Estava um Pouquinho Ocupado Desculpe me
Estava olhando para ceus,imaginava lua de Europa seus mares congelado e abaixo as correntes de mares profundo emitindo sons pois cada camada mais profunda emite uma nota que perceptível no telescópio ondas de rádio são emetidas iguais aqui na terra manto de magma emiti sinais de radio.
Minha imaginação vejo criaturas que mudam de forma pois pressão esmagadora é simplicidade um desafio para natures em ponto vulcanização polvos alienígenas comem micros organismos plantons vegetais meio silício meio vegetais dão oxigênio a água de forma gradual se mistura com gases vulcânicos peixes iluminado parecem tubarões com asas para fluituar pelas ondas termais.
Enguias como da terra são vermes gigantes. Os tardigrados do tamanho de golfinhos se alimentam de peixes.
Os animais muito parecido com sereias mais não são desta constelação.
Um acidente em Júpiter pois meteoro igual momoamoa colidiu com a nave de transdimencional alguns foram para terra outros ficaram em Europa outros desceram em marte mais ouve uma guerra com terrenos cinzas.
A razão racional se torno obsuleta e obtusa pois outros idiomas foram criada sua antiga civilização foi esquecida pela evolução.
Epílogo: O Paradoxo do Disco e o Aroma de Vega
O maior segredo da exploração espacial estava guardado na Terra, no laboratório do próprio engenheiro que construiu a Voyager 1. Ao analisar as últimas linhas magnéticas do Disco de Ouro antes do lançamento, ele encontrou uma faixa fantasma, gravada por uma frequência tridimensional vinda do futuro. A mensagem ecoava na cabine com uma estática pesada:
— Resistir é inútil. Vocês serão assimilados. Porque nós somos os humanos.
O paradoxo estava selado. O aviso do nosso retorno já tinha sido enviado antes mesmo de partirmos.
Enquanto isso, nos céus do presente, a frota de seis naves rasga o vácuo rumo à constelação de Vega e Alpha Centauri. Um buraco de minhoca colossal é aberto na marra, distorcendo o espaço-tempo como se fosse papel.
Dentro da cabine principal, o caos deu lugar ao conforto supremo do malandro. A cerveja está trincando de gelada na geladeira do reator; na grelha improvisada, a gordura da carne de dinossauro pinga no carvão quântico, perfumando o subespaço. A água já borbulha no fogareiro para passar aquele café preto forte pegado no caminho, e o aroma do chimarrão fresco corta o cheiro forte da caça pré-histórica. A despensa vai cheia pelos próximos mil anos.
Ao fundo, a música do Disco de Ouro ecoa pelas caixas de som da frota, vazando pelas frequências de rádio de todo o quadrante galáctico. Nos planetas vizinhos, as civilizações do velho povo alienígena sintonizam a estática, escutam a melodia da Terra e começam a chorar de puro desespero.
Eles já sabem. Não há para onde fugir. Os humanos voltaram — e o churrasco está servido. Kkkk.
— Fim da Linha Temporal (Por Celso Roberto Nadilo)
Vã foi a minha inquietação, pois o meu coração estava cego. A Providência Divina, contudo, agiu em silêncio: onde eu temia a ruína, o Criador esculpiu uma obra infinitamente mais bela.
Terra de indiferentes!
Desce!
A situação já estava ruim quando abriram os portões do inferno; e piorou quando fecharam os do céu!
Sonhei que estava dormindo na beira do mar sereno sonhei que estava beijando teus lindos lábios morenos
*O GATO, OS MORTOS E A ÚLTIMA PÁGINA*
A sala estava do jeito que eu havia deixado.
Não era exatamente bagunça. Bagunça pressupõe algum critério. Aquilo era apenas o resultado de anos deixando as coisas para depois.
Havia caixas de livros encostadas na parede desde a última mudança. Algumas ainda fechadas. Outras abertas. Uma delas tinha o canto rasgado e deixava escapar algumas lombadas, como se os livros estivessem tentando fugir.
No canto da sala havia uma vitrola do final dos anos setenta. Pesada, de madeira escura, com a tampa transparente já marcada pelo tempo. Ao lado dela, uma coleção de vinis que eu vinha carregando de uma casa para outra havia mais tempo do que gostaria de admitir.
Um disco girava.
Eu não estava prestando muita atenção à música.
Talvez fosse esse o motivo de ela ainda estar tocando.
A música servia melhor quando não exigia nada da gente.
Na mesa havia uma xícara de café com whisky irlandês.
Não era um hábito.
Era uma negociação.
O café me mantinha acordado.
