Estava um Pouquinho Ocupado Desculpe me

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Tu percebe que passou doze horas fingindo que tá tudo bem, mas a verdade é que tu só estava empurrando as horas com a barriga.

Você só precisa de uma noite para enlouquecer, o que há muito tempo estava normal.

No tempo certo e na vontade Dele, Deus faz acontecer em dias o que em anos estava travado.

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO*
Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali.


Isso acontece mais do que eu gostaria.


Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor.


O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei.


A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados.


Eu tinha um cigarro aceso.


Não lembrava por que tinha ido fumar.


Isso me pareceu mais importante do que deveria.


Sentei.


Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez.


Não consegui.


Deixei de volta.


O gato abriu um olho.


— Também não sabe?


Ele fechou o olho novamente.


Talvez estivesse dormindo.


Talvez apenas não tivesse interesse na conversa.


Eu respeitei.


Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los.


Eu não estava.


Ainda não estou.


Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas.


Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar.


Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim.


Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado.


Mas a frase ficou.


Algumas frases fazem isso.


A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as.


Levantei para buscar mais uísque.


Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali.


Voltei para a varanda com a garrafa.


O gato tinha mudado de posição.


Só isso.


Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição.


Talvez fosse esse o problema.


Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão.


Ele não produziu.


Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes.


Talvez tenham sido.


Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo.


Um homem de vinte anos.


Um homem de trinta.


Outro aos quarenta.


Todos com o mesmo nome.


Nenhum deles me pediu autorização.


Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim.


Eu tive a impressão de que olhou para mim.


Ela continuou.


Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto.


Não voltou.


Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando.


Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia.


Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada.


Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim.


Mas não havia plateia.


Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina.


O gato levantou.


Caminhou até a borda do jardim.


Parou.


Olhou para o outro lado da rua.


Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa.


Ele não fez.


Depois entrou em casa.


Fiquei sozinho.


Pensei novamente naquela frase antiga.


Rascunho.


Plano.


Tempo.


Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final.


Não sei se isso é covardia.


Talvez seja.


Também pode ser apenas hábito.


Acendi outro cigarro.


Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore.


Pensei nas coisas que deixei pela metade.


Algumas por falta de coragem.


Outras porque perderam o sentido.


Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho.


Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas.


Não para entrar.


Só para verificar se continuavam fechadas.


Achei isso ridículo.


Depois pensei que talvez fosse apenas humano.


O céu começou a escurecer.


A luz da varanda acendeu sozinha.


A caixa de fósforos continuava sobre a mesa.


Peguei-a novamente.


Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha.


Coloquei no bolso.


O cigarro terminou.


Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução.


Não veio.


Joguei no cinzeiro.


Eu poderia ter ido para dentro.


Não fui.


Talvez ainda esperasse alguma coisa.


Não sei o quê.


Uma resposta.


Uma lembrança.


Uma vontade antiga.


Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa.


Nada aconteceu.


E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali.


Sem resolver.


Sem concluir.


Sem transformar a tarde em uma explicação.


A rua continuou.


A árvore continuou.


Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa.


Fui ver.


Era apenas um copo vazio no chão.


Peguei o copo.


O gato já estava no corredor, indo embora.


Fiquei olhando.


Depois apaguei a luz da varanda.


A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem.


E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado.


Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.

"Ele sangrou em silêncio, caiu sem que vissem… mas sorriu no fim, porque sabia por quem estava de pé."

"Ela não estava ficando careca. Estava ficando nua diante da vida… e mesmo assim, escolheu continuar."

"Crescer dói. Principalmente quando você descobre que estava cercado de gente pequena."

“Era só uma foto — mas nela estava tudo o que eu precisava pra aguentar o resto do mundo.”

Passei tanto tempo procurando alguém que me encontrasse que esqueci de perguntar se eu ainda estava onde havia deixado a mim mesmo

Ambiguidade

Não confunda alhos com bugalhos!
Ontem eu encontrei você.
Estava linda,
pronta pra sorrir.
E lembrei da carta
que lhe escrevi.
Eram só palavras,
sem qualquer significado especial.
Mas você nem leu.
Nem sorriu pra mim.
Era só um sonho.

O grito que estava sufocado dentro de mim, se libertou por meio das minhas palavras.

A superficialidade
estava entediada e inquieta...
e sorrindo, decidiu perguntar à profundidade por que ela era assim tão calma e triste.


a profundidade respondeu assim:


- Para saber...
basta olhar para si mesma
com a superfície dos meus olhos.


