Faz de Conta Qu eu Acredito
Eu não sei como nem por qual motivo eu me vi cantarolando "Always" do Erasure e pensando nele e querendo, desejando estar com ele e beijá-lo até perder o fôlego. Fiquei aflita com isso, confusa, estranha...Porque meu corpo queima de dentro para fora quando penso nele e parece ser quase impossível conter esse incêndio dentro de mim. Então eu já nem quero fugir e quero é sair correndo para os braços dele e me sinto tão idiota por isso!
Ele beijava minha boca, meu corpo e entardecia lá fora. O sol beijava o mar, eu não conseguia tirar minhas mãos dele e pensei em como não havia outro lugar no mundo onde eu quisesse estar. Naquele momento não havia concursos, processos urgentes, telefones tocando, dramas familiares ou ansiedade. Só havia nós. O mundo todas desaparecia enquanto eu o abraçava e eu pensava que não queria soltá-lo nunca mais.
Então eu entendi. Eu deveria ter entendido antes. A vida me deu vários sinais que eu tinha ignorado e ela precisou me dar um solavanco, um soco no estômago, um beliscão para eu acordar. Um cara me mandou um nudes e eu só visualizei, totalmente desinteressada. Outro cara gatíssimo surgiu e eu não senti a menor vontade de ficar com ele. Eu perdi o apetite quando saí com o cara que eu estava ficando - eu, que como um boi pela perna, que dou prejuízo para os restaurantes, que faço as pessoas passarem vergonha quando saem comigo de tanto que como - eu perdi o apetite! Mas nem assim, nem desta forma eu acordei e foi somente quando eu vi a forma como eu olhava para ele na foto foi que eu percebi que estava me apaixonando. Foi só ao ver minha cara de boba que tudo fez sentido. Isso é uma tragédia! Ou será uma dádiva?
Eu gosto disso, gosto deste cuidado. Gosto de ele me dizer para pegar um casaco porque esfriou e ele não quer que eu passe frio porque se preocupa comigo. Gosto da sensação de ter alguém cuidando de mim e de me sentir protegida e de pensar, secretamente, que eu gosto de pertencer a algo ou alguém, mesmo que ele não saiba disso. E nem vai. Ele não precisa saber o quanto povoa meus pensamentos ou o quanto eu gostaria de estar com ele neste momento, nem que fosse para fazer algo simples como ouvir uma música e olhar o pôr do sol, algo que eu amo fazer.
"Meu ar de dominador dizia que eu ia ser seu dono e nessa eu dancei" já cantava Djavan e eu penso que eu posso dançar também e eu nem sei dançar...então eu vou despencar. Eu queria brigar com ele e me atirar no chão, esperneando como uma criança, e dizer que ele conseguiu. Ele me fragilizou e me fez escrever de novo porque eu possivelmente estou apaixonada por ele e isso me aterroriza. Isso me aterroriza porque eu amo a forma como o meu mundo está colorido e sinto medo de perdê-lo.
Querido, eu tenho evitado te escrever porque sabia que, quando pegasse na caneta e rabiscasse alguns versos, meu coração começaria a sangrar. Contudo, parece que agora a hora chegou.
Eu não consigo viver sempre na corda bamba da incerteza. Eu sou feita de certezas, de pontos de exclamação e de pontos finais quando necessário. Seu excesso de pontos de interrogação foi até fofo no início, mas, com o tempo, esgotou. Com o tempo, me esgotou. Não se pode viver em cima do muro pelo resto da vida, Humpty Dumpty, porque, quando chega a hora, é preciso saltar sem hesitar.
Eu te amei, querido, em cada estação, em cada música de amor e em cada momento de nós dois, mas amar não significa engolir todas as frustrações e lutar por tudo sozinha. Relacionamento é um ato bilateral, meu bem, e ninguém aqui é Atlas para carregar o mundo inteiro nas costas.
