Esqueceu
Eu rezei pra Deus me proteger,
e Ele me enviou você…
Só esqueceu de avisar
que anjos também podem machucar.
DeBrunoParaCarla
Não sou mais quem eu era;
quem eu gostaria de ser,
Esse, te me , se esqueceu;
quem hoje sou, não o conheço;
Quem eu estou me tornando,
Me dará orgulho a quem eu era?
Pois quem eu era, não tem
Nenhuma semelhança com
O meu eu, que me tornei,
E agora em meus pensamentos
Me pergunto: Quem sou eu?
Cultos sem Altar:
A Noiva que Esqueceu o Noivo
Estamos transformando nossos cultos em simples encontros familiares. Nossa maior expectativa já não é adorar a Deus, mas encontrar alguém para colocar a conversa em dia, tratar de assuntos do nosso departamento e, após o culto, sair com nosso grupo social para confraternizar.
Ao final das reuniões, Cristo, que deveria estar entronizado e sendo adorado, permanece à espera da devoção que Lhe é devida. Enquanto isso, observa, em silêncio, aqueles que se dizem Sua "noiva" relacionando-se e envolvendo-se mais com o mundo do que com Ele.
A carência humana hoje é visivel, evidente e desordenada. O homem esqueceu de buscar o real valor se sua essência.
O Último Lugar ao Seu Lado
Há uma cadeira que o mundo esqueceu de mover,
ainda diante da janela onde o teu silêncio aprendeu o meu nome.
A poeira tornou-se a coisa mais fiel que ficou;
as pessoas, diferente dela, sempre descobrem um jeito de partir.
Carreguei a tua ausência
como antigas estações carregam o eco dos trens que partiram—
sem pedir que voltassem,
apenas lembrando o peso do adeus.
Dizem que o tempo é um cirurgião paciente.
O meu costurou a ferida com fios invisíveis,
para que ninguém pudesse admirar a cicatriz,
e mesmo assim cada batida do coração a rasga outra vez.
A pior solidão não mora num quarto vazio.
Ela sorri entre pessoas,
enquanto os olhos procuram, em rostos desconhecidos,
aquele que nunca mais voltará a ocupar o lugar ao nosso lado.
Há noites em que invejo a chuva.
Ela pode cair sem pedir perdão.
Eu aprendi a ser homem,
e isso tantas vezes significou sangrar sem testemunhas.
Talvez as mulheres conheçam outra dor:
a de deixar pedaços da própria alma
em quem jamais percebeu
que segurava um universo inteiro entre mãos delicadas.
Se o amor sobrevive em algum lugar,
não é nas promessas, nas alianças ou nas fotografias.
Sobrevive no gesto tolo
de virar o rosto para um espaço vazio,
como se alguém ainda pudesse estar ali.
Se um dia lembrares de mim,
não te lembres da minha voz.
Lembra-te do silêncio que ficou depois dela;
foi nele que escondi tudo
o que nunca encontrei coragem para dizer.
Um dia outro desconhecido ocupará aquela janela.
A cadeira não saberá os nossos nomes.
A poeira não contará a nossa história.
Mas, para além do alcance dos relógios,
toda alma que não conseguimos guardar
continua caminhando ao nosso lado—
calada, amorosamente,
como um trem que chega para sempre
a uma estação que existe apenas dentro do coração.
Somos sobreviventes.
Caminhamos sobre os escombros de um tempo que se esqueceu.
Ao nosso redor, o silêncio do mundo é o eco do que tudo consumiu;
mas aqui, onde nossos passos se encontram,
o frio não nos alcança.
Somos o refúgio um do outro,
a prova viva de que a brutalidade não conseguiu apagar todas as luzes.
Temos autonomia e sabemos,
coisa que a maioria apenas ensaia.
Não conte a ninguém nosso segredo,
nem mesmo a quem parecer poder ajudar;
a inveja tem olhos mordazes,
sempre esperando o pior acontecer.
E nós, nós sabemos ser e tecer
plenamente...
Quimera Cinza
Dizem que o mundo nasceu em sete cores.
O meu esqueceu uma.
Não a mais bonita. Não a mais rara. Apenas aquela que fazia todas as outras parecerem vivas.
Desde então, tudo aqui existe em tons de cinza. O céu não ameaça chuva, ameaça permanência. As árvores não morrem; apenas desaprendem a crescer. As pessoas sorriem como quem assina um recibo.
Passei anos acreditando que algum caminhão estava atrasado.
Um simples lápis de cor.
Deveria chegar em qualquer manhã, descarregado por alguém distraído, e bastaria um risco torto sobre o papel da realidade para que tudo finalmente lembrasse que era primavera em algum lugar.
