Esqueceu
Somos sobreviventes.
Caminhamos sobre os escombros de um tempo que se esqueceu.
Ao nosso redor, o silêncio do mundo é o eco do que tudo consumiu;
mas aqui, onde nossos passos se encontram,
o frio não nos alcança.
Somos o refúgio um do outro,
a prova viva de que a brutalidade não conseguiu apagar todas as luzes.
Temos autonomia e sabemos,
coisa que a maioria apenas ensaia.
Não conte a ninguém nosso segredo,
nem mesmo a quem parecer poder ajudar;
a inveja tem olhos mordazes,
sempre esperando o pior acontecer.
E nós, nós sabemos ser e tecer
plenamente...
Quimera Cinza
Dizem que o mundo nasceu em sete cores.
O meu esqueceu uma.
Não a mais bonita. Não a mais rara. Apenas aquela que fazia todas as outras parecerem vivas.
Desde então, tudo aqui existe em tons de cinza. O céu não ameaça chuva, ameaça permanência. As árvores não morrem; apenas desaprendem a crescer. As pessoas sorriem como quem assina um recibo.
Passei anos acreditando que algum caminhão estava atrasado.
Um simples lápis de cor.
Deveria chegar em qualquer manhã, descarregado por alguém distraído, e bastaria um risco torto sobre o papel da realidade para que tudo finalmente lembrasse que era primavera em algum lugar.
Mas os dias passavam.
E toda entrega vinha sem o pacote que importava.
Comecei a desconfiar que o atraso não era da estrada.
Era do próprio universo.
Então continuei andando.
Porque também me disseram outra coisa: existia um caracol. Um único. Em algum lugar impossível de encontrar. E quem tocasse sua concha deixaria de carregar o próprio peso. Não morreria do corpo primeiro. Morreria da espera. Como uma vela que finalmente entende que foi feita para apagar.
Passei a procurar o caracol.
Em cidades cheias demais para perceber o silêncio.
Em pessoas que juravam possuir mapas.
Em espelhos.
Principalmente nos espelhos.
Às vezes eu achava que estava perto. Via um brilho úmido no concreto, diminuía o passo, prendia a respiração…
Era apenas chuva.
Outras vezes confundia rastros com destino.
O curioso sobre perseguir uma quimera é que ela nunca precisa correr.
Você faz todo o trabalho por ela.
Enquanto isso, a tinta cinza continuava secando sobre tudo.
Descobri que o cérebro inventa cores quando passa tempo suficiente olhando para a ausência delas. Chama isso de esperança. Um defeito elegante da percepção. A mesma ilusão que faz marinheiros enxergarem terra antes da costa existir.
Talvez seja por isso que eu ainda acordava.
Não porque acreditasse.
Mas porque a imaginação sempre chega alguns segundos antes do desespero.
No fim, encontrei um velho caderno.
Folheei página por página procurando aquele lápis perdido.
Não havia espaço vazio onde ele deveria estar.
Nem marcas de que alguém o tivesse roubado.
Apenas uma observação escrita numa caligrafia que parecia ser minha, embora eu não lembrasse de tê-la feito:
“Você não está esperando uma entrega atrasada.
Está esperando uma lembrança de algo que nunca foi fabricado.”
Foi quando entendi.
O lápis não estava preso em alguma estrada.
Não havia caminhão.
Não havia fábrica.
Não havia catálogo.
Assim como o caracol.
Passei a vida procurando uma saída desenhada por alguém que jamais existiu.
E talvez seja essa a crueldade mais sofisticada do mundo:
não é que algumas pessoas morram sem encontrar o caracol.
É que certas almas sobrevivem para sempre porque perseguem uma criatura que o universo nunca teve a intenção de criar.
A cidade continuou cinza.
Eu também.
Mas agora já não olho para o horizonte esperando uma entrega.
Apenas caminho.
Como quem finalmente percebeu que algumas ausências não são atrasos.
São a arquitetura inteira do lugar.
Enfermagem...
somos o remédio que o sistema esqueceu de valorizar, mas seguimos firmes, de jalecos e almas cansadas...porque aprendemos a curar mesmo sem remédios.
O Natal não é para lembrar de quem se esqueceu o ano inteiro, mas para ensinar que amor não se pratica em datas, se prova na presença diária.
Elegia para Quem Esqueceu o Caminho
Perdeste-te…
Não foi na curva de uma estrada,
nem no desvio de um destino qualquer.
Perdeste-te onde a esperança já não envia socorro,
onde até o silêncio desiste de chamar pelo teu nome.
Habitaste uma mente em guerra,
um céu permanentemente coberto por tempestades,
onde a revolta fez morada,
o orgulho ergueu muralhas,
e a lucidez partiu sem se despedir.
Os teus ouvidos permaneceram atentos,
mas apenas às vozes errantes,
aos ecos daqueles que também caminham às cegas,
como náufragos convencidos
de que o horizonte pertence ao mar
e não à coragem de remar.
