Fim
O Sol poente no horizonte do mar cria uma miragem ao olhar: ali, o infinito finge ter fim, lembrando-nos de que o limite do que vemos é apenas o começo do que ignoramos.
Reno Fioraso
Cada gota de orvalho que se dissolve no chão não busca o fim; celebra, enfim, o instante em que o céu e a terra, no silêncio da floresta, conversam em segredo.
Reno Fioraso
É como se eu estivesse num devaneio taciturno, sem fim,
regredindo — pertencendo menos a este inóspito mundo.
A cada fim, penso realmente em dar fim a tudo, por medo do que virá, porque pode ser pior, mas pode melhorar — mas nunca sabemos pelo que esperar, e isso assusta. Duvidamos da nossa capacidade de ser melhor e de dar o nosso melhor, e às vezes estivemos tanto tempo sujos de lama que recusamos a acreditar que a chuva irá nos limpar. O medo de não saber o que será de nós, o medo de descobrir, o medo de viver e de saber.
Hoje é o último dia do ano mais turbulento, hoje é o final, hoje acaba, mas hoje também é só mais um dia, e amanhã será outro. Para alguns, um começo, uma oportunidade; para outros, só mais um dia em que a data alterou alguns números; para alguns, nada muda. A verdade, apesar de não ser absoluta, é que todos os dias surgem oportunidades em nossas vidas, esperando para serem agarradas, porque estão ali para isso. Mas nós as ignoramos, porque hoje não é segunda, ou porque agora não é sete da manhã, ou porque não é dia primeiro, e até mesmo porque não é o primeiro dia de um ano que acabou de nascer.
Por alguma razão, esperamos o começo de algo para começarmos a fazer o que deve ser feito. Esperamos muito para agarrar as oportunidades que nos surgem. Mas elas não esperam o começo do dia, da semana, do mês ou do ano para vir; elas só vêm. Porque o tempo, o início, está na nossa cabeça, e quando entendemos que o início não é quando o tempo determina que algo iniciou, e sim quando tomamos a iniciativa de começar.
Seja você sempre. Deixe suas digitais por onde passar.
No fim, não é sobre perfeição — é sobre as marcas que só você pode deixar.
Haverá um dia em que comer e beber, dormir e vestir-se, divertir-se e gastar dinheiro terão um fim. Haverá um dia em que o seu lugar estará vazio, e que falarão de você como alguém que já morreu, que já se foi. E, onde você estará, se tiver vivido e morrido sem pensar a respeito de sua alma, sem Deus e sem Cristo?
No fim, partimos do mesmo pressuposto. Ao afirmarmos que somos marionetes e que apenas alguns entreveem as cordas, expõe-se, nessa própria constatação, a debilidade e a incompletude do nosso intelecto — e, com isso, entreabre-se a transcendência. Na filosofia mais bem elaborada, quase sempre se entrevê o além-do-ser.
Juliano Assis
Na quietude de uma noite sem fim, onde as estrelas eram os únicos vigias e o céu parecia guardar os segredos de impérios antigos, eu a vi. Não como alguém comum atravessando a fumaça dourada da cidade, mas como uma visão arrancada das páginas esquecidas da história. Ela surgia diante de mim como Cleópatra renascida, não a rainha contada pelos homens, mas a mulher que existia entre o mito e o caos, grande demais para caber nas mãos erradas.
E eu, como Júlio César diante do inevitável, senti o mundo mudar no exato instante em que nossos olhos se encontraram.
Havia algo nela que fazia o tempo se curvar. Como se Roma ainda queimasse em algum lugar distante, enquanto neon e concreto refletiam em sua pele como ouro derramado. Ela caminhava entre as sombras daquele futuro desconhecido carregando o peso de quem sempre foi intensa demais para amores rasos. Grande como sempre foi, mas nunca amada da forma certa. Nunca compreendida por inteiro. Nunca tocada como um império merece ser conquistado.
Mas eu a via.
