juliano assis
"Ninguém deve construir a casa da 'justiça' para que outro venha habitá-la; isso, por si só, já seria uma forma de injustiça. Tal construção só se justifica no coletivo, para todos, ou no âmbito individual, para si mesmo. Pois, nesse sentido, cada um tem o dever de zelar pela justiça em seu próprio ambiente e contribuir para essa edificação." (Juliano Assis)
Demônios ou deuses? De onde surgem a maldade e a bondade no pensamento comum? Tudo parte da imaginação humana. Sendo assim, no fim, é você quem pratica o bem ou o mal. Você não existia antes de nascer e não existirá após morrer. Crenças! Talvez sejam uma forma de o débil intelecto humano buscar sentido para a vida ou uma justificativa para a impossível imortalidade. Mas, como ensina o existencialismo, é na ausência de deuses que nos tornamos plenamente responsáveis por nossos atos. Tudo neste universo morre; este é o princípio de toda existência. Tudo que vive e vê ao seu redor é parte do que já viveu e morreu, numa cadeia incessante de transformação. Juliano Assis
Acho que todo pensamento transmite uma
espécie de canção, mas em poucos momentos ele se organiza como uma
orquestra interior em nós e desvenda uma melodia. Cada insight, cada epifania
nesses momentos, é como uma nota musical em busca de harmonia na sinfonia
do universo, que por instantes nos leva a uma sintonia com o todo. Livro A inveja do meu Eu (Juliano Assis)
Em A Inveja do meu Eu. A Pior Inveja é a que Sentimos de Nós Mesmos.
Na minha visão, longe das ilusões otimistas que preponderam: "A felicidade,
como ideal absoluto, não existe. Penso que existe um estado de aceitação —
como o meu agora. Este é o único momento de plenitude e segurança para mim,
ou para qualquer ser humano, sem exceção. Toda construção exige esforço; a
felicidade tem um custo. Logo, a plenitude não existe em estado bruto; o objetivo
é a tranquilidade. A tranquilidade — é para mim a mesma coisa — reside ou
surge naquele instante em que compreendemos que as coisas e as pessoas são
exatamente como são, e não temos por obrigação mudá-las."
Um gênio não precisa se adaptar socialmente, mas aprende desde cedo que é melhor com seus talentos do que a maioria. Juliano Assis
Somos a própria informação de que o universo é feito. Nossa presença no cosmos brilha tanto quanto a das galáxias e nebulosas distantes. Tecemos a variedade que compõe o todo, ainda que apenas a humanidade insista em buscar graça e propósito nesta imensidão tão vasta e monótona.
Juliano Assis
O crescimento contínuo e infinito do universo, dentro da percepção do intelecto humano, torna-se um fardo diante da limitação humana. O Sublime impossível — tão grandioso que nos esmaga e fascina ao mesmo tempo — suscita a ideia de irrelevância no existir do universo. Porém, nada mais é, para mim, do que a nossa incapacidade de interpretação do todo.
Contudo, há uma beleza estranha nessa nossa derrota intelectual. O mesmo teto cego que nos impede de compreender o todo é o que nos faz olhar para as estrelas com espanto e devoção. Somos a única criatura que chora diante do infinito sabendo que nunca o tocará, transformando a nossa cegueira cosmológica em uma forma única de poesia: o fascínio pelo incompreensível.
Juliano Assis
Penso que o ínfimo não nos impede de perceber o esplendor daquilo que transcende as escalas astronômicas. Se, por outro lado, são os outros — fatores externos ou pessoas — que nos obstruem a visão do transcendente, então devemos considerar seriamente a possibilidade de tais existências. No entanto, cabe também perguntar: esse 'outro' não seria apenas uma desculpa para nossa incapacidade de interpretar o transcendente, ou será que tais entidades, na verdade, simplesmente não existem?
O ser e o tempo A vontade de poder ser
De Juliano Assis
Somos uma construção no tempo. Ou melhor, somos o próprio tempo em ato. Não há um ser completo e estático em nosso núcleo, mas um constante devir — uma “vontade de poder”, como sugeriu Nietzsche, que nos impele a nos refazer sem cessar.
Assim, o propósito do ser é simplesmente ser, sem jamais atingir um ponto final. Somos um rio que nunca é o mesmo, que se afirma justamente em suas próprias mudanças.
E no curso desse rio, nos deparamos com o tédio. Schopenhauer via nele a essência de nossa condição: oscilamos entre a dor e o prazer, mas o prazer é fugaz, ilusório. No fim, o que resta é o vazio do tédio, a percepção de que não controlamos a natureza dos acontecimentos.
Mas há outro caminho. Heidegger nos lembra que o ser é ser-no-mundo, projetado para frente, lançado em um tempo que não volta. Essa mesma força natural de seguir em frente pode ser vivida não como fardo, mas como afirmação cabal da existência.
É aí que Nietzsche ressurge, com o amor fati: amar o destino. Perceber que as mudanças são inevitáveis, que o rio nunca será o mesmo, e abraçar esse fluxo como parte intrínseca do que somos.
No fim, somos esse movimento: entre o tédio e a vontade, entre a dor e a aceitação radical. Ser no tempo é aceitar-se como tempo — e seguir, rio abaixo, sem retorno.
Em a Inveja do Meu Eu.
Deve ser para isto que servem os sonhos:
lembram-nos daquilo que o subconsciente ignorou.
Talvez por medo, trauma, sei lá. Minha solidão, por fim, resulta na minha falta
de interesse naquilo que é tão simples:
Juliano Assis
A inveja do meu Eu:
Juliano Assis.
Saio do parque com o livro debaixo do braço. Aquela lagarta fica comigo. Tenho para mim que a única forma honesta de heroísmo é esta: ver a existência como um breve flash entre dois infinitos de escuridão — e mesmo assim insistir em contrariar as regras. Camus chamou isso de revolta. Eu chamo de birra. E que seja.
No fim, partimos do mesmo pressuposto. Ao afirmarmos que somos marionetes e que apenas alguns entreveem as cordas, expõe-se, nessa própria constatação, a debilidade e a incompletude do nosso intelecto — e, com isso, entreabre-se a transcendência. Na filosofia mais bem elaborada, quase sempre se entrevê o além-do-ser.
Juliano Assis
A INVEJA DO MEU EU: -- Ao entrar, a cena me paralisou: ela estava sentada à mesa com duas crianças. Um garotinho de três anos e uma menina de seis. O que me aterrorizava não era a presença deles, mas a verossimilhança brutal que compartilhavam comigo. Nos gestos pausados, na inclinação do rosto e no brilho do olhar, eram versões latentes de mim mesmo.
Lembrei-me do meu verdadeiro lugar: sempre defendi a ideia de que todos os personagens e lugares que sonhamos são imposição dos nossos desejos e vontades; cada pessoa é nada mais que um reflexo de nós mesmos.
Juliano Assis