O whisky fazia parecer menos estúpido o fato de eu estar acordado.
A televisão permanecia ligada.
Passava um filme antigo.
Muito antigo.
Um daqueles filmes em que as pessoas ainda tinham tempo para ficar em silêncio antes de dizer alguma coisa importante.
Eu gostava disso.
Hoje ninguém tem tempo para silêncio.
Há mensagens.
Notificações.
Contas.
Reuniões.
Senhas.
Aplicativos.
Até a tristeza precisa ser rápida.
Talvez por isso eu ainda gostasse dos livros.
Eles não têm pressa.
Podem deixar um homem sofrer por quatrocentas páginas sem pedir que ele melhore no capítulo seguinte.
Fiquei olhando para as caixas.
Uma delas estava aberta.
Eu não lembrava de ter deixado daquele jeito.
Aproximei-me.
Havia um romance.
Um livro de história.
Um drama.
Um livro que eu tinha comprado e não lembrava por quê.
E outro que eu lembrava perfeitamente por que tinha comprado, mas já não sabia por que ainda conservava.
Foi aí que percebi uma coisa desagradável.
Os livros sobrevivem aos motivos pelos quais foram comprados.
Talvez as pessoas também.
Fiquei algum tempo parado diante daquela caixa.
Depois puxei um dos livros.
A poeira subiu.
E minha memória resolveu trabalhar.
O que foi uma péssima ideia.
Frida Kahlo apareceu primeiro.
Não como retrato.
Como ferida.
Frida.
Ferida.
Uma palavra puxando outra.
Sal.
Salitre.
Saudade.
Uma palavra quase igual a outra, mas com uma letra de diferença.
É curioso como uma letra pode mudar uma vida.
Pensei naquilo e comecei a lembrar de outras coisas.
Pimenta do campo.
Sertão.
Terra seca.
Estrada.
Distância.
Não sei por que certas palavras ficam guardadas enquanto outras desaparecem.
Talvez a memória não seja um arquivo.
Talvez seja um bêbado escolhendo o que levar para casa.
Peguei outro livro.
Jonas.
O Leviatã.
Um homem dentro de um peixe.
Fiquei olhando para a página.
Um homem entra dentro de um peixe e sai de lá com uma missão.
Eu entro dentro de mim mesmo e saio com azia.
Fechei o livro.
Depois pensei em Moisés.
A arca.
Os animais.
Dois de cada.
Ou sete.
A memória não sabe mais.
Ela altera as coisas para poder continuar funcionando.
Pandora apareceu depois.
Sempre a caixa.
Os homens gostam de caixas.
Guardam documentos.
Fotografias.
Cartas.
Remédios.
Armas.
Livros.
Coisas que não querem esquecer.
Coisas que não conseguem jogar fora.
Às vezes guardam mortos.
Eu olhei para as caixas espalhadas pela sala.
Foi quando percebi que talvez tivesse feito a mesma coisa.
Passei anos guardando pessoas dentro de objetos.
Uma fotografia.
Um livro.
Uma música.
Uma rua.
Um cheiro.
Um disco.
Meu pai apareceu assim.
Não numa fotografia.
Num pensamento.
Estava entre os mortos da minha memória como se nunca tivesse saído de lá.
Isso me incomodou.
Não porque eu não quisesse lembrar.
Mas porque algumas lembranças não pedem licença.
Elas simplesmente entram.
E sentam.
Peguei outro livro.
Hamlet.
Depois Hamnet.
A palavra ficou na minha cabeça.
Hamnet.
O menino que morreu cedo demais.
Um nome pequeno para uma ausência enorme.
Pensei nele durante algum tempo.
Talvez todos nós sejamos um pouco Hamnet.
Filhos de alguma coisa que não conseguimos terminar.
Pais de alguma coisa que não conseguimos salvar.
Ou apenas homens que chegaram tarde demais para algumas coisas.
A garganta apertou.
Eu bebi o café.
Ainda estava quente.
O whisky já tinha desaparecido.
Foi então que percebi que eu estava cansado.
Não fisicamente.
Era outro tipo de cansaço.
Aquele que aparece quando a pessoa começa a perceber que passou boa parte da vida tentando compreender coisas que não foram feitas para serem compreendidas.
Peguei outro livro.
Odisseu.
Hades.
Agamenon.
Tirésias.
Os mortos conversando com os vivos.
Aquilo me pareceu familiar.
Meu pai continuava ali.
Não dizia nada.
Talvez soubesse que eu já tinha perguntado demais.
Olhei para ele dentro da minha cabeça.
Queria dizer alguma coisa.
Não disse.
