Eu Errei me Perdoa Poesia

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TRÊS DIAS
Um dia eu morri por três dias
E no paraíso minha tia Zilda ainda falava
De Engenheiro Pedreira como se fosse uma
Daquelas longínquas cidade do faroeste americano
Imaginei que tudo fosse um engano
E no meu sonho vi no jardim do paraíso
Jésse e seu irmão Frank James
Pensei: -que que esses salteadores fazem aqui?
Vi José "Malamuerte" Almada,
Caçador de recompensa
Que apavorava no Novo México;
E um punhado de ladrões de gado
Que sitiavam Tombstone, no Arizona
"O que esses bandidos fazem aqui no céu?
Parecia meio cruel mas ali mesmo no Guandu
No leito caudaloso do rio, os presuntos boiavam
Levando o terror causando calafrio
Era a faxina que o esquadrão da morte
Executava nas cercanias
Muita gente morreu para essa limpeza,
Talvez mais do que devia,
Mas ninguém nada via, ninguém nada sabia...
E pela manhã a sabiá cantava,
As flores floresciam
E tia Zilda aguava as trepadeiras,
As samambaias e as flores do jardim
Cantava uma canção antiga
Como se fosse eterna a vida, e a vida era assim...

Inserida por tadeumemoria

Eu ainda tenho uma certeza: azul é o céu
e a certeza de que estou bem perto
do que é perto de felicidade...

Inserida por tadeumemoria

SEM REAIS
Com cem reais eu compro
Dúzia e meia de jumentos,
Cada jumento trabalha por dez homens
E tem apenas um centésimo dos seus gastos,
Com cem reais, por um mês
E quinzena eu os alimento,
Quem precisa de homens,
Se temos vastos pastos
E resistentes cascos;
Com cem reais compro
Não sei quantas rapaduras,
Farinha e centenas de avoantes,
E antes que chegue o inverno,
Viro poeta e aprendo
A sonhar com a invernada
E nada que se diga de seca
Atravessa aquela cerca,
Nada que se fale de estio
Secará meus lagos ou rios
Com tudo isso compro o olhar
E a gratidão de severina
Compro as fantasias
E tudo que ela imagina;
Suas aspirinas e novalgina pra suas febres,
Compro a eternidade e suas utopias;
Mesmo que a seca mate meus jumentos;
Que as rapaduras me tragam diabetes
E o IBAMA me processe pelas avoantes;
Antes de todas as doenças
E todas as sentenças
Serei romântico e farei dez filhos,
Que me darão setenta netos
Aos quais ensinarei que com cem reais
Sob o sol causticante
E ilusões de algum inverno
Compra-se amor e sentimentos ternos
Os prazeres dalguma severina
E a aridez da vida naufraga nessa luta,
Nos sonhos, na fé, nos carinhos divinos
Dessa brisa que Deus acaricia na pele mestiça
E postura valente do povo nordestino

Inserida por tadeumemoria

MARROM

A aeronave me esperava imponente

Eu demente de medo

Se algo de ruim acontecer

Não conte meus segredos;

Um dia perceberão que sou o grande poeta desse país,

Comentarão AMORAMORA

Mas então brincarei com os anjos...

Depois de uma existência pobre

Diga a alguém que muito amei

E que meus sentimentos e ressentimentos são nobres

Que além disso, acreditar na humanidade

E a loucura me fez poeta....

Queria ter falado mais de amor, mas é tão difícil,

Os edifícios tolhem os horizontes,

Os nascentes e os ocasos,

Não comente sobre mal resolvidos casos

Eu te amo demais, eu amo todos vocês,

Perdoem o mal jeito e a minha insensatez

Eu devia ter sido mais forte, eu devia ter tido mais sorte

A aeronave me espera imponente,

Publiquem meus poemas decentes

Desfrutem escondidos dos poemas indecentes,

Mas não comentem este lado marrom

Façam-no acreditar que eu era bom

A minha grande frustração é o país sem leis

E a corrupção me faz desejar ter nascido francês

A aeronave me espera imponente...