Via a fome escondida entre os exageros, a tempestade disfarçada nos sorrisos, o desejo absurdo de se entregar sem limites, mesmo fingindo que não precisava de ninguém. E talvez tenha sido exatamente ali que tudo começou. No instante em que minha licença poética decidiu transformá-la na rainha que o mundo sempre teve medo de amar.
Juntos, éramos mais do que duas pessoas atravessando madrugadas vazias. Éramos César e Cleópatra reinventados num século que já não acreditava em eternidade. O passado e o presente se misturavam numa dança silenciosa enquanto caminhávamos pelas ruas iluminadas, como se cada esquina escondesse um pedaço do nosso destino.
Na canção que ecoava baixa entre nós, éramos eu e você contra o mundo.
E o mundo odiava isso.
Havia olhos por toda parte. Olhares carregados de inveja, admiração e medo. Sussurros atravessando corredores, bocas dizendo que nosso amor era impossível, intenso demais, destrutivo demais. Diziam que pessoas como nós nunca terminavam inteiras. Que amores assim sempre acabam em ruínas.
Mas eles não entendiam.
Não entendiam que toda vez que tentavam nos separar, nós brilhávamos ainda mais. Como duas constelações condenadas a colidir. Como dois impérios destinados à guerra, mas que escolheram o amor antes da destruição.
Criamos nosso próprio refúgio entre noites longas, confidências e excessos. Entre doses de tequila e o álcool com que lavávamos a alma, nós nos despíamos das versões cansadas que o mundo exigia. E ali, longe das expectativas alheias, você finalmente podia se esbaldar dos exageros que sempre quis viver. Sem culpa. Sem limites. Sem precisar diminuir sua intensidade para caber no peito de alguém.
Porque eu nunca quis que você fosse menos.
Eu queria tudo.
Queria teu caos, tua fúria, teus exageros, tua maneira quase trágica de amar. Queria teus silêncios pesados, teus medos escondidos, tua vontade absurda de sentir o mundo inteiro de uma vez só. E enquanto você me olhava como se tentasse entender por que eu permanecia, eu só conseguia pensar que nenhum homem antes de mim soube amar uma rainha sem tentar prendê-la.
Seu antigo exército caiu justamente por isso. Pareciam gigantes vistos de longe, mas de perto eram apenas um mar raso tentando conter um oceano.
Você nasceu para profundidades que assustam.
E eu também.
Talvez por isso nossos nomes tenham se reconhecido antes mesmo de nossos corpos se tocarem. Como se em alguma outra vida César já tivesse encontrado Cleópatra sob outro céu, em outro império, prometendo outra vez que o mundo jamais seria suficiente para separá-los.
Nos momentos de silêncio, quando a madrugada cansava de existir e o universo parecia respirar devagar ao nosso redor, olhávamos para o futuro como quem encara algo inevitável. Sabíamos que éramos mais do que dois nomes passageiros tentando sobreviver ao tempo.
Nós éramos um pacto.
Uma promessa silenciosa feita entre ruínas e estrelas.
Talvez César não queira mais atravessar o mundo para conquistar outros impérios, porque ele enxergou em Cleópatra a sua castra.
E mesmo que o mundo inteiro desabasse ao nosso redor, ainda haveria nós dois, lado a lado, reinventando o amor como quem desafia a própria história.
Porque algumas pessoas nascem para viver romances simples.
Mas nós?
Nós nascemos para virar lenda.
A ferrugem nunca foi o fim do aço; foi apenas a maneira que o tempo encontrou de escrever a sua história.
O fim do mundo é constatar a quantidade de pseudo-esquerdistas que apoiam Trump e os EUA! Nem argumento mais, bloqueio!
No fim, sou apenas eu
e o peso suave do meu cansaço,
que se rende, vencido,
à delicada vitória da gratidão.
O fim não vem quando alguém vai embora. Vem quando você percebe que foi abandonado emocionalmente tantas vezes que amar virou dor.
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