Há conversas que só funcionam depois que uma das pessoas morre.
Talvez porque finalmente desapareça a expectativa de resposta.
Sentei novamente.
A música continuava girando na vitrola.
A agulha fazia aquele ruído pequeno entre uma passagem e outra.
Era um som antigo.
Um som de coisa que ainda precisava de matéria para existir.
Hoje apertamos um botão e a música aparece.
Naquela vitrola, era preciso colocar o disco.
Levantar a tampa.
Baixar a agulha.
Esperar.
Talvez a espera também tenha sido uma tecnologia que perdemos.
A televisão mostrava o filme.
Um homem falava.
Uma mulher chorava.
O homem parecia culpado.
As pessoas daqueles filmes tinham uma quantidade impressionante de tempo para sofrer.
Nós não.
Hoje precisamos sofrer entre uma reunião e outra.
A vida moderna não eliminou a dor.
Apenas organizou a agenda dela.
Ri sozinho.
Foi então que pensei na Casa Verde.
Machado de Assis.
Bacamarte.
A razão tentando medir a loucura.
O homem que decidiu descobrir quem era louco e acabou colocando quase todo mundo dentro da instituição.
Talvez a diferença entre loucura e normalidade seja apenas uma questão de votação.
Alguns recebem diagnóstico.
Outros recebem cargo.
Alguns falam sozinhos.
Outros têm microfone.
A loucura não desapareceu.
Aprendeu a usar gravata.
Olhei para os livros.
Eu já não sabia se estava lendo ou apenas lembrando.
Napoleão apareceu.
Depois Alexandre.
Depois César.
Depois Jesus.
Depois Moisés.
Depois Pandora.
Depois meu pai.
Tudo misturado.
A história inteira parecia ter entrado naquela sala sem pedir autorização.
O problema dos mortos é esse.
Eles não precisam de espaço físico.
Cabem todos dentro de uma cabeça.
Fui até a janela.
Lá fora havia uma noite tranquila.
A casa estava cercada por aquele silêncio de bairro que aparece quando as pessoas finalmente fecham as portas e param de fingir que têm algum controle sobre a própria vida.
Olhei para o céu.
Pensei em Deus.
Nunca tive muita sorte com essa questão.
Há homens que encontram Deus numa igreja.
Outros encontram numa doença.
Alguns encontram no fundo de uma garrafa.
Eu sempre encontrei perguntas.
Talvez Deus seja apenas o nome que damos ao que não conseguimos suportar não compreender.
Voltei para a sala.
O gato entrou pela porta.
Sem cerimônia.
Não perguntou o que eu estava fazendo.
Não perguntou por que havia livros espalhados.
Não quis saber quem era Hamlet.
Passou pela vitrola.
Cheirou uma caixa.
Ignorou um livro.
Parou diante de mim.
Olhou.
Depois continuou andando.
Aquilo me pareceu uma atitude muito inteligente.
Um gato não precisa saber quem foi Napoleão.
Não precisa saber quantos animais entraram na arca.
Não precisa resolver o problema de Deus.
Não precisa compreender a morte.
Precisa de comida.
Água.
Um lugar razoavelmente quente.
E talvez alguma paz.
Nós complicamos tudo.
Inventamos religiões.
Filosofias.
Sistemas.
Teorias.
Construímos universidades para tentar explicar aquilo que um gato resolve dormindo.
Fui até a cozinha.
Coloquei comida no prato.
Chamei.
Ele apareceu.
Comeu.
Sem agradecer.
Como deve ser.
Depois desapareceu.
Procurei pela casa.
Encontrei-o na minha cama.
Já havia tomado posse.
Não discuti.
Naquela altura da vida, eu já tinha perdido discussões mais importantes.
Apaguei a luz.
A sala ficou escura.
A vitrola continuava girando.
A música havia terminado.
O disco permanecia dando voltas.
Fui até ela e desliguei.
O silêncio entrou no lugar da música.
Foi então que tudo pareceu voltar para o lugar.
Os livros voltaram a ser livros.
As caixas voltaram a ser caixas.
Os mortos voltaram para dentro das páginas.
Frida voltou para sua ferida.
Jonas para o Leviatã.
Odisseu para o Hades.
Hamlet para sua dúvida.
Hamnet para sua morte.
Fabiano para a seca.
Severino para sua cova.
Bacamarte para a Casa Verde.
Meu pai voltou para onde quer que os mortos permaneçam quando ninguém está pensando neles.
E eu fiquei ali.
Sentado.
Um homem numa sala.
Nada mais.
Pensei que talvez essa fosse a parte que mais incomodava.