Inserida por tadeumemoria

ÓPERA

Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho

Mas tem um grilo que cricrila pela noite afora

Ele conversa sobre os medos da noite

E tem os gatos; e os gatos cantam

Como só os gatos sabem de ópera

E eu roubo-lhes as vidas

Já tenho sete, afora o infarto

Conversei com Deus nesse dia

Vi Maria na última travessia da Dutra


Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho

Mas o negro que vejo no antigo engenho

Tem cicatrizes nas costas,

Mas tem prosas bonitas de Angola

E derrama poesia quando fala de sinhá

E quando não fala de nada

Eu percebo o meu Brasil moreno

Tão rico, tão grande, tão pobre e pequeno

Que eu namoro as namoradas que não são minhas

E as minhas namoradas não namoram comigo

E eles pensam que eu não tenho nada e eu nada tenho

Porque o que eu tenho é sentar na calçada

E olhar a lua, as estrelas e o firmamento

E tudo isso já pertence a russos e americanos

Eu não tenho nada e eles pensam que eu nada tenho

Mas eu tenho a magia das palavras

Essa coisa que me instiga e me oferece a ilusão mambembe

De que eu de nada preciso

Que o resto é abstrato, o resto é engano...

Inserida por tadeumemoria

MORANGO
Eu ainda tinha um ideal
Mas esse capitalismo consumia os sonhos
E o que eu escrevia era romântico demais
Pra filosofias tão ocidentais;

Eu ainda não me estabelecera,
Aliás meu sonho era exatamente a instabilidade;
O azul anil desse vazio me acolhia
Como um astronauta perdido
Entre morcegos, meteoros e cometas...

A ilusão é o meu pilar,
A abstração é se realizar...
As tuas narinas me atraiam
E a tua língua parecia um morango
Dançando como uma oferenda
Ao som das tuas palavras;
Abstrato, eu te possuiria por todos os poros,
Astronauta eu te levaria a virgem
E virgem você me levaria a qualquer devaneio
Eu ainda tinha um ideal
Quando não tinha ideia do que era a castidade,
Como ela consome o que temos de casto,
Minha via láctea era teus seios
E hoje eu ceio os tão bem nos meus sonhos
Quando eu falo de abstração
Não é aquilo que eu falo aos teus ouvidos,
O que eu falo se derrama sólido entre sussurros
Embaçando a luz do abajur
Abstrato não é o que respinga no teu rosto
Que humilha, profana, mas apraz
Abstrato é o que trava na garganta
Ao perceber que perdemos a ingenuidade
Sem ingenuidade perdemos nossos sonhos
E sem sonhos castramos os ideais...

Inserida por tadeumemoria

Na adolescência eu era um anjo triste

Desses que perambulam,

que caem, que existem

melancólicos, sonhadores,cinzentos

Como os finais de tardes dos dias invernosos

A minha solidão respingava nas vidraças

Como a neblina fria jogada pelo vento

Que doía fundo na minha carapaça

E a minha angústia,

a dor daquele sentimento

A solidão de me sentir sozinho

Não era solitária, era uma multidão

E como cada um faz seu rumo, seu destino

De fazer da multidão, a sua poesia

Aquele garoto triste um dia teve o tino

Inserida por tadeumemoria

PROCISSÃO

Quando eu não tiver nada ainda terei as palavras

Terei o silencio e a virtude de saber não possuir

E as minhas palavras dar-se-ão as mãos

Numa ciranda a cantar poemas a edificar a solidão

E a minha solidão povoa,

Pavão, pavoa, encantos, penas e cantos

Leitos, lagoas, embarcação, canoas

Uma procissão, uma novena,

Meu verso vai de Tóquio a Cartagena

Porque minhalma não é pequena,

Minha estrofe é forte e minha verdade serena

E o meu silencio não dói; não dói quando passa a tarde

Quando passa o rio, quando passa o vento,

O meu silencio só dói quando passa o sentimento

Inserida por tadeumemoria

EU VI
eu vi um homem que não era mais homem
e tinha um olhar que não era mais seu
e tinha a ausência de todos os fantasmas
e tinha a asma de todos os gatos
e tinha os mistérios dos cemitérios
a pele morta, sem vida,
dentes sem precedentes
um odor inconcebível;
não era mais um ser vivente,
por mais que parecesse gente,
não era um cachorro,
os cachorros são felizes e são gratos,
os gatos têm orgulho,
era maior que um rato em tamanho,
mas revirava o lixo
com a ânsia desse bicho
eu vi um homem que não era mais homem
ou vi um bicho que não era mais bicho

