Eu sei que tem doído, doído... A.P.B

Eu sei que tem doído, doído constantemente, deveras, de forma latente e eu subestimei o modo com esse término me afetaria. A madrugada, contudo, para mim, sempre foi um período cheio de epifanias e em uma dessas noites eu me surpreendi lembrando da citação de Clarice que diz que escrever uma maldição, mas uma maldição que salva. É curioso como podemos esquecer de nós mesmos em meio a dor. Nosso corpo entra em estado de alerta e tudo que sentimos é dor, tudo que vemos é a perda e ficamos anestesiados para o resto do mundo. E quase que eu me esqueci que o tempo não para nem vai esperar. E quase que eu me esqueci que na minha vida, nos momentos de crise, o mergulho na poesia foi sempre minha salvação. Escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva e que já me salvou incontáveis vezes ao longo da vida. Eu não sei por que fui amaldiçoada com poesia desde cedo, mas se essa maldição já me libertou antes, ela pode muito bem me libertar de novo.
Talvez escrever exorcize minha dor… Talvez a salvação apoteótica estivesse dentro de mim o tempo todo e eu estivesse concentrada demais naquilo que não foi para perceber… Talvez eu tenha sim me perdido no meio do caminho e esteja voltando a me encontrar.Shakspeare menciona na peça “O menestrel” , uma das quais aprecio muito, na verdade, que é necessário plantar seu jardim e decorar sua alma, em vez de esperar que alguém lhe traga flores.
Eu esperei por flores por tempo demais, mais do que seria saudável para alguém esperar e eu pude contar nos dedos as que efetivamente recebi. Esta semana eu iniciei minha horta, voltei a malhar, coloquei os pés na terra e lembrei de me nutrir, porque eu posso perder algumas folhas secas no meio do caminho mas não as minhas raízes.
Espero ser capaz de amar de novo no futuro, ser amada com reciprocidade e ter ao meu lado alguém que tenha coragem de lutar por um futuro comum. Eu acho que eu mereço isso.
Espero que esse veneno se dissipe e a dor estanque de uma vez. Até lá eu sangro, vou sangrando, vivendo, estudando, escrevendo e me nutrindo das coisas boas que a vida colocar no meu caminho. Perdoe o gerúndio assassino, a hipérboles e minhas imperfeições