audreyponganborteze

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Era sábado à tarde, primavera e Caetano cantava "Queixa" enquanto ele atravessava a rua de mãos dadas comigo e eu segurava o vestido com a outra mão para o vento não levantá-lo. A música invadia a praça, as pessoas cantavam, riam, bebiam e ele me girava numa dança improvisada. Caetano parecia cantar para nós e eu nem sabia quem tinha arrasado quem nessa nossa atração magnética, hipnótica, apocalíptica...

Há momentos, lugares, frases, sensações e vivências que são eternas, marcantes, como se tivessem sido escritas com tinta permanente no meu coração.

Querido, eu tenho evitado te escrever porque sabia que, quando pegasse na caneta e rabiscasse alguns versos, meu coração começaria a sangrar. Contudo, parece que agora a hora chegou.

Eu não consigo viver sempre na corda bamba da incerteza. Eu sou feita de certezas, de pontos de exclamação e de pontos finais quando necessário. Seu excesso de pontos de interrogação foi até fofo no início, mas, com o tempo, esgotou. Com o tempo, me esgotou. Não se pode viver em cima do muro pelo resto da vida, Humpty Dumpty, porque, quando chega a hora, é preciso saltar sem hesitar.

Eu te amei, querido, em cada estação, em cada música de amor e em cada momento de nós dois, mas amar não significa engolir todas as frustrações e lutar por tudo sozinha. Relacionamento é um ato bilateral, meu bem, e ninguém aqui é Atlas para carregar o mundo inteiro nas costas.

Eu o amo com um amor que me queima a alma, mas eu não posso te pegar no colo a vida toda