Passamos a vida tentando ser alguma coisa.
Inteligente.
Forte.
Bom.
Importante.
Amado.
Lembrado.
No fim, continuamos sendo apenas um corpo sentado numa sala escura, esperando a próxima coisa acontecer.
O gato se aproximou.
Deitou-se ao meu lado.
Senti a respiração dele.
Regular.
Pequena.
Sem preocupação alguma com o destino da humanidade.
Não perguntou quantos anos eu tinha.
Não quis saber o que eu havia feito da minha vida.
Não perguntou se eu acreditava em Deus.
Não quis saber se eu estava louco.
Não perguntou se eu tinha amado o suficiente.
Apenas ficou.
Foi aí que percebi uma coisa.
Talvez eu tivesse passado tempo demais procurando respostas em homens mortos.
Nos livros.
Nas religiões.
Na filosofia.
Na memória.
E talvez a resposta estivesse naquela coisa simples que eu sempre considerei pequena demais para ser levada a sério.
Uma presença.
Alguém ficando.
Não para resolver.
Não para explicar.
Apenas para não ir embora naquele instante.
Fiquei olhando para o teto.
Pensei que talvez esse fosse o nosso maior erro.
Queremos a resposta inteira.
O livro inteiro.
A história inteira.
Queremos saber o começo antes de começar e o fim antes de continuar.
Queremos compreender o amor antes de amar.
Queremos compreender a morte antes de morrer.
Queremos saber para onde estamos indo antes de dar o próximo passo.
Talvez não exista essa informação.
Talvez exista apenas a próxima página.
O próximo gole.
A próxima noite.
O próximo corpo ao nosso lado.
Senti o gato se aproximar mais.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, não havia Napoleão.
Não havia Moisés.
Não havia Pandora.
Não havia César.
Não havia Jesus.
Não havia Hamlet.
Não havia meu pai.
Não havia Casa Verde.
Não havia Sertão.
Não havia Hades.
Não havia Deus.
Havia apenas o quarto.
O gato.
Meu corpo.
E o silêncio.
Dessa vez, o silêncio não pareceu vazio.
Pareceu suficiente.
Talvez seja isso que a velhice ensina quando finalmente perde a paciência com as próprias perguntas.
Nem tudo precisa de resposta.
Algumas coisas precisam apenas de companhia.
O gato respirava ao meu lado.
A casa permanecia quieta.
As caixas continuavam esperando.
Os livros continuavam fechados.
A vitrola estava parada.
E eu pensei que talvez a última página não fosse o fim.
Talvez fosse apenas o lugar onde finalmente paramos de escrever perguntas.
Então dormi.
Sem descobrir o nome da tristeza.
Sem descobrir o nome de Deus.
Sem descobrir o que seria de mim.
Mas com um gato ao lado.
Para uma vida inteira, talvez isso seja pouco.
Ou talvez seja exatamente o bastante.
Naquela mesa você não estava,
Naquele restaurante seu cheiro eu não sentia,
Mas meu peito, mesmo assim, palpitava,
Por alguém que eu ainda nem via.
Na minha mente você não sai,
Ocupou cada canto, cada lugar,
No coração nem preciso dizer mais,
Só cabe você, e é só você que cabe amar.
Fico a pensar no tempo perdido,
Nos dias que vivi sem te conhecer,
E no tanto que ainda terei de sentido,
Pra aprender o que faz seu sangue ferver.
Já sonhei com amores de cinema,
Roteiro perfeito, cena decorada a rir,
Mas a nossa história foge do esquema,
Porque com você é melhor que nos filmes, é melhor que existir.
A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO
O bar estava quase vazio naquela quarta-feira.
Aquele tipo de noite em que até os bêbados pareciam cansados de suas próprias histórias.
Havia duas mesas ocupadas. Um homem sozinho perto da janela, mexendo no celular como se esperasse uma mensagem que nunca chegaria. No balcão, três sujeitos discutiam futebol, política e o mundo inteiro com a mesma certeza de quem nunca precisou consertar nada do que destruiu.
A televisão estava ligada sem som alto.
Era mais um noticiário.
Mais uma guerra.
Mais uma cidade destruída.
Mais uma fotografia de pessoas correndo com aquilo que conseguiram salvar da própria vida.
Ninguém levantou a cabeça.
Até que alguém comentou:
— O problema é que esse povo também procura confusão.
Foi dito com a tranquilidade de quem pede outra cerveja.
Outro respondeu:
— Cada um tem o governo que merece.
E todos continuaram bebendo.
Essa é uma das coisas mais estranhas que aprendi depois de certa idade.
