A CATEDRAL DAS SOMBRAS. Parte i Quando a... Marcelo Caetano Monteiro
A CATEDRAL DAS SOMBRAS.
Parte i
Quando a noite, em veste escura,Sepultou a velha altura,Vi a Lua, fria e pura,Sobre a torre a soluçar;Cada estrela estremecida,Parecia, adormecida,Uma lágrima esquecidaSem coragem de brilhar.
Pelas naves do silêncio,Onde o Tempo fez domínio,Cada pedra era um martírio,Cada arco, uma oração;E eu seguia, passo lento,Respirando o esquecimento,Como quem transforma o ventoNo compasso do coração.
Vi retratos sem semblante,Vi um espelho vacilante,Onde o rosto do viajanteJá não ousa florescer;Pois a face que eu fitava,Mais que a minha, denunciavaToda a dor que sepultavaO desejo de viver.
Cada porta era um mistério,Cada sino, um cemitério,Cada eco, um ministérioCelebrando a solidão;E as paredes consumidas,Feitas de eras esquecidas,Repetiam, doloridas:— "Tudo acaba... tudo em vão..."
Mas ouvi, de uma janela,Uma voz serena e bela,Como a luz de uma aquarelaSobre um campo sem calor;Não cantava a esperança,Nem promessas de bonança;Era apenas a lembrançaDo primeiro e puro amor.
Meu espírito, cansado,Como um tronco abandonado,Pelo inverno açoitado,Vacilou sem resistir;Pois lembrava, entre gemidos,Os jardins já destruídos,Onde os sonhos esquecidosAprenderam a partir.
Vi então um corvo antigo,Feito sombra e feito abrigo,Que pousou, qual velho amigo,No mais alto castiçal;Seu olhar, sem ter piedade,Conhecia a eternidadeE a secreta identidadeDe todo homem mortal.
Nada disse. Nada fez.Mas o peso da mudezEra a voz da insensatezQue ninguém deseja ouvir;Pois existem mil palavrasQue são frágeis como tábuas,Mas há silêncios que lavramA sentença de existir.
Então vi que cada abismoNasce antes no organismo,Onde o próprio egoísmoErgue alta catedral;Cada culpa alimentada,Cada lágrima abafada,É uma lâmpada apagadaNo invisível funeral.
Quem combate monstros, cedoPode tornar-se o degredoDo mais íntimo segredoQue jurava destruir;Pois o mal que nos devoraNão desperta apenas fora:É a raiz que se enamoraDo jardim por consumir.
E caminhei noite adentro,Procurando algum alento,Mas achei somente o centroDo infinito labirinto;Onde o medo, soberano,Escrevia, ano após ano,Com um dedo desumano,Cada página do instinto.
Quando a aurora finalmenteTocou o horizonte ardente,Vi que o Sol, resplandecente,Não venceu a escuridão;Pois a sombra verdadeiraNão repousa na ladeira,Nem na floresta fronteira:Faz morada no coração.
Mesmo assim, subi o monte,Onde nasce cada horizonte,E rompi, qual velha ponte,As correntes do temor;Porque a noite, por mais forte,Nunca encerra toda sorte:Há mistérios além da morte,Há silêncio além da dor.
Então, diante do Infinito,Ergui firme o meu espírito,Não em gesto de conflito,Mas de lúcida ascensão;E as estrelas, uma a uma,Dissolveram toda a bruma,Transformando a antiga espumaNa mais viva criação.
Compreendi, no último instante,Que o destino mais giganteNão pertence ao triunfante,Nem ao rei, nem ao altar;Pertence ao ser que, vencido,Mesmo em sangue consumido,Faz do próprio coração partidoUma nova forma de amar.
E a noite, antes sepulcro,Fez-se trono, fez-se fulcro;Do silêncio nasceu o músculoDa coragem sem igual.Porque toda alma ferida,Quando enfrenta a própria vida,Ergue, acima da ruína vencida,Sua imortal catedral.