Inserida por tadeumemoria

Eu fiz um samba tão triste

que quando saiu minha escola

desabou um temporal


chuva, vento e trovoada

e a minha batucada

parecia um berimbau


a letra do samba enredo

citava mistérios e segredos

de um sobrenatural


sob o frio tive medo

tremi voz, pernas e dedos

suei frio e passei mal

Inserida por tadeumemoria

eu tenho um olhar

somente um olhar

na manhã a passar na calçada

e os sonhos que eu tive

de um dia sonhar com a manhã

já passaram

ficou meu olhar

a olhar

o olhar da manhã a passar

Inserida por tadeumemoria

PREFÁCIO

Trinta anos atrás eu amanhecia,

Encantado com as espumas

Que as ondas provocavam

Ao baterem impertinentes contra o quebra-mar

E politicamente radical

Com os cachos dos meus cabelos castanhos

Ou o black power do meu irmão; eu era um contestador

Há trinta anos atrás a gente sorria mais fácil

E era mais fácil ser politicamente radical

Há trinta anos atrás bastava um sonho,

Uma postura e a ilusão da democracia;

As utopias revigoravam nossa ideologia

Há trinta anos atrás,

Eu só tinha trinta anos

E trinta Anos era uma eternidade,

Agora eu tenho duas eternidades

E este desejo que arde

Como se eu tivesse treze anos

Cronologicamente o meu cérebro não se deu conta

Que passou tanto tempo

E meu coração não se deu conta de seus efeitos.

Ainda me encanto com o alvorecer,

Com os tons de cada estação,

Com os pássaros, com o que vejo ou só imagino...

Com essa coisa nova que tilinta, que sussurra, que sopra,

Que canta, que me desperta

Que me faz correr como se eu fosse um menino

E então qualquer momento é uma eternidade...

E eu sonho... é o meu destino...

Eu sonho...

Inserida por tadeumemoria

TEMPO

O tempo já levou o meu olhar faz tempo...

Faz tempo que eu olhava o tempo

Com a esperança vã de um dia em algum tempo

Que essa coisa toda que envolve a gente...

Nem sei se é assim...

Mas pelo menos em mim, faz tempo...

Sempre quis entender, mas essas coisas do coração...

O tempo foi passando e passou o tempo do entendimento

Agora eu só percebo que o silencio

Vai além do que comove e o que se locomove

Rodopia com a poeira dos meus pensamentos...

Eu sei que vou sonhar ainda até que entenda

Que o tempo já levou o meu olhar faz tempo

Faz tempo que eu tento entender o que se passa

E não passa este acreditar no amor,

Esse ter fé e esperar nos meus pressentimentos

Faz tempo que eu olhava o tempo,

Faz tanto tempo... tanto tempo, que naquele instante

Que ainda não era o nosso tempo e as nossas mãos

Se uniam a tecer a eternidade

E éramos deuses de todos os momentos

Que nem percebemos o galopar veloz

Desse corcel indomável que se chama tempo

Inserida por tadeumemoria

FILHO DO SILÊNCIO

filho do silencio, eu e escutei cantigas antigas

que a ternura doce e materna soprava na brisa;

tinha a beleza de tudo que a infância embeleza,

a beleza do que não é belo, mas embeleza o espírito,

a beleza porque tudo é novo quando se é criança...

e tudo é paixão quando se tem espaço no coração;

guardei sorrisos, olhares, palavras,

alguém que passava mas deixava o perfume,

alguém que falava ou balançava os quadris,

alguém que só existisse na minha imaginação;

que contemplasse o que tivesse movimento, aroma e luz,

armazenei colinas e silhuetas, o que cintilasse, o que gorjeiasse,

o que sorrisse, o que vibrasse, o que silenciasse;

porque às vezes silenciamos para as coisas que partem

ou para o que não temos explicação

e assim eu me tornei filho do silêncio

quando silenciei pro meu pai, pra minha mãe,

pra todas as despedidas, pra tudo o que partia,

pra tudo o que se partia

e me transformei em órfão dos sonhos, das promessas, dos ideais...