O ser humano consegue assistir ao sofrimento de alguém enquanto termina o jantar.
Consegue condenar uma vítima que nunca conheceu.
Consegue transformar uma tragédia em opinião antes mesmo de tentar entender o que aconteceu.
A cidade não fede por causa do esgoto.
Isso seria simples demais.
A cidade fede quando a consciência começa a apodrecer sem fazer barulho.
Depois dos sessenta, você percebe algumas coisas.
Não porque ficou mais sábio.
Mas porque perdeu algumas ilusões.
O espelho começa a cobrar dívidas antigas.
Amigos viram fotografias.
Conversas que pareciam eternas acabam guardadas em algum lugar da memória.
Os cães que acompanhavam seus dias ficam apenas em lembranças.
Os lugares onde você gastou noites inteiras desaparecem, substituídos por farmácias, bancos e lojas iguais a todas as outras.
A vida continua.
Essa talvez seja a maior crueldade dela.
Ela não diminui o passo porque alguém foi embora.
O mundo amanhece no horário marcado.
O café continua quente.
Os boletos continuam chegando.
E nenhuma ausência parece grande o suficiente para interromper a rotina.
Mas naquela noite, olhando aquelas pessoas no bar, pensei que o problema nunca foram apenas os monstros.
Eles são poucos.
O problema sempre foi a multidão de pessoas comuns que olha para tudo e diz:
“Não é comigo.”
Essa frase já construiu mais tragédias do que muitos exércitos.
Porque a violência raramente começa com alguém puxando um gatilho.
Às vezes começa com alguém escolhendo não olhar.
A indiferença é confortável.
Ela senta na poltrona.
Liga a televisão.
Passa o dedo pela tela.
Olha uma criança ferida durante três segundos e depois procura um vídeo engraçado para esquecer.
Não porque seja cruel.
Pior.
Porque aprendeu a não sentir.
A alma não desaparece de uma vez.
Ela vai enferrujando.
Primeiro você deixa de sentir a dor do desconhecido.
Depois do velho abandonado.
Depois da mulher agredida.
Depois da criança que nasceu no lugar errado do mundo.
Até que um dia você percebe que também não sente mais a própria dor.
E chama isso de maturidade.
Como se ficar vazio fosse uma forma de crescer.
Passei muitos anos em bares.
Vi muita gente quebrada.
E aprendi uma coisa estranha.
Alguns bêbados eram mais honestos do que muitos homens respeitáveis.
Pelo menos eles sabiam que estavam perdidos.
Os outros escondiam a própria podridão atrás de roupas caras, frases bonitas e discursos sobre valores.
A verdadeira humanidade nunca apareceu quando alguém falou sobre bondade.
Apareceu quando a dor de um desconhecido tirou seu sono.
Quando uma notícia estragou seu café.
Quando você percebeu que aquela fotografia distante não era sobre “eles”.
Era sobre nós.
Porque essa é a parte que ninguém gosta de aceitar.
Nunca existiram eles.
Sempre fomos nós.
E quando essa verdade aparece, as desculpas acabam.
Não é mais a culpa do governo.
Não é mais a culpa de uma ideologia.
Não é mais a culpa do destino.
Sobra você.
Apenas você.
E uma escolha simples que quase todo mundo tenta evitar:
importar-se.
Não para parecer uma pessoa melhor.
Não para ganhar recompensa.
Não para contar aos outros que possui um coração.
Importar-se porque, no dia em que a dor do outro deixar de atravessar você, talvez continue andando pelas ruas, pagando contas e conversando normalmente...
Mas alguma coisa essencial já terá morrido.
E ninguém perceberá.
Porque a humanidade, diferente do corpo, não morre de uma vez.
Ela morre em silêncio.
*O Uniforme da Virtude*
O jornal apareceu no meu jardim numa manhã em que eu não estava esperando por notícias.
Não era assinante. Nunca fui muito chegado a jornais, principalmente depois que descobri que as tragédias do mundo chegavam mais rápido pela internet e as mentiras continuavam chegando no mesmo ritmo.
Peguei o jornal pela ponta, como quem recolhe alguma coisa suspeita.
Levei para a varanda.
Sentei na cadeira velha e coloquei os pés sobre o parapeito. O gato estava deitado no degrau. Olhou para mim. Miou.
Parecia perguntar:
— Você vai realmente ler isso?
Não respondi.
Ele se espreguiçou, virou de costas e foi cuidar de assuntos mais importantes. Provavelmente dormir.
Abri o jornal.
Na primeira página havia um cidadão sorrindo.