Mas os dias passavam.
E toda entrega vinha sem o pacote que importava.
Comecei a desconfiar que o atraso não era da estrada.
Era do próprio universo.
Então continuei andando.
Porque também me disseram outra coisa: existia um caracol. Um único. Em algum lugar impossível de encontrar. E quem tocasse sua concha deixaria de carregar o próprio peso. Não morreria do corpo primeiro. Morreria da espera. Como uma vela que finalmente entende que foi feita para apagar.
Passei a procurar o caracol.
Em cidades cheias demais para perceber o silêncio.
Em pessoas que juravam possuir mapas.
Em espelhos.
Principalmente nos espelhos.
Às vezes eu achava que estava perto. Via um brilho úmido no concreto, diminuía o passo, prendia a respiração…
Era apenas chuva.
Outras vezes confundia rastros com destino.
O curioso sobre perseguir uma quimera é que ela nunca precisa correr.
Você faz todo o trabalho por ela.
Enquanto isso, a tinta cinza continuava secando sobre tudo.
Descobri que o cérebro inventa cores quando passa tempo suficiente olhando para a ausência delas. Chama isso de esperança. Um defeito elegante da percepção. A mesma ilusão que faz marinheiros enxergarem terra antes da costa existir.
Talvez seja por isso que eu ainda acordava.
Não porque acreditasse.
Mas porque a imaginação sempre chega alguns segundos antes do desespero.
No fim, encontrei um velho caderno.
Folheei página por página procurando aquele lápis perdido.
Não havia espaço vazio onde ele deveria estar.
Nem marcas de que alguém o tivesse roubado.
Apenas uma observação escrita numa caligrafia que parecia ser minha, embora eu não lembrasse de tê-la feito:
“Você não está esperando uma entrega atrasada.
Está esperando uma lembrança de algo que nunca foi fabricado.”
Foi quando entendi.
O lápis não estava preso em alguma estrada.
Não havia caminhão.
Não havia fábrica.
Não havia catálogo.
Assim como o caracol.
Passei a vida procurando uma saída desenhada por alguém que jamais existiu.
E talvez seja essa a crueldade mais sofisticada do mundo:
não é que algumas pessoas morram sem encontrar o caracol.
É que certas almas sobrevivem para sempre porque perseguem uma criatura que o universo nunca teve a intenção de criar.
A cidade continuou cinza.
Eu também.
Mas agora já não olho para o horizonte esperando uma entrega.
Apenas caminho.
Como quem finalmente percebeu que algumas ausências não são atrasos.
São a arquitetura inteira do lugar.
Perfeito amor,
mas com o peito em silêncio,
como um céu bonito que esqueceu de chover, carrego teu nome em cada batida escondida, mesmo quando finjo que já deixei de te querer.
Teu toque ainda vive nos espaços vazios, nos cantos da alma onde ninguém mais entrou,
e esse coração,
que por fora parece inteiro,
por dentro só sabe amar
o que já se foi.
É estranho sentir tanto e ainda faltar tudo, como se o amor fosse chama sem calor, um abraço que existe só na memória, um “pra sempre”
que não sobreviveu à dor.
Mas ainda assim,
se me pedissem de novo,
eu te escolheria sem pensar em fugir, porque até no vazio que você deixou em mim, existe um amor que nunca aprendeu a partir.
Você me trocou tão rápido...
Me esqueceu tão rápido...
Eu achei que seríamos pra sempre eu e você...
Mas tô vendo que não, que não faço parte mais dos seus planos, dos seus sonhos, da sua vida.
Enfim, aprender a viver assim, nesse vazio, porque caí e quebrei minhas asas que um dia você me deu pra voar... Aprender a viver sem sorrir, porque você tirou pra sempre o meu sorriso... Aprender a viver sem você.
O peito sangra ao ver a delicadeza ser esmagada pela brutalidade de um mundo que se esqueceu de como amar.
A melancolia é o eco silencioso das histórias que nossa alma esqueceu de contar — e que insiste em sussurrar nas noites vazias.
EduardoSantiago
“A ferrugem não destrói o ferro — ela consome silenciosamente quem esqueceu de proteger sua própria força. Até o que parecia inquebrável se curva quando o abandono vence.”
O Beijo
Ao me beijar
esqueceu uma palavra em minha boca
Devo guardá-la
embaixo da língua?
engoli-la como um comprimido
a seco?
mordê-la até sentir
seu gosto de fruta
estrangeira, especiaria, álcool
duvidoso?
devolvê-la
num beijo
a ele?
a outro?
É pequena e dura
mais salgada que doce
e amarga um pouco
no fim
- Ana Martins Marques
