica de enxergar os problemas da minha época, admirar elementos do passado e repensar certos conceitos. Apesar da “minha tecnologia” ser surpreendente, de fato no meu presente faltava muita coisa, que não justificavam mudar esta frase. As minhas críticas foram revistas, ganharam novos pontos de vista, interpretações, ... e só me restou tentar mitigar as lacunas do meu tempo. Até que um dia, as lapidações da vida, como em um ciclo previsível, me fizeram repetir o mesmo discurso de meus antepassados. Penso que ...
Talvez, com o tempo as luzes naturalmente se apaguem, como as estrelas no céu que perdem o brilho te deixando em um vazio sem orientação ...
Ademais, é provável que a inversão dos polos magnéticos esteja de fato ocorrendo, pois, o Norte não está mais evidente. Todos os elemos norteadores da vida começaram a desaparecer fazendo com que precise caminhar sem referenciais, como em um quarto escuro ....
Talvez as cores percam a intensidade e naturalmente o mundo pareça monocromático, como os clássicos do cinema mudo, que apesar de antigos trazem felicidade para a vida ...
Os meus exemplos, formadores de caráter, retidão, honestidade, hombridade, .... os meus inspiradores não estão mais aqui para me aconselhar ...
E por mais mórbido que pareça, lápides trazem de volta um passado de lembranças, plenitude, alegrias legítimas, conselhos, aconchego, orientação, sinceridade ... . E para quem não tinha arrependimentos, o maior passou a ser a vontade de ter construído mais lembranças ...
As memórias viraram o melhor destino de boas viagens ....
Os atos criticados, por quem queria mudar o mundo, passam a ser repetidos como uma herança de família ...
Os diálogos que traziam serenidade e paz, desapareceram. O “olho no olho”, os sorrisos com volume e intensidade, tranquilidade, ... deram lugar a figuras que tentam representar emoções, de alguma forma, na tela de um smartfone. Talvez por isso tanta depressão ...
Os elementos que tinham função de retroalimentar a vontade de andar, desapareceram e ninguém reparou, pois somos carregados pelo fluxo ...
Os nomes dos meus grandes mestres já não estão mais nas grades horários de aulas, em apresentações de congressos, .... os que não posso mais visitar, encontro nos velhos livros e artigos amarelados ....
A leitura de um livro deixou de ter o som das folhas, o cheiro característico, o peso do conteúdo e a criatividade de improvisar marcadores ...
O museu que influenciou sua vida foi queimado, as salas de cinema enormes deram lugar a espaços pequenos com uma pipoca de gosto estranho, os lugares que gostava de visitar já não existem mais, ...até a pizza que marcou a infância virou um gosto exclusivo da memória ....
Não existem mais “renascentistas” dotados de visão holística e integradora. Na saúde, deu-se lugar aos tratamentos específicos, segregados e especializados a ponto de não existir mais correlações; agravado por alguns profissionais que podem nem entender a fundo suas especializações ...
As músicas não ofereçam mais a mesma carga de emoção arrebatadora, falam em uma linguagem diferente e seus cantores prediletos não tem mais como gravar álbuns inéditos ...
O amor não é mais o mesmo da época onde o simples “cheek to cheek” conseguia prover fortes emoções como impulsionar ao paraíso...
Perdeu-se a magia de cantar na chuva para fazê-lo em chuveiros apertados ...
Os heróis, não eram personagens com superpoderes, mas mortais com atitudes que qualquer um poderia ter. Não viviam em cavernas ou esconderijos mirabolantes, estavam em seu convívio, família, ...
As pessoas não tinham medo de se comunicar, nem estavam demasiadamente ocupadas com seus celulares.... Elas davam bom dia sem nem mesmo conhecer e assim funcionavam as “redes sociais”, ... “like” era um sorriso, as notícias eram “compartilhadas” com boas conversas nas portas das casas ou na mesa do bar ...
Os pais se tornaram filhos, a ponto de passar a ver suas “malcriações” ...
Era possível ter aula de história pelos livros, com um professor, ou ouvindo o relato de quem viveu aqueles momentos ...
O telejornal não se assemelhava a apresentação de um catálogo criminal ...
A textura do papel do jornal era suave e a tinta soltava nas mãos ...
O GPS eram as paradas sequenciais para pedir informação, deixando a viagem mais longa e divertida, conhecendo lugares pelo caminho, com mais expectativa ...
Havia mais honestidade que Interesse, a ponto de até o vendedor do mercado aceitar a “pendurar a conta”, esperar ir buscar o dinheiro em casa ...
Os alimentos não faziam mal, tinham mais sabor ...
O tempo das coisas era mais devagar que da geração “fast”; até as células não tinham tanta pressa em se dividir ...
Os políticos pareciam mais honestos ...
As novas piadas, mesmo com todo seu conteúdo apelativo, não têm mais a mesma graça ...
O ar não tem mais o mesmo cheiro, assim como a água o sabor e ...
Não existem mais palmeiras, primores e sabiá, ... e talvez por isso, os “mais velhos”, se sentissem no exílio do tempo novo ...
... mas posso afirmar categoricamente que no meu tempo era muito melhor, porque existiram pessoas insubstituíveis que deixam uma saudade irreparável. Aqueles que sentiram um amor legítimo, hoje ocupam um espaço inabalável, como em um relicário junto ao peito onde posso visitá-los nas melhores memórias.
Há quem diga que existam períodos amaldiçoados onde tudo de ruim pode acontecer; como, por exemplo, as referências ao ano de 2020. Mesmo que fosse uma verdade, em nada existe a constância; ciclos são naturais em tudo. Tolice é passar pelo momentos turbulentos sem aprender nada. Assim como a tosse evidencia um problema no pulmão; a febre uma infecção, a depressão à ansiedade, stress; uma nova pandemia, alerta para o avanço sobre ambientes estabilizados ... ; as chuvas intensas com diminuição do tempo de reincidência, um problema climático; o aumento das queimadas um problema do clima global; ... tudo são sintomas de algum ciclo em desequilíbrio. Precisamos estar atentos aos sintomas, diagnosticar e reestabelecer a ruptura.
Limitados sãos aqueles que vivem da opinião alheia, da autopromoção, das divulgação de lamentações permanentes, da alienação as questões polêmicas, das conspirações e paparicos demasiados. Estes são os mesmos que não suportam a própria existência em meio a condição de isolamento. O silêncio e a introspecção são oportunidades fantásticas para definir novas metas, reinventar-se, ter ideias, identificar falhas, promover autorreflexão, empatia, autocrítica, dentre outros. Da mesma forma o afastamento revela laços fortes, sentimentos verdadeiros, traidores, interesseiros, amores, amizades sinceras e outros. Uma quarentena pode despertar a loucura de uns e evidenciar oportunidades, como por exemplo de empreender em outros. Repense o que pretende fazer com sua vida, qual imagem está promovendo, quais vínculos pretende preservar, o que atrai para ti, como quer ser lembrado: lástimas ou obstinação?
Diamante é lapidado a base da pancada; assim também se molda caráter, maturidade, empatia e outras características do ser humano. Ouvir os mais velhos seria o caminho mais fácil, sem feridas, decepções E outras marcas de ensinamento; todavia, como a maioria dos animais, buscamos nosso espaço desafiando os anfitriões.