Inserida por tadeumemoria

Eu sempre quis de ti o que era fugidia

O que era fugaz, o que era quase ou por um triz
A loucura da procura, a aventura da caça;
Eu sou um predador...
O difícil de querer me seduzia,
Mas quando eu via e pegava,
Desacelerava, morria o interesse da caçada;
O prazer se reduzia a quase nada...
Acho que amo os desencantos
Eu não queria ser assim...

Se algum dia eu sonhar com algo que não for poesia,
Se algum dia os desencantos não me encantarem,
Talvez eu esteja preso
Entre tuas pernas e os teus braços
No abraço do poema do prazer,

Como se a vida fosse alguns gemidos de paixão ou de amor
Mas a vida é uma selva e eu sou um predador

Inserida por tadeumemoria

A coisa mais bonita do mundo dá uma ansiedade,

Quando não acontece dá uma saudade

Então eu penso que o mundo dá tantas voltas...

E eu não mudo... já ficou tarde e eu ainda penso em você

Uma canção de longe quando amar não era brega

Me devolve momentos bonitos,

Agora eu fico aflito e tenho que obedecer regras

Mas nada impede que eu sonhe e acredite no verso

O amor é sem dúvida todo esse universo

Inserida por tadeumemoria

ALGO NOVO
Eu queria te dizer alguma coisa nova...
Mas parece que tudo já foi dito;
Inédito mesmo só o que deixamos de viver...
Então eu digo: desculpe-me por tudo o que fiz,
Eu já me perdoei pelo o que não fiz...
Corriqueiro, sempre digo:
Me arrependo mais pelo que deixei de fazer;
E não são raras as vezes que eu questiono
Meu Deus, o mundo ainda não acabou!...
O mundo ainda não acabou. Somos sobreviventes...
Vencemos o tempo; o tempo de todas as coisas,
O tempo de olhar os horizontes... de observarmos os pássaros,
De ouvirmos a brisa...
Perdoa por tudo o que fiz eu já me perdoei pelo que não fiz...
Isso clareou meus cabelos, riscou meu rosto
E as noites são longas, perdidas nos abraços
Que deixamos de dar...
Em tudo o que deixamos de entender...
Mas isso já foi dito; eu queria te dizer algo novo...
mas alguma coisa esmaga o silêncio...
Uma verdade pesada, numa manhã luminosa,
Uma luz intensa... que não cabem nas palavras...

Inserida por tadeumemoria

DEZ OLINDAS
se ela não fosse bonita
com a beleza que eu vejo
ela já era linda

mas ela era bonita
com a beleza que eu penso
e a beleza que eu penso,
penso mais que dez Olindas

tinha todos os deslimites
que a beleza do mar
tinha a imensidão do sonho
e o sonho imenso de amar

Inserida por tadeumemoria

eu vou chorar sozinho no meu canto
me valendo do meu santo
olhando os astros, eu canto baixo,
eu sussurro o meu encanto
enquanto for assim,
por mais que doa em mim
vai ser melhor que dor nenhuma...
eu vou mudar desse lugar,
pra Irajá ou Inhaúma
vou me esconder desse desejo...
eu vou blindar meu coração
com brisa e mar e algum vinho
eu vou ficar sozinho no meu canto,
eu mereço esse castigo...
ainda tenho as lembranças,
ainda tenho tudo que eu pensava que tinha,
eu fico mudo nessa ilusão,
de dores e angústia eu me fiz
não se atormente, eu cuido bem desta agonia,
vai ser feliz
eu vou ficar quietinho no meu canto...

Inserida por tadeumemoria

DOLCE AMORE MIO
Um dia eu apareço no teu sonho
E te mostro o tamanho do meu coração,
Um dia eu te mostro
Como a minha paixão é densa...
Pensa numa coisa imensa sobre outra coisa
E entra e sai...
E entra e sai e coisa numa coisa intensa
Compensa qualquer sacrifício
Esse é o meu ofício,
É um vício, é ócio, são ossos do ofício...
Um dia eu apareço e te mostro
Um dia eu te mostro o mastro da minha paixão,
Navio a cortar vagas,
A vagar no cio desse teu desejo,
Um dia eu apareço...
Um dia eu apareço, dolce amore mio...

Inserida por tadeumemoria