Era um dos homens que ocupavam um dos cargos eletivos daquela nova cidade. O sorriso tinha aquela medida exata que os fotógrafos gostam. Nem alegria demais, nem preocupação demais. Apenas o suficiente para parecer humano.
Ao lado da fotografia, um título falava sobre dignidade humana.
Li.
O homem defendia respeito, inclusão, empatia, tolerância e todas aquelas palavras que hoje aparecem juntas com a mesma facilidade com que antigamente se escrevia “atenciosamente” no fim de uma carta.
Continuei lendo.
Não havia nada errado com o que ele dizia.
Esse era justamente o problema.
O sujeito tinha aprendido a dizer tudo certo.
Fiquei alguns minutos olhando para o papel.
Pensei que talvez eu estivesse ficando velho demais para certas coisas. Talvez o problema fosse comigo. Talvez fosse apenas implicância de um homem que já viu muita gente falar bonito antes de fazer alguma coisa feia.
Mas então lembrei que tratar alguém com respeito nunca foi o problema.
O problema começa quando a virtude vira uniforme e a consciência passa a usar crachá.
Parei de ler.
O gato voltou.
Sentou ao meu lado.
Olhou para o jornal.
Depois olhou para mim.
— É — eu disse. — Também achei estranho.
Voltei ao texto.
O homem falava sobre uma sociedade mais humana. Era uma boa ideia. Quase bonita.
Só que eu conhecia aquele tipo de discurso.
A cidade continuava cheia de gente que passava por moradores de rua sem enxergá-los. Velhos continuavam conversando sozinhos dentro de apartamentos silenciosos. Crianças aprendiam cedo que certas coisas eram vendidas antes mesmo de serem compreendidas.
E nós continuávamos medindo pessoas.
Pelo salário.
Pela aparência.
Pelos seguidores.
Pela utilidade.
Pela capacidade de nos servir.
Depois chamávamos aquilo de sociedade civilizada.
Talvez fosse por isso que a expressão “politicamente correto” tivesse adquirido tanta importância.
Não porque respeito fosse ruim.
Respeito é necessário.
O problema é quando a palavra passa a substituir o comportamento.
Trocaram a ética pela etiqueta.
É mais fácil.
Etiqueta exige apenas que você saiba onde colocar o garfo.
Ética exige que você saiba onde colocar a própria crueldade.
E isso dá trabalho.
Continuei lendo.
O político falava sobre empatia.
Eu pensei em quantas pessoas conhecia que publicavam frases sobre empatia e não conseguiam ouvir cinco minutos de alguém que discordasse delas.
Era uma coisa curiosa.
A crueldade havia aprendido gramática.
A hipocrisia descobrira o vocabulário da inclusão.
A mentira tinha feito faculdade.
E eu não estava completamente fora disso.
Foi aí que a leitura começou a ficar desagradável.
Porque é fácil apontar o dedo para o sujeito da fotografia.
Mais difícil é olhar para a própria mão.
Eu também já fui injusto.
Já tratei pessoas como inconvenientes porque estavam atrapalhando meu dia.
Já concordei com alguém em público e pensei o contrário em silêncio.
Já me calei diante de uma covardia porque falar custaria alguma coisa.
Já fui educado quando deveria ter sido honesto.
E talvez essa seja uma das formas mais discretas da hipocrisia.
Não mentir para os outros.
Mentir para si mesmo com boas maneiras.
Fechei o jornal.
Fiquei olhando para o jardim.
O gato tinha encontrado uma sombra e dormia dentro dela.
Ele não precisava escrever sobre dignidade.
Não precisava defender ninguém.
Não precisava publicar uma frase bonita.
Se alguém o incomodasse, ele simplesmente iria embora.
Talvez houvesse alguma sabedoria nisso.
A verdadeira decência nunca precisou de cartilha.
Ela aparece quando ninguém está olhando.
Quando você poderia humilhar alguém e decide não fazê-lo.
Quando poderia esmagar e prefere não usar a força.
Quando discorda sem precisar transformar o outro em inimigo.
Quando ninguém está fotografando.
Quando não existe plateia.
Quando não existe recompensa.
Talvez seja aí que começa o caráter.
Todo o resto pode ser teatro.
E o teatro sempre foi um esconderijo confortável para quem tem medo de ser visto sem maquiagem.
Voltei a abrir o jornal.
A fotografia continuava ali.
O sorriso também.
Pensei que talvez o homem da fotografia acreditasse sinceramente no que havia escrito.
Isso também me incomodou.
Porque seria mais fácil se ele fosse apenas um canalha.
Mas ninguém é apenas uma coisa.
