Erasmo de Rotterdam Elogio da Loucura
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Há homens para nada, muitos para pouco, alguns para muito, nenhum para tudo.
A ignorância dócil é desculpável, a presumida e refratária é desprezível e intolerável.
A razão, sem a memória, não teria materiais com que exercer a sua atividade.
O amor-próprio do tolo, quando se exalta, é sempre o mais escandaloso.
A glória é o sol dos mortos.
O luxo, como o fogo, devora tudo e perece de faminto.
A imaginação exagera, a razão desconta, o juízo regula.
Quem é capaz de suportar tudo pode atrever-se a tudo.
Das mulheres, como das outras coisas, usa; não te fies, porém, nelas.
Nada, absolutamente nada resiste ao trabalho.
Despendo mais energia numa discussão com a minha mulher, do que em cinco conferências de imprensa.
Poucas vezes quem ganha o que não merece, agradece o que ganha.
Na mocidade buscamos as companhias, na velhice evitamo-las: nesta idade conhecemos melhor os homens e as coisas.
A igualdade repugna de tal modo aos homens que o maior empenho de cada um é distinguir-se ou desigualar-se.
A variação quantitativa de tensão da realidade originária dá origem a todas as coisas.
Quem viu jamais um médico aproveitar a receita do colega sem lhe tirar ou acrescentar alguma coisa?
Fazemos ordinariamente mais festa às pessoas que tememos do que àquelas a quem amamos.
Mors Amor
Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,
Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?
Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"
A razão também tiraniza algumas vezes, como as paixões.
Um homem que acaba de arranjar um emprego já não faz uso do espírito e da razão para regrar a sua conduta e as suas atitudes perante os outros: toma de empréstimo a regra do seu posto e da sua situação; donde o esquecimento, a altivez, a arrogância, a dureza e a ingratidão.
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