Eu ainda tenho Tempo pra Sonhar
Os dias, as estações, os anos... tudo isso é regido pelo movimento da Terra ao redor do Sol. Isso é mágico, quase um milagre.
Esse ritmo sagrado intercala luz e escuridão, frio e calor, flores e galhos secos... tudo é regido por esse movimento.
Então aprendemos a fatiar o tempo e inventamos calendários - tempo de trabalho intercalado por tempo de festa; tempo de sonhar e tempo de correr atrás dos sonhos; tempo de usufruir dos sonhos realizados e tempo de inventar novos sonhos. E tudo isso confere significado à nossa vida, esse movimento é como o sangue que corre nas veias e permite que a máquina perfeita do corpo abrigue o Espirito Sonhador.
E de repente quando o Alzheimer escancara as portas desse ritmo conhecido e confortável, toda a vida desanda e estaciona, como se o Tempo parasse e nós ficássemos suspensos em um agora eterno e angustiante.
A noite não é tempo de dormir e refazer as forças, porque o cuidador não dorme e o paciente vive um tempo estranho a este mundo; as horas do dia são imprevisíveis e cada minuto pode ser mais assustador do que o anterior; domingo é igual a segunda e terça e quarta... todos os dias são iguais.
E era exatamente igual ao Natal, Páscoa, segunda-feira passada...
Rompe-se a coluna do Tempo e estamos suspensos. Todos os dias e noites são iguais, sem sonhos, metas, brincadeiras, só susto, medo, trocar fralda, lavar roupa, fazer curativo e chorar escondido.
O Alzheimer rasga o calendário.
Mas o calendário foi criado por humanos, fomos nós que dividimos o tempo em fatias, nós inventamos o tempo de celebrar e tempo de construir.
Então eu posso reinventar o calendário, isso faz parte do talento humano.
Hoje é domingo. Tempo de celebrar.
Embora tudo ao meu redor seja assustador, eu posso colocar música, posso trazer mamãe para almoçar na sala e enfeitar a mesa; posso oferecer sorvete de sobremesa e quem sabe, dizer para ela que hoje é seu aniversário e vamos cantar parabéns.
Hoje é domingo e eu posso pegar uma flor do jardim e colocar um vaso bonito ao lado da cama, e avisar que chegou a Primavera.
Hoje é domingo e eu posso cantar com ela aquela música, que cantávamos quando eu era criança e rir da nossa loucura lúcida.
E quando ela me perguntar:
- Que dia é hoje Mirinha?
Eu posso dizer, sem nenhuma censura:
- Hoje é dia de celebrarmos o milagre da Vida. O planeta todo está em festa, porque hoje é dia da dona Nena.
E vamos celebrar juntas, porque a imaginação é mais poderosa do que qualquer outro talento humano.
Tempo
Mais um dia,
Mais um mês,
Um ano. . . uma vida.
Desejo a todos os povos,
Nesta época festiva,
Carnaval cheio de Páscoas...
Natal cheio de Anos Novos....
Se soubesse antes
que meu ontem hoje ia acabar
transformaria ele em memória
e me lembraria agora o que comi
no café da manhã
no almoço e no jantar
O tempo passou, entretanto, as memórias dos momentos tão bons, impactantes, eternizaram-se no recôndito do meu coração.
Mas viver sem manual vai demorar 100 anos. 😳😁. Sejam Bem-vindos à VIDA, onde viver é essencial para enxergar sua grandiosidade. Viva a vida para vê-la, e apenas aqueles que tiverem a oportunidade de testemunhar sua jornada verdadeiramente viverão. Mas lembre-se, não se preocupe com o tempo, afinal, é na longevidade das experiências que encontramos a verdadeira ironia da VIDA.
"Quando estou com você o tempo insiste em correr e quando me assusto já não estamos mais ali só eu e você. O tempo não para."
Daqui à 100 anos, todos estaremos enterrados, com nossos parentes e amigos. Estranhos viverão nas nossas casas e terão tudo que hoje é nosso...todas nossas propriedades serão de desconhecidos que sequer nasceram ainda!
Nossos descendentes nem se lembrarão de nós depois da nossa morte. Alguns poucos se lembrarão, por pouco tempo, depois só um retrato na estante de alguém, que também não será duradouro. Se pudéssemos, nesse momento póstumo, pensaríamos o quão tolo é querer ter tudo...trocaríamos esse tudo por viver mais, desfrutar de passeios que nunca tivemos, dos abraços que não demos, do amor que não compartilhamos, esses momentos que encheriam nossas vidas de alegria, e desperdiçamos.. dia após dia. Mas ainda há tempo de mudar, se não o desfecho, pelo menos o trajeto!
Um dia nós vamos compreender que pouco importa o tempo que uma pessoa ficou na nossa vida, mas o quanto dela ficou dentro de nós.
Quanto tempo perdido, quando insistimos em colher flores nos solos secos, muito áridos, e pedregosos.
Em criança, o tempo não existe intelectualmente, tampouco no relógio. O tempo é alteridade. São os outros que o marcam através da sua austeridade, adentrando ou abandonando, o nosso tempo-espaço. São os pais, mais saturninos ou mais uranianos, que marcam o seu compasso.
