Filha mais Velha
Os seres nulos
Caminho pela rua velha e escura, como de costume, mas, esta noite é diferente. Posso perceber a vida, os seres em toda a parte. Sob os meus pés, as lajes de pedra, acima de mim, os prédios se elevando no céu cinzento. As árvores se estendendo para me proteger, os postes, segurando a calçada, os homens a gritar no breu, sem nada, sem rumo. Quem me dera eu fosse antes alguém que pudesse ordenar a vida que se esvai, se eu vivesse a redimir o quanto se chorou por não haver consciência daqueles que ninguém nunca deu valor.
Agora eu vejo. É preciso um pequeno esforço para ver a face, ela não é velha nem nova, ela transcende o espaço e o tempo. Como é bela, ela não se repete. Ela sou Eu.
No domingo a vitrola velha toca um soneto musical.
O que seria esse soneto musical?
Novos horizontes transformaram a música num espaço de palavras jogadas de tantos palavrões acabou ate o sabão para limpar boca suja...
As garotas e garotos acham bonita demais se expressar de forma tão vulgar...
Ao passar do tempo vejo os frutos da alienação intelectual.
Diário de Bordo: O Retorno dos Gafanhotos à Velha Terra
O que parecia um mito nos becos escuros das favelas espaciais agora estava em nossas mãos: a chave temporal. Ligada aos cristais de tempo que contrabandeamos e alimentada pelos novos motores tridimensionais, a nossa lata velha deixou de apenas flutuar no espaço; agora, ela rasga o próprio tecido do ontem e do amanhã.
Ao ver os indicadores do painel brilharem com a energia cronológica, os olhos do capitão faiscaram de pura malícia. Ele tragou o resto do cigarro, olhou para a tripulação de loucos e deu a ordem que mudaria o rumo da galáxia:
— Vamos voltar para a Velha Terra.
O plano não era um retorno pacífico ou um resgate nostálgico. Nós tínhamos novas perguntas que só o passado poderia responder, mas, acima de tudo, precisávamos de novas cargas. O estoque de cachaça de metanol estava no fim, os embriões precisavam de reforço e o universo ainda tinha muitos postos de combustível para explodirmos. A Terra — com toda a sua história de guerras, recursos e a nossa própria linhagem de malandros — era o mercado atacadista perfeito para a nossa predação.
Os motores tridimensionais roncaram, os cristais de tempo canalizaram a energia quântica e a nave inteira tremeu, saltando através das eras.
A humanidade já era o terror do espaço profundo. Agora, com o controle do tempo, nem o passado da Terra está a salvo de nós. Segura o cinto, porque os gafanhotos estão voltando para casa.
— Por Celso Roberto Nadilo
TRANSCEPTO CRUZEIRO
No mar da velha poesia,
Dois navios vão singrando:
Um carrega a dor da história,
Outro segue renovando.
Entre o ontem e o agora,
Vai o verso navegando.
Castro Alves levantou
Sua voz de claridade,
Denunciando as correntes
Da cruel desumanidade.
Fez do poema um clarim
Em defesa da liberdade.
Seu Navio Negreiro, então,
Foi um grito contra o mal,
Retratando o sofrimento
Do cativeiro brutal.
Cada estrofe era um açoite
Na consciência mundial.
Negreiros Neto, por sua vez,
Lança a Nave ao infinito;
Não conduz corpos cativos,
Mas o sonho mais bendito.
Leva esperança na proa
E Deus guiando o seu rito.
Se um navio foi prisão,
Outro é ponte e travessia;
Se um cruzou mares de sangue,
Outro semeia poesia.
Um revela antigas sombras,
Outro anuncia o novo dia.
No transcepto do cruzeiro,
Onde os rumos se entrelaçam,
A memória encontra a fé
E os destinos se abraçam.
O passado vira mestre,
Sem que as feridas desfaçam.
Castro Alves fez da pena
Uma espada de justiça;
Negreiros faz do cordel
Um altar de boa liça.
Cada qual em seu tempo
Cultivou igual premissa.