Nem eu.
Nem ele.
Nem o sujeito que fala sobre moral enquanto pisa no outro.
Talvez o maior escândalo do nosso tempo não seja a existência de pessoas ruins.
Elas sempre existiram.
O problema é outro.
Aprendemos a vestir a roupa da virtude.
Aprendemos quais palavras provocam aplausos.
Aprendemos quais indignações rendem aprovação.
Aprendemos a parecer bons.
E, em algum momento, esquecemos de perguntar se ainda somos.
Olhei novamente para o gato.
Ele abriu um olho.
— Você tem alguma opinião sobre isso?
Ele fechou o olho.
Justo.
Talvez a humanidade pudesse aprender alguma coisa com os animais.
Eles não costumam fingir que são melhores do que são.
Nós fazemos o contrário.
Construímos discursos para esconder nossos dentes.
Chamamos isso de civilização.
Chamamos de progresso.
Chamamos de consciência.
Às vezes, talvez seja apenas medo de admitir que continuamos sendo animais assustados, egoístas e famintos por aprovação.
A diferença é que agora sabemos escrever sobre isso.
E escrever bem sobre humanidade não torna ninguém humano.
Fechei o jornal de vez.
Coloquei-o sobre a mesa.
O gato continuava dormindo.
Fiquei ali, olhando para ele e pensando que talvez eu tivesse passado a manhã inteira procurando hipocrisia nos outros para não precisar encontrá-la em mim.
Essa foi a parte que mais me incomodou.
Porque a consciência também sabe usar uniforme.
E, quando quer, sabe até sorrir para a fotografia.
O topo mais alto do mundo não serve para nada se para chegar lá você precisou esmagar quem estava no caminho.
Enquanto eu fumava na sacada
Observava ela no sofá
Ela estava adormecida
Era tão linda que eu sorri
Então tomei um gole do meu café
Dei um trago no meu cigarro
E ali tive certeza que era o fim..
Aquele momento se tornou eterno
E não nós...
O povo me vê e muda os olhos, decepcionado ao perceber que tudo o que pensavam sobre mim estava errado.
Às vezes a ausência fala mais alto que mil mensagens.
Quem estava, mas não estava de verdade, mostrou seu lugar: O vazio.
Quem troca presença por conveniência, cedo ou tarde, sente o peso do que perdeu.
E eu sigo inteira, quem quiser me encontrar, que venha.
O resto… aprende na falta.
O menino dos limões
Eu estava voltando pra casa de bicicleta
carregando cansaço, dívidas emocionais
e uma vontade silenciosa de desaparecer do mundo por algumas horas.
Então ele me chamou.
“Tia… você tem alguma moeda?
Eu tô com fome.”
Era só um menino.
Magrinho.
Pele morena.
Olhos verdes que ainda não tinham desistido da vida.
Um pitózinho torto no cabelo
e uma dignidade dolorosa na voz.
Dei as moedas e fui embora.
Mas alguma coisa me atravessou no meio do caminho.
Quando voltei
ele estava em cima de um muro
tentando pegar limão pra comer.
E naquele instante
o mundo inteiro ficou pequeno.
Pequeno feito gente egoísta.
Pequeno feito orgulho.
Pequeno feito discussão inútil.
Pequeno feito pessoas que machucam outras por vaidade
enquanto uma criança tenta enganar a fome com fruta azeda.
Levei ele na padaria.
E o que mais me destruiu
não foi a fome dele.
Foi o cuidado.
“Se ficar caro, tia…
pode deixar o refrigerante.”
Criança nenhuma deveria saber o peso de um refrigerante no bolso dos outros.
Mas ele sabia.
E eu ali
sem dinheiro
sem rumo
emocionalmente quebrada
percebendo que talvez eu tenha gastado demais tentando salvar adultos
quando poderia ter alimentado mais crianças.
Ele foi embora sem saber meu nome.
E eu fiquei ali
vendo um pedaço da humanidade indo embora a pé
com pão nas mãos
e fome no mundo.
Ass: Lucci Santz
A CASA DO CAMINHO É A TUA LUZ INTERIOR.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
O gadareno estava cego.
Não a cegueira dos olhos da carne, que já havia deixado para trás com o corpo abandonado na Terra. Era uma cegueira diferente, feita de saudades, de espanto e de esperança. Havia despertado além da morte e caminhava por estradas que não conhecia.
Procurava uma casa.
Uma casa que ouvira mencionar muitas vezes nas regiões espirituais. Diziam que ali habitava a mais sublime de todas as mulheres. Aquela cujo coração fora berço do Cristo. Aquela que os aflitos chamavam simplesmente de Mãe.