Fizeste das pressas uma religião,
das decisões impulsivas um altar,
e sacrificaste a verdade
em nome de promessas que nunca tiveram raiz.
Quiseste resgate,
mas nunca aprendeste a ajoelhar diante da humildade.
Quiseste respeito,
mas esqueceste que o caráter
não se veste como uma roupa de ocasião.
Constrói-se.
Sustenta-se.
Honra-se.
Vi-te entregar as cordas da tua própria vida
às mãos de quem nem sequer sabia
desatar os nós da própria existência.
Marionetas a conduzir marionetas.
Cegos a desenhar mapas.
Almas vazias a ensinar o significado da plenitude.
E assim foste caminhando,
cada passo mais distante de ti,
até deixares de reconhecer
o reflexo que o espelho, por compaixão,
ainda insistia em devolver.
Hoje parto.
Sem ódio.
Porque o ódio aprisiona.
Sem vingança.
Porque ela alimenta apenas quem já morreu por dentro.
Parto com a serenidade
de quem compreendeu que nem todas as batalhas
merecem ser vencidas,
e que algumas despedidas
são a mais pura forma de renascimento.
Não olharei para trás.
As águas passadas não movem moinhos;
apenas alimentam rios
que seguem o seu curso
sem pedir licença à saudade.
Deixo para trás o peso das ilusões,
o cheiro amargo das promessas quebradas,
as noites onde a verdade sufocava
sob o perfume enganador das aparências.
Levo comigo apenas o que o tempo não conseguiu roubar:
a consciência tranquila,
a dignidade intacta,
a paz de quem escolheu caminhar sozinho
em vez de permanecer perdido na multidão.
E se algum dia o destino voltar a cruzar os nossos passos,
que seja apenas para te mostrar
que havia, afinal, um caminho.
Mas esse caminho
nunca começou nos outros.
Sempre começou dentro de ti.
Adeus.
Que a vida te ensine
o que as palavras nunca conseguiram.
Que o tempo te devolva
a bússola que abandonaste.
E que um dia descubras
que a maior perda de um ser humano
não é perder alguém…
É perder-se de si mesmo.
Hassamo Abdurrahimo
A gente reconstrói a vida, sorri com um novo amor e acha que esqueceu o passado.Até que o rádio toca aquela música e o estrago no peito se mostra devastador.
Perfeito amor,
mas com o peito em silêncio,
como um céu bonito que esqueceu de chover, carrego teu nome em cada batida escondida, mesmo quando finjo que já deixei de te querer.
Teu toque ainda vive nos espaços vazios, nos cantos da alma onde ninguém mais entrou,
e esse coração,
que por fora parece inteiro,
por dentro só sabe amar
o que já se foi.
É estranho sentir tanto e ainda faltar tudo, como se o amor fosse chama sem calor, um abraço que existe só na memória, um “pra sempre”
que não sobreviveu à dor.
Mas ainda assim,
se me pedissem de novo,
eu te escolheria sem pensar em fugir, porque até no vazio que você deixou em mim, existe um amor que nunca aprendeu a partir.
"...e a mulher madura esqueceu de avisar à menina da quarta série que ela cresceu!"
Haredita Angel
23.03.26
Você me trocou tão rápido...
Me esqueceu tão rápido...
Eu achei que seríamos pra sempre eu e você...
Mas tô vendo que não, que não faço parte mais dos seus planos, dos seus sonhos, da sua vida.
Enfim, aprender a viver assim, nesse vazio, porque caí e quebrei minhas asas que um dia você me deu pra voar... Aprender a viver sem sorrir, porque você tirou pra sempre o meu sorriso... Aprender a viver sem você.
O peito sangra ao ver a delicadeza ser esmagada pela brutalidade de um mundo que se esqueceu de como amar.
Algumas bênçãos demoram mais a chegar, mas isso não significa que Deus nos esqueceu, pelo contrário: enquanto esperamos, Ele trabalha em silêncio. Confie, porque há coisas lindas sendo preparadas para nós. O tempo de Deus é perfeito.
A melancolia é o eco silencioso das histórias que nossa alma esqueceu de contar — e que insiste em sussurrar nas noites vazias.
EduardoSantiago
“A ferrugem não destrói o ferro — ela consome silenciosamente quem esqueceu de proteger sua própria força. Até o que parecia inquebrável se curva quando o abandono vence.”
Hoje a gente bebe pra ver se o álcool apaga essa mania besta de esperar por quem já esqueceu o meu número.
O Beijo
Ao me beijar
esqueceu uma palavra em minha boca
Devo guardá-la
embaixo da língua?
engoli-la como um comprimido
a seco?
mordê-la até sentir
seu gosto de fruta
estrangeira, especiaria, álcool
duvidoso?
devolvê-la
num beijo
a ele?
a outro?
É pequena e dura
mais salgada que doce
e amarga um pouco
no fim
- Ana Martins Marques