A superficialidade riu, leve,
quase distraída, como quem
não entende o peso
de uma pergunta.


- Ora, eu me vejo todos os dias, disse,
clara, brilhante, cheia de movimento e
não há mistério em mim.


A profundidade silenciou por um instante,
como quem escuta o que não foi dito,
e então falou, mansa:


- É justamente isso.
Tu te vês apenas onde a luz toca,
onde o reflexo te devolve intacta.
Mas não te conheces
onde a luz não ousa ficar.


A superficialidade hesitou,
um segundo apenas,
como se algo tivesse roçado
as margens do seu entendimento..


- E o que há lá? ( perguntou)
já sem o mesmo sorriso.


A profundidade respondeu:
- Há o que sustenta o que tu mostras.
Há o que dói, o que cria,
o que transforma.
Há silêncio,
e no silêncio, verdade.


A superficialidade então se inclinou,
curiosa e receosa, tentando enxergar
além do próprio brilho…
Mas recuou.
- É escuro demais.


E a profundidade, sem julgamento,
apenas concluiu:
- Não é escuro…
é vasto.
Imensamente vasto,
como a linha do horizonte
sobre o oceano.


A superficialidade
então ficou em silêncio,
pela primeira vez sem pressa,
sem brilho e sem resposta pronta.


Algo nela vacilou,
não como quem quebra,
mas como quem percebe
que nunca se sustentou sozinha.


E ali, à beira de si mesma,
entre o reflexo e o abismo,
sentiu um chamado
que não vinha de fora.


A profundidade apenas permaneceu,
como o mar que não insiste,
mas espera.
E, por um instante rar
a superficialidade não quis parecer,
quis entender.


Mas o entendimento,
assim como o oceano,
não se atravessa correndo.


É preciso,
com calma corajosa,
nele afundar.


©️✍@MiriamDaCosta

Estava aqui pensando no caminho que percorremos até chegar a este exato momento. Lembra-se de quando éramos apenas dois jovens, selvagens e livres, achando que o mundo era pequeno demais para os nossos planos? Olhando para trás, vejo que a maior aventura não foi o que fizemos lá fora, mas o que construímos aqui dentro.
​Já passamos por tantas coisas — altos e baixos, estradas difíceis que testaram a nossa paciência e o nosso coração. Isso tudo ficou para trás. Hoje, quando olho para você, entendo que a espera valeu a pena. Cada segundo de incerteza foi apenas o primeiro passo para a paz que sinto agora.
​Você é tudo o que eu quero. Às vezes, quando você está aqui, deitada nos meus braços, preciso de um segundo para processar a sorte que tenho. É difícil acreditar que o "paraíso" não é um lugar distante ou uma promessa futura, mas sim a tradução exata do que vivemos hoje. Encontrei tudo o que eu precisava no seu coração — aquele lugar que me levanta quando o mundo tenta me colocar para baixo.
​Obrigado por ser a pessoa que mudou o meu mundo, por me segurar firme quando as luzes se apagam e por ser a prova viva de que sonhos, por mais demorados que sejam, se tornam realidade. Prometo estar ao seu lado nos dias de sol e nas tempestades, porque o nosso amor é o que ilumina o meu caminho.

Dói perceber que, enquanto eu entrava de cabeça na nossa história, você só estava testando a água. É uma solidão estranha descobrir que os momentos que eu guardo com tanto carinho foram apenas dias comuns e descartáveis para você. Fica um sentimento amargo ao notar que eu me entreguei por inteiro para alguém que escolheu se entregar tão pouco.Mas eu me recuso a ter arrependimento por ter sido intenso. Amar de verdade nunca vai ser um erro. Errado seria fechar o meu coração e fingir que nada aconteceu. O que eu senti foi real, foi forte e foi meu. Se você não conseguiu ou não quis sentir o mesmo, isso mostra os seus limites, e não a falta de valor do meu amor.Hoje a sua falta ainda machuca, mas eu sei que essa dor vai passar. Com o tempo, esse peso vai virar apenas a prova de que eu sou capaz de dar o meu melhor para alguém, sem medo. Eu sigo a minha vida com a consciência limpa de quem soube amar de verdade, mesmo que tenha sido para alguém que preferiu não sentir nada.