Não disputam grandeza,
Nem procuram primazia;
São faróis de um mesmo porto,
Cada qual com sua guia.
Um combate a escravidão,
Outro exalta a harmonia.
Transcepto Cruzeiro é ponte
Entre o pranto e a esperança;
É o encontro das palavras
Com a eterna confiança.
Quem conhece o seu passado
Dá ao futuro segurança.
Que o Brasil jamais esqueça
O valor da consciência;
Pois a arte quando é livre
Transforma toda existência.
E a poesia permanece
Como luz da resistência.
“Camisa velha não é roupa cansada — é testemunha. Ela viu dias que ninguém aplaudiu, abraçou o corpo quando o mundo virou as costas e, por isso, mesmo rasgada, continua sendo impossível de jogar fora.”
Uma arma velha, quebrada e esquecida
Jaz no chão, como um cadáver da memória
Seu metal enferrujado, seu coração de pólvora
Um dia foi forte, agora é apenas um peso morto
Seu cano está quebrado, sua alma está perdida
Ninguém a usa, ninguém a quer
Ela sonha com o passado, com os tiros que deu
Mas agora é apenas um objeto, um peso vazio e inútil
Ela lembra dos gatilhos puxados, dos sons de guerra
Dos gritos, das lágrimas, das vidas ceifadas
Agora, apenas um silêncio ensurdecedor
Um lembrete de que a violência é estéril, e a morte é vã
Ela espera pelo fim, pelo descarte final
Para ser derretida, transformada em algo novo
Mas até lá, ela jaz aqui, quebrada e sozinha
Um símbolo da destruição, da dor e da morte. 😔
A solidão é minha velha amante fiel que já se acostumou e aprendeu a não reclamar comigo, nos momentos que quero ficar sozinho, introspectivo, sem a menor paciência de encontrar com pessoas infelizes sorridentes, enfeitadas com utensílios de marca baratos mas falsificados que orgulhosamente desfilam vitoriosas e especiais de fachada.
Na velha arte da mercancia, sempre os melhores negócios e as grandes oportunidades, advém de hábeis comerciantes desconhecidos.
No solo sutil da tolerância,Toda colheita humana frutifica,Deixando para trás a velha infância,Na paz que o próprio bem multiplica.
Não escreva em sua nova agenda aquilo que fez você viver uma velha vida de sofrimentos e derrotas, de planos e propósitos errados.
A velha árvore
Tombou a velha árvore.
A Mãe Natureza preparou a grama macia para recebê-la.
O tempo não ceifou seus galhos. Deixou que tombasse com seu orgulho de nascença.
Tombou a velha árvore na madrugada.
Silenciosa. Não fez barulho algum.
Comportou-se orgulhosa, com todas as suas lembranças, e foi deslizando devagar.
Levou consigo as memórias de suas sementes, que agora levarão seu cerne para sempre.
Tombou a velha árvore.
Mas suas sementes ficaram.
A saudade é como uma velha amiga, que volta e meia vem nos visitar, mas sempre deixa um gosto de "fica mais um pouco?".
Nova e Velha Política.
"Não consigo dizer o quanto uma janela exposta à luz do meio-dia pode ou não ofuscar minha vista, uma vez que quem decide é a hora e a posição que eu devo ocupar naquele ambiente. O paradoxo entre as leis limitantes e a liberdade de escolhas promovidas pelo livre arbítrio sob a lente religiosa promove discursos. Hoje, os políticos são categoricamente dois jogadores em lados diferentes em um único tabuleiro. O que torna isso engraçado é o fato de que somos nós os peões e as rainhas dentro desse jogo. Podemos decidir qual jogador irá nos representar, mas nunca a direção pela qual eles irão nos mover durante cada jogada."
A CATEDRAL DAS SOMBRAS.
Parte i
Quando a noite, em veste escura,Sepultou a velha altura,Vi a Lua, fria e pura,Sobre a torre a soluçar;Cada estrela estremecida,Parecia, adormecida,Uma lágrima esquecidaSem coragem de brilhar.