Maria.
Por isso caminhava.
Procurava a residência da ternura, o lar da compaixão, a morada da misericórdia.
Mas, quanto mais procurava, mais se perdia.
Foi então que ouviu passos.
Não viu quem se aproximava.
A cegueira ainda o envolvia.
Contudo, quando a voz rompeu o silêncio, algo estremeceu dentro dele.
Ah, aquela voz...
Aquela voz não era apenas um som.
Era um hino.
Era uma lembrança.
Era uma luz.
Era a mesma voz que, séculos antes, atravessara os gritos da loucura e alcançara o homem que vivia entre os sepulcros.
A mesma voz que ordenara às sombras que se retirassem.
A mesma voz que lhe devolvera a dignidade perdida.
O gadareno caiu de joelhos.
Não precisava enxergar.
Reconheceu.
— Senhor...
O Cristo sorriu.
E o velho peregrino, agora Espírito, perguntou:
— Mestre, procuro a Casa do Caminho. Procuro a morada onde se encontra Maria. Procuro essa residência desde que despertei deste lado da vida.
Jesus o contemplou em silêncio.
Depois apontou para o próprio peito do gadareno.
— Ela está aí.
O homem não compreendeu.
Então percebeu.
Havia uma porta.
Sempre existira.
Uma porta luminosa.
Uma porta que se abria para dentro e para fora ao mesmo tempo.
Mas ele jamais entrava.
Jamais saía.
Permanecia diante dela, indeciso, como quem teme descobrir aquilo que procura.
— Senhor, onde está a chave?
O Mestre aproximou-se.
Seus olhos continham a serenidade das manhãs eternas.
Sua voz tinha a suavidade das águas tranquilas.
Então respondeu:
— A chave é a paz.
E acrescentou:
— A paz que nasce da confiança. A paz que floresce do perdão. A paz que aprende a amar sem exigir. A paz que um dia coloquei em teu coração.
Nesse instante, o gadareno compreendeu.
A Casa do Caminho não era um lugar distante.
Não estava escondida em alguma esfera inacessível.
Era um estado da alma.
Era o reino interior que o amor de Deus edificava silenciosamente desde o primeiro encontro com o Cristo.
A porta abriu-se.
A luz inundou tudo.
E lá estava ela.
Maria.
Mas antes que pudesse avançar, percebeu outra presença.
Alguém já o aguardava à entrada.
O mesmo Mestre.
Porque toda estrada da alma, cedo ou tarde, termina onde começou:
Nos braços daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
E o gadareno finalmente entrou em casa.
Querido irmãozinho,
Desde o momento em que soube que você estava a caminho, minha vida mudou de uma maneira que eu nunca poderia ter imaginado. Lembro-me da ansiedade e da expectativa, das conversas sobre como seria ter um irmão mais novo, e de como tudo isso encheu minha vida de uma alegria antecipada. Quando finalmente você chegou, foi como se um raio de sol tivesse iluminado todos os cantos da minha existência.
Embora eu não esteja presente fisicamente para acompanhar seu crescimento de perto, saiba que meu amor por você é incondicional e eterno. Cada riso seu, cada nova descoberta, mesmo à distância, enche meu coração de uma felicidade indescritível. Você é um presente inestimável, um presente que trouxe consigo uma alegria pura e genuína, mesmo quando estou longe.
Tudo o que faço é por você. Cada esforço, cada desafio que enfrento, cada decisão que tomo, tem você em mente. Quero que você tenha a melhor vida possível, que cresça feliz, saudável e cheio de sonhos. Meu maior desejo é que você saiba que, mesmo não estando presente fisicamente, estou sempre ao seu lado em pensamento e coração.
Você é minha inspiração, meu motivo para seguir em frente e lutar por um futuro melhor. Sua presença, mesmo que distante, me dá forças para superar qualquer obstáculo. O amor que sinto por você me faz querer ser a melhor pessoa que posso ser, para que você tenha alguém em quem confiar, alguém para quem olhar com orgulho.
Sinto falta de ver você crescer, de compartilhar momentos simples e especiais, mas saiba que estou torcendo por você a cada passo do caminho. Quero que você explore o mundo com sua curiosidade infinita e seu espírito aventureiro, e que encontre felicidade em cada pequena coisa. Sua alegria é minha alegria, e sua felicidade é meu maior desejo.
Obrigado por ser você, por iluminar minha vida com seu amor e sua alegria, mesmo à distância. Eu te amo mais do que qualquer coisa, e estarei sempre aqui para você, de longe, mas sempre perto em coração e alma.
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