Estava aqui pensando em toda a trajetória que percorremos para chegar até este momento. Lembra de quando éramos mais novos e achávamos que sabíamos tudo sobre o futuro? Olhando para trás, percebo que a nossa maior conquista não foi o que buscamos no mundo, mas a relação sólida que construímos entre nós.Nós já enfrentamos muitas fases difíceis — altos e baixos que testaram a nossa paciência e o nosso sentimento. Mas tudo isso ficou no passado. Hoje, quando olho para você, tenho a certeza de que valeu a pena passar por cada momento de incerteza para alcançar a estabilidade e a paz que temos agora.Você é tudo o que eu quero. Às vezes, quando estamos juntos e relaxados, preciso de um instante para perceber a sorte que tenho. Fica claro que a verdadeira felicidade não é um plano distante ou uma promessa para o futuro, mas sim a realidade do que vivemos no presente. Encontrei em você o apoio que preciso nos dias em que o mundo parece difícil demais.Obrigado por transformar a minha vida para melhor, por ser o meu suporte nos momentos de crise e por provar que os nossos planos dão certo com o tempo. Prometo continuar ao seu lado nos dias bons e nos ruins, porque o nosso amor é o que me dá direção.

"Andei pelas ruas tentando não pensar em você
Estava tudo vazio, num domingo, e eu queria tanto te ver
e os minutos nunca passavam das horas.
O tempo parou com sua face soprando na minha alma a sua memória."

"Naquela época das trevas em que estava desolado, tudo que eu não queria, acontecia naturalmente....e tudo que eu desejava, corria de mim..."

O solo ainda estava úmido e macio,
bendita generosidade recente da chuva.
Afundei as mãos
nesse ventre antigo.
Os dedos se lambuzaram
de barro e promessa.


Semeei mamão papaya,
pimentas biquinho, malagueta
e dedo de moça,
(temperos de ardor e sabor),
alfavaca que reza em perfume e flavor,
abóbora moranga, tomates-cereja,
pequenos sóis
gestados pela paciência.


Cada semente
um juramento mudo.
Um verso sem palavras.
Cada sulco
um poema cavado
no útero da terra.


Manejar a terra
é rito,
é oração feita com o corpo,
é o tato conversando
com forças que não precisam de nome.


Entro nesse chão
como quem adentra
num templo ancestral
e saio marcada,
alma leve,
corpo suado,
mãos, pés e rosto ungidos de lama
(sujeira sagrada)
que purifica a alma.


É um prazer profundo,
diria ancestral.
É a memória do começo,
da origem enigmática
e da infância no quintal.


É poesia primitiva
que ainda pulsa
em quem não desaprendeu
a tocar o solo sagrado da vida
com as mãos operosas.
✍©️@MiriamDaCosta

“Como dizer a Deus que Eu estava enganado em fazer o pedido no qual me arrependi”.

R E C O N S T R U I N D O


A cidade estava toda pronta para uma noite de Natal iluminada.
O clima era de festa completa. O comércio cheio, as ruas lotadas, o povo indo e vindo com sacolas nas mãos, com aquela pressa boa de quem quer celebrar. Ninguém sabia o que estava por vir após o anoitecer.
Anoiteceu. Jiquiriçá acendeu suas luzes. Em cada casa, a mesa quase posta, a ceia quase pronta.
Já era quase à meia-noite quando a chuva começou. Ela veio sem pedir licença, sem dar tempo para pensar.
A água rompeu as ruas com fúria, engolindo tudo pela frente. O que até então era chão firme e seguro, de repente virou mar.
A alegria virou pranto num instante. Lares foram largados para trás no escuro e inundados. Gente em disparada, com o que coube nas mãos, buscando um ponto mais alto para se abrigar naquela madrugada.
Do alto, abrigados como deu, vimos nossas casas tombarem. E não era só parede caindo. Era uma vida inteira boiando. O retrato da formatura, a geladeira a prazo, o suor de anos, tudo se perdeu rapidamente.
Naquela virada, o brilho do Natal se apagou no lamaçal.
A perda foi sem medida. Aquilo abalou profundamente nosso povo e fez Jiquiriçá chorar.
Os dias que se sucederam foram duros, de muita luta e labuta, mas nada nos abalou. A vida sempre teima em não parar, e nós estamos firmes nessa luta que é de todos.
E é com fé, suor, garra e com a força de quem vive aqui que estamos reconstruindo, tijolo por tijolo.
Não está longe o dia em que a veremos renascida, mais iluminada, mais bonita do que nunca, a nossa querida Jiquiriçá.


Eraldo Cunha