Esses dias, eu fui ao trapiche da beira-mar despachar um adoçamento que fiz para você e, assim que vi o papel desaparecer e afundar no mar, senti paz. Foi como se, simbolicamente, tivesse jogado suas cinzas ao mar. Não entenda mal, eu não quero que você morra, mas, simbolicamente, estou te matando no meu coração. Eu enterro vivo esse amor, tranco-o numa caixa escura e o deixo morrer de fome, sede e falta de luz solar.
Na sequência veio a barganha e eu quis me esbofetear por sentir saudades e lembrar dos bons momentos como uma boba apaixonada. Eu mesma me recriminava por sentir saudades, como se houvesse uma luta, uma guerra civil dentro de mim, ora querendo ele de volta, ora querendo extermina-lo.
Eu sei que tem doído, doído constantemente, deveras, de forma latente e eu subestimei o modo com esse término me afetaria. A madrugada, contudo, para mim, sempre foi um período cheio de epifanias e em uma dessas noites eu me surpreendi lembrando da citação de Clarice que diz que escrever uma maldição, mas uma maldição que salva. É curioso como podemos esquecer de nós mesmos em meio a dor. Nosso corpo entra em estado de alerta e tudo que sentimos é dor, tudo que vemos é a perda e ficamos anestesiados para o resto do mundo. E quase que eu me esqueci que o tempo não para nem vai esperar. E quase que eu me esqueci que na minha vida, nos momentos de crise, o mergulho na poesia foi sempre minha salvação. Escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva e que já me salvou incontáveis vezes ao longo da vida. Eu não sei por que fui amaldiçoada com poesia desde cedo, mas se essa maldição já me libertou antes, ela pode muito bem me libertar de novo.
Talvez escrever exorcize minha dor… Talvez a salvação apoteótica estivesse dentro de mim o tempo todo e eu estivesse concentrada demais naquilo que não foi para perceber… Talvez eu tenha sim me perdido no meio do caminho e esteja voltando a me encontrar.Shakspeare menciona na peça “O menestrel” , uma das quais aprecio muito, na verdade, que é necessário plantar seu jardim e decorar sua alma, em vez de esperar que alguém lhe traga flores.
Eu esperei por flores por tempo demais, mais do que seria saudável para alguém esperar e eu pude contar nos dedos as que efetivamente recebi. Esta semana eu iniciei minha horta, voltei a malhar, coloquei os pés na terra e lembrei de me nutrir, porque eu posso perder algumas folhas secas no meio do caminho mas não as minhas raízes.
Espero ser capaz de amar de novo no futuro, ser amada com reciprocidade e ter ao meu lado alguém que tenha coragem de lutar por um futuro comum. Eu acho que eu mereço isso.
Espero que esse veneno se dissipe e a dor estanque de uma vez. Até lá eu sangro, vou sangrando, vivendo, estudando, escrevendo e me nutrindo das coisas boas que a vida colocar no meu caminho. Perdoe o gerúndio assassino, a hipérboles e minhas imperfeições
No campo de batalha pessoal está o meu eu que joga sujo e o outro eu que joga limpo...a única competição digna de minha atenção.
Sempre me colocaram no topo e eu quis descer de lá; quero viver a minha vida e não às expectativas dos outros.
Eu amaria sem medo a liberdade se você me tratassem com a insignificância que diz que sou... pois onde há incoerência, não há liberdade.
Estou cansada de não fazer nada mas é como se eu pudesse fazer e não quero assumir a responsabilidade e é aqui que a culpa e distância consiste o cansaço.
Na sua opinião, o que é mais provável: um jumentinho sustentar um homem ou um corvo? Eu sei que você dirá um jumentinho. Eu também diria isso, mas para minha e sua confusão, Deus usou um corvo, ou corvos, para sustentar o profeta Elias. Amigo, quem pode impedir a maneira estranha como Deus atua na Terra?
Quando eu percebo que tudo está cooperando para eu não louvar, eu louvo. Quando eu percebo que tudo está cooperando para eu não orar, eu oro. Quando eu percebo que tudo está cooperando para eu desistir, eu não desisto.
Eu já vi Deus tirar homens do fundo do poço, e também já vi Deus saciar a sede de quem estava na beira do poço.