Pelas naves do silêncio,Onde o Tempo fez domínio,Cada pedra era um martírio,Cada arco, uma oração;E eu seguia, passo lento,Respirando o esquecimento,Como quem transforma o ventoNo compasso do coração.
Vi retratos sem semblante,Vi um espelho vacilante,Onde o rosto do viajanteJá não ousa florescer;Pois a face que eu fitava,Mais que a minha, denunciavaToda a dor que sepultavaO desejo de viver.
Cada porta era um mistério,Cada sino, um cemitério,Cada eco, um ministérioCelebrando a solidão;E as paredes consumidas,Feitas de eras esquecidas,Repetiam, doloridas:— "Tudo acaba... tudo em vão..."
Mas ouvi, de uma janela,Uma voz serena e bela,Como a luz de uma aquarelaSobre um campo sem calor;Não cantava a esperança,Nem promessas de bonança;Era apenas a lembrançaDo primeiro e puro amor.
Meu espírito, cansado,Como um tronco abandonado,Pelo inverno açoitado,Vacilou sem resistir;Pois lembrava, entre gemidos,Os jardins já destruídos,Onde os sonhos esquecidosAprenderam a partir.
Vi então um corvo antigo,Feito sombra e feito abrigo,Que pousou, qual velho amigo,No mais alto castiçal;Seu olhar, sem ter piedade,Conhecia a eternidadeE a secreta identidadeDe todo homem mortal.
Nada disse. Nada fez.Mas o peso da mudezEra a voz da insensatezQue ninguém deseja ouvir;Pois existem mil palavrasQue são frágeis como tábuas,Mas há silêncios que lavramA sentença de existir.
Então vi que cada abismoNasce antes no organismo,Onde o próprio egoísmoErgue alta catedral;Cada culpa alimentada,Cada lágrima abafada,É uma lâmpada apagadaNo invisível funeral.
Quem combate monstros, cedoPode tornar-se o degredoDo mais íntimo segredoQue jurava destruir;Pois o mal que nos devoraNão desperta apenas fora:É a raiz que se enamoraDo jardim por consumir.
E caminhei noite adentro,Procurando algum alento,Mas achei somente o centroDo infinito labirinto;Onde o medo, soberano,Escrevia, ano após ano,Com um dedo desumano,Cada página do instinto.
Quando a aurora finalmenteTocou o horizonte ardente,Vi que o Sol, resplandecente,Não venceu a escuridão;Pois a sombra verdadeiraNão repousa na ladeira,Nem na floresta fronteira:Faz morada no coração.
Mesmo assim, subi o monte,Onde nasce cada horizonte,E rompi, qual velha ponte,As correntes do temor;Porque a noite, por mais forte,Nunca encerra toda sorte:Há mistérios além da morte,Há silêncio além da dor.
Então, diante do Infinito,Ergui firme o meu espírito,Não em gesto de conflito,Mas de lúcida ascensão;E as estrelas, uma a uma,Dissolveram toda a bruma,Transformando a antiga espumaNa mais viva criação.
Compreendi, no último instante,Que o destino mais giganteNão pertence ao triunfante,Nem ao rei, nem ao altar;Pertence ao ser que, vencido,Mesmo em sangue consumido,Faz do próprio coração partidoUma nova forma de amar.
E a noite, antes sepulcro,Fez-se trono, fez-se fulcro;Do silêncio nasceu o músculoDa coragem sem igual.Porque toda alma ferida,Quando enfrenta a própria vida,Ergue, acima da ruína vencida,Sua imortal catedral.
[o brado]
Sanguessuga é a velha
união européia
ou o louco Tio
do “Times is money”?
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
"Chamam-me velha, parecem esquecer que eu .continuo sendo Eu!
Meu cabelos brancos, minhas rugas, minhas cicatrizes são medalhas que o tempo me conferiu.
Não preciso esconder nem disfarçar os meus anos, eles são meus, vividos um a um sem saltar nenhuma fase!"
Haredita Angel
11